O desporto preferido dos claquistas russos não é o basebol, na verdade: é caçar imigrantes do Cáucaso. Dezenas de imigrantes das Repúblicas do Sul (Ossétia, Inguchétia, Chechénia…) foram assassinados nos pogroms dos extremistas ligados ao futebol russo durante a última década, mas quando três deles responderam à letra e mataram um claquista de um clube russo, ao funeral compareceu o próprio Vladimir Putin, para prometer que o Estado reforçaria as leis da imigração e o controlo sobre os imigrantes.
As claques russas, de índole ultra-nacionalista, algumas mesmo neo-nazis, são uma espécie de braço armado popular do regime de Putin, e têm os respectivos privilégios por parte do novo czar democrático.
No Egipto, ao que dizia hoje, na TSF, um professor universitário, é difícil, no interior de um estádio, distinguir entre um claquista e um talhante, tal a quantidade de facas que levam. Entre os principais grupos da revolução egípcia – e repare-se aqui que uma revolução se distingue, entre outros factores, precisamente porque não é um episódio mas um processo, que se prolonga no tempo depois da revolta armada propriamente dita, até haver um novo regime instituído e não apenas proclamado – estão as claques dos dois maiores clube do Cairo, o Zamalek e o Al Ahly. Combateram em conjunto na Praça Tahrir, há um ano, e são, hoje, defensores da revolução. É já consensual que os confrontos de ontem se inserem nesse contexto revolucionário.
A cada episódio como o que ocorreu ontem em Port Said repetem os editores dos nossos jornais, como virgens chocadas e inocentes, a ladainha do costume: «Isto é não é futebol!».
Errado.
Isto é futebol.
Na Bélgica as claques de futebol foram as primeiras, há uns anos, a tornar visíveis as fracturas entre valões e flamencos que está prestes a partir a federação política em duas partes.
Em França, o Marselha e os seus adeptos assumem a despesa do Sul contra o centralismo de Paris, e das etnias muçulmanas, que têm uma comunidade imensa na cidade, contra a política falhada de integração do Estado.
Em Itália, a luta interna entre as duas equipas romanas alimenta-se, tanto quanto da rivalidade desportiva, do extremismo fascista que orienta a Lázio contra os estrangeiros, os negros e os outros italianos, democráticos.
Em Portugal, a bandeira da descentralização contra Lisboa foi empunhada por Pedroto e Pinto da Costa para justificar uma unificação em redor do Futebol Clube do Porto, que, ganhando 20 dos 38 campeonatos disputados depois do 25 de Abril, pode ser considerado, justamente, como o verdadeiro clube do novo regime – aquele que melhor aproveitou as condições políticas (desagregação da autoridade do Estado, do sistema policial e judicial, descentralização económica e política para a autarquias, entre outras) para potenciar o êxito desportivo.
No Estado Novo, o Benfica tinha sido o maior reduto do republicanismo democrático, antes de, como já como vencedor da Taça Latina e campeão europeu, ser absorvido pela propaganda salazarista, que se apoderou do sucesso do Benfica na Europa para proveito da sua política imperialista. Os encarnados – nome permitido pela censura para que não se escrevesse vermelhos (republicanos e comunistas), que era o que, de facto, a maioria dos benfiquistas era – associavam-se em cooperativas para fazer o seu estádio e organizavam eleições democráticas para eleger os seus dirigentes. Era o clube das classes baixas lisboetas, real habitat da esquerda e extrema-esquerda portuguesas, e dentro dele coabitavam tanto socialistas, como sindicalistas, como maçons. Luis Carlos de Faria Leal, por exemplo, oficial do exército e presidente do Sport Benfica, antes da fusão com o Sport Lisboa, mais tarde envolvido num golpe militar contra o Estado Novo, exilado na Bélgica e convidado, em 1954, a regressar pontualmente a Portugal para descerrar a lápide de inauguração do Estádio da Luz. É só um exemplo entre dezenas de encarnados que resistiram, até ao limite do possível, à assimilação da glória benfiquista pelo regime de Oliveira Salazar.
Em Espanha, o Barcelona é o definitivo bastião do nacionalismo catalão, como foi, no tempo de Franco, um bastião do republicanismo revolucionário, pagando caro por isso, inclusivamente com dirigentes assassinados.
Na Escócia a questão vai ainda mais fundo, desce um patamar e entra no campo religioso, com os dois clubes de Glasgow, Celtic e Rangers, a manterem acesa a fogueira das clivagens religiosas que estiveram na origem das grandes revoltas políticas na história das ilhas britânicas.
Isto não é futebol?
É claro que isto é futebol.
Eu estudo política e adoro futebol. Quando olho para o futebol vejo política em tudo, porque o futebol é política. O futebol não é senão política. Acho que é difícil encontrar-se um post, destes quase 150 que já escrevi, em que não haja política, precisamente por causa disso. E não há nada mais fácil de explicar.
Política é tudo o que envolve a constituição, a aquisição e a manutenção do poder. É fácil de identificar o momento em que o futebol se tornou, definitivamente, um factor político: foi em 1934, quando Mussolini, o inventor da política de massas que mudou o mundo no início do século XX, percebeu que as massas gostavam estupidamente de bola, e fez do Campeonato do Mundo um evento propagandístico. Daí para a frente, o futebol, como evento de massas, seria fenómeno de poder. Seria político.
O futebol é menos importante que a política, que é menos importante que a religião, a mais resistente forma de poder. É essa a ordem. E os três estão encadeados.
Quando se fala em «nação benfiquista» e em «nação portista», está-se, sem se saber, a dizer uma verdade mais funda do que se julga. Pensa-se em «nação» como uma unidade cultural, mas, sendo-o, não o é apenas. Ao falar-se em nações está-se, na verdade, a ir ao busílis da questão. Porque «nação», tal como ela tem vindo a ser definida pelos cientistas sociais, é um grupo étnico que se distingue dos outros pelas aspirações políticas à soberania. O que distingue uma etnia (que existe aos milhares) de uma nação (que existe apenas às dezenas) é que, enquanto uma etnia é um grupo de pessoas com características culturais distintivas, uma nação é uma etnia com pretensões políticas, ou seja, um grupo vasto de indivíduos que pretende sustentar na sua individualidade cultural o direito à auto-determinação e que coloca esse direito à soberania ao mesmo nível de qualquer outro direito político de qualquer outro grupo no mundo.
Se alguém pensa que Benfica, Porto ou Sporting não estão muito mais perto de serem considerados uma nação do que uma colectividade desportiva é porque vive no século XIX. E quem fala nestes três fala em qualquer grande clube do mundo.
O que as nossas virgens querem dizer com «isto não é futebol» quando vêem a política «imiscuir-se» no desporto, como eles dizem, não é isso. Porque, no fundo, eles sabem que o futebol é, todo ele, um fenómeno social e, consequentemente, político. O que eles querem dizer, na verdade, é: «Isto não é o football.»
Porque só há um país no mundo em que o futebol não é política. Não porque não tenha, como em todos os outros, política lá dentro, mas porque, nele, o futebol está acima da política, e não abaixo dela.
Esse país é a Inglaterra.
Por razões que se vão tornar perceptíveis nos próximos três dias (complexidade, dimensão, falta de tempo, sobretudo), vou ter de dividir este post em duas, ou três, partes, e acabo a primeira aqui.
É possível que uma parte de vós não se interesse muito por este tipo de questões, mas a mim apaixonam-me, e quando vejo política e futebol cruzarem-se tão violentamente como cruzaram ontem em Port Said, e as interpretações do que sucedeu ficarem tão pela rama, não consigo ligar patavina ao Yannick, ao Iturbe ou a uma falência técnica que é o segredo de polichinelo mais mal guardado na história do desporto nacional.
Mas também digo o seguinte: no fim deste três posts, começando em Port Said e passando por Cambridge, passando da política para a economia, vamos chegar aqui ao nosso cantinho, e falar da grande revolução futebolística que pode estar (e eu acredito que está) a acontecer debaixo dos nossos narizes sem que nos tenhamos ainda plenamente apercebido disso. E aí sim, julgo eu, poderemos falar de off-shores, de falências e de campeonatos com outro tipo de oportunidade. Porque está mesmo tudo ligado.
Penso que, no fim, não vão dar o tempo por mal empregue.
Os Floribelos podem esperar.