quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Jogar o football (I)

Na Rússia, o desporto mais popular entre os claquistas de futebol é o basebol. Entre eles vendem-se mais tacos de basebol que bolas de futebol. Mas também se vendem mais tacos de basebol que luvas de basebol. Cinco vezes mais, para ser exacto.

O desporto preferido dos claquistas russos não é o basebol, na verdade: é caçar imigrantes do Cáucaso. Dezenas de imigrantes das Repúblicas do Sul (Ossétia, Inguchétia, Chechénia…) foram assassinados nos pogroms dos extremistas ligados ao futebol russo durante a última década, mas quando três deles responderam à letra e mataram um claquista de um clube russo, ao funeral compareceu o próprio Vladimir Putin, para prometer que o Estado reforçaria as leis da imigração e o controlo sobre os imigrantes.

As claques russas, de índole ultra-nacionalista, algumas mesmo neo-nazis, são uma espécie de braço armado popular do regime de Putin, e têm os respectivos privilégios por parte do novo czar democrático.



No Egipto, ao que dizia hoje, na TSF, um professor universitário, é difícil, no interior de um estádio, distinguir entre um claquista e um talhante, tal a quantidade de facas que levam. Entre os principais grupos da revolução egípcia – e repare-se aqui que uma revolução se distingue, entre outros factores, precisamente porque não é um episódio mas um processo, que se prolonga no tempo depois da revolta armada propriamente dita, até haver um novo regime instituído e não apenas proclamado – estão as claques dos dois maiores clube do Cairo, o Zamalek e o Al Ahly. Combateram em conjunto na Praça Tahrir, há um ano, e são, hoje, defensores da revolução. É já consensual que os confrontos de ontem se inserem nesse contexto revolucionário.



A cada episódio como o que ocorreu ontem em Port Said repetem os editores dos nossos jornais, como virgens chocadas e inocentes, a ladainha do costume: «Isto é não é futebol!».



Errado.

Isto é futebol.



Na Bélgica as claques de futebol foram as primeiras, há uns anos, a tornar visíveis as fracturas entre valões e flamencos que está prestes a partir a federação política em duas partes.

Em França, o Marselha e os seus adeptos assumem a despesa do Sul contra o centralismo de Paris, e das etnias muçulmanas, que têm uma comunidade imensa na cidade, contra a política falhada de integração do Estado.

Em Itália, a luta interna entre as duas equipas romanas alimenta-se, tanto quanto da rivalidade desportiva, do extremismo fascista que orienta a Lázio contra os estrangeiros, os negros e os outros italianos, democráticos.

Em Portugal, a bandeira da descentralização contra Lisboa foi empunhada por Pedroto e Pinto da Costa para justificar uma unificação em redor do Futebol Clube do Porto, que, ganhando 20 dos 38 campeonatos disputados depois do 25 de Abril, pode ser considerado, justamente, como o verdadeiro clube do novo regime – aquele que melhor aproveitou as condições políticas (desagregação da autoridade do Estado, do sistema policial e judicial, descentralização económica e política para a autarquias, entre outras) para potenciar o êxito desportivo.

No Estado Novo, o Benfica tinha sido o maior reduto do republicanismo democrático, antes de, como já como vencedor da Taça Latina e campeão europeu, ser absorvido pela propaganda salazarista, que se apoderou do sucesso do Benfica na Europa para proveito da sua política imperialista. Os encarnados – nome permitido pela censura para que não se escrevesse vermelhos (republicanos e comunistas), que era o que, de facto, a maioria dos benfiquistas era – associavam-se em cooperativas para fazer o seu estádio e organizavam eleições democráticas para eleger os seus dirigentes. Era o clube das classes baixas lisboetas, real habitat da esquerda e extrema-esquerda portuguesas, e dentro dele coabitavam tanto socialistas, como sindicalistas, como maçons. Luis Carlos de Faria Leal, por exemplo, oficial do exército e presidente do Sport Benfica, antes da fusão com o Sport Lisboa, mais tarde envolvido num golpe militar contra o Estado Novo, exilado na Bélgica e convidado, em 1954, a regressar pontualmente a Portugal para descerrar a lápide de inauguração do Estádio da Luz. É só um exemplo entre dezenas de encarnados que resistiram, até ao limite do possível, à assimilação da glória benfiquista pelo regime de Oliveira Salazar.

Em Espanha, o Barcelona é o definitivo bastião do nacionalismo catalão, como foi, no tempo de Franco, um bastião do republicanismo revolucionário, pagando caro por isso, inclusivamente com dirigentes assassinados.

Na Escócia a questão vai ainda mais fundo, desce um patamar e entra no campo religioso, com os dois clubes de Glasgow, Celtic e Rangers, a manterem acesa a fogueira das clivagens religiosas que estiveram na origem das grandes revoltas políticas na história das ilhas britânicas.



Isto não é futebol?

É claro que isto é futebol.

Eu estudo política e adoro futebol. Quando olho para o futebol vejo política em tudo, porque o futebol é política. O futebol não é senão política. Acho que é difícil encontrar-se um post, destes quase 150 que já escrevi, em que não haja política, precisamente por causa disso. E não há nada mais fácil de explicar.

Política é tudo o que envolve a constituição, a aquisição e a manutenção do poder. É fácil de identificar o momento em que o futebol se tornou, definitivamente, um factor político: foi em 1934, quando Mussolini, o inventor da política de massas que mudou o mundo no início do século XX, percebeu que as massas gostavam estupidamente de bola, e fez do Campeonato do Mundo um evento propagandístico. Daí para a frente, o futebol, como evento de massas, seria fenómeno de poder. Seria político.



O futebol é menos importante que a política, que é menos importante que a religião, a mais resistente forma de poder. É essa a ordem. E os três estão encadeados.



Quando se fala em «nação benfiquista» e em «nação portista», está-se, sem se saber, a dizer uma verdade mais funda do que se julga. Pensa-se em «nação» como uma unidade cultural, mas, sendo-o, não o é apenas. Ao falar-se em nações está-se, na verdade, a ir ao busílis da questão. Porque «nação», tal como ela tem vindo a ser definida pelos cientistas sociais, é um grupo étnico que se distingue dos outros pelas aspirações políticas à soberania. O que distingue uma etnia (que existe aos milhares) de uma nação (que existe apenas às dezenas) é que, enquanto uma etnia é um grupo de pessoas com características culturais distintivas, uma nação é uma etnia com pretensões políticas, ou seja, um grupo vasto de indivíduos que pretende sustentar na sua individualidade cultural o direito à auto-determinação e que coloca esse direito à soberania ao mesmo nível de qualquer outro direito político de qualquer outro grupo no mundo.

Se alguém pensa que Benfica, Porto ou Sporting não estão muito mais perto de serem considerados uma nação do que uma colectividade desportiva é porque vive no século XIX. E quem fala nestes três fala em qualquer grande clube do mundo.



O que as nossas virgens querem dizer com «isto não é futebol» quando vêem a política «imiscuir-se» no desporto, como eles dizem, não é isso. Porque, no fundo, eles sabem que o futebol é, todo ele, um fenómeno social e, consequentemente, político. O que eles querem dizer, na verdade, é: «Isto não é o football

Porque só há um país no mundo em que o futebol não é política. Não porque não tenha, como em todos os outros, política lá dentro, mas porque, nele, o futebol está acima da política, e não abaixo dela.



Esse país é a Inglaterra.





Por razões que se vão tornar perceptíveis nos próximos três dias (complexidade, dimensão, falta de tempo, sobretudo), vou ter de dividir este post em duas, ou três, partes, e acabo a primeira aqui.

É possível que uma parte de vós não se interesse muito por este tipo de questões, mas a mim apaixonam-me, e quando vejo política e futebol cruzarem-se tão violentamente como cruzaram ontem em Port Said, e as interpretações do que sucedeu ficarem tão pela rama, não consigo ligar patavina ao Yannick, ao Iturbe ou a uma falência técnica que é o segredo de polichinelo mais mal guardado na história do desporto nacional.

Mas também digo o seguinte: no fim deste três posts, começando em Port Said e passando por Cambridge, passando da política para a economia, vamos chegar aqui ao nosso cantinho, e falar da grande revolução futebolística que pode estar (e eu acredito que está) a acontecer debaixo dos nossos narizes sem que nos tenhamos ainda plenamente apercebido disso. E aí sim, julgo eu, poderemos falar de off-shores, de falências e de campeonatos com outro tipo de oportunidade. Porque está mesmo tudo ligado.



Penso que, no fim, não vão dar o tempo por mal empregue.

Os Floribelos podem esperar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Salada búlgara

Acabou o Janeiro louco. Se o Janeiro fosse um livro e tivesse um título seria algo como isto: «Janeiro – O Mês Em Que Tudo Acontece. E Em Que Também Há Um Bocadinho De Futebol». Se repararem bem, se fossemos fazer um resumo das coisas interessantes que aconteceram este mês estávamos aqui todo o dia.

Foi uma barrigada, como é sempre, e hoje, último dia do mês, quando toda a gente se começa a preparar para o início da segunda metade da época (incluindo os suplentes, que neste fim-de-semana vão já entrar em força na Taça da Liga), precisamos de uma coisinha leve. Uma saladinha.

*

Substituídos que estão os erros do Verão pelos futuros erros do Inverno, as centrais de propaganda clubísticas começam a fazer o seu trabalho e a transformar todos os negócios, incluindo os flops, em golpadas geniais.

«Bojinov pode render 2,3 milhões de euros», escrevem uns. Pois pode. Se os italianos o quiserem comprar. Ao contrário do Sporting, que o comprou mesmo, por 2,5 milhões, e não recebeu nada pelo empréstimo. Portanto, o Bojinov pode render 200 mil euros negativos. Por agora está só a render 2,5 milhões negativos.

«Leões poupam 400 mil euros com a saída de Bojinov», dizem outros. São novamente os salários a entrar nas contas quando dá jeito. Parece que o Bojinov ganha 80 mil euros por mês. Coisa pouca. Mas, lá está, se vamos meter os salários ao barulho, temos de considerar que, tendo ainda mais quatro épocas de contrato, para não fazer do Bojinov um buraco búlgaro de aproximadamente 4 milhões de euros o Sporting vai ter de encontrar mais cinco ou seis Lecces até 2016. Mas como o Sporting não tem problemas financeiros essa questão torna-se irrelevante. Se houvesse falcatruas lá dentro, como diz o Baltazar, é que era mau sinal…

Acho mesmo que o caso Bojinov justifica que se comece a usar a expressão «buraco búlgaro» como definição de «negócio de sonho que mete toda a gente a louvar a competência de um dirigente e que seis meses depois se transforma numa sportinguite», sendo que «sportinguite» poderia começar a ser usada como «processo de auto-mortificação em que todas as partes, numa sequência lógica, encadeiam precipitações até criarem um problema administrativamente insolúvel». O sinónimo de sportinguite, em inglês, seria clusterfuck.

É claro que, se juntarmos ao caso os salários do Ribas, que veio precisamente para o lugar do Bojinov, as contas têm de ser diferentes, mas pronto, não vamos já por aí. Vamos esperar primeiro que o Ribas se torne num erro de Inverno antes de o cortarmos para tirar a madeira para fazer a cruz onde possamos crucificar o Duque, o Freitas e o Domingos, lá mais para o Verão.

Em relação a isto, só mais duas coisas.

1 - Vamos partir do princípio que o Ribas é o jogador que treinava amarrado a uma corda, apenas por uma questão de lógica: num campo aberto onde é que se ata uma corda? Obviamente, à volta da árvore.

2 – Bastou o Domingos apanhar-se perto dos ares acolhedores de Leça da Palmeira, na reunião da ANTF, para começar a vazar que nem uma gasosa. De jogadores atados a jogadores a conta-gotas, incluindo a explicação para o fracasso da época do Sporting («não pude trabalhar como queria...chuiff»), aquilo foi uma autêntica sessão psicanalítica. «Afirmações de Domingos agitam Alvalade», titula o Record. A sério? Que estranho. Só porque o treinador sacudiu completamente a água do capote? Haveremos de voltar a este tema daqui a uns dias, de certeza, porque, até pelas palavras de Eduardo Barroso sobre a contratação do Yannick pelo Benfica («não digo mais nada porque não sou carpinteiro nem fadista»), não tenho a mínima dúvida de que estamos perante mais uma típica sportinguite – rever o significado, escrito atrás, por favor.



No Porto, a racional é a mesma: Belluschi foi vendido por 5 milhões no próximo Verão e Guarín foi vendido por 15 milhões na mesma altura. Claro que, quando chegar o Verão, vai-se perceber que o Verão não é em Janeiro (a não ser no hemisfério Sul, e, apesar de irmos bem encaminhados, ainda não chegámos lá) e que FMI não significa Fundo Monetário Italiano.

Uma pergunta: porque é que um clube não compra um jogador em Janeiro e prefere esperar por Junho, mesmo sabendo que o jogador é dinheiro empatado no clube teso em que está?

A resposta: porque quer gastar o mínimo de dinheiro possível, não tem a certeza sobre o jogador e só se a coisa correr muito bem é que o compra, até porque na altura hão-de aparecer outras alternativas e possivelmente mais baratas. Já para não falar na conjuntura económica.

É bom que se entenda uma coisa, seja Benfica, Porto ou Sporting: um jogador emprestado é um jogador desvalorizado, e a tendência em 90 por cento dos casos é que o jogador não se revalorize. Passa pela cabeça de alguém que um Manchester United sugira um negócio nestes moldes, por exemplo, por um Hulk, um Witsel, um Javi Garcia ou um… (ia a dizer o nome de um jogador do Sporting mas não me ocorre nenhum, peço desculpa)? Claro que não. A não ser em circunstâncias absolutamente anormais, de cinco ou seis lesões num sector, e é só para seis meses, não é a contar com compra nenhuma.

O empréstimo de um jogador é sempre a conclusão de um mau negócio, que começa, geralmente, ou na compra do jogador ou quando se deixa passar o momento da venda, como é o caso exemplar de Guarín. Para já, a conjugação de palavras que tem sido, historicamente, o augúrio do desastre: «Lesão mal curada atrasa Guarín». A Gazzetta dello Sport diz que leva um mês a ficar bom. Depois é só começar a treinar, ganhar ritmo de jogo na Serie A (o que não é difícil, porque é uma liga suave, onde se joga devagarinho...), ganhar um lugar no onze do Inter de Milão no momento mais crítico da época depois de passar três meses parado, esperar pelo fim da época e meter o cheque dos 13,5 milhões no correio. A coisa promete...

Para cúmulo, um jornal generalista afirma que «Belluschi e Guarín pagam Janko». Um grande negócio em qualquer parte do mundo: 0 milhões de Beluschi + 1,5 milhões de Guarín = 3 milhões de Manko.

Já em relação a Lucho, só uma ideia, bem proverbial: quando a esmola é muita o pobre desconfia.

Desvalorização de um jogador em 18 milhões de euros no espaço de um ano e meio, passagem de um salário de 380 mil euros por mês para… bom, não sabemos, mas devem ser para aí uns 10 mil, porque é por amor à camisola (agora já são três, contando com o Hulk e o Moutinho, que não ligam ao dinheiro), e um jogador prontinho a jogar?

Se for verdade, é o negócio do ano – mais do que o do Yannick no caso da coisa correr bem. Se o joelho der de si, se o TOC decidir que o Lucho tem de trabalhar muito nos treinos para ganhar o lugar ao Defour (e vá lá que já cá não está o Dois Dedos Micael...), se por acaso o Lucho estiver na curva descendente e for por causa disso que ninguém lhe pegou a pagar os tais 300 mil, se o regresso ao Porto for um sinal de acomodação mais que de paixão, então poderemos estar a assistir a mais uma sportinguite. É esperar para ver.

*

Ao fim de seis meses, o Jesus inscreve o Capdevilla para a Champions. Daqui a seis meses já deve ter emagrecido o suficiente para jogar. Sportinguite, do início ao fim, que vai ser, pelos vistos, lá para o Inverno do hemisfério Sul.

Já o Enzo não foi inscrito. Aqui, gosto de como vai acabar: o Enzo a jogar só para o campeonato, que é o que interessa, se o Benfica passar com o Zenit, e o Gaitán a jogar na Europa, que é o que lhe interessa mais e é onde ele mais rende.

O Benfica, entretanto, contrata um miúdo sueco de 19 anos para emprestar ao Leiria. A sportinguite não é só o Barkroth – a sportinguite vai ser toda a equipa B para o ano que vem. E a ver vamos se não se transforma num buraco búlgaro, quando se tiver de começar a emprestar os jogadores que já não tiverem lugar no plantel da equipa B...

O Nélson Oliveira não foi emprestado a ninguém, para poder continuar a treinar na Luz. Se as pessoas tivessem bem consciência de quantos Nélson Oliveiras – leia-se projectos falhados – é que o Benfica já teve nos últimos 30 anos vendiam-no já. E não culpo absolutamente nada o Jesus por não aproveitar o jogador. É o jogador que tem de demonstrar que é um profissional, e não um cavalinho de cortesia a quem basta apresentar o Cartão de Cidadão e comprovar a nacionalidade portuguesa, a altura e a idade para ter direito seja ao que for. Pelo contrário, o que o Nélson Oliveira mostra, de cada vez que entra em campo, é uma tendência irresistível para cair, em vez de lutar pelo seu lugar. Até os pinheiros morrem de pé, caraças!

Cada vez me convenço que a única forma do Oliveira algum dia vir a ser jogador de futebol é ir jogar dois ou três anos para Inglaterra, onde ouça as pessos a rir-se dele quando se atirar para a piscina e onde se estejam a borrifar para o que ele era enquanto júnior.

Para mim? Para mim era… emprestá-lo a um clube inglês qualquer com uma cláusula de compra de 10 milhões.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pinheirinho, pinheirinho...

Vamos tentar racionalizar o mercado, ainda antes de sabermos se há fisgadas de última hora ou não:


PORTO

Lucho

A mesma água pode voltar a passar por baixo da mesma ponte?

Futebolisticamente, nada nos diz que não.

Em termos desportivos, Lucho faz todo o sentido. Muito mais sentido, aliás, do que Iturbe ou Defour, por exemplo. Lucho tem mais dois ou três anos de bom nível para dar ao Porto, e é um reforço, de facto – vem para entrar directamente no onze e vem para começar a jogar agora mesmo. Apesar de, com o TOC, o que é evidente nunca estar garantido à partida. Nada nos diz que o Lucho não precise de um período de adaptação às «ideias» do novo treinador, como o resto do plantel que já trabalhava com ele hám ano precisou. E ainda agora não conseguem compreender o homem...



Pinheiro Manko

(Gostaram do trocadilho? É só um docinho para a rapaziada)

Porque não? Um internacional austríaco de 28 anos, devidamente documentado e educado nos melhores preceitos do futebol-trabalho, que mete a menina lá dentro se ela lhe aparecer a jeito. Entre uma invenção de projecto de internacional brasileiro a martelo, como o Kléber, e um jogador batido na escola europeia e habituado a mudar de ares, como o Manko, alguém duvida que daqui a duas semanas o titular está encontrado? Manko pode resultar e pode não resultar. Numa equipa com o volume atacante do Porto, vai fazer golos.
Lá está, se o TOC não chegar à conclusão que o Hulk deve continuar a jogar a ponta-de-lança...



Apreciação geral

Em termos de tipologia de jogador a contratar, tudo certo. O único lugar em défice, no Porto, era o de ponta-de-lança, e está colmatado. Quanto a Lucho, vem para liderar a equipa a meio-campo, algo que Moutinho, claramente um operário de luxo mas sem espírito de liderança, não é capaz de fazer. Um jogador como Lucho, em plena idade de maturidade competitiva, é sempre para somar.

Quanto ao planeamento, também não há dúvidas: mesmo sendo dois jogadores contratados para o longo prazo, são contratações feitas a pensar nesta época, na Liga, na Liga Europa e no apuramento para a Champions, e não em receitas futuras. Nestes dois casos, mais do que de investimento, pode-se falar de despesa – o que não tem problema nenhum, pois não é suposto que todo o dinheiro metido numa equipa de futebol seja para multiplicar através da venda de jogadores. Há jogadores que estão numa equipa sobretudo para ajudar nos resultados e para potencializar a venda de outros. Lucho é um exemplo claro, neste ponto da sua carreira.

Mas em relação à filosofia da gestão do Porto há grandes questões que crescem no horizonte.

Pessoalmente, nunca gostei de ver jogadores regressar aos clubes de onde saíram, e não é de agora. Já quando Valdo, Ricardo e Mozer regressaram de França para o Benfica, apesar de serem, inquestionavelmente, melhores do que os que cá estavam, não gostei. Acho que é um mau sinal ver os clubes a olhar para trás à procura de soluções. Mesmo quando se dá o caso de aparecer um negócio de ocasião, como foi, claramente, o do Lucho, com o Marselha a abdicar de um salário inflacionado, que mais ninguém pagaria, e o jogador a aceitar descê-lo apenas no Porto, há qualquer coisa que não bate certo. É como se o mecanismo estivesse a falhar. E, no caso do Porto, estamos a falar de um mecanismo de prospecção e contratação de jogadores que não só está na base quer do sucesso quer da sustentação económica do clube. Lucho faz sentido, mas seria de esperar que fosse outro Lucho a vir. Como Manko faz sentido, mas seria de esperar que viesse um Dzeko de 23/24 anos de que ainda ninguém tivesse ouvido falar, como aconteceu com Hulk, por exemplo.

A contratação de dois jogadores para morrer no Porto (e não estou a falar em rendimento desportivo, repito) pode significar várias coisas.

Pode ser um mero reequilíbrio pontual depois de um Verão em que se gastaram mais de 30 milhões de euros em jogadores «de futuro», sendo que ainda nenhum tem sequer presente; pode querer dizer que o dinheiro, simplesmente, não dá para mais; pode querer dizer que o Porto, na verdade, não sabe bem o que há-de fazer para sair da encruzilhada em que se viu metido, o que se reflecte numa gestão errática.



A encruzilhada é um facto, e há muito de culpa própria, sobretudo pela imprevidência de Pinto da Costa – sacrilégio!...

Como já aqui escrevi, o Porto foi apanhado pela vaga do seu próprio sucesso. Esperava que a vaga tivesse 5 metros e, afinal, tinha 15. Sem a vitória na Liga Europa, por exemplo, teria sido possível ao Porto manter as suas principais estrelas debaixo do radar durante mais um ano. Villas-Boas não teria saído, Falcão não teria saído e uma série de outros jogadores não sentiria que tinha direito a sair. O Porto teria mantido a sua super-equipa, teria ganho novamente o campeonato este ano e iria, com alguma sorte, às meias-finais da Champions. E aí sim, faria os seus milhões e recomeçaria de novo, como já fez n vezes.

Todas as suas contratações, no Verão, foram feitas nesse sentido. A filosofia foi: «Temos uma equipa feita e daqui a um ano temos uma equipa por fazer. Vamos começar a fazê-la já.» Era um excelente plano. Poderia, mesmo fazer o Porto subir um patamar na escada europeia. Mas depois saiu Villas-Boas e, sobretudo, saiu Falcão, a dois dias do fecho do mercado.

A escolha para substituir Villas-Boas e a escolha para substituir Falcão (neste caso a não-escolha) foram ambas más, nitidamente porque o Porto não estava preparado – algo espantoso para alguém tão habituado a lidar com as consequências do sucesso.

Quem o Porto devia ter vendido, não vendeu. Com Fucile, Guarín e Belluschi, todos perfeitamente dispensáveis e em topo de carreira, o Porto poderia ter feito, no Verão, entre 15 e 20 milhões de euros. Quando vemos os mesmos três jogadores a sair por empréstimo, em Janeiro, por cerca de 3 milhões de euros, em conjunto, percebemos que o Porto está, apenas, a tentar manter a cabeça fora de água e a agarrar-se a qualquer coisa que bóie. E aposto já que, em Junho, o Inter não vai pagar sequer perto dos tais 9 ou 10 milhões para ficar com o Guarín. Aliás, muito me surpreenderá se Guarín, um jogador vulnerável a lesões e com dificuldades clara de adaptação a curto prazo, chegar a fazer mais de dois jogos seguidos pelo Inter a titular no campeonato.

Álvaro Pereira e João Moutinho ficaram numa lógica clara de manter uma equipa dominante – uma equipa que já não existia, como não demorou mais de um mês a comprovar.

Entretanto, chega a crise. Quanto valeriam, neste Janeiro que agora acaba, os mais de 30 milhões que o Porto gastou em suplentes, em lesionados e em ausentes? Poderiam valer um campeonato. Em vez disso o Porto vê-se forçado a esperar até ao último dia do mês para contratar um salva-vidas (Lucho) e para tapar um buraco (Manko), à espera de um Verão em que, forçosamente, seja qual for o desfecho da temporada, vai ter de reconstruir a equipa.

Hulk, que não é vendido por 60 milhões na esperança de ainda ir a tempo de ganhar o campeonato e pela simples razão de que vendê-lo seria admitir o fracasso e dar meia época de barato – uma escolha insustentável – terá de sair em Junho. Não há qualquer hipótese de Álvaro Pereira continuar para 2012/13. Sobrará, eventualmente, Moutinho, o mais leal e também o mais acomodado. Com ele, Lucho, James (que também já andará com a cabeça noutro sítio, por essa altura) e pouco mais o Porto vai ter de reconstruir a sua equipa, esperando que Danilo, Sandro, Mangala e Kléber sejam suficientemente precoces, que Benfica e Sporting não mantenham o seu fortalecimento gradual e que o mercado lhes permita comprar os jogadores que vai ter seis meses para procurar.

Como se tudo isto não bastasse, é só a dois dias do fecho do mercado, com uma derrota perfeitamente traumática em Barcelos, que o Porto percebe que, na verdade, as suas hipóteses de ser campeão esta época se reduzem a 10 ou 15 por cento. Se a derrota de Barcelos tivesse acontecido há três semanas não tenho dúvidas de que a abordagem do Porto ao mercado teria sido diferente.

Só faltava mesmo uma coisa: que o Braga (que dificilmente poderá fazer da recepção ao Porto, este ano, um jogo amigável) ganhasse ao Marítimo e se colocasse mais perto do segundo lugar do que o Porto está do primeiro.

Se a tudo isto juntarmos o pormenor do Porto ter perdido o seu primeiro jogo para o campeonato em dois anos no segundo jogo que Hulk perde, em nove anos, por lesão muscular, somos obrigados a interrogar-nos: será karma?



BENFICA


Yannick

Em termos de investimento, excelente negócio. Internacional português, 25 anos, custo zero? É bom para qualquer equipa do mundo, menos para o Sporting.

Em termos desportivos, boa escolha. Um jogador que tanto joga no flanco esquerdo como no direito, que conhece perfeitamente o campeonato e que passa, competitivamente, de burro para cavalo. O Benfica está num patamar competitivo superior ao do Sporting, e isso, para um jogador habituado a jogar sob pressão, é diferente de ir para uma equipa de meio da tabela do campeonato francês. É perfeitamente vermos em Yannick o que vimos com Moutinho: um jogador que atinge a saturação num determinado ambiente evolutivo e que, colocado no patamar imediatamente superior de exigência, responde elevando o seu nível de resposta. Ao passar do Sporting para o Benfica Yannick não só não desceu de escalão como subiu para o nível certo, nem pouco nem muito.

Resta saber se está à altura. Porque não é por mudar de camisola que se vai tornar melhor jogador, ao contrário do que parece pelo que já se vai lendo por essa Internet fora…

Há duas coisas que não me agradam nada neste negócio:

- o empresário do Yannick, o Paulo Barbosa, que é uma víbora. Acaba sempre mal;

- a hostilização do Sporting. Continuo a dizer que uma aliança com o Sporting deveria ser a prioridade institucional do Benfica nestes próximos anos. Pelos vistos, o Sporting ainda tem de limpar muito lixo dentro de casa para eliminar os anti-corpos. Temo que, mais do que uma palmadinha de tau-tau, esta contratação à revelia do Sporting seja aproveitada pela facção anti-Benfica para fazer política. Aqui, novamente, eu preferiria que Vieira se oferecesse para negociar uma espécie de compensação ao Sporting. Mesmo que o Sporting não aceitasse, a disponibilidade do Benfica para qualquer coisa que se parecesse com uma arbitragem paralela aos trâmites legais seria útil para não queimar pontes. Não me parece que haja algum Yannick mais importante que a possibilidade de ter Benfica e Sporting numa frente comum. É claro que, se o Sporting não quer…


André Almeida

Entre tantos, há-de haver algum que pegue. Pode ser que seja este. Mas se o Maxi Pereira se lesionar ainda haveremos de falar muito do Rúben Amorim.



Apreciação geral

Dois reforços. Duas palavras: custo zero.

Tenho a sensação de que o principal reforço do Benfica para a parte final da época vai ser Enzo Pérez.

Honestamente, não sei se não estaremos perante um caso de excesso de confiança. Isto do custo zero é muito bonito, mas há uma razão para o «custo zero», normalmente, redundar em «benefício zero». Querer enganar o mercado é como querer enganar o casino: de vez em quando acontece (como com o Artur, por exemplo), mas na maior parte das vezes a casa ganha.

Encaro o facto de o Benfica não ter gasto um cêntimo no reforço da sua equipa como um sinal de que o estado económico dos clubes é muito pior do que o que se pensa. Com o campeonato à mão de semear e uma eliminatória da Liga dos Campeões que lhe pode pagar a época frente ao Zenit de São Petersburgo, o Benfica, em vez de avançar, encolhe-se.

Há uma descompensação nítida entre o ataque, cheio de soluções, e a defesa, que só tem quatro jogadores. O défice de qualidade nas laterais, ao nível de alternativas, é gritante. Se Maxi se lesiona a equipa do Benfica vacila por inteiro, e chegamos ao ponto de temer um castigo ou uma lesão de um jogador tão sofrível como Emerson.

Mais do que de um Yannick, o Benfica precisava de um Fucile que aprendesse depressa.

Por outro lado, Rúben Amorim é emprestado ao Braga. Tenho dificuldade em engolir, sinceramente. Pode fazer todo o sentido, mas há qualquer coisa de profundamente estúpido neste processo, de alguém que se esqueceu de falar com alguém, de alguém que facilitou. Politicamente, não percebo o que Vieira pretende do Braga. Não sei se há, em tudo isto (em Rúben, nos treinos lá, noutros sinais de proximidade apesar da manifesta hostilidade da Direcção do Braga em relação ao Benfica) um canto de sereia ou, como dizem algumas vozes, apenas interesses pessoais extra-desportivos. Mas não gosto. Desconfio.


SPORTING

Ribas

Parece um anúncio a um tónico capilar: «Um uruguaio de quase dois metros a jogar futebol? Isso não é natural». Tão pouco natural como um paraguaio canhoto de quase dois metros a jogar futebol. Muito menos natural do que um austríaco de quase dois metros a jogar futebol. De repente, veio o Natal e é pinheiros por todo o lado. Toda a gente tem direito ao seu Cardozo. Mas, quer no Sporting quer no Porto, ter um Cardozo vai significar o mesmo problema que ter um Cardozo no Benfica: não é com pinheiros no ataque que se aprende a jogar futebol em Portugal. É uma fase.

Será este que andava a treinar com uma corda atada à cintura?

E se se desse uma corda ao Rubio, depois de meia época com o Domingos, será que ele se enforcava?


Xandão

Sem o ter visto jogar uma única vez, posso fazer um prognóstico? No final da época a dupla titular de centrais do Sporting vai ser Onyewu e Xandão. Vamos passar do Onyolga para o Onyão.


Renato Neto

Rinaudo vai voltar a jogar. Matías está a conseguir fazer mais de três jogos seguidos. Querdizer que o Renato Neto tem seis meses para ganhar músculo antes de ser outra vez emprestado.



Apreciação geral

Ninguém me tira da cabeça que o Sporting só não vendeu João Pereira, Carriço e André Santos porque não apareceu ninguém a dar-lhe mais que um saco de berlindes.

O que fica deste Janeiro sportinguista, além da ideia de que o Domingos já percebeu que provavelmente daqui a um ano já está noutro sítio, é o buraco em que o projecto está metido, consideravelmente aprofundado com a vitória do Braga na Madeira, ontem.

Se o Domingos estivesse em Braga, neste momento, com cinco pontos de vantagem a treze jornadas do fim, estava a pensar: «Já cá mora». Não há nenhuma razão para crer que Leonardo Jardim não tenha razões para pensar o mesmo.

Uma coisa correu bem ao Sporting, pelo menos: o jogo em que percebeu que não tem a mínima hipótese de ficar nos dois primeiros lugares foi logo o primeiro em Janeiro. Se o Sporting tivesse ganho ao Porto teria, provavelmente, gasto mais do que devia, num projecto destinado ao fracasso. O terceiro lugar é o melhor que está ou já esteve ao alcance do Sporting, e neste momento está longe de estar garantido. Ao ponto de se poder dizer que, se não ganhar na Madeira e o Braga ganhar em casa, considerando os quatro decisivos jogos europeus que ainda vai ter até ao princípio de Março, o Sporting passa a ter 80 por cento de probabilidades de ficar em quarto no campeonato, de ficar sem treinador e, possivelmente, sem Luís Duque e Carlos Freitas.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A lei

O Gil Vicente – Porto foi, sem dúvida, um dos jogos mais extraordinários de que há memória nos últimos anos. Pela questão do recorde que o Porto perde quando só faltava envernizar – indo contra a imagem de marca construída ao longo do pontificado de não falhar nos momentos fulcrais, e isto é um sinal muito importante, de que nos recordaremos no futuro –, pela questão pontual num campeonato Benfica-Porto que já não acontecia há décadas, e pela arbitragem, obviamente.

E na questão da arbitragem, de que eu não falo muito, como já devem ter reparado – e não estou a usar de fina ironia, é mesmo verdade que não dou muita importância – o jogo foi especial por duas razões: porque o Porto, de facto, foi desautorizado (e digo isto no bom sentido), e porque o próprio Bruno Ratão caiu dentro do caldeirão.



Custa-me um bocado falar do Paixão, porque sei que é precisamente para se falar dele que ele é como é e faz o que faz, mas bolas, hoje tem de ser.

O Paixão, tecnicamente, e potencialmente, é um excelente árbitro. Vê tudo, e quase sempre vê tudo bem. Há é uma diferença entre ver e marcar, ou entre ver e marcar o que se prefere, que é o que ele faz.

Continuo a apresentar a tese que já aqui deixei há umas semanas, de que o Paixão é incorruptível, não pela sua grande dimensão humana mas por pura vaidade. Não é que não goste de dinheiro, mas para ele é mais importante dar nas vistas. A forma que ele encontrou de conseguir ao mesmo tempo dar nas vistas e continuar a ser árbitro foi tornar-se incorruptível. Só por saberem que ele não pode ser comprado é que os dirigentes continuam a dar-lhe jogos importantes para arbitrar. É claro que depois, nos jogos, o Paixão encontra maneira de ser sempre – sempre... – a figura central, sobretudo nos jogos em que entrem os três grandes. Porque é nesses que se dá mais nas vistas. O preço do paixão é o narcisismo, só isso.

Normalmente, os jogos de Benfica, Porto e Sporting acabam com casos, com erros ou com demonstrações de prepotência, mas sem uma influência real no resultado.

Ora, ontem, o Paixão enredou-se na sua própria teia.



Acho que o Paixão entrou para o jogo de ontem com o mesmo estado de espírito que entrou em todos os outros jogos: decidido a inventar para dar nas vistas e a manobrar a coisa de maneira a que, no fim, as suas parvoíces não lhe pesassem na consciência. Geralmente o plano corre-lhe bem, mas…



O lance do Defour é um daqueles lances demasiado estúpidos para ser penálti, em que a decisão correcta, para ser aceite, tem de ser tomada num contexto de confiança em relação ao árbitro e à arbitragem que manifestamente não existe em Portugal, e dificilmente algum dia existirá.

Eu acho que a decisão de Bruno Paixão neste lance é correcta.

A questão, contudo, é que sustento esta opinião não numa perspectiva técnica mas na apreciação subjectiva da lei.

Na letra da lei, é penálti. Há um contacto físico que impede a progressão do atacante, dentro da área, portanto é penálti. Não me venham com a treta da intenção, que não pega. Não tem de haver intenção para se fazer falta. Aliás, de acordo com o texto das leis do futebol, se houver intenção de fazer falta é anti-jogo, e nem falta deve ser: deve ser expulsão. É claro que pelo menos metade das faltas que se fazem são intencionais e nem amarelo levam, mas isso decorre da evolução natural da agressividade do jogo. Ou seja, a prática sucessiva leva a que o espírito da lei se torne mais importante que a letra da lei, porque a prática revela o que é natural, e adapta-se, enquanto a letra da lei é imutável, o que a torna, geralmente, desajustada.

Eu digo que a decisão está correcta precisamente por causa disto.

Na letra da lei, tem de ser penálti. Da mesma forma que, na letra da lei, não haveria um canto que não desse penálti, e não haveria uma jogada de corpo a corpo em que não houvesse falta.

Nem o contacto nem sequer a intensidade do contacto podem ser o único critério para marcar uma falta, seja dentro ou fora da área. A situação de jogo é tão ou mais importante do que o contacto.

A situação de jogo, neste caso, era a seguinte: a bola passa pela defesa e dirige-se, em velocidade para fora da grande-área, a caminho da linha lateral, afastando-se da zona de golo; o defesa corre para ela e abre os braços para impedir o atacante,que vinha mais depressa, de ganhar vantagem; como é mais alto, o seu braço, em vez de bater no peito do atacante, bate-lhe na cara e provoca a queda (se o Defour não tivesse caído o caso nem sequer teria existido). No momento do contacto, basicamente, a jogada era inofensiva. Daí ser tão estúpida. Mas era inofensiva. O mais provável era a bola sair. O que o dabiel fez não foi diferente do que fazem tantas vezes os defesas junto à linha, abrindo os braços para proteger a saída da bola. Tecnicamente, isso é obstrução, porque o defesa não está a jogar a bola, mas a impedir que o atacante a jogue. Na prática, aceita-se que o defesa está a proteger a bola.

Colocado perante a letra da lei e o seu próprio instinto, Bruno Paixão volta a mostrar a qualidade de julgamento rápido que, na minha opinião, poderia ter feito dele o melhor árbitro português, e manda seguir o jogo. É a decisão certa no espírito da lei. A jogada era irrelevante. Marcar penálti seria ir contra a própria lógica do jogo, e essa é uma decisão que o árbitro tem de tomar «n» vezes no decorrer de uma partida. Pode-se mesmo dizer que fazer daquilo um penálti seria, isso sim, corromper o jogo.



Aqui, Paixão começou a ser apanhado, porque não estava à espera desta armadilha. Geralmente é ele próprio quem inventa o enredo que, depois, há-de desenvolver e desenvencilhar. Desta vez, foi apanhado no enredo. E foi apanhado, sobretudo, porque ele soube que tinha tomado a decisão correcta. Paixão estava a dar nas vistas, como adora, e a ser um bom árbitro. Nessa altura, Paixão deve ter desconfiado que não ia ser uma boa noite para ele. Ficou, pelo menos, de pé atrás.



Na jogada do penálti, é maldoso culpar o fiscal-de-linha por não ver o fora-de-jogo. Não só era um fora-de-jogo muito difícil de marcar porque o jogador em fora-de-jogo estava muito perto dele como o movimento dos defesas, ao contrário do que é costume, não era a subir no terreno, mas a baixar, acompanhando a fluência do ataque. Tal como, muitas vezes, os fiscais-de-linha são enganados pelos movimentos opostos de defesas e atacantes e pela separação que se gera nos centésimos de segundo que leva a fazer o passe, deste vez o movimento contra-natura dos defesas enganou o bandeirinha. Se os defesas estivessem parados, provavelmente ele teria marcado o fora-de-jogo, porque o avançado, ao receber a bola, apareceria três ou quatro metros separado da linha defensiva. Tal como aconteceu este jogada, quando ele a recebeu estava em linha com a defesa.

Depois, no corte com o braço de Otamendi, há um pormenor importante: Paixão não ia marcar penálti, apesar de ter visto perfeitamente que o corte tinha sido feito deliberadamente com o braço. Não havia ninguém entre ele e o Otamendi, e o movimento do braço é nítido, mas ele ia deixar seguir. Só que o fiscal-de-linha diz-lhe que é penálti, pelo comunicador, e Paixão, completamente fora de tempo, percebendo-se claramente que estava a ponderar sobre se devia ou não marcar a falta, acaba por marcar. Ele não queria marcar, provavelmente porque pretendia fazer daquele lance a compensação do anterior, mas percebeu que o lance era demasiado claro e, decerto devido ao facto de saber que, no fundo, não tinha errado no outro, marcou mesmo. Além disso, sempre era mais uma oportunidade de dar nas vistas.



O lance do Kléber é, na minha opinião, o mais controverso de todos. Há um contacto evidente entre o guarda-redes, que sai atrasado, e o avançado. A questão, aqui, e novamente, é a da situação da bola. No momento do contacto, a sensação que me deu, imediatamente, é que a bola estava perdida, de tal maneira que, mais do que ir em sua perseguição, o Kléber já estava a travar, para evitar o choque com o guarda-redes. Foi o que me pareceu logo. Um choque casual numa jogada casual, em que nenhum dos dois jogadores tinha a bola em seu poder. Só ao fim de um segundo é que se me colocou a hipótese de ter sido penálti. E isto não pelo contacto, repito, que não acho ser o critério prioritário nesta decisões, mas pela possibilidade do avançado ainda apanhar a bola antes dela sair e marcar golo.

Não vi a repetição do lance, mas, tal como me lembro da jogada, mantenho a opinião inicial: não há falta, porque a bola está perdida e o que há é um choque entre os dois jogadores, sem culpa explícita de nenhum. Admito que possa estar enganado mas, sinceramente, estou convencido de que se o Paixão não marcou é porque, de facto, não viu maneira de encontrar ali um penálti.



No meio disto tudo, provavelmente assegurado pelos auxiliares, durante o intervalo, que tinha decidido sempre bem, o Paixão, vendo o Gil marcar um inacreditável terceiro golo apenas dois minutos depois, perdeu a oportunidade e a motivação para compensar o Porto. Porque é que digo que caiu na sua própria armadilha? Porque, afinal, Bruno Paixão faz, provavelmente, a melhor arbitragem da sua histriónica carreira e, no fim, sem culpa, apanhado num contexto verdadeiramente histórico, acaba por dar demasiado nas vistas e comprometer as suas possibilidades de voltar a apitar quer Benfica quer Porto nesta temporada, assim como a ficar artificial e involuntariamente ligado à perda do título do Porto, apesar de ser o menos culpado.





Dito tudo isto, há outra coisa que convém dizer aqui, ao cabo deste fim-de-semana que vai ainda fazer correr tanta tinta.

Julgo que quem lê o que aqui escrevo pode apontar-me muitas coisas (algumas, vá lá…), mas a hipocrisia não é uma delas. Digo o que penso, independentemente dos juízos que me possam fazer. Acho que a justiça é a fonte do espírito humano, e que tudo o que é injusto está condenado, cedo ou tarde, ao fracasso, seja dos nossos seja dos deles.

Nunca ninguém me ouviu aqui dizer que o Benfica não corrompe árbitros ou que não participa na corrupção do sistema. Não sou anjinho. Seja para se defender, seja para ganhar vantagem, seja pela pressão, seja pela manipulação, seja pelo tráfico de influências, todos os clubes, sem excepção, participam no sistema. O que eu digo, e reafirmo, não é que o Benfica não corrompe. O que eu digo é que não são todos iguais, e não podem ser todos tomados por igual. Roubar um banco não é o mesmo que roubar um frango. Ou por saberem, ou por poderem, há os que têm muito mais culpa do que outros. Há os que constroem os sistemas, há os que os aceitam e há os que, simplesmente para subsistirem, são forçados a viver dentro deles.

Se o Bruno Paixão e o Rui Costa (bolas, devia ser proibido um árbitro usar este nome…) prejudicaram deliberadamente o Porto e beneficiaram deliberadamente o Porto, se há um processo de corrupção generalizado para «levar ao colo» o Benfica até ao título, a única coisa que eu desejo sinceramente é que seja o Benfica a controlar esse processo, e não, por exemplo, essa Olivedesportos que o São Martinho de Penafiel (ex-treinador e accionista individual maioritário do Porto) diz à boca cheia que é quem decide previamente o campeão. Porque se não for o Benfica a controlar essa suposta rede de manipulação de resultados, se for a Olivedesportos ou alguma outra instituição obscura a manobrar na sombra, isso quer dizer que este campeonato será uma chuvada de Agosto, que não dá em nada, e que daqui para a frente será business as usual.



Escrevi e reafirmo: vivemos num país em que um dirigente evidentemente corrupto de um clube que ganha 15 campeonatos em 20 é apanhado em flagrante PELA POLÍCIA JUDICIÁRIA a comprar resultados, não em uma nem em duas mas em várias ocasiões; esse dirigente vai a tribunal e é absolvido por uma questão burocrática; as autoridades desportivas concluem da culpa desse dirigente, aplicam-lhe um castigo fictício e o clube sofre consequências irrisórias, tão irrisórias que já ninguém sabe, de facto, se as chegou a sofrer ou não; depois de todos este processo escabroso o dirigente continua a ser glorificado por toda a imprensa nacional, como se fosse possível dissociar a ética da prática, levando-nos a concluir que, neste país, de facto, é possível, e até natural, dissociar a ética da prática.

Novamente, do que estamos a falar é da letra da lei e do espírito da lei. Tal como no Gil Vicente-Porto.

Escrevo, agora, e reafirmo: quando algo tão explícito como isto acontece, a minha preocupação não é mudar o mundo nem mudar as pessoas, é ficar a saber as regras do jogo. Porque, sabendo as regras do jogo (e as regras do jogo estão claras à vista de quem as quer ver) sabemos como devemos jogar. A partir disto, é fácil: se nos entram à canela, nós entramos ao joelho. Somos mais fortes, e se não somos passamos a ser. Entre mortos e feridos, haveremos de chegar, um dia, daqui a cem anos, ou quando as pessoas decidirem que já chega desta merda, ao futebol inglês com que, no fundo, todos sonhamos mesmo sem o percebermos.

Até lá, chafurdemos na trampa.

Como dizia a minha avó, «o tempo tudo cura».

domingo, 29 de janeiro de 2012

O bramido do alce

Se eu não besuntar o cágado hoje, um dia depois de apostar (ficticiamente, mas ainda assim apostar) que o Porto perdia – não que empatava, mas que perdia – um jogo em que podia igualar (e bater, basicamente) um recorde de quarenta anos, nunca mais besunto.

Portanto aqui vai:

Eu não disse?



E se acham que disse por acaso, depois de tudo o que já escrevi este ano, esqueçam. É porque só começaram a vir cá há pouco tempo. Não digo mais nada, a não ser uma coisa: vão à procura de um único post em que eu dissesse que o Porto iria perder, como fiz ontem, mesmo nos piores momentos da época.

Agora a sério: só se eu fosse estúpido é que diria que, racionalmente, sabia que o Porto ia perder hoje. Mas as vibrações nunca foram tão fortes este ano como ontem. Sorte? Claro. Mas é só de sorte, com outras palavras (dinâmica, sobretudo) que tenho vindo a falar desde o Verão.

Quero, finalmente, recordar aqui as palavras imortais de Hannibal, dos Soldados da Fortuna: «Adoro quando um plano bate certo».



Quanto ao jogo em si, não vamos minimizar a importância histórica desta derrota do Porto. Nos últimos trinta anos do Porto esta é uma das derrotas mais traumáticas. Suficientemente traumática para, em conjunto com as decisões complicadas dos árbitros neste fim-de-semana, tornar impossível que o TOC tivesse outra reacção que não a proverbial «se os querem levar ao colo, levem».

Para os portistas, neste momento, é um desabafo que atenua uma mágoa profunda (porque esta doeu muito, mas mesmo muito...), mas o que o Vítor Pereira fez, precisamente no mesmo dia em que entra definitivamente para a história negativa do Porto, foi atirar a toalha.

Este choro, que se repete todos os anos em diferentes lados da barricada (nuns mais do que noutros), é tão ritual como o bramido de acasalamento dos alces na Columbia Britânica: quando os alces bramem, é porque estão para acasalar; quando alguém fala em colo, em Janeiro, é porque já se percebeu onde está o campeão.

Para o Porto está encontrada a desculpa: o Porto só não foi campeão porque foi roubado pelo Bruno Paixão em Barcelos. A versão oficial está, a partir da flash-interview do Vítor Pereira, escrita, quer se queira quer não. A realidade? Bom, a realidade está aqui.

Azuis, vermelhos ou verdes, este é o fado dos perdedores, património histórico do futebol português.



Para o Benfica, o cenário é claríssimo: tem quatro jornadas para ganhar o campeonato, com duas deslocações complicadas a Guimarães e a Coimbra.

Da mesma forma que a 12 de Janeiro escrevi que o Porto não ia ganhar os jogos todos até ao encontro da Luz, apesar de, logicamente, isso parecer fácil, também, escrevi isto: «Quanto ao Benfica, não acredito nas possibilidades do Setúbal. Vejo o Gil a apertar um bocado o Benfica na Luz (normalmente quando não se ganha a uma equipa na primeira volta na segunda também não é fácil, é porque há ali qualquer coisa que não encaixa), vejo o Feirense a marcar e a fazer sofrer, mas o Setúbal é bom freguês.»

E escrevi que o Benfica não chegará sem perder pontos até ao jogo da Luz.

Ninguém duvide que estamos perante o momento seminal do campeonato. É a altura de fazer escolhas, de mandar o Zenit bardamerda, de apostar tudo. Com duas vitórias em Guimarães e Coimbra, ou com um empate e uma vitória, o Porto fica praticamente obrigado a ganhar na Luz. E não vai ganhar. Não é com o Porto que o Benfica vai ter a sua derrota deste ano – que vai acontecer, note-se (eu apostaria em Alvalade).

Até uma derrota em Guimarães ou Coimbra, a partir de hoje, passa a estar almofadada. Mas só atrasaria o resultado final. O Porto entregou-se. O ponto final das suas pretensões ao título será colocado com a eliminatória da Liga Europa, frente ao Manchester City, que a partir de agora passa a ser determinante para o Porto. Continuo a achar que o Porto vai passar, e com isso e com a não-vitória na Luz vai, definitivamente, arrumar o campeonato na gaveta.

O Porto tem ou não tem fibra?

Intervalo do jogo de Barcelos.

Aqui está a tempestade perfeita no caminho do Porto.


Hulk e Fernando de fora.

Benfica a dar a volta a um resultado de 0-1, na véspera, contra um Feirense que fez o jogo da época.

Sofrem um golo num charuto do meio-campo em que a bola, no meio de três defesas, cai na cabeça de um central do Gil Vicente com meio metro.

Sofrem um segundo de golo de penálti a acabar a primeira parte, com o Helton ainda a tocar na bola.

Um árbitro sedento de protagonismo, nomeado para um jogo em que o Porto pode igualar ( facilmente vir a bater) um recorde histórico se não perder.

O Gil a jogar em casa e em contra-ataque.

Um dia de franca desinspiração própria.

45 minutos para marcar três golos, sob risco de ficar a quatro ou cinco pontos do Benfica.



Nem o Gil está a merecer estar a ganhar 2-0 nem a estratégia do Porto está errada: está plantado no meio-campo adversário, controlando completamente a bola. Mas falta-lhe velocidade.

As derrotas dos grandes, nestes jogos, raramente têm a ver com mérito ou com demérito, porque a superioridade existe sempre. Do que se trata aqui é de sorte ou falta dela.



O Porto vai ter de lutar contra o Gil, contra o tempo, contra os nervos e contra a sorte. Se este Porto tem fibra de campeão, é agora que vai ter de o demonstrar. Os problemas nunca aparecem quando queremos. Limitam-se a aparecer. E depois, ou estamos preparados ou não.

Santa Azia da Feira

É sempre bom quando o Benfica e o Sporting vão jogar ao Norte, e sobretudo à zona do Porto. Dá-se uma oportunidade aos jornalistas de serem jornalistas como deve de ser, e de fazerem perguntas difíceis, algo a que nunca têm oportunidade nos jogos do outro clube grande que joga no Norte quase todas as semanas e que tem oferecido, ao longo dos últimos trinta anos, muitos e pertinentes temas de investigação jornalística, geralmente sem consequência.



«O que é que teria acontecido se o Feirense não tivesse tido um golo anulado?», perguntou o jornalista. E perguntou bem, apesar de só o ter perguntado por azia, como se percebeu facilmente no diálogo com o Jesus. É uma pergunta que tem de ser feita, porque é muito relevante.



Vamos imaginar um diálogo a começar nessa pergunta, mas com um Jesus demasiado frio e inteligente para ser possível:

Jornalista (1): O que é que teria acontecido se o Feirense não tivesse tido um golo anulado?

Jesus (2): Não houve golo anulado. O fiscal-de-linha marcou o fora-de-jogo antes de saber se a bola ia entrar ou se ia para os prédios atrás da baliza.

1: Nesse caso, o que é que teria acontecido se não tivesse sido marcado aquele fora-de-jogo e a bola tivesse entrado?

2: O Feirense teria ficado a ganhar por 1-0, como ficou três minutos depois. E depois perdeu por 2-1.

1: Nesse caso teria ficado a ganhar por 2-0, o que é diferente…

2: Errado. Eu estou a falar do que teria acontecido de certeza. Você está a falar do que poderia ter acontecido. O que teria acontecido de certeza seria o seguinte: o Feirense ficava a ganhar 1-0 e a bola ia para o centro do campo, em vez de ser marcado um livre perto da grande-área do Benfica. Logo, toda a sucessão de passes, cortes e ressaltos que levaram ao canto do qual resultou o golo do Feirense não teria havido. Não sabemos se o Feirense teria ficado a ganhar 2-0. Até podia ter ficado a ganhar 3-0 ou 4-0. Ou podia ter vindo a perder por 4-3 ou 5-4, como veio a perder por 2-1.

1: Isso é uma teoria muito engraçada, mas na prática o Feirense podia ter ficado a ganhar 2-0.

2: Podia. 2-0, 3-0, 4-0. Mas há uma coisa que é completamente prática: se tivesse ficado 1-0 com aquele lance do fora-de-jogo não teria, de certeza, marcado o golo do canto, porque se o ponto de partida desse canto não tivesse acontecido o ponto de chegada também não teria acontecido. Da mesma maneira, não podíamos dizer que o Benfica teria ganho 3-2 se o penálti da primeira parte tivesse sido marcado. Antes de mais nada, não sabemos se teria sido golo, porque em trinta por cento das vezes os penáltis são falhados (apesar de termos concretizado um penálti na segunda parte). Depois, se tivesse sido golo o jogo teria sido diferente a partir daí, e não saberíamos como cada equipa reagiria. O Feirense poder-se-ia ter agigantado ou resignado. O Benfica poderia ter recuado ou ganho confiança. É impossível saber. O que sabemos é o que aconteceu. E o que aconteceu é que o Benfica esteve a perder por 1-0 e ganhou por 2-1.

1: E na sua opinião a equipa de arbitragem não teve influência nesse resultado, é isso?

2: Teve.  Arbitragem tem sempre influência no resultado. Logo à partida, se tivesse marcado o penálti, a sequência teria sido diferente e o resultado, provavelmente, também. Ma a pergunta que você quer fazer não é essa. O que você quer perguntar é se o Benfica ganhou por causa do árbitro. Acho que para se poder dizer isso é preciso ver, na arbitragem, uma acção clara de benefício em lances-chave. Se é verdade que o fiscal-de-linha tira dois ou três fora-de-jogo mal tirados (o que acontece em todos os jogos de futebol do mundo, contra todas as equipas), também é que o árbitro não marca uma penalidade estando bem posicionado para a marcar, e vendo perfeitamente o braço a tocar na bola num cruzamento dentro da grande-área. Era um penálti num jogo que estava 0-0 e num campo difícil. Tire você as conclusões que quiser.



A desonestidade intelectual que leva a falar em «2-0» quando é evidente, para quem se disponha a pensar durante cinco segundos, que não há «2-0» mas «1-0», é comum a praticamente todos os adeptos do futebol em Portugal, sejam portistas, benfiquistas ou sportinguistas. Não se faz isso por se ter razão – faz-se isso para, jogando com a estupidez natural do futebol, tentar ganhar créditos futuros.

Por exemplo, se o Porto perder este domingo com o Gil Vicente, já sabemos o que vamos ouvir o Santo Pontifício dizer:

«Pelos escândalos a que assistimos neste fim-de-semana, aqui no Norte, já percebemos que temos muito poucas hipóteses, para não dizer nenhumas, de defender o título que brilhantemente ganhámos na última época, sem ajudas de árbitros e sem túneis. Mas vamos continuar a lutar contra tudo e contra todos, como sempre fizemos, e enquanto tivermos forças.»

Um jornalista, perfeitamente industriado em relação à relevância da afirmação, perguntará:

- Está a referir-se ao que aconteceu em Santa Maria da Feira?

Ao que o Santo Pontifício replicará:

- Estou a referir-me ao que toda a gente viu. Só não vê quem não quer. Se o Feirense descer de divisão ninguém vai dizer que foi espoliado em cinco ou seis pontos contra a mesma equipa, mas é o que aconteceu. Que se tire daí as conclusões que se quiser tirar.

E os jornalistas, sem medo do ridículo, e iluminados pela icónica beatitude que daquele ente emana, dirão que sim com a cabeça e escreverão, emocionados, e em silêncio.

PS - Para que conste, sou da opinião que o Feirense tem muito mais razões de queixa do jogo da Luz que deste.