quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O deus das pequenas coisas

Pablo Aimar é apenas humano. É limitado – e começa por ser limitado pelo próprio corpo.



O corpo de Aimar trai-o de duas maneiras.

Antes de mais, a razão para Aimar falhar tanto tecnicamente (aqui, tanto é em relação ao que ele tenta, e não ao que os outros fazem, pois ele consegue fazer mais que os outros) é porque o seu corpo não consegue acompanhar o seu pensamento. Aimar pensa muito bem, vê as jogadas que têm de ser feitas, consegue algumas, e as que falha são ou porque os colegas não atingem (e daí a diferença de ter tido Saviola, com quem se entende perfeitamente, no primeiro ano), ou porque, tecnicamente, o resto do corpo não está à altura do que ele tenta fazer. Acredito que isso é estrutural. A Aimar falta-lhe força, potência, e com isso perde tecnicamente.

Por outro lado, o corpo de Aimar traiu-o porque o impediu de jogar tanto como devia, de forma consecutiva, para atingir o seu melhor. O que Aimar perdeu no Valência, devido às lesões, na fase em que a sua carreira deveria estar a caminho do auge, não pôde voltar a ser recuperado. No seu melhor, em Valência, Aimar foi um dos melhores jogadores na Europa. E depois vieram as lesões. O Aimar de hoje, que é o melhor que o Benfica já teve, é apenas uma parte do Aimar de Valência. E mais do que isto, por razões óbvias, não vai dar.

Para que conste, o próprio Aimar de Valência, no seu melhor, só durou uns meses.

Aimar foi, desde cedo, um projecto traído pelo próprio corpo – um handicap natural que nunca lhe foi possível superar.



Aprendi a aceitar Aimar como um barómetro do Benfica, porque Aimar, como Luisão, é o melhor que o Benfica consegue ter como espinha dorsal de um projecto.

Não é, potencialmente, na minha opinião, o melhor jogador do Benfica. Witsel e Rodrigo, por exemplo, podem atingir níveis que Aimar não conseguiu atingir. Estruturalmente são mais sólidos, têm armas que Aimar nunca pôde ter. Mas Witsel e Rodrigo, sobre os quais se poderia construir uma grande equipa europeia, já cá não estarão quando estiverem na idade de conduzir a equipa em que jogarem aos grandes títulos. Entre os 27 e os 32 anos, Witsel e Rodrigo estarão a ganhar o triplo do que Aimar ganha hoje, numa das melhores equipas inglesas, italiana ou espanhola. Pelo contrário, entre os 28 e os 32 anos Aimar jogou no Benfica.

A espinha dorsal real do Benfica dos últimos 4 anos é composta por Luisão – suplente da selecção brasileira, mais pela rotina e pela presença colectiva que pela qualidade indiscutível, uma vez que é difícil distinguir Luisão de pelo menos 8 ou 9 outros defesas-centrais brasileiros – Javi Garcia – não-convocado na selecção espanhola – Pablo Aimar – contratado ao Saragoça, não-convocado para a selecção argentina e ausente em cerca de metade do tempo de jogo da equipa por questões físicas – e Cardozo – não-convocado para a selecção paraguaia no Campeonato do Mundo de 2010 aos 26 anos.

Se daqui tirarmos Javi Garcia – talvez… – e juntarmos Maxi Pereira, defesa-médio da selecção do Uruguai, temos o núcleo duro do Benfica, um grupo de jogadores cuja permanência de cinco ou mais anos de casa coincidirá com o seu apogeu de carreira, e que é, em última análise, o veículo da cultura da equipa para elementos que por ela transitam – Coentrão, Gaitán, Witsel, etc. – sem ficarem mais de dois ou três anos, saindo antes dos 25 a caminho de equipas maiores.

Se tomarmos a dimensão de uma equipa pelo melhor jogador que uma equipa tem a possibilidade de ter, Aimar está para o Benfica como Messi para o Barcelona, Ronaldo para o Real Madrid ou Rooney para o Manchester United. De alguma forma, as equipas acabam por se identificar com o seu melhor jogador, pois esse é um jogador-tipo. O Barça é Messi (e Xavi, e Iniesta, pois são todos iguais), o Real é Ronaldo, o United é Rooney, o Bayern é Ribéry, o Arsenal era Fabrégas (agora não se percebe bem o que é), o Liverpool era Gerard, o Benfica vai-se tornando Aimar. Não há grandes equipas sem um jogador-tipo materializado em campo.

Pablo Aimar é o 10 a que o Benfica tem direito.

Com Aimar, o Benfica nunca chegará ao patamar que o próprio Aimar não conseguiu atingir. Se conseguir gerir o seu handicap, se tiver sorte com os momentos de forma, com as lesões, com a sorte, se as coisas derem certo em vez de faltar uma passada, se a finta sair bem em vez da bola sair ligeiramente adiantada, como tantas vezes acontece, se a execução conseguir acompanhar minimamente a intenção, se o timing for bom, o Benfica pode ser melhor que o Porto, em Portugal, ocasionalmente, e fazer uma graça na Europa – mas ficando sempre numa segunda linha.



E se Aimar é a estrela a que o Benfica tem direito, o Benfica também é o gigante a que Aimar tem direito. Aimar tem classe para jogar numa equipa do top-8 europeu, por exemplo, mas nunca com o protagonismo que tem no Benfica, e raramente como titular. Podia jogar no campeonato inglês, mas jamais aguentaria a carga física ao ponto de jogar quatro ou cinco jogos seguidos como titular, como no campeonato português. Poderia ser tão ou mais importante do que é no Benfica em muitos outros clubes, mas em nenhum maior que o Benfica.

Para Aimar, o Benfica é o verdadeiro topo da sua carreira, porque aqui tudo se conjuga.

Sobretudo, uma parte que é menosprezada quando se considera a importância real do jogador na equipa.



Aimar é invulgarmente ciente da realidade para um jogador de futebol.

Lembro-me como se fosse hoje de ver o autocarro com os jogadores do Benfica a navegar lentamente sobre o mar de gente no Marquês de Pombal e de reparar em Pablo Aimar, na parte de trás, de braços cruzados no parapeito, a observar, serenamente, aquela alienação colectiva, com um sorriso, sem sentir sequer a necessidade de fazer palhaçadas, de exteriorizar sentimentos ou de corresponder à euforia que se vivia. Naquela situação-limite, Aimar tirava prazer em observar. E quase que se percebia que preferia estar em casa, sossegado, à espera do próximo treino, do que a fazer a festa pelo título.

Nssa altura percebi que Aimar é imune à estupidez natural do futebol. O Aimar que ouço hoje, o Aimar que reage hoje, em campo, é o mesmo Aimar do primeiro ano e do segundo ano.

Para Aimar, o futebol é o futebol, a equipa é a equipa, como ele próprio referiu na entrevista à Champions Magazine, e o folclore que rodeia o jogo é outra coisa.

O próprio visual, a forma de se apresentar, a ausência de preocupações estéticas, são típicos de quem se concentra absolutamente no jogo em si, prescindindo dos fenómenos paralelos, e de quem está na idade do prazer pelo jogo e não da perseguição do dinheiro.

Às vezes tenho a impressão de que Aimar só podia ser argentino. Parece que dentro de cada  argentino há sempre um ícone, um eremita ou um génio.

Numa equipa destinada a ser constituída por jovens jogadores em ascensão, que vêm de clubes menores para a um gigante mediático em que a pressão é constante, como o Benfica, um elemento plenamente consciente do que é importante e do que é secundário no futebol e na carreira de futebolista tem um valor inestimável.



Devo dizer que admiro muito mais Pablo Aimar pela personalidade que pela capacidade futebolística, e estou convencidíssimo de que, se hoje Aimar é o líder do Benfica em campo, é-o mais pelo que é fora dele do que pelo que joga. Nem sequer acho que Aimar seja, tecnicamente, e pelo que já disse, um jogador excepcional. Melhor que muitos, sim, mas não um sobredotado. Um verdadeiro bom jogador, sem artifícios, um jogador que vale pelo que é.

Tal como acontece com Luisão, o valor que Aimar tem para o Benfica, culturalmente, é muito superior ao seu valor de mercado enquanto futebolista fora do Benfica. Só no Benfica Aimar justificaria um salário de 130 mil euros por mês, como parece que recebe. E justifica-o.

Justifica-o a jogar quatro, dois ou um jogo por mês, com 32 ou com 35 anos. Não há dinheiro mais bem gasto. Num clube completamente vulnerável aos excessos, disposto a abdicar de tudo por paixões súbitas, irracional até ao limite, como não conheço outro, alguém que compreenda e ensine o lado real do jogo – como Aimar ensina, não só a colegas como a adeptos – tem sempre lugar. Mesmo depois de deixar de jogar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ser campeão é só isto?

No intervalo do jogo do Benfica aconteceu-me uma coisa muito chata: perdi a paciência.
Receio que vocês também vão perder a paciência comigo nas próximas semanas, porque não vai ser bonito.

Se daqui a dois meses houver, entre as dezenas de benfiquistas que cá vêm, mais de dois ou três a aturar-me, é capaz de ser muito. O eventual portista e sportinguista, por seu lado, vai divertir-se. Porque eu vou tratar mal aquela gente.


Posso começar? A primeira parte do Benfica, como mais de metade do tempo de jogo da equipa do Benfica durante toda esta temporada, não é digna nem do Benfica, nem de uma equipa que pretende ser campeã seja no que for. É só isto a que temos direito?

Não é aceitável aceitar-se tão pouco.

O Benfica será campeão este ano, reafirmo-o, mas não devia ser. Não sei se alguém devia ser, mas não é aceitável que uma equipa que joga tão pouco, que trabalha tão mal, que se exige a si própria tão pouco, seja consagrada campeã. O Benfica não tem estofo de campeão.

Devo dizer que falo da primeira parte porque nem sequer vi a segunda. Estão a ver? Perdi a paciência. Fui ver futebol americano e só soube do resultado no fim do jogo.

Eh pá, sinceramente, eu acho que vocês deviam passar uns dias sem cá vir, porque vai haver sangue.


Hoje o Benfica safou-se por entre os pingos da chuva. O Porto também? Caguei. O Porto não é um clube, é uma organização mafiosa legalizada através do futebol. Quando o capo di tutti capi morrer aquela merda vem por ali abaixo mais depressa que o tempo que leva a dizer cosa nostra. O Porto, daqui a vinte anos, vai andar a fazer piores figuras que o Sporting. Não quero saber do Porto para nada. Este Porto é como qualquer outra infecção – incha, desincha e depois passa, e o que vier a seguir estará muito mais próximo daquilo que o Porto realmente é.

O que eu quero saber é que uma equipa que vale uns 200 milhões de euros, com o mesmo treinador há três anos, numa situação privilegiada para fazer uma das melhores épocas da história do clube, entra para um jogo com o Gil Vicente, em Janeiro, e em vez de fazer desses 90 minutos uma exibição de potência e vontade faz um jogo-treino, e só não entrega o campeonato porque cada vez mais me convenço de que o campeonato está destinado. Esta gritante falta de profissionalismo só é possível porque os jogadores do Benfica sentem que não precisam de fazer mais. Como os que ganharam o campeonato de 2005 sentiram, como os que ganharam o de 2010 sentiram, e foi por isso que depois de ganharem esses campeonatos foi a merda que se viu.

Mas têm de fazer mais, e se mais ninguém diz, se anda tudo a bater punhetas aos meninos, digo eu. Vou fazer de Manuel Alegre e a mim ninguém me cala.


Quero muito acreditar que uma vitória neste campeonato, e noutros, seja uma forma de chegar a ter uma equipa como deve de ser, mas honestamente não tenho assim tanta certeza. Os antecedentes dizem-nos exactamente o contrário. Noutras ocasiões como esta o sucesso serviu, precisamente, para anestesiar o realismo.

Andamos a apanhar com Mestres da Treta a falar em «circulação da bola muita forte» quando não se consegue fazer mais de três passes seguidos da linha do meio-campo para a frente; com jogadores de futebol de salão que se vêm quando conseguem fazer meia-finta e o pagode, habituado a coxos, lhes bate palmas; com vedetas de banco a receber mais de 100 mil euros por mês para treinar; a ganhar jogos com ajudas dos árbitros, pelo peso da camisola, ou em golpes de sorte, como hoje no golo do Rodrigo. «Ah, mas o menino, se não tivesse chutado, a bola não entrava. E chutou com muita força…» Bardamerda. Se a bola não tivesse batido na cabeça do outro gajo agora andava aqui tudo aziado a dizer mal do Jesus, do Rodrigo, do Nolito, do Cardozo, daquela gente toda. «Ah, mas a sorte faz parte do jogo». O caraças. Para esta equipa do Benfica o jogo é que faz parte da sorte.

Isto é que é um «pico de forma»? Que maravilha… Espero nunca vir a ver o fundo de forma.


Não sou muito diferente dos outros benfiquistas: eu também tenho a tendência natural para dourar a pílula, e para querer ver o que não existe, e para, na evidência da pobreza franciscana a que estamos tragicamente limitados, fazer das coisas o que elas não são. E quando as coisas correm tão bem como estão a correr este ano em termos de resultados mais fácil se torna rendermo-nos à ilusão. Como não temos uma grande equipa fingimos que a temos e repetimo-lo até nos convencermos disso. Mas não temos. Temos uma equipa, em termos colectivos, pouco mais que vulgar.

Também não vou dizer que hoje, na estrada para Damasco, vi a luz e fiquei curado da benfiquite. Mas vacinado por uns meses penso que fiquei. E isso não é muito bom quando se está rodeado de doentes.


Por isso, sigam o meu conselho: se não se querem enervar, e se não querem acabar a chamar-me nomes (o que eu desde já agradeço), dêem-me alguma distância. Estou com azia e não vai mesmo ser nada bonito.


Vou falar menos do Benfica e quando falar não vai ser fácil encontrar aqui elogios. E vou falar menos porque não quero falar mal.

Por outro lado, há uma coisa que posso garantir: quando houver elogios, podem levá-los a sério.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Futebol Total

Não sou do Sporting, não faço reciclagem (porque não participo em esquemas de manipulação da opinião pública para conseguir mão-de-obra barata, devo dizer) e já vou para maduro. Acho que a única coisa em que sou verde é no futebol americano.


A minha equipa, os Green Bay Packers (e olhem que eu dou por mim a sofrer a sério com aqueles gajos), foi eliminada no passado fim-de-semana do play-off da NFL. Eram os campeões em título. A vitória dos Packers foi, aliás, ao que me lembro, a minha única alegria desportiva real na última época. Depois dos 5-0 nas Antas decidi fazer um período sabático, mandar o Benfica à merda durante uns meses e esperar pela nova época. Enquanto o Benfica se arrastava, a fazer de conta que ia a lugar algum, os Packers iam ganhando, e acabei por ver mais jogos de futebol americano entre Novembro e Janeiro do que do nosso futebol. Fiquei a gostar ainda mais dos Packers por me terem salvo da miséria para a qual o Benfica me atirou.

Os Packers são uma espécie de Benfica do futebol americano, o verdadeiro clube do povo, um clube impossível, por isso não me importo que sejam verdes. Lá mais para a frente eu começo a catequizar o futebol americano aqui na Religião, porque vale muto a pena, mas agora não temos tempo.

Os Packers chegaram ao play-off como favoritos nas apostas para vencerem outra vez o título. Apenas tiveram uma derrota em toda a época antes disso, e estiveram perto de acabar 16-0. Mas eu nunca acreditei realmente que os Packers pudessem ser campeões outra vez. Primeiro, por uma razão estatística: já há uns vinte anos que nenhuma equipa consegue ganhar o bicampeonato na NFL. Mas sobretudo por uma razão bem prática: apesar de terem o ataque mais devastador da liga, os Packers chegaram ao play-off com a pior defesa da competição, o que é espantoso.


O segredo menos bem guardado no desporto profissional, que todos os atletas, treinadores e dirigentes que jamais ganharam alguma coisa sabem, é que os ataques ganham jogos, mas são as defesas que ganham campeonatos. Nenhuma equipa que não defenda bem tem qualquer hipótese de ser campeã seja do que for, e geralmente a que defende melhor – não mais, mas melhor – é que a que acaba por ganhar.

E se a defesa é sempre decisiva é por uma razão muito simples: é porque é mais fácil defender do que atacar. É histórico, e é universal, em todas as actividades humanas, em todos os tempos, no futebol, na guerra, na arte, na economia. O instinto da sobrevivência, da preservação, é sempre mais forte, no homem, que o do risco. Os lirismos fazem-nos acreditar no oposto, que somos uma espécie criadora, inovadora, audaciosa, mas é treta. Somos, como todas as espécies, uma espécie defensiva, que só se arrisca quando a sua própria preservação está em risco. O homem é, por essência, um sobrevivente.

No futebol é a mesma coisa. Não perder é sempre o passo mais importante, ganhar é só depois. Quem não defende perde. Qualquer Beira-Mar é capaz de se organizar defensivamente. Não envolve grande criatividade. O acto criador, pelo contrário, envolve muito mais energia, sobretudo porque requer fazer coisas diferentes, e ser capaz (ter tecnologia) para as fazer. Temos sempre mais propensão e preparação para nos defendermos do que para tomarmos a ofensiva. Qualquer pessoa que tenha militado nas forças armadas vos dirá o mesmo (eu não militei, esclareço). O instinto protector é o instinto básico do ser humano.


Diz-se que o ataque se alimenta da defesa. Isto tem muito a ver com a pressão. O futebol é um jogo de erros, e quando a pressão aumenta os erros também se tornam mais frequentes, e falha-se mesmo no que normalmente não se falha. É uma reacção fisiológica. O jogador retrai-se, com o medo, e não executa nem pensa tão bem pela mesma razão que os pêlos se arrepiam com o frio – por reflexo. Há quem resista mais, há quem resista menos. Por isso é que há jogadores com mais classe que outros – porque, sob pressão, tomam mais boas decisões.

Nos jogos de grande pressão, os erros acumulam-se, e a equipa que defende bem erra menos. Ao errar menos, descontrai-se, sente-se segura. Ao descontrair-se, executa melhor. Ao executar melhor, e sentindo que tem superioridade no seu último reduto, ganha confiança e ataca melhor. No sentido oposto, uma equipa que não defenda bem desmonta-se com facilidade sob pressão, e se se dá caso de estes dois movimentos opostos coincidirem no mesmo jogo está criada a tempestade perfeita. A vitória do Porto, na Luz, para a Taça, na época passada, por exemplo.


A equipa que melhor defende, no mundo, é a melhor equipa do mundo. O Barcelona. Por uma razão muito simples: não é só porque descobriu a pólvora, é mais porque a descobriu e a guardou. A bola, claro.

Na Idade Média os reis europeus fizeram mais ou menos a mesma coisa: ao conseguirem o monopólio da pólvora (da pólvora a sério), a única arma contra os castelos dos senhores feudais, impedindo que outros a usassem, consolidaram o seu poder, e assim se iniciou a construção dos Estados modernos como hoje os conhecemos.

É a lógica mais simples e mais genial na história do futebol, precisamente pela simplicidade. «Ninguém marca golos se não tiver a bola.» Pode parecer contraditório dizer que o Barcelona passa mais de metade do tempo útil de jogo a defender, mas é verdade. Quando anda a trocar a bola durante três minutos seguidos o Barcelona não está a atacar, está a defender com bola, porque o objectivo ali não é marcar golo mas sim evitá-lo. O Barcelona tem dois tempos defensivos:

- os três segundos imediatamente a seguir a terem perdido a bola, quando geralmente a recuperam, por duas razões: porque a perderam de forma correcta, num local do campo afastado da sua baliza e com os seus jogadores posicionados de uma maneira que tanto serve para atacar como para começar logo a defender; e porque tem um conjunto de jogadores rápidos sobre a bola, que pensam muito depressa, e que sabem para onde a bola vai antes dos próprios avançados, porque percebem o jogo

- os três minutos a seguir a terem-na recuperado, quando a trocam sem procurar a baliza, apenas a aproximando o suficiente da grande-área contrária a ponto de, em sete ou oito segundos criarem superioridade numérica e uma desmarcação em direcção à baliza.

O Barcelona não e a equipa que melhor ataca no mundo – é a equipa que melhor defende. E arrisco-me a dizer que também é a equipa que mais defende. Chegámos ao cúmulo de ver o Barcelona a ter 74 por cento de posse de bola em pleno Santiago Bernabéu, contra o Real Madrid. Ninguém passa tanto tempo como o Barcelona a evitar o golo. Que ela nos consiga iludir de que ganha campeonatos a atacar só a torna ainda mais genial.

O Barcelona está vinte anos adiantado em relação aos outros precisamente porque a única forma de contornar o seu poder é usar pólvora contra pólvora. Naquelas poucas ocasiões em que passam a barreira fulcral dos três primeiros segundos têm de conseguir fazer ao Messi do Barcelona o mesmo que o Xavi e o Iniesta fazem aos messis dos outros: pô-lo a ver a bola.

Isso vai tornar-se claro assim que o actual Real Madrid, uma das equipas mais completas, caras e bem treinadas de todos os tempos tiver falhado. Pode demorar mais um ano ou dois – uma vez que Real vai mesmo ser campeão este ano, alimentando a ilusão de ter sido o Real a ganhar o campeonato, e não o Barcelona a perdê-lo, como de facto vai acontecer – mas assim que Mourinho sair a coisa torna-se clara e evidente.

Quando aparecer uma equipa a conseguir fazer de Barcelona melhor que o Barcelona – digo «quando», e não «se», porque vai acontecer – o jogo vai tornar-se tão aborrecido que talvez cheguemos ao ponto de instituir regras tais como as que foram instituídas na NBA, para impedir o anti-jogo, como o cronómetro de ataque ou a linha de transposição de bola.


O que é que aconteceu aos Packers? Bom , os Packers, cuja capacidade ofensiva era considerada, pelos analistas, a melhor de todos os tempos, foram eliminados porque, no primeiro jogo do play-off, quando a pressão subiu e a intensidade e a estratégia defensiva dos adversários melhoraram, não conseguiram fazer mais do que um touchdown (e graças a um erro do árbitro) quando o normal era conseguirem entre 5 e 7 por jogo. Enquanto isso, os New York Giants, alimentando-se da defesa, marcaram os pontos do costume (não muitos, mas os suficientes), em casa dos Packers, e ganharam.


Como é evidente, isto tem tudo a ver com o Benfica – Gil Vicente de hoje, em que o Benfica deve ganhar por 3 ou 4-1. No final, os analistas vão voltar a enaltecer que com este ataque, o Benfica é praticamente campeão, e os adeptos, que gostam é de bolas à baliza e correrias, vão acreditar (eu também gosto, note-se). «O carrossel ofensivo argentino latino-americano vai dar ou outro título ao Benfica», dir-se-á

O meu receio é que, daqui até ao jogo com o Porto, e sobretudo no próprio jogo com o Porto, os jogadores acreditem que isso é verdade. Porque não é.

A minha esperança é o Jesus.
Esse mesmo Jesus que, nos tempos do Felgueiras, entrou à leão, com toda a escola que o Cruyff estava a implantar em Espanha, a dizer que a forma de ganhar era marcar mais golos que o adversário.

Esse mesmo que Jesus que passou de treinador atrevido a treinador campeão (porque levar o Braga, o Belenenses ou o Benfica ao melhor que podem atingir é ser-se campeão) quando percebeu, com o decorrer da sua carreira, que o segredo para se conseguir acabar o jogo com mais golos que o adversário, sobretudo contra adversários da estirpe de um Porto, não é marcar muitos – é sofrer poucos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Microondas

Há uns anos jogava na equipa dos Detroit Pistons bicampeã da NBA um jogador chamado Vinnie Johnson que parecia um frigorífico, só que em preto – baixinho (relativamente), quadrado, eléctrico e que fazia sempre o mesmo lançamento.

A alcunha dele era Microondas, porque começava logo a trabalhar assim que entrava e nunca falhava, era entrar e começar a facturar. O Microondas Vinnie Johnson é, talvez, o mais acabado exemplo do sexto jogador no basquetebol. O sexto jogador é aquele que, sem começar o jogo no cinco inicial, joga mais do que dois ou três dos cinco titulares, e que tem um rendimento igual ou superior a eles. A NBA até tem um prémio para o Melhor Sexto Jogador do Ano e tudo.

O sexto jogador tem características próprias, que fazem com que, ao contrário de outros jogadores, que rendem menos quando não são titulares, ele renda mais precisamente quando começa no banco. O estilo de jogo, a mentalidade, a inteligência a ler a partida, a velocidade, enfim, um pacote ideal para se ser um suplente. Um sexto jogador é uma espécie de titular que começa no banco.


O Nolito é o Microondas do Benfica.

Pelas suas características, o Nolito é o jogador ideal para entrar no decorrer das segundas partes. É um agitador, como já se concluiu – mas é, sobretudo, um agitador que funciona melhor quando um jogo já está formatado, quando está tudo encaixado e quando as pernas já não são as mesmas. Quando as defesas já perceberam o ataque do Benfica, e quando o ataque do Benfica já tentou a maior parte das suas armas, é a altura certa para meter o vírus Nolito, um jogador que joga diferente dos outros, que faz as coisas ao contrário, que faz sempre a mesma coisa mas que ninguém consegue, realmente, parar, e que muda o jogo.



A minha questão é esta: se o Nolito é um jogador feito a medida para ganhar jogos a começar no banco e a entrar na segunda parte porque raio de lógica estúpida é que se há-de querer fazer dele titular à força? O papel do Nolito não é ser um titular razoável ou até bom (que nem sempre é), é ser um excelente suplente (qu é o que consegue ser praticamente sempre). O Benfica ganha mais com o Nolito a suplente porque o Nolito é mais influente no jogo quando entra a meio. E os jogos ganham-se com 14, não com 11, e não no primeiro minuto mas no último.

Nem todos os jogadores são feitos para serem titulares, nem todos os jogadores foram feitos para serem suplentes. Porque raio é que havemos de tratar todos como se fossem iguais, se isso não é o melhor para ninguém? Alguém pode explicar isso ao Nolito, por exemplo?

*

Considerando espécimes búlgaros anteriores da estirpe de Stoichkov, Kostadinov e muitos outros ovs, a fuçangice do Bojinov no penálti com o Moreirense tem de ser considerada uma bulgaridade.

Mas atenção a uma coisa: eu, como dirigente e treinador, dava-me por satisfeitíssimo se todos os meus problemas disciplinares fossem jogadores a exigirem marcar um penálti nos descontos de um jogo depois de uma série de derrotas consecutivas, para quererem mostrar a toda a gente que são úteis e que não merecem ser assobiados. Quantos jogadores do Sporting fariam o que ele fez? Quantos assumiriam aquele penálti daquela maneira?

O Bojinov foi demasiado impetuoso, podia ter feito as coisas de outra maneira, mas mostrou colhões – algo que, evidentemente, tem faltado ao Sporting nos últimos anos. E o que é que o Sporting fez? Capou-o, pois claro.

Façam dele um bode expiatório e continuem a dar papinha aos cavalinhos de cortesia que por lá andam que assim vão longe. É que nem daqui  dez anos.

As bolas mais importantes num jogo de futebol são os tomates.

*

O Pepe é demente, é nhurro, é isso tudo, mas é um dos nossos. Façam o que quiserem dele, mas fazer dele português quando nos convém e fazer dele brasileiro quando não nos convém é canalha.

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Porque é que me cheira tanto a Guimarães nos últimos dias?

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O que o Jesus disse não foi que o Sporting podia ser campeão. O que ele disse foi que o Sporting ainda ia ter um papel importante na atribuição do título. Porque a esperança secreta do Jesus é que o Sporting vá fazer um brilharete às Antas na penúltima jornada. E a minha também.

*

Talvez esteja na altura de olhar para o goal-average não apenas como elemento de nota artística ou como motivo de gozo com os portistas nos fóruns do Record. É assim tão difícil imaginar um 2-2 no próximo Benfica-Porto?

É que os jogos mais fáceis estão aí agora, e para quem se deixar apanhar desprevenido por esta questão, depois, pode ser tarde…

Ah, fadista!

Não é por acaso que o português gosta do seu fadinho. Aquilo é uma coisa triste que vai cá ao fundo do fundo e um homem fica todo a chorar por dentro.



O Fado do Choramingo, por exemplo. Uma história muito triste de um pai que vai buscar um filho à sarjeta, que lhe dá pão e cama, que faz dele gente outra vez e depois, quando o filho se apanha outra vez sadio, bandido, cospe no prato da sopa e diz ao pai «Toma!». Traidor.

Ou o do outro filho, que o pai vai ver ao hospital, com ele para lá enjeitadinho, e depois trata-o, como a um cavalo ferido, e quando o sacrista se apanha bom outra vez desata a correr e faz-lhe um manguito. «Toma!»



Qual é o espanto dos portugueses andarem a ganhar prémios na América com as telenovelas? Então há lá povo mais agarrado à novela que o português?

Para nós, se não há novela numa história é porque não há verdade. E se vier com uma valente pronúncia do Norte, com os beiços molhados, os olhos humedecidos pelas lágrimas, ou de dor ou de felicidade, e com um cabelo à «Mingos e os Samurais», então, é irresistível.



Como tal, o Domingos tem tudo para ser um grande treinador, num grande clube. Tudo, pelos vistos, menos uma coisa. Estofo.

No ano em que o Braga andou na luta com o Benfica eu tinha um bloguezito que acabou ao fim de algumas semanas porque nessa altura, apesar de andar outra vez entusiasmado com o Benfica, não andava com muita paciência para isto da Net. E escrevi lá que gostaria muito de ver, o Domingos, um dia, a treinar o Porto, isto quando ainda nem se ponderava a hipótese de ele vir a treinar o Sporting. E hoje reafirmo que espero ver o Domingos, um dia, a treinar o Porto.

Porque aquilo que via nele é o que vejo hoje: um tipo com escola de futebol e com algum talento para conduzir uma equipa, com personalidade suficiente para tomar as suas opções e manter-se fiel a elas, mas com uma dificuldade inata em ser grande, e, inversamente, com uma tendência inata para a vitimização.

Quem viu o Domingos a jogar vê o Domingos a treinar. Um tipo muito menos frágil do que parece, um animal competitivo, mas muito mais disposto a deixar-se fragilizar do que aquilo que precisa.

O Domingos nunca foi um grande jogador. Foi um bom jogador, quando protegido por um ambiente confortável. As características de um treinador não têm obrigatoriamente a ver com as suas características como jogador. Há muitos exemplos de avançados que são treinadores super-defensivos e vice-versa. Mas as características pessoais têm tudo a ver. A pessoa que o Domingos era em campo é a pessoa que é no banco.



O máximo que o Domingos teve a coragem de se afastar de Leça da Palmeira, enquanto jogador, foi até Espanha, para clubes de segunda linha, apenas para voltar meia-dúzia de meses depois – e quando voltou, vinha para o Sporting, bastou um telefonema do Papa para mudar o rumo, em plena auto-estrada, para o seu Porto de abrigo.

Quando o Domingos foi para o Sporting, aquilo que mais me interessou foi como o Domingos iria lidar com a pressão pela primeira vez na sua carreira de treinador. Olho para o que escrevi neste blog a 14 de Agosto deste ano, ainda antes do Sporting fazer o primeiro jogo da época, e não encontro uma virgula para mudar. Entre o Porto B, a Académica e o Braga, ambos protegidos pelo guarda-chuva portista, onde é que o Domingos já trabalhou num ambiente estranho?

Pois bem, aqui está ele. E, assim que o estado de graça termina, a que é que assistimos? Ao Domingos a vazar que nem uma gasosa, a atirar-se aos ilustres sportinguistas (cavando uma distância entre a equipa e os outros, note-se, porque isso é muito importante), a atacar com cinismo, ex-jogadores seus (há coisas que se sabem, que se pensam, mas que não se dizem em conferências de imprensa), e a acoitar-se em lugares comuns.



Neste momento, Domingos parece ter entrado na espiral do costume em Alvalade. Pela lógica natural das coisas verdes, daqui para a frente, seria uma questão de tempo até ele sair, como Carvalhal, Paulo Sérgio, Paulo Bento e tantos outros, até Queirós, que me lembre, que a certo ponto tiveram de vir a terreiro para defenderem, eles próprios, a equipa, e pagaram por isso.

Se isso acontecer acontecerá não por causa da derrota em Braga ou dos empates com o Porto e a Académica mas por algo que aconteceu antes disso – aqueles trinta minutos em que jogou com mais um, na Luz, e não conseguiu sequer empatar com o Benfica.

Como eu já aqui disse, quer ele saiba quer não, e quer os adeptos saibam quer não, o Domingos foi contratado para ganhar ao Benfica. Ao não conseguir evitar a derrota naquela situação, e sem poder, sequer, queixar-se do árbitro – ficando, assim, sem o seu tapete preferido debaixo dos pés – Domingos começou a falhar no Sporting. E duvido que venha a conseguir reverter isso. Ele, pelo menos.



Assistimos, nestes dias, ao espantoso espectáculo de ver um portista e portuense inveterado a defender o Sporting de sportinguistas que já o eram quando ele apenas se divertia a marcar-lhe golos – incluindo o tal «médico», que, por acaso, é presidente da Assembleia Geral do clube – algo que estes não tardarão, decerto, a recordar-lhe; assim como a esclarecê-lo que, no Sporting, ao contrário do Porto, não há lei da rolha, cada um pode dizer o que quiser, e não é de certeza um Domingos de fraldas às riscas verdes e brancas que os vai mandar calar. Assim que aparecer o primeiro a recordar a toda a gente que o Domingos «só cá está de passagem», e a sugerir que o sonho dele é treinar o Porto, o futuro do Domingos no Sporting está traçado – se é que não o está já. São as inevitáveis elites do Sporting a fazerem, outra vez, o seu emérito trabalho.



Esta fossa emocional do Sporting vai durar até ao jogo da Madeira, provavelmente, mas vai ser suficiente para assistirmos a duas coisas:



- a irrelevância do presidente do Sporting neste processo, demasiado satisfeito, nos últimos meses, a fazer de vice-presidente das obras que já não é, incapaz de se assumir como líder do clube, reduzido a «newsletters» (!) de apelo a futilidades, à Cavaco Silva, e a uma constante tentativa de se fazer aceite pela Juve Leo, prescindindo, para isso, no processo, de grande parte da sua soberania para os que o rodeiam. Hoje, o que parece é que os Pereiras Cristovãos não mandam só nas claques, nos túneis, nos bilhetes ou na relva – o que parece é que também mandam no presidente. E mesmo que não seja verdade, o simples facto de parecer já é uma tremenda fragilidade de Godinho Lopes, que tende a agravar-se;



- em movimento oposto, o líder de facto do Sporting, Luís Duque, chefe do futebol, vai ter de, para a defender, vincar a clivagem que Domingos tratou de estabelecer entre a equipa e o resto do clube com a tirada do fadista, do médico e do carpinteiro – parece a anedota do português, do inglês e do francês. A imagem de que a equipa, que é totalmente nova, é a única parte saudável do universo Sporting, que é podre desde há muito tempo, vai ser, nas próximas semanas, reforçada, porque não há outra alternativa. É isso ou esperar que ela seja engolida pela máquina trituradora que é a aristocracia sportinguista. Neste processo, Godinho Lopes vai ficar sobre a corda bamba, pois tem de ser o elemento conciliador de duas partes inconciliáveis: o Velho Sporting, que não tem para onde ir, e o Novo Sporting, representado pelo grupo-futebol, e que é a única saída. Por isso, por ser a única saída – 30 milhões de euros depois -, Godinho Lopes não poderá despachar Duque e Freitas como Bettencourt despachou, por exemplo, Costinha. E isso fará de Duque o vencedor, no fim. Porque o projecto, na verdade, é Duque.

É este o verdadeiro pano de fundo sobre o qual se vai desenrolar a actividade política no Sporting até ao início da próxima época. Verão incluído – e no Verão sobretudo.



Domingos? É igual aos outros treinadores todos: depende dos resultados. Mas espero que vá para o Porto, porque não é grande coisa. A pressão e a resposta a ela dizem-nos tudo o que há para saber no futebol.



P.S. – Uma palavra para o campo de girassóis: épico.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A pérola

Hoje, a propósito do classico, ia escrever sobre os três segundos que fazem a diferença no sucesso do Barcelona, e meter uma história de peixe e melões à mistura, mas de vez em quando aparecem-nos algumas pérolas à frente e não as podemos desperdiçar.



Comprei a Bola, por nenhuma razão em especial, e quando cheguei às páginas do Porto houve uma notícia no topo de página que me chamou a atenção. O título era «Empréstimo de Walter pode valer 4 milhões». Grande negócio, pensei eu. E fui ler a notícia.



E a coisa, então, é assim, tal como é apresentada pelo jornalista José Carlos Sousa:

- o negócio não é o melhor mas também não é o pior, porque o Cruzeiro paga os salários do jogador até ao fim do empréstimo, o que «nos tempos que correm» (sic) já não é mau;

- o melhor do negócio é que os brasileiros ficam com direito de opção sobre 50 por cento do passe por 4 milhões de euros;

- o Porto já só tem esses 50 por cento porque os outros 25 por cento que detinha foram vendidos, três meses depois de serem comprados, à Pearl Design Holding (cá está, as pérolas aparecem quando menos se espera), por 2,125 milhões de euros, um lucro de 125 mil euros em relação a esses 25 por cento;

- como bónus, refere-se que a compra de Walter ao Internacional foi totalmente mediada por um clube-fantasma, o Club Atletico Rentistas (o que, obviamente, faz todo o sentido, porque num negócio transparente entre dois clubes é fundamental existir um entreposto fantasma, onde não fica dinheiro nenhum porque é uma associação de beneficência especializada em ajudar futebolistas a virem para a Europa e mulheres grávidas a emigrarem clandestinamente para os Estados Unidos em contentores);

- o negócio também é bom porque, pelo menos, o Porto tem a hipótese de ainda ganhar algum dinheiro, ao contrário «de outros activos» (sic) que são emprestados, acabam contrato e de pilim népia, nem vê-lo;

- o negócio, afinal, é bom porque «bastará» (sic) o Cruzeiro comprar a metade do passe do Walter por 4 milhões de euros para o Porto ainda ter os tais 125 mil euros de lucro.



Em resumo, é isto. E é muito, muito bom.



Isto não é apenas propaganda. Isto não é apenas lixo. Isto é Alzheimer jornalístico.



Vamos, então, espremer o suminho.



- 1.ª talhada: o jornalista (ou quem lhe ditou a notícia) considera que a poupança dos salários é uma vantagem financeira. E tem toda a razão. Se o Walter ganhar 30 mil euros por mês (ninguém acredita que seja menos, certo?), até Julho de 2015 (coisa pouca…) o Porto poupa 43 salários, o que dá cerca de 1,3 milhões de euros. O que é fantástico é que o argumento dos salários sirva para o que se poupa, no cômputo geral do negócio, mas não sirva para o que se gastou. Evidentemente, a 30 mil euros por mês, nos 17 meses que o Walter passou nas Antas recebeu, só em salários, 510 mil euros, fora os prémios (que devem ter sido poucos uma vez que o Porto, na última época, não ganhou nada). Pode-se dizer que o Porto usufruiu da prestação desportiva do atleta. É um facto. Uma prestação desportiva tão relevante que, ao fim de um ano e cinco meses, o clube prefere dar o jogador a tê-lo no plantel. Porque foi o que aconteceu, ou não? Ao Porto, que não recebeu um cêntimo pelo empréstimo do jogador, ao contrário do que acontece neste tipo de negócios, só faltou pagar ao Cruzeiro para o Walter jogar lá. Não teve de pagar, ao contrário do que aconteceu com outros, e isso, aparentemente, é um critério suficientemente apertado para o jornalista considerar que o negócio «não é mau».

Ou seja, se tirarmos aos 125 mil euros os 510 mil que Walter recebeu só em salários o Porto perdeu quase 400 mil euros com o Walter.



- 2.ª talhada: três meses depois de comprar 75 por cento do Walter por 6 milhões de euros o Porto abdicou de 25 por cento por 125 mil euros, só para poder dispor de capital. Dizer que o Porto vendeu 25 por cento do Walter é um disparate, e dizer que ganhou 125 mil euros é uma barbaridade. Convém, quanto mais não seja, para que nos apercebamos do ridículo da situação, que se o Porto tivesse posto esses 6 milhões no banco ou pago uma parte do seu passivo que está a crédito teria ganho, só no primeiro ano, mais do que esse valor. Ou seja, se não gastasse dinheiro no Walter o Porto ganharia mais do que o dinheiro que supostamente ganhou ao vendê-lo. E já nem vou ao facto de o jogador ter sido vendido a uma off-shore inglesa e comprado através de uma off-shore futebolística que de futebolística só tem o nome. Também não quero dizer que é desta maneira que o Pinto da Costa, os Caldeiras e os argentinos se andam a encher à custa do dinheiro do Porto mas por acaso até quero. Como é óbvio. Qual seria a utilidade destes «entrepostos» senão para lavar dinheiro através das comissões ou outras falcatruas do género?



3.ª talhada: a hipótese do Cruzeiro pagar 4 milhões por metade do Walter, aparentemente, é suficiente para fazer disto um negócio decente para o Porto. «Empréstimo de Walter pode valer 4 milhões», diz o título. Faz lembrar aquele eufemismo que agora os Governos usam para enganar os palermas, quando os jornais dizem: «Portugal conseguiu vender dívida». Conseguiu vender dívida? Vender dívida é uma forma de dizer que pediu dinheiro emprestado, e neste caso a juros altíssimos. Se dissessem «Conseguimos enterrar-nos mais trinta centímetros nas areias movediças» estariam a ser igualmente verdadeiros e igualmente erróneos.

O empréstimo pode valer 4 milhões? Tretas! Se há uma certeza com este negócio é que o Porto não vai ganhar absolutamente nada, porque nem sequer conseguiu negociar uma opção de compra que lhe permita, se o jogador começar a jogar, ganhar um cêntimo a mais do que aquilo que gastaram para o comprar. Recebe o que pagou. Ou seja, é garantido que o Porto não vai ganhar absolutamente nada com o Walter. É este o bom negócio que o Porto acabou de fazer.

Nem sequer vou falar do dinheiro que o Porto perdeu ou do que deixou de ganhar com estes seis/quatro milhões que estão empatados (porque é essa a expressão real) no Walter, e que pode ficar empatados por mais três anos. Talvez fosse oportuno, por exemplo, perguntar ao jornalista José Carlos Sousa de quanto foi o empréstimo obrigacionista que o Porto fez há uns tempos, e qual o juro que praticou, para se saber quanto valem, exactamente, para o Porto, 4 milhões de euros.



Há uns tempos falei sobre a manipulação da imprensa pelos clubes, e este é um caso típico de como a fidedignidade da informação está totalmente pervertida pelo servilismo aos clubes.

Pegando neste exemplo claro, é bom que as pessoas fiquem completamente conscientes do seguinte:

- ao fazer isto o jornalista José Carlos Sousa não está ao serviço do jornal nem dos leitores: está ao serviço do Porto;

- a notícia é feita com o único intuito de branquear a actuação da Direcção do Porto, manipulando a linguagem da informação;

- esta notícia é feita para tentar, deliberadamente, enganar aqueles que sabem ler, partindo do princípio que eles não sabem ou não querem pensar. Estão a contar com a estupidez das pessoas. Quem não quer pensar, não pensa. Mas quem não pensa não se pode queixar de não lhe dizerem a verdade. A verdade está aqui. Só que está codificada, e para a descodificar é preciso estar disposto a isso, sabendo à partida que a fonte de informação é manipuladora;

- há José Carlos Sousas espalhados por todos os cantos de Portugal, Benfica e Sporting também os têm e também os usam, com as mesmas intenções. Benfiquistas e sportinguistas estão igualmente vulneráveis à manipulação se não estiverem dispostos a pensar naquilo que lêem e nas intenções de quem as escreve e quem as alimenta. Ou vocês pensam que os jornalistas tiram as histórias do cú? As fontes de informação deles são, sempre, uma parte interessada na notícia, porque a notícia vale dinheiro ou crédito político.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Já podem guardar o Lenzo

Acho que vale a pena não só pôr o Enzo no sítio, como titulava a mui orgulhosa Bola de hoje, como pôr a novela do Enzo no sítio.

Nesta altura o que é preciso é perspectiva, e o Jesus esteve muitíssimo bem ao dizer que o seu papel é recuperar o jogador.

Já chega de dramatizações e de choraminguices. Guardem lá o lenço.



A questão do Enzo Pérez é muito simples, e é esta:



Ponto 1 - O Enzo assinou pelo Benfica sem saber o que é o Benfica, e a culpa não é dele, pois todos os jogadores estrangeiros que assinam pelo Benfica não sabem realmente o que estão a fazer. Só percebem algum tempo depois de chegarem e não é graças à Direcção, que faz um mau trabalho nesse aspecto. Não basta o Rui Costa levar os rapazes a ver o museu. Era preciso mais. Gente preparada para isso. Acompanhamento próximo e qualificado. Um investimento de 5, 6 ou 7 milhões de euros em que a matéria adquirida é uma pessoa, e cujo sucesso depende de factores subjectivos e psicológicos, merece um tratamento altamente profissional e especializado. Uma pessoa não é um animal de carga, não é pôr a canga e mandar puxar. Se algum de nós assinasse por um Boca Juniors poderia realmente dizer que sabia o que estava a fazer?



Ponto 2 – O Enzo Pérez fez uma coisa excepcional, que foi bater com a porta, por puro vedetismo, porque pensa que é uma estrela. A tendência imediata é para punir essa pretensão dele. No fundo, todos queremos que toda a gente seja mais ou menos igual, e as pessoas e as situações excepcionais fazem-nos sempre confusão, a que respondemos, instintivamente, de forma conservadora, punindo, castigando.

O Enzo Pérez excedeu-se. Agiu de uma forma que não se coaduna com uma disciplina colectiva. É um facto. Mas eu gosto de jogadores diferentes. Eu gosto de excepções. Todos os grandes jogadores são, de uma forma ou de outra, excepcionais. Não se deve asfixiar a excepcionalidade. Deve-se alimentá-la. O Enzo Pérez pode nunca vir a ser um jogador excepcional, mas o simples facto de pensar que é é uma hipótese de grandeza que não deve ser estrangulada à nascença, antes explorada. Alguém pensa que o ego não é importante num profissional de futebol?



Ponto 3 – O Benfica fez o que tinha a fazer, até agora. Estabeleceu um limite. Deu-lhe uma palmada. Ele baixou as orelhas e cheirou a mão. Também fez o que tinha a fazer. Agora – ou depois da multa – é hora de lhe dar o doce.

Isso dos assobios, com todo o respeito, até pode acontecer, mas é treta.

Se as pessoas que trabalham no Benfica (incluindo o Enzo Pérez) fizerem bem o seu trabalho, daqui a um mês o Enzo Pérez está a jogar, daqui a dois é titular, daqui a três é a «arma secreta que estava lá dentro», torna-se no jogador decisivo da equipa, joga que se farta, e os que hoje dizem que «estes tipos não sabem o que é o Benfica» passam a dizer que «o Enzo aprendeu o que é o Benfica, ganhou humildade e passou a sentir a camisola».

Tretas.

Se isso acontecer não será porque o jogador sente camisola nenhuma mas exactamente pelas mesmas razões que o levaram a rejeitar o clube alguns meses antes: por orgulho. É assim mesmo que as coisas são.

Daqui a três meses o Enzo pode estar a ser glorificado pelo Terceiro Anel que actualmente o quer crucificar. Isso é o futebol. Há centenas de Enzos por esse mundo fora.

E é bom que todos os benfiquistas se consciencializem que, no futebol moderno, não há qualidade sem egos, e que é dos egos que nascem as estrelas. Um clube que não aprenda a lidar com as estrelas não tem futuro enquanto grande clube.

Sejam estrelas de pacotilha, como o Enzo Pérez, ou estrelas de primeira luminosidade, como o Cristiano Ronaldo.