sábado, 21 de janeiro de 2012

Futebol Total

Não sou do Sporting, não faço reciclagem (porque não participo em esquemas de manipulação da opinião pública para conseguir mão-de-obra barata, devo dizer) e já vou para maduro. Acho que a única coisa em que sou verde é no futebol americano.


A minha equipa, os Green Bay Packers (e olhem que eu dou por mim a sofrer a sério com aqueles gajos), foi eliminada no passado fim-de-semana do play-off da NFL. Eram os campeões em título. A vitória dos Packers foi, aliás, ao que me lembro, a minha única alegria desportiva real na última época. Depois dos 5-0 nas Antas decidi fazer um período sabático, mandar o Benfica à merda durante uns meses e esperar pela nova época. Enquanto o Benfica se arrastava, a fazer de conta que ia a lugar algum, os Packers iam ganhando, e acabei por ver mais jogos de futebol americano entre Novembro e Janeiro do que do nosso futebol. Fiquei a gostar ainda mais dos Packers por me terem salvo da miséria para a qual o Benfica me atirou.

Os Packers são uma espécie de Benfica do futebol americano, o verdadeiro clube do povo, um clube impossível, por isso não me importo que sejam verdes. Lá mais para a frente eu começo a catequizar o futebol americano aqui na Religião, porque vale muto a pena, mas agora não temos tempo.

Os Packers chegaram ao play-off como favoritos nas apostas para vencerem outra vez o título. Apenas tiveram uma derrota em toda a época antes disso, e estiveram perto de acabar 16-0. Mas eu nunca acreditei realmente que os Packers pudessem ser campeões outra vez. Primeiro, por uma razão estatística: já há uns vinte anos que nenhuma equipa consegue ganhar o bicampeonato na NFL. Mas sobretudo por uma razão bem prática: apesar de terem o ataque mais devastador da liga, os Packers chegaram ao play-off com a pior defesa da competição, o que é espantoso.


O segredo menos bem guardado no desporto profissional, que todos os atletas, treinadores e dirigentes que jamais ganharam alguma coisa sabem, é que os ataques ganham jogos, mas são as defesas que ganham campeonatos. Nenhuma equipa que não defenda bem tem qualquer hipótese de ser campeã seja do que for, e geralmente a que defende melhor – não mais, mas melhor – é que a que acaba por ganhar.

E se a defesa é sempre decisiva é por uma razão muito simples: é porque é mais fácil defender do que atacar. É histórico, e é universal, em todas as actividades humanas, em todos os tempos, no futebol, na guerra, na arte, na economia. O instinto da sobrevivência, da preservação, é sempre mais forte, no homem, que o do risco. Os lirismos fazem-nos acreditar no oposto, que somos uma espécie criadora, inovadora, audaciosa, mas é treta. Somos, como todas as espécies, uma espécie defensiva, que só se arrisca quando a sua própria preservação está em risco. O homem é, por essência, um sobrevivente.

No futebol é a mesma coisa. Não perder é sempre o passo mais importante, ganhar é só depois. Quem não defende perde. Qualquer Beira-Mar é capaz de se organizar defensivamente. Não envolve grande criatividade. O acto criador, pelo contrário, envolve muito mais energia, sobretudo porque requer fazer coisas diferentes, e ser capaz (ter tecnologia) para as fazer. Temos sempre mais propensão e preparação para nos defendermos do que para tomarmos a ofensiva. Qualquer pessoa que tenha militado nas forças armadas vos dirá o mesmo (eu não militei, esclareço). O instinto protector é o instinto básico do ser humano.


Diz-se que o ataque se alimenta da defesa. Isto tem muito a ver com a pressão. O futebol é um jogo de erros, e quando a pressão aumenta os erros também se tornam mais frequentes, e falha-se mesmo no que normalmente não se falha. É uma reacção fisiológica. O jogador retrai-se, com o medo, e não executa nem pensa tão bem pela mesma razão que os pêlos se arrepiam com o frio – por reflexo. Há quem resista mais, há quem resista menos. Por isso é que há jogadores com mais classe que outros – porque, sob pressão, tomam mais boas decisões.

Nos jogos de grande pressão, os erros acumulam-se, e a equipa que defende bem erra menos. Ao errar menos, descontrai-se, sente-se segura. Ao descontrair-se, executa melhor. Ao executar melhor, e sentindo que tem superioridade no seu último reduto, ganha confiança e ataca melhor. No sentido oposto, uma equipa que não defenda bem desmonta-se com facilidade sob pressão, e se se dá caso de estes dois movimentos opostos coincidirem no mesmo jogo está criada a tempestade perfeita. A vitória do Porto, na Luz, para a Taça, na época passada, por exemplo.


A equipa que melhor defende, no mundo, é a melhor equipa do mundo. O Barcelona. Por uma razão muito simples: não é só porque descobriu a pólvora, é mais porque a descobriu e a guardou. A bola, claro.

Na Idade Média os reis europeus fizeram mais ou menos a mesma coisa: ao conseguirem o monopólio da pólvora (da pólvora a sério), a única arma contra os castelos dos senhores feudais, impedindo que outros a usassem, consolidaram o seu poder, e assim se iniciou a construção dos Estados modernos como hoje os conhecemos.

É a lógica mais simples e mais genial na história do futebol, precisamente pela simplicidade. «Ninguém marca golos se não tiver a bola.» Pode parecer contraditório dizer que o Barcelona passa mais de metade do tempo útil de jogo a defender, mas é verdade. Quando anda a trocar a bola durante três minutos seguidos o Barcelona não está a atacar, está a defender com bola, porque o objectivo ali não é marcar golo mas sim evitá-lo. O Barcelona tem dois tempos defensivos:

- os três segundos imediatamente a seguir a terem perdido a bola, quando geralmente a recuperam, por duas razões: porque a perderam de forma correcta, num local do campo afastado da sua baliza e com os seus jogadores posicionados de uma maneira que tanto serve para atacar como para começar logo a defender; e porque tem um conjunto de jogadores rápidos sobre a bola, que pensam muito depressa, e que sabem para onde a bola vai antes dos próprios avançados, porque percebem o jogo

- os três minutos a seguir a terem-na recuperado, quando a trocam sem procurar a baliza, apenas a aproximando o suficiente da grande-área contrária a ponto de, em sete ou oito segundos criarem superioridade numérica e uma desmarcação em direcção à baliza.

O Barcelona não e a equipa que melhor ataca no mundo – é a equipa que melhor defende. E arrisco-me a dizer que também é a equipa que mais defende. Chegámos ao cúmulo de ver o Barcelona a ter 74 por cento de posse de bola em pleno Santiago Bernabéu, contra o Real Madrid. Ninguém passa tanto tempo como o Barcelona a evitar o golo. Que ela nos consiga iludir de que ganha campeonatos a atacar só a torna ainda mais genial.

O Barcelona está vinte anos adiantado em relação aos outros precisamente porque a única forma de contornar o seu poder é usar pólvora contra pólvora. Naquelas poucas ocasiões em que passam a barreira fulcral dos três primeiros segundos têm de conseguir fazer ao Messi do Barcelona o mesmo que o Xavi e o Iniesta fazem aos messis dos outros: pô-lo a ver a bola.

Isso vai tornar-se claro assim que o actual Real Madrid, uma das equipas mais completas, caras e bem treinadas de todos os tempos tiver falhado. Pode demorar mais um ano ou dois – uma vez que Real vai mesmo ser campeão este ano, alimentando a ilusão de ter sido o Real a ganhar o campeonato, e não o Barcelona a perdê-lo, como de facto vai acontecer – mas assim que Mourinho sair a coisa torna-se clara e evidente.

Quando aparecer uma equipa a conseguir fazer de Barcelona melhor que o Barcelona – digo «quando», e não «se», porque vai acontecer – o jogo vai tornar-se tão aborrecido que talvez cheguemos ao ponto de instituir regras tais como as que foram instituídas na NBA, para impedir o anti-jogo, como o cronómetro de ataque ou a linha de transposição de bola.


O que é que aconteceu aos Packers? Bom , os Packers, cuja capacidade ofensiva era considerada, pelos analistas, a melhor de todos os tempos, foram eliminados porque, no primeiro jogo do play-off, quando a pressão subiu e a intensidade e a estratégia defensiva dos adversários melhoraram, não conseguiram fazer mais do que um touchdown (e graças a um erro do árbitro) quando o normal era conseguirem entre 5 e 7 por jogo. Enquanto isso, os New York Giants, alimentando-se da defesa, marcaram os pontos do costume (não muitos, mas os suficientes), em casa dos Packers, e ganharam.


Como é evidente, isto tem tudo a ver com o Benfica – Gil Vicente de hoje, em que o Benfica deve ganhar por 3 ou 4-1. No final, os analistas vão voltar a enaltecer que com este ataque, o Benfica é praticamente campeão, e os adeptos, que gostam é de bolas à baliza e correrias, vão acreditar (eu também gosto, note-se). «O carrossel ofensivo argentino latino-americano vai dar ou outro título ao Benfica», dir-se-á

O meu receio é que, daqui até ao jogo com o Porto, e sobretudo no próprio jogo com o Porto, os jogadores acreditem que isso é verdade. Porque não é.

A minha esperança é o Jesus.
Esse mesmo Jesus que, nos tempos do Felgueiras, entrou à leão, com toda a escola que o Cruyff estava a implantar em Espanha, a dizer que a forma de ganhar era marcar mais golos que o adversário.

Esse mesmo que Jesus que passou de treinador atrevido a treinador campeão (porque levar o Braga, o Belenenses ou o Benfica ao melhor que podem atingir é ser-se campeão) quando percebeu, com o decorrer da sua carreira, que o segredo para se conseguir acabar o jogo com mais golos que o adversário, sobretudo contra adversários da estirpe de um Porto, não é marcar muitos – é sofrer poucos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Microondas

Há uns anos jogava na equipa dos Detroit Pistons bicampeã da NBA um jogador chamado Vinnie Johnson que parecia um frigorífico, só que em preto – baixinho (relativamente), quadrado, eléctrico e que fazia sempre o mesmo lançamento.

A alcunha dele era Microondas, porque começava logo a trabalhar assim que entrava e nunca falhava, era entrar e começar a facturar. O Microondas Vinnie Johnson é, talvez, o mais acabado exemplo do sexto jogador no basquetebol. O sexto jogador é aquele que, sem começar o jogo no cinco inicial, joga mais do que dois ou três dos cinco titulares, e que tem um rendimento igual ou superior a eles. A NBA até tem um prémio para o Melhor Sexto Jogador do Ano e tudo.

O sexto jogador tem características próprias, que fazem com que, ao contrário de outros jogadores, que rendem menos quando não são titulares, ele renda mais precisamente quando começa no banco. O estilo de jogo, a mentalidade, a inteligência a ler a partida, a velocidade, enfim, um pacote ideal para se ser um suplente. Um sexto jogador é uma espécie de titular que começa no banco.


O Nolito é o Microondas do Benfica.

Pelas suas características, o Nolito é o jogador ideal para entrar no decorrer das segundas partes. É um agitador, como já se concluiu – mas é, sobretudo, um agitador que funciona melhor quando um jogo já está formatado, quando está tudo encaixado e quando as pernas já não são as mesmas. Quando as defesas já perceberam o ataque do Benfica, e quando o ataque do Benfica já tentou a maior parte das suas armas, é a altura certa para meter o vírus Nolito, um jogador que joga diferente dos outros, que faz as coisas ao contrário, que faz sempre a mesma coisa mas que ninguém consegue, realmente, parar, e que muda o jogo.



A minha questão é esta: se o Nolito é um jogador feito a medida para ganhar jogos a começar no banco e a entrar na segunda parte porque raio de lógica estúpida é que se há-de querer fazer dele titular à força? O papel do Nolito não é ser um titular razoável ou até bom (que nem sempre é), é ser um excelente suplente (qu é o que consegue ser praticamente sempre). O Benfica ganha mais com o Nolito a suplente porque o Nolito é mais influente no jogo quando entra a meio. E os jogos ganham-se com 14, não com 11, e não no primeiro minuto mas no último.

Nem todos os jogadores são feitos para serem titulares, nem todos os jogadores foram feitos para serem suplentes. Porque raio é que havemos de tratar todos como se fossem iguais, se isso não é o melhor para ninguém? Alguém pode explicar isso ao Nolito, por exemplo?

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Considerando espécimes búlgaros anteriores da estirpe de Stoichkov, Kostadinov e muitos outros ovs, a fuçangice do Bojinov no penálti com o Moreirense tem de ser considerada uma bulgaridade.

Mas atenção a uma coisa: eu, como dirigente e treinador, dava-me por satisfeitíssimo se todos os meus problemas disciplinares fossem jogadores a exigirem marcar um penálti nos descontos de um jogo depois de uma série de derrotas consecutivas, para quererem mostrar a toda a gente que são úteis e que não merecem ser assobiados. Quantos jogadores do Sporting fariam o que ele fez? Quantos assumiriam aquele penálti daquela maneira?

O Bojinov foi demasiado impetuoso, podia ter feito as coisas de outra maneira, mas mostrou colhões – algo que, evidentemente, tem faltado ao Sporting nos últimos anos. E o que é que o Sporting fez? Capou-o, pois claro.

Façam dele um bode expiatório e continuem a dar papinha aos cavalinhos de cortesia que por lá andam que assim vão longe. É que nem daqui  dez anos.

As bolas mais importantes num jogo de futebol são os tomates.

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O Pepe é demente, é nhurro, é isso tudo, mas é um dos nossos. Façam o que quiserem dele, mas fazer dele português quando nos convém e fazer dele brasileiro quando não nos convém é canalha.

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Porque é que me cheira tanto a Guimarães nos últimos dias?

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O que o Jesus disse não foi que o Sporting podia ser campeão. O que ele disse foi que o Sporting ainda ia ter um papel importante na atribuição do título. Porque a esperança secreta do Jesus é que o Sporting vá fazer um brilharete às Antas na penúltima jornada. E a minha também.

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Talvez esteja na altura de olhar para o goal-average não apenas como elemento de nota artística ou como motivo de gozo com os portistas nos fóruns do Record. É assim tão difícil imaginar um 2-2 no próximo Benfica-Porto?

É que os jogos mais fáceis estão aí agora, e para quem se deixar apanhar desprevenido por esta questão, depois, pode ser tarde…

Ah, fadista!

Não é por acaso que o português gosta do seu fadinho. Aquilo é uma coisa triste que vai cá ao fundo do fundo e um homem fica todo a chorar por dentro.



O Fado do Choramingo, por exemplo. Uma história muito triste de um pai que vai buscar um filho à sarjeta, que lhe dá pão e cama, que faz dele gente outra vez e depois, quando o filho se apanha outra vez sadio, bandido, cospe no prato da sopa e diz ao pai «Toma!». Traidor.

Ou o do outro filho, que o pai vai ver ao hospital, com ele para lá enjeitadinho, e depois trata-o, como a um cavalo ferido, e quando o sacrista se apanha bom outra vez desata a correr e faz-lhe um manguito. «Toma!»



Qual é o espanto dos portugueses andarem a ganhar prémios na América com as telenovelas? Então há lá povo mais agarrado à novela que o português?

Para nós, se não há novela numa história é porque não há verdade. E se vier com uma valente pronúncia do Norte, com os beiços molhados, os olhos humedecidos pelas lágrimas, ou de dor ou de felicidade, e com um cabelo à «Mingos e os Samurais», então, é irresistível.



Como tal, o Domingos tem tudo para ser um grande treinador, num grande clube. Tudo, pelos vistos, menos uma coisa. Estofo.

No ano em que o Braga andou na luta com o Benfica eu tinha um bloguezito que acabou ao fim de algumas semanas porque nessa altura, apesar de andar outra vez entusiasmado com o Benfica, não andava com muita paciência para isto da Net. E escrevi lá que gostaria muito de ver, o Domingos, um dia, a treinar o Porto, isto quando ainda nem se ponderava a hipótese de ele vir a treinar o Sporting. E hoje reafirmo que espero ver o Domingos, um dia, a treinar o Porto.

Porque aquilo que via nele é o que vejo hoje: um tipo com escola de futebol e com algum talento para conduzir uma equipa, com personalidade suficiente para tomar as suas opções e manter-se fiel a elas, mas com uma dificuldade inata em ser grande, e, inversamente, com uma tendência inata para a vitimização.

Quem viu o Domingos a jogar vê o Domingos a treinar. Um tipo muito menos frágil do que parece, um animal competitivo, mas muito mais disposto a deixar-se fragilizar do que aquilo que precisa.

O Domingos nunca foi um grande jogador. Foi um bom jogador, quando protegido por um ambiente confortável. As características de um treinador não têm obrigatoriamente a ver com as suas características como jogador. Há muitos exemplos de avançados que são treinadores super-defensivos e vice-versa. Mas as características pessoais têm tudo a ver. A pessoa que o Domingos era em campo é a pessoa que é no banco.



O máximo que o Domingos teve a coragem de se afastar de Leça da Palmeira, enquanto jogador, foi até Espanha, para clubes de segunda linha, apenas para voltar meia-dúzia de meses depois – e quando voltou, vinha para o Sporting, bastou um telefonema do Papa para mudar o rumo, em plena auto-estrada, para o seu Porto de abrigo.

Quando o Domingos foi para o Sporting, aquilo que mais me interessou foi como o Domingos iria lidar com a pressão pela primeira vez na sua carreira de treinador. Olho para o que escrevi neste blog a 14 de Agosto deste ano, ainda antes do Sporting fazer o primeiro jogo da época, e não encontro uma virgula para mudar. Entre o Porto B, a Académica e o Braga, ambos protegidos pelo guarda-chuva portista, onde é que o Domingos já trabalhou num ambiente estranho?

Pois bem, aqui está ele. E, assim que o estado de graça termina, a que é que assistimos? Ao Domingos a vazar que nem uma gasosa, a atirar-se aos ilustres sportinguistas (cavando uma distância entre a equipa e os outros, note-se, porque isso é muito importante), a atacar com cinismo, ex-jogadores seus (há coisas que se sabem, que se pensam, mas que não se dizem em conferências de imprensa), e a acoitar-se em lugares comuns.



Neste momento, Domingos parece ter entrado na espiral do costume em Alvalade. Pela lógica natural das coisas verdes, daqui para a frente, seria uma questão de tempo até ele sair, como Carvalhal, Paulo Sérgio, Paulo Bento e tantos outros, até Queirós, que me lembre, que a certo ponto tiveram de vir a terreiro para defenderem, eles próprios, a equipa, e pagaram por isso.

Se isso acontecer acontecerá não por causa da derrota em Braga ou dos empates com o Porto e a Académica mas por algo que aconteceu antes disso – aqueles trinta minutos em que jogou com mais um, na Luz, e não conseguiu sequer empatar com o Benfica.

Como eu já aqui disse, quer ele saiba quer não, e quer os adeptos saibam quer não, o Domingos foi contratado para ganhar ao Benfica. Ao não conseguir evitar a derrota naquela situação, e sem poder, sequer, queixar-se do árbitro – ficando, assim, sem o seu tapete preferido debaixo dos pés – Domingos começou a falhar no Sporting. E duvido que venha a conseguir reverter isso. Ele, pelo menos.



Assistimos, nestes dias, ao espantoso espectáculo de ver um portista e portuense inveterado a defender o Sporting de sportinguistas que já o eram quando ele apenas se divertia a marcar-lhe golos – incluindo o tal «médico», que, por acaso, é presidente da Assembleia Geral do clube – algo que estes não tardarão, decerto, a recordar-lhe; assim como a esclarecê-lo que, no Sporting, ao contrário do Porto, não há lei da rolha, cada um pode dizer o que quiser, e não é de certeza um Domingos de fraldas às riscas verdes e brancas que os vai mandar calar. Assim que aparecer o primeiro a recordar a toda a gente que o Domingos «só cá está de passagem», e a sugerir que o sonho dele é treinar o Porto, o futuro do Domingos no Sporting está traçado – se é que não o está já. São as inevitáveis elites do Sporting a fazerem, outra vez, o seu emérito trabalho.



Esta fossa emocional do Sporting vai durar até ao jogo da Madeira, provavelmente, mas vai ser suficiente para assistirmos a duas coisas:



- a irrelevância do presidente do Sporting neste processo, demasiado satisfeito, nos últimos meses, a fazer de vice-presidente das obras que já não é, incapaz de se assumir como líder do clube, reduzido a «newsletters» (!) de apelo a futilidades, à Cavaco Silva, e a uma constante tentativa de se fazer aceite pela Juve Leo, prescindindo, para isso, no processo, de grande parte da sua soberania para os que o rodeiam. Hoje, o que parece é que os Pereiras Cristovãos não mandam só nas claques, nos túneis, nos bilhetes ou na relva – o que parece é que também mandam no presidente. E mesmo que não seja verdade, o simples facto de parecer já é uma tremenda fragilidade de Godinho Lopes, que tende a agravar-se;



- em movimento oposto, o líder de facto do Sporting, Luís Duque, chefe do futebol, vai ter de, para a defender, vincar a clivagem que Domingos tratou de estabelecer entre a equipa e o resto do clube com a tirada do fadista, do médico e do carpinteiro – parece a anedota do português, do inglês e do francês. A imagem de que a equipa, que é totalmente nova, é a única parte saudável do universo Sporting, que é podre desde há muito tempo, vai ser, nas próximas semanas, reforçada, porque não há outra alternativa. É isso ou esperar que ela seja engolida pela máquina trituradora que é a aristocracia sportinguista. Neste processo, Godinho Lopes vai ficar sobre a corda bamba, pois tem de ser o elemento conciliador de duas partes inconciliáveis: o Velho Sporting, que não tem para onde ir, e o Novo Sporting, representado pelo grupo-futebol, e que é a única saída. Por isso, por ser a única saída – 30 milhões de euros depois -, Godinho Lopes não poderá despachar Duque e Freitas como Bettencourt despachou, por exemplo, Costinha. E isso fará de Duque o vencedor, no fim. Porque o projecto, na verdade, é Duque.

É este o verdadeiro pano de fundo sobre o qual se vai desenrolar a actividade política no Sporting até ao início da próxima época. Verão incluído – e no Verão sobretudo.



Domingos? É igual aos outros treinadores todos: depende dos resultados. Mas espero que vá para o Porto, porque não é grande coisa. A pressão e a resposta a ela dizem-nos tudo o que há para saber no futebol.



P.S. – Uma palavra para o campo de girassóis: épico.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A pérola

Hoje, a propósito do classico, ia escrever sobre os três segundos que fazem a diferença no sucesso do Barcelona, e meter uma história de peixe e melões à mistura, mas de vez em quando aparecem-nos algumas pérolas à frente e não as podemos desperdiçar.



Comprei a Bola, por nenhuma razão em especial, e quando cheguei às páginas do Porto houve uma notícia no topo de página que me chamou a atenção. O título era «Empréstimo de Walter pode valer 4 milhões». Grande negócio, pensei eu. E fui ler a notícia.



E a coisa, então, é assim, tal como é apresentada pelo jornalista José Carlos Sousa:

- o negócio não é o melhor mas também não é o pior, porque o Cruzeiro paga os salários do jogador até ao fim do empréstimo, o que «nos tempos que correm» (sic) já não é mau;

- o melhor do negócio é que os brasileiros ficam com direito de opção sobre 50 por cento do passe por 4 milhões de euros;

- o Porto já só tem esses 50 por cento porque os outros 25 por cento que detinha foram vendidos, três meses depois de serem comprados, à Pearl Design Holding (cá está, as pérolas aparecem quando menos se espera), por 2,125 milhões de euros, um lucro de 125 mil euros em relação a esses 25 por cento;

- como bónus, refere-se que a compra de Walter ao Internacional foi totalmente mediada por um clube-fantasma, o Club Atletico Rentistas (o que, obviamente, faz todo o sentido, porque num negócio transparente entre dois clubes é fundamental existir um entreposto fantasma, onde não fica dinheiro nenhum porque é uma associação de beneficência especializada em ajudar futebolistas a virem para a Europa e mulheres grávidas a emigrarem clandestinamente para os Estados Unidos em contentores);

- o negócio também é bom porque, pelo menos, o Porto tem a hipótese de ainda ganhar algum dinheiro, ao contrário «de outros activos» (sic) que são emprestados, acabam contrato e de pilim népia, nem vê-lo;

- o negócio, afinal, é bom porque «bastará» (sic) o Cruzeiro comprar a metade do passe do Walter por 4 milhões de euros para o Porto ainda ter os tais 125 mil euros de lucro.



Em resumo, é isto. E é muito, muito bom.



Isto não é apenas propaganda. Isto não é apenas lixo. Isto é Alzheimer jornalístico.



Vamos, então, espremer o suminho.



- 1.ª talhada: o jornalista (ou quem lhe ditou a notícia) considera que a poupança dos salários é uma vantagem financeira. E tem toda a razão. Se o Walter ganhar 30 mil euros por mês (ninguém acredita que seja menos, certo?), até Julho de 2015 (coisa pouca…) o Porto poupa 43 salários, o que dá cerca de 1,3 milhões de euros. O que é fantástico é que o argumento dos salários sirva para o que se poupa, no cômputo geral do negócio, mas não sirva para o que se gastou. Evidentemente, a 30 mil euros por mês, nos 17 meses que o Walter passou nas Antas recebeu, só em salários, 510 mil euros, fora os prémios (que devem ter sido poucos uma vez que o Porto, na última época, não ganhou nada). Pode-se dizer que o Porto usufruiu da prestação desportiva do atleta. É um facto. Uma prestação desportiva tão relevante que, ao fim de um ano e cinco meses, o clube prefere dar o jogador a tê-lo no plantel. Porque foi o que aconteceu, ou não? Ao Porto, que não recebeu um cêntimo pelo empréstimo do jogador, ao contrário do que acontece neste tipo de negócios, só faltou pagar ao Cruzeiro para o Walter jogar lá. Não teve de pagar, ao contrário do que aconteceu com outros, e isso, aparentemente, é um critério suficientemente apertado para o jornalista considerar que o negócio «não é mau».

Ou seja, se tirarmos aos 125 mil euros os 510 mil que Walter recebeu só em salários o Porto perdeu quase 400 mil euros com o Walter.



- 2.ª talhada: três meses depois de comprar 75 por cento do Walter por 6 milhões de euros o Porto abdicou de 25 por cento por 125 mil euros, só para poder dispor de capital. Dizer que o Porto vendeu 25 por cento do Walter é um disparate, e dizer que ganhou 125 mil euros é uma barbaridade. Convém, quanto mais não seja, para que nos apercebamos do ridículo da situação, que se o Porto tivesse posto esses 6 milhões no banco ou pago uma parte do seu passivo que está a crédito teria ganho, só no primeiro ano, mais do que esse valor. Ou seja, se não gastasse dinheiro no Walter o Porto ganharia mais do que o dinheiro que supostamente ganhou ao vendê-lo. E já nem vou ao facto de o jogador ter sido vendido a uma off-shore inglesa e comprado através de uma off-shore futebolística que de futebolística só tem o nome. Também não quero dizer que é desta maneira que o Pinto da Costa, os Caldeiras e os argentinos se andam a encher à custa do dinheiro do Porto mas por acaso até quero. Como é óbvio. Qual seria a utilidade destes «entrepostos» senão para lavar dinheiro através das comissões ou outras falcatruas do género?



3.ª talhada: a hipótese do Cruzeiro pagar 4 milhões por metade do Walter, aparentemente, é suficiente para fazer disto um negócio decente para o Porto. «Empréstimo de Walter pode valer 4 milhões», diz o título. Faz lembrar aquele eufemismo que agora os Governos usam para enganar os palermas, quando os jornais dizem: «Portugal conseguiu vender dívida». Conseguiu vender dívida? Vender dívida é uma forma de dizer que pediu dinheiro emprestado, e neste caso a juros altíssimos. Se dissessem «Conseguimos enterrar-nos mais trinta centímetros nas areias movediças» estariam a ser igualmente verdadeiros e igualmente erróneos.

O empréstimo pode valer 4 milhões? Tretas! Se há uma certeza com este negócio é que o Porto não vai ganhar absolutamente nada, porque nem sequer conseguiu negociar uma opção de compra que lhe permita, se o jogador começar a jogar, ganhar um cêntimo a mais do que aquilo que gastaram para o comprar. Recebe o que pagou. Ou seja, é garantido que o Porto não vai ganhar absolutamente nada com o Walter. É este o bom negócio que o Porto acabou de fazer.

Nem sequer vou falar do dinheiro que o Porto perdeu ou do que deixou de ganhar com estes seis/quatro milhões que estão empatados (porque é essa a expressão real) no Walter, e que pode ficar empatados por mais três anos. Talvez fosse oportuno, por exemplo, perguntar ao jornalista José Carlos Sousa de quanto foi o empréstimo obrigacionista que o Porto fez há uns tempos, e qual o juro que praticou, para se saber quanto valem, exactamente, para o Porto, 4 milhões de euros.



Há uns tempos falei sobre a manipulação da imprensa pelos clubes, e este é um caso típico de como a fidedignidade da informação está totalmente pervertida pelo servilismo aos clubes.

Pegando neste exemplo claro, é bom que as pessoas fiquem completamente conscientes do seguinte:

- ao fazer isto o jornalista José Carlos Sousa não está ao serviço do jornal nem dos leitores: está ao serviço do Porto;

- a notícia é feita com o único intuito de branquear a actuação da Direcção do Porto, manipulando a linguagem da informação;

- esta notícia é feita para tentar, deliberadamente, enganar aqueles que sabem ler, partindo do princípio que eles não sabem ou não querem pensar. Estão a contar com a estupidez das pessoas. Quem não quer pensar, não pensa. Mas quem não pensa não se pode queixar de não lhe dizerem a verdade. A verdade está aqui. Só que está codificada, e para a descodificar é preciso estar disposto a isso, sabendo à partida que a fonte de informação é manipuladora;

- há José Carlos Sousas espalhados por todos os cantos de Portugal, Benfica e Sporting também os têm e também os usam, com as mesmas intenções. Benfiquistas e sportinguistas estão igualmente vulneráveis à manipulação se não estiverem dispostos a pensar naquilo que lêem e nas intenções de quem as escreve e quem as alimenta. Ou vocês pensam que os jornalistas tiram as histórias do cú? As fontes de informação deles são, sempre, uma parte interessada na notícia, porque a notícia vale dinheiro ou crédito político.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Já podem guardar o Lenzo

Acho que vale a pena não só pôr o Enzo no sítio, como titulava a mui orgulhosa Bola de hoje, como pôr a novela do Enzo no sítio.

Nesta altura o que é preciso é perspectiva, e o Jesus esteve muitíssimo bem ao dizer que o seu papel é recuperar o jogador.

Já chega de dramatizações e de choraminguices. Guardem lá o lenço.



A questão do Enzo Pérez é muito simples, e é esta:



Ponto 1 - O Enzo assinou pelo Benfica sem saber o que é o Benfica, e a culpa não é dele, pois todos os jogadores estrangeiros que assinam pelo Benfica não sabem realmente o que estão a fazer. Só percebem algum tempo depois de chegarem e não é graças à Direcção, que faz um mau trabalho nesse aspecto. Não basta o Rui Costa levar os rapazes a ver o museu. Era preciso mais. Gente preparada para isso. Acompanhamento próximo e qualificado. Um investimento de 5, 6 ou 7 milhões de euros em que a matéria adquirida é uma pessoa, e cujo sucesso depende de factores subjectivos e psicológicos, merece um tratamento altamente profissional e especializado. Uma pessoa não é um animal de carga, não é pôr a canga e mandar puxar. Se algum de nós assinasse por um Boca Juniors poderia realmente dizer que sabia o que estava a fazer?



Ponto 2 – O Enzo Pérez fez uma coisa excepcional, que foi bater com a porta, por puro vedetismo, porque pensa que é uma estrela. A tendência imediata é para punir essa pretensão dele. No fundo, todos queremos que toda a gente seja mais ou menos igual, e as pessoas e as situações excepcionais fazem-nos sempre confusão, a que respondemos, instintivamente, de forma conservadora, punindo, castigando.

O Enzo Pérez excedeu-se. Agiu de uma forma que não se coaduna com uma disciplina colectiva. É um facto. Mas eu gosto de jogadores diferentes. Eu gosto de excepções. Todos os grandes jogadores são, de uma forma ou de outra, excepcionais. Não se deve asfixiar a excepcionalidade. Deve-se alimentá-la. O Enzo Pérez pode nunca vir a ser um jogador excepcional, mas o simples facto de pensar que é é uma hipótese de grandeza que não deve ser estrangulada à nascença, antes explorada. Alguém pensa que o ego não é importante num profissional de futebol?



Ponto 3 – O Benfica fez o que tinha a fazer, até agora. Estabeleceu um limite. Deu-lhe uma palmada. Ele baixou as orelhas e cheirou a mão. Também fez o que tinha a fazer. Agora – ou depois da multa – é hora de lhe dar o doce.

Isso dos assobios, com todo o respeito, até pode acontecer, mas é treta.

Se as pessoas que trabalham no Benfica (incluindo o Enzo Pérez) fizerem bem o seu trabalho, daqui a um mês o Enzo Pérez está a jogar, daqui a dois é titular, daqui a três é a «arma secreta que estava lá dentro», torna-se no jogador decisivo da equipa, joga que se farta, e os que hoje dizem que «estes tipos não sabem o que é o Benfica» passam a dizer que «o Enzo aprendeu o que é o Benfica, ganhou humildade e passou a sentir a camisola».

Tretas.

Se isso acontecer não será porque o jogador sente camisola nenhuma mas exactamente pelas mesmas razões que o levaram a rejeitar o clube alguns meses antes: por orgulho. É assim mesmo que as coisas são.

Daqui a três meses o Enzo pode estar a ser glorificado pelo Terceiro Anel que actualmente o quer crucificar. Isso é o futebol. Há centenas de Enzos por esse mundo fora.

E é bom que todos os benfiquistas se consciencializem que, no futebol moderno, não há qualidade sem egos, e que é dos egos que nascem as estrelas. Um clube que não aprenda a lidar com as estrelas não tem futuro enquanto grande clube.

Sejam estrelas de pacotilha, como o Enzo Pérez, ou estrelas de primeira luminosidade, como o Cristiano Ronaldo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Aquilo é nervos

Como já não falo de Benfica, Porto e Sporting há muito tempo, hoje vou picar o ponto.  
O Hulk nunca tinha tido uma lesão muscular em nove anos.
Esta é uma das coisas mais impressionantes de que já ouvi falar no futebol. Além de tudo o resto, valoriza imenso um jogador, porque lhe dá uma fiabilidade sobre a qual se podem construir projectos. Em comparação, lanço a questão: qual teria sido o horizonte de sucesso de Pablo Aimar se não fosse um jogador permanentemente lesionado? Teria parado num Valência e num Benfica ou estaria destinado a jogar nos maiores?
Mas fora isto, vou ser mauzinho com a Criatura, para variar.


Já repararam que antes das grandes competições de atletismo, por exemplo, é frequente ouvirmos falar de febres, doenças súbitas, lesões, e um rol de maleitas exóticas, deste gota a aftas vaginais,  que mais parece um episódio do «Médicos por África»?
Parece tudo super-forçado, histórias da carochinha, um grande choradinho para justificar desaires, mas não é. Não é tanga. É verdade. Eles ficam mesmo doentes. É do stress.
O stress provoca doenças, em toda a gente, porque impede a regeneração celular. Está comprovado cientificamente. A exposição prmanente à tensão afecta os mecanismos de reprodução dos tecidos e orgãos, causa doenças e envelhecimento precoce.
No desporto, provoca lesões, e está demonstrado em estudos académicos que a boa disposição as previne.

Nos futebolistas isso não se nota muito, provavelmente porque são atletas habituados a desempenhar debaixo de pressão desde muito cedo, mas nos atletas individuais, por exemplo, que podiam passar por nós na rua sem os reconhecermos, quando a tensão começa a aumentar o corpo facilmente dá de si.

Pus-me a pensar nisto a propósito do Hulk. Pensei em quantas ocasiões nestes nove anos é que o Hulk terá estado realmente debaixo de um stress a que não esteja habituado.
Ora vejam: começa a jogar pela selecção do Brasil, um sonho que parecia afastar-se, e torna-se, de facto, um jogador global depois da época passada do Porto; vê o Benfica a dar uma luta que nunca tinha dado, realmente, e inclusivamente a ganhar superioridade num confronto directo, dando ideia de ser o favorito ao título; ouve, todas as semanas, propostas milionárias dos principais campeonatos do mundo, incluindo uma notícia da Gazetta dello Sport que diz que o próprio Guardiola o quer, sem desculpas, no Barcelona. Ora, em Janeiro, o que é que acontece ao Hulk? Sente uma picada.
Já nem falo na volta que lhe deve estar a dar à cabeça a sensaçã de que, afinal, é vulnerável.

Pode ser tudo coincidência. Ou não…

(Independentemente disto a simples frase «em nove anos nunca sofreu uma lesão muscular» devia ser obrigatória logo na capa do currículo que o empresário dele anda a distribuir por meia Europa)


Quanto ao Sporting, há uma questão que merece ser levantada neste momento em que até o cirurgião Barroso («na qualidade de presidente da Assembleia Geral», até me parto a rir com estas palhaçadas) já reconheceu que o objectivo do Sporting, desde o início, era chegar à Champions. É que o objectivo do Sporting não era só chegar à Champions. O objectivo do Sporting, no início desta época, era chegar à Champions pelo segundo lugar no campeonato.

O alvo do Sporting, durante o Verão, não era o Porto, então aparentemente intocável, nem o Braga, então aparentemente inútil dada a revolução no plantel e dado o facto de o Sporting já o ter conseguido bater no campeonato anterior e colocado na sua posição natural. O objectivo do Sporting era, afinal, o mesmo de sempre – aquilo a que se resume 80 por cento do critério de sucesso de uma época no Sporting: ficar à frente do Benfica. No segundo lugar que daria apuramento directo para a Champions.

Alguém tem dúvidas de que se só houvesse um clube a ser apurado para Champions no fim desta época o Sporting não teria gasto nem um terço do que gastou?

O alvo do Sporting era o Benfica.
E é por isso, novamente, que o Sporting está em crise. Se a ordem actual do campeonato fosse Porto, Braga, Sporting, Benfica, e acabasse assim, com o Sporting a ganhar a Taça, em Alvalade não haveria o sentimento de crise.
No Verão, depois da débacle na época anterior, o Benfica era a presa mais fraca, e a mais apetecível. O Benfica estava à mercê, e o Sporting fez o que tinha a fazer: avançou. Só não se esperava, como há três anos, este piparote. Esta ressurreição que é especialidade da casa.

À parte disto, o problema do terceiro lugar, para o Sporting, não é apenas ficar atrás do Benfica. É ter de começar a próxima época um mês mais cedo, o que pode ser determinante nas suas hipóteses reais de discutir o título.
O que o Benfica está a fazer esta época é verdadeiramente excepcional, por ter começado a competir muito antes dos outros – mas vamos ver se ainda não mordo a língua lá mais para a frente. Se conseguir ser campeão, e chegando pelo menos aos oitavos-de-final da Champions, depois de ter passado duas pré-eliminatórias da Champions e tendo como adversário interno um Porto vencedor de quatro competições na época anterior o feito desta equipa do Benfica será muito maior do que o de vencer o campeonato em 2009/10. É uma proeza não só a nível nacional como a nível internacional. Uma carreira longa e bem sucedida na Champions é, historicamente, incompatível com um bom campeonato, e este Benfica é (ou pode vir a ser, veremos) a excepção que confirma a regra.
Se tiver de disputar eliminatórias de acesso à Champions o Sporting vai passar pelos mesmos problemas que qualquer outra equipa passa, e comprometer seriamente as suas aspirações internas.


Finalmente, o Enzo Pérez.
Dizem que o Enzo Pérez vale 5 milhões de euros, que foi o que o Benfica pagou por ele. Pois eu, pelo que leio nos jornais de hoje, acho que o Enzo Pérez está na iminência de se tornar no jogador mais valioso da história do Benfica.

Ao dizer ao Enzo Pérez, ao empresário do Enzo Pérez, aos clones do Enzo Pérez, e aos empresários dos clones do Enzo Pérez que por aí andam que está disposto a pagar 5 milhões de euros para fazer valer um princípio, o Benfica está a valorizar o Enzo Pérez em 500 milhões de euros mesmo que ele nunca venha a ser titular do Benfica.

Se contabilizarmos os milhões que o Benfica vai poupar em jogadores que não vão aceitar vir para um clube em que se tem de ser profissional, mais os milhões que vai ganhar com os jogadores que não vão voltar a tentar este número quando não lhes fazem as vontades, mais os milhões que vai ganhar em valorização de jogadores por perceberem que estão num clube profissional, mais os milhões que vai ganhar por ser respeitado por empresários honestos e os que vai poupar por afastar os empresários desonestos, o Enzo Pérez está a revelar-se valiosíssimo.

Digo mais: a única coisa que falta ao Benfica para dar o salto qualitativo, em termos de cultura e, consequentemente, em termos de capacidade competitiva, é conseguir chegar ao plano dos princípios. Quando um líder, ou um conjunto gestor de homens, percebe que há princípios que estão – de facto, e não apenas de boca – acima do economicismo, está a dar o passo decisivo rumo à grandeza. Assim que se dá este passo, o resto vem atrás.


Talvez fosse pedir demasiado que se fizesse do Maxi Pereira um exemplo, mas o Enzo Pérez pôs-se mesmo a jeito.

É claro que se o Enzo Pérez levar a dele avante, esqueçam…

«É o Sporting… é o Sporting…»

Primeiro o jogo.


Confesso que não consegui ver como deve de ser, mas julgo que não erro se disser que o Sporting entrou a pensar no título e o Braga entrou a pensar no jogo. Isso pode não parecer tão importante como os onzes titulares, e as substituições, e as incidências do jogo, mas é. Porque, quando a bola começa a rolar, e sobretudo quando já rolou um bom bocado, as estratégias perdem-se e o que sobra são as ideias simples, as que estão lá no fundo da cabeça.

No fundo da cabeça, os jogadores do Sporting pensavam que estavam a jogar contra Braga, Benfica e Porto. No fundo da cabeça, os jogadores do Braga sabiam que estavam a jogar só contra o Sporting, e fizeram o que tinham a fazer neste jogo – defender bem, não sofrer golos, controlar o jogo, manter o ritmo e esperar pela oportunidade. O Sporting só pensou em ganhar. Fez mal. Se saísse de Braga com um empate ficava com a Champions (o seu único objectivo real) muito perto. A certa altura do jogo o Sporting, uma equipa veloz, ambiciosa, mas imatura, deveria ter pensado no resultado, controlado a bola e ter dado a entender ao Braga que quem tinha mais a ganhar neste dia, especificamente, era mesmo o Braga – porque era.

O Braga, a equipa mais matreira e experiente de Portugal a seguir à do Porto, matou o gatinho sem escrúpulos, com dois golpes secos. Começou a enganar o Sporting na forma como abordou o jogo e concretizou o ardil com a habitual estratégia de contra-ataque que só pode surpreender quem não a conhece dos últimos dois anos.



De um ponto de vista mais técnico, não há equipa no mundo que tenha a mínima hipótese de ser campeã com uma defesa composta por João Pereira, Onyewu, Alberto Rodríguez e Evaldo.

Zero.

A fífia colectiva do primeiro golo já é má, mas a forma como o Lima arranca dois metros atrás do João Pereira e aparece à frente do guarda-redes para marcar o segundo devia fazer corar de vergonha todos os que, há umas semanas, colaboraram na invenção de histórias sobre o interesse do Milan no João Pereira.
 

O Sporting chega ao jogo decisivo do seu campeonato com uma manta de retalhos a fazer de equipa.

Na defesa, o quarto central do início da época (Onyewu), o primeiro central, mas que já não jogava há semanas, e que tem um joelho estragado (Rodríguez), o lateral-esquerdo do ano passado (e isto chega para o definir) e o João Pereira, um exemplo de qualidade e estabilidade.

No meio-campo, um defesa-esquerdo a médio-esquerdo, um extremo-esquerdo a médio-direito, um pivô ofensivo (Matías) que joga aos bochechos e dois médios de cariz atacante a tentarem fechar o meio. O Choramingos diz que foi por causa das doenças, das dores musculares, também é um facto que há lesões importantes (sendo a de Rinaudo a mais importante de todas), mas há sobretudo opções, quer do técnico quer da administração.

E isso vê-se bem no ataque, onde um jogador com uma tipologia que o Sporting já não tinha desde Jardel chegou na terça-feira e tirou o lugar a dois (Bojinov e Rubio, desculpem lá contar com este, mas continuo a dizer que é o melhor) que andam lá desde a pré-época.



Do outro lado, todas as peças no sítio, os elementos nucleares a jogar (já sem o Vandinho, note-se, mas com os Alans todos lá dentro), em casa, um Braga em evidente crescendo de forma, como eu já vinha avisando (olha eu a fazer da Jasus outra vez…), frente a uma equipa tenrinha.

O jogo de Braga era um desastre à espera de acontecer. Nem sequer era grande palpite. Neste caso era mais lógica.



Agora, resumido o jogo, e considerando que já ninguém duvida que em Braga se ouviu o requiem por um candidato, vou dar graxa ao cágado. (Porque também mereço, caraças!)

Antes deste jogo escrevi aqui que este era um jogo importante, para o Sporting, na perspectiva do terceiro lugar, não do título. Acho que neste momento não há dúvidas disso. Mas já no início da época, quando estava toda a gente a ter orgasmos colectivos com «a grande vitória no mercado» por parte dos Freitas e companhias, escrevi que não me surpreenderia nada que o Braga acabasse o campeonato à frente do Sporting (que entretanto ainda não tinha Elias nem Insúa – já agora, nem o Rivas nem o Xandão, que daqui a dois ou três jogos, pelo andar da carruagem, está a jogar a titular).

Há umas semanas, quando o Sporting estava a dois ou três pontos dos primeiros e parecia que já tinha os jogos ganhos quando entrava no autocarro, escrevi que acabava a primeira volta a sete pontos do primeiro lugar. Tenho de me justificar. Errei por muito, porque não são 7, são 11 (e 9, não nos esqueçamos), mas só errei por quatro porque pensei que a primeira volta acabasse logo a seguir ao Ano Novo, e afinal ainda havia mais um jogo. Foi o suficiente para passar de 8 para 11.

Da mesma forma, escrevi que o Sporting estava totalmente afastado da luta pelo título logo após a terceira jornada. Como se prova agora, a candidatura aia já estava morta, só restava esfolá-la. E não o disse só por causa do Sporting. Disse-o por causa da concorrência. Mesmo com uma série quase inédita de vitórias, o Sporting nunca voltou a ter hipóteses, porque Benfica e Porto não lhas dariam hipóteses.

E aqui recorro a outro post, para identificar o momento do início do fim do Sporting. Escrevi, na altura, que o Sporting tem dois problemas históricos: o Benfica e o sucesso.

No dia em que jogou com o Benfica o Sporting estava a um ponto da liderança e no melhor momento da época. Arrisco-me a dizer que fazia figura de favorito, apesar de isso parecer agora algo exagerado.

O Sporting perdeu o jogo. Nos dois meses seguintes ganhou apenas dois jogos em sete, e vamos ver se não perdeu a época nos jogos com o Nacional e com o Braga. Ou seja, quem termina o sonho sportinguista e traz o Sporting à realidade, de facto, é o Benfica. Claro.

Estava tentado a dizer que a segunda mão da meia-final com o Nacional da Madeira é o jogo em que o Sporting vai começar a salvar o ano, mas tenho medo. Porque a bipolaridade do Sporting está para além de qualquer lógica. Há 95 por cento de hipóteses do Sporting ganhar a Taça de Portugal, e se o conseguir, com um terceiro lugar no campeonato, salva a época. Mas 5 por cento, no Sporting, significam 50 por cento.

Isto é o Sporting: «Onde 5 por cento podem ser 50 por cento.»

Ora, puxando destes galões, quero dar o meu palpite sobre o que vai ser o resto da época do Sporting, neste momento em que tudo parece terrível:

– com mais um ou dois soluços antes disso, o Sporting vai começar a resolver os seus problemas com a meia-final da Taça de Portugal, vencendo o Nacional na Madeira,  e com a eliminatória da Liga Europa. Por essa altura já voltou a encontrar o seu grande aliado desta época, o calendário do campeonato, que lhe vai dar tréguas até Abril e permitir-lhe recuperar quer qualquer atraso que entretanto tenha acumulado para o Braga quer a confiança das vitórias consecutivas. Não me parece que o Sporting chegue a 8 de Abril, à recepção do Benfica, com muito mais do que os actuais 11 pontos de atraso em relação ao líder. Não vai haver uma implosão, como nas duas últimas épocas.

– o Sporting vai chegar ao fim da época com um balanço positivo. Vai ganhar a Taça de Portugal à Académica; vai aproveitar o facto de receber o Braga em casa na última jornada para, à pele, acabar em terceiro e apurar-se para a pré-eliminatória da Champions; e vai desempenhar um papel fundamental na atribuição do título, nos dois jogos que lhe restam com Benfica e Porto – isto depois de ser eliminado da Liga Europa precisamente pelo Porto, digo eu.

- Carlos Duque não vai permitir que esta crise de Dezembro/Janeiro destrua o valioso plantel que tem. Vai blindar o balneário, proteger o treinador e esperar pela maré alta, até ao momento em que as vitórias regressem, daqui a mais ou menos um mês. Entretanto, ai aproveitar para escorraçar alguns dos abutres que vão aparecer, e para consolidar o seu poder interno, colocando o Godinho Lopes perante a inevitabilidade de o apoiar, mesmo contra alguns eventuais dissabores com a Juve Leo que Godinho tão ufanosamente vai tentando roubar a Bruno Carvalho. Vai ganhar dinheiro com um ou dois jogadores no Verão, contratar mais três ou quatro titulares entre a defesa e ataque, e surgir no início da próxima época como candidato real ao título. Como estava previsto, afinal.


Afinal, o que é que o Sporting perdeu hoje, realmente? Um jogo. O campeonato já estava perdido, e a Champions está tudo menos perdida. O orgulho dói, mas isso passa assim que se recomeça a ganhar.