quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Axel,o Eixo

O Benfica comprou Axel Witsel para jogos como o de Basileia – jogos de meio-campo, de disciplina defensiva e de transição rápida, jogos de resultado, para decidir por um golo, jogos, no fundo, de época.
Por isso decidi acompanhar o jogo da Suiça de uma perspectiva diferente: fiz uma estatística própria sobre o Witsel.

Aqui há uns tempos criei uma estatística – às vezes pareço mesmo o Mestre da Táctica a falar… - a que chamei de Estatística Compreensiva. O objectivo é usar a estatística de forma mais qualificada, traduzindo melhor o que os jogadores realmente fazem. A recolha, evidentemente, é muito limitada. Para fazer este tipo de estatística de todos os jogadores num jogo apenas seriam precisas umas sete pessoas. Mas para fazer de apenas um jogador, e com apenas algumas categorias, é fácil.

O racional da Estatística Compreensiva é o seguinte: um passe para o lado entre os dois centrais que vai, depois, para o lateral, e para o guarda-redes e assim sucessivamente, não é o mesmo que um passe que progride no terreno, ou feito na zona de ataque, ou que tenta desmarcar um jogador para marcar golo. Assim como uma recuperação de bola na grande-área do adversário não é igual a uma recuperação de uma bola perdida na zona defensiva.

Há uma série de categorias estatísticas que não usei neste caso, por não ser possível, mas aqui estão a que usei:

- Passes de progressão – é um passe que, de imediato ou no passe seguinte, resulta numa progressão territorial da equipa em direcção à baliza adversária;

- Passes de contenção – é um passe que não resulta nessa progressão imediata ou no tempo imediatamente seguinte;

- Intercepções/recuperações de bola – é isso mesmo: a recuperação da posse de bola pelo jogador;

- 1 contra 1 – todas as situações com bola, ofensivas ou defensivas, e com tentativa de progressão territorial. Um 1 contra 1 ofensivo ganho tem de resultar num avanço territorial sem perda de bola. Um 1 contra 1 defensivo ganho é o oposto, claro;

- Cabeceamento – para se considerar cabeceamento ganho ou perdido tem de haver uma disputa, ou seja, não vale aqueles toquezinhos à vontade, sem nenhum adversário à volta. Isso é um passe normal.

As acções englobadas nestas categorias são divididas, espacialmente, em três terços: terço defensivo, terço médio e terço atacante. Temporalmente, faz-se uma distinção entre as acções em situação de igualdade e em situações de vantagem ou desvantagem, assim como nos últimos 10 minutos de cada parte (que eu, desta vez, não fiz).

Como se torna evidente assim que se começa a recolher os dados jogo a jogo (que eu não faço, torne-se claro, porque dá um trabalho incomensurável e eu sou maluquinho mas não tanto), estas estatísticas só começam a servir para definir as características de um jogador ou, quando vistas em conjunto, de uma equipa, quando se acumulam em grandes quantidades e em muitas situações de jogo diferentes. É a única maneira de detectar padrões. De qualquer forma, desta vez, só por curiosidade, fiz uma só do Witsel e só deste jogo.

Antes de apresentar os resultados, uma dica para os emocionalmente mais instáveis: acompanhar um jogo do Benfica sob esta perspectiva, de estarmos concentrados num aspecto estatístico específico, faz optimamente aos nervos. Desviamos a atenção da parte fanática do cérebro para a parte mais racional e as emoções tornam-se mais suportáveis.

Dito isto, na primeira parte, onde a exibição do Benfica foi mais consistente, Axel Witsel fez 15 passes de progressão na primeira parte, quatro na defesa, oito no meio-campo e três no ataque. Falhou um no meio-campo e não tentou nenhum passe para remate.

Fez cinco passes de contenção, todos no meio-campo e todos após o 1-0, e não falhou nenhum.

Disputou quatro cabeceamentos (2+1+1) e em todos o Benfica ficou com a bola.

Recuperou uma bola na defesa (não em zona de remate) e duas no meio-campo e venceu a única situação de 1x1 que disputou, no ataque.

Fez duas faltas, ambas a meio-campo, e não fez nenhum remate.

Note-se que, em 21 acções de posse de bola e em ataque na primeira parte, Witsel perdeu-a uma vez.
 

Em termos de contacto com bola, a segunda parte de Witsel foi muito diferente e, antecipando já parte da minha leitura do jogo que ele fez, a sua estatística comprova as diferentes formas de utilidade que pode ter mediante as necessidades da equipa. Enquanto a primeira parte foi tão posicional como técnica, a segunda foi, fundamentalmente, posicional. Estou convencido que, se se visse aquela mancha de acção que a UEFA às vezes mostra, a da segunda parte seria mais ampla, pois aí a sua função foi mais de ocupar vários espaços que de ter a bola.


Na segunda parte, Witsel fez 10 passes: sete de progressão e três de contenção.

Dos passes de progressão, falhou três, todos a meio-campo, mas com a atenuante de dois deles terem sido na sequência de cabeceamentos ganhos em que tentou, imediatamente, pôr a bola jogável, com poucas opções de a segurar.

Disputou cinco cabeceamentos, todos a meio-campo, e ganhou quatro.

Recuperou uma bola a meio-campo e outra no ataque e tentou dois 1x1 a meio-campo e um no ataque (nenhum nos últimos vinte minutos do jogo), perdendo dois.


A segunda parte, estatisticamente, é mais modesta que a primeira, mas depois, no fim do jogo, vemos as estatísticas da UEFA e o que vemos? Jogador mais passador no Benfica: Axel Witsel, 39 acções entre passes normais e jogadas de cabeça (mais de dez por cento do total da equipa). Jogador com Maior distância percorrida no Benfica: Axel Witsel, com mais duzentos metros que Javi Garcia num total de 12.29 km.


O que eu vi, ao acompanhar detalhadamente o jogo de Witsel, é consistente com tudo isto.

Vi um jogador que joga nas três zonas do campo (meio-campo, ataque, defesa, por esta ordem). Vi um jogador que não entrega uma bola de barato – quatro perdas legítimas, em 39 acções, e nenhuma em acção defensiva ou na zona perigosa para a sua baliza. Vi um jogador que ganhou 90 por cento dos cabeceamentos que disputou. Um jogador que faz a bola e a equipa andar sem engasganços.

Vi um jogador que está sempre perto da bola, quer a atacar quer a defender – sobretudo, na segunda parte, a defender – que aparece no momento em que o adversário se prepara para aprofundar o jogo e que, por estar aí, o obriga a lateralizar. Witsel não tem muitas recuperações de bola nem 1x1 defensivos porque o seu oponente, com bola, opta por passá-la para o lado – não tem espaço para avançar. Ele é a verdadeira primeira barreira defensiva, na linha frontal do meio-campo.

Witsel é o verdadeiro jogador invisível, e a técnica é a menor das suas qualidades. Se eu tivesse de definir a sua exibição no jogo de ontem – e, consequentemente, as suas principais qualidades como futebolista – em duas palavras, escolheria disciplina e segurança.
Numa equipa de kamikazes sul-americanos, dá um jeito do caraças.


Em relação ao resto do jogo, gostei, além do resultado:

- do ar inteligente que o Jesus põe para pensar;

- do Rodrigo, em pleno jogo decisivo da Liga dos Campeões, a jogar à bola com o cérebro na
jogada do golo (para não falar do resto);

- do Artur (fónix!);

- da concentração defensiva.



Não gostei por aí além…:

- do Gaitán com cãibras aos 70 minutos de jogo (uii…)

- do Maxi a rasgar-se todo (pelo menos este problema fica resolvido: agora é que tem mesmo férias)

- do passe de 60 metros de um idiota qualquer para o Cardozo (destes ele fica com a bola 0 vezes em 350 tentativas) a jogar já com dez menos o Gaitán menos o Chuta-Chuta, a cinco minutos do fim (é esta deficiência cerebral que me deixa fora de mim – já sei, sou picuinhas…)

Quanto ao resto, o Benfica teve a sorte que mereceu, fez o jogo que devia fazer – o que é, repito, o mais importante na Liga dos Campeões (jogar como se deve jogar, sobretudo fora de casa, antes de se querer jogar bem) – e claro, mesmo sendo bem melhor que o Basileia, evidenciou o seu défice de classe, o que é perfeitamente natural.
Vê-se que está a tentar aprender a controlar o adversário e a fluência do jogo mas falta-lhe, ainda, muito instinto alfa.

Reconhecer o momento do jogo, dentro de campo, e atacá-lo como e quando deve ser atacado, como equipa, só é possível quando a qualidade se sujeita à pressão durante o período de tempo suficiente. Requer um ambiente específico (aquele em que tem estado a mover-se nas últimas duas épocas), continuidade no trabalho (que já existe) e talento (que nunca é suficiente…)

domingo, 16 de outubro de 2011

A 2000 chegarás

Se alguém me dissesse que o blog que comecei a escrever no meio das férias de Verão, por puro gozo e necessidade de desopilar os meus disparates sobre futebol, ia ter duas mil visualizações em dois meses, eu chamava-lhe maluco. Mas olha, aqui está: chegámos ontem às duas mil!

É pá, eu sei, duas mil visualizações é muito pouco, é uma pedrinha pequenina a fazer de marco, mas, porra, já é qualquer coisinha.

Acreditem numa coisa: já trabalhei num jornal que vendia dezenas de milhar de exemplares por dia e que era lido por centenas de milhar de pessoas, mas nunca senti, nessa altura, estar tão em contacto com quem me lia como agora com as 50 pessoas que diariamente vêm aqui dar uma vista de olhos ao que se está a dizer. A Internet, de facto, torna-nos (ainda que numa dimensão mínima) relevantes. Antes não percebia muito bem o vínculo – ia dizer o vício – mas agora percebo.

Além desse prazer de sentir que escrevo o que penso sobre o que gosto para alguém que existe, há outras duas coisas que me estão a dar muito prazer.

Uma é a qualidade do pessoal que cá vem: ainda não tive de eliminar nenhum comentário e não me lembro de ter havido alguém a ofender outra pessoa. Gosto muito disso, e tenho vindo a perceber que parece um ambiente raro na Internet. Desejo mesmo que continue assim, porque é sinal que toda a gente sai daqui bem disposta (ou pelo menos sem grandes azias), sem chatices, com um bocadinho mais do que o que trazia ao princípio. Se o preço para continuar esta boa onda fosse nunca passar dos 50 visitantes diários eu assinava já por baixo.

Outra é mais pela graça: nestes dois meses tivemos visitas, além de Portugal, de França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suíça, Angola, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Austrália, Rússia, Estados Unidos e Canadá. Acho um piadão a isto. Era giro chegar aí a uns cinquenta países durante o ano. Lá para Janeiro, se a Troika não coeçar a taxar os blogues entretanto,  talvez comece a colocar crónicas sobre o futebol na Malásia, ou na Venezuela, para ver se atraio os mercados alternativos…

Tenho alguma pena de não ter mais tempo para me informar e para pensar mais no futebol e nas coisas que andam à volta, sobretudo desde que recomecei a faculdade, mas se calhar é pelo melhor – não fosse o vício tornar-se destrutivo.
 

Duas mil palmadinhas nas costas para toda a gente e, antevendo já uma quase impossibilidade de postar alguma coisa amanhã, até terça, mais tardar, já com bola a sério. A propósito disto, se alguém tinha dúvidas de que o Manchester United decidiu meter a segunda na Champions é ver como o Ferguson, sem olhar pelo espelho retrovisor, pôs a equipa meio-B a jogar com o Liverpool para poupar os melhores jogadores para os bons rapazes da Transilvânia. Mais uma razão para se encarar o jogo de Basileia como decisivo nas (ligeiras, admitamos…) pretensões europeias do Benfica esta época.

Porque não... iniciados?

O que eu quero dizer é que enquanto no Sporting (e no Benfica, porque não dizê-lo?) os casos de espírito competitivo muito elevado são uma excepção à regra e resultam, aí sim, mais da personalidade dos jogadores que do método do clube – como se, no seu processo de formação, essa vertente mental fosse a menos importante para o clube – no Porto dá ideia de haver uma selecção competitiva mais apertada, ou seja, de se dar maior importância à capacidade de concentração, de entrega ao jogo, de disciplina mental, do que propriamente à parte técnica. O que não significa, em qualquer um dos casos, que haja ausência de preocupação, apenas que as prioridades são diferentes.
No Sporting o jogador talentoso e mentalmente hesitante é a regra e os Ronaldos (muito poucos) são a excepção.
No Porto, o jogador mentalmente mais apto para a competição e menos apto de desequilibrar tecnicamente é a regra e os Postigas são a excepção.
Se considerarmos um Futre, um Figo e um Ronaldo como jogadores à parte de todo o universo futebolístico português – seja Sporting, Porto ou Benfica – o quadro geral, penso eu, aproxima-se disso.
Mas é discutível, obviamente…

Em relação ao que custa, ainda é mais discutível, mas a minha ideia é a de que a formação do Benfica, entre prospecção, alojamento, salários, deslocações, águas e luzes, etc, custa cerca de 5 milhões de euros por ano (lembro-me de ter lido este número num jornal, há uns tempos, e de ter feito sentido). Mas vamos fazer por baixo: vamos pôr o número em 3 milhões/ano. São 30 milhões de euros em dez anos. Nestes dez anos (desde 2001) qual foi o grande jogador que o Benfica formou?

Vejamos se me faço entender. O problema do Benfica não gastar 30 a 50 milhões de euros em dez anos no futebol de formação – é gastar 30/50 milhões sem sequer conseguir formar um bom suplente, quanto mais um bom titular, quanto mais um grande jogador.
Admito que possa ter havido algum, mas desculpem-me, não me lembro - o que, por si só, já é significativo.

Qualquer processo que resulte numa perda de 3 a 5 milhões de euros por ano, sem retorno desportivo, é péssimo.

Mas também se pode pegar pelo outro lado. David Luiz custou 4 milhões de euros ao Benfica. Di Maria 6, Javi Garcia, 7,5 milhões, Gaitán 8,5. Ao rácio de 3 milhões/ano (que é mais, estou certo), o Benfica consegue formar um David Luiz por ano, ou um Di Maria de dois em dois anos? Ou até um Gaitán de três em três? Não é que sejam jogadores baratos, pois não são. Mas são jogadores de nível mundial, cujas transferências pagaram e pagarão o seu custo e ainda cobrirão despesas.

Evidentemente que por cada Javi Garcia pode acontecer um Balboa, isso é indesmentível e tem de entrar na equação, mas nesta perspectiva a leitura económica é a do resultado financeiro no fim da cada época e, sobretudo – não nos esqueçamos deste «pormenor» – o resultado desportivo.

Com Javi Garcia (+ Balboa) o Benfica não só não perde dinheiro como consegue estar na luta pelo campeonato e, eventualmente, ganhá-lo. Com a diferença entre o lucro de 10 milhões que Javi Garcia dará e o que Balboa custou (5 milhões) o Benfica pagaria uma época e meia de formação, da qual não tiraria nenhum jogador que conseguisse vender ou, sequer, que o conseguisse pôr a lutar por mais do que o quarto lugar do campeonato nacional.

Por tudo isto que eu disse pode pensar-se que eu sou contra o futebol de formação no Benfica. Não sou. É completamente ao contrário. Na minha ideia do Benfica a formação seria toda a base cultural e desportiva do clube. Digo mais: eu estruturaria todo o clube sobre as suas bases formativas. Já penso assim há muito tempo – sem me querer armar em «idiota», penso assim desde ainda antes de o Barcelona ter elevado a formação a cátedra. Formação é trabalho, o trabalho mais árduo porque envolve não apena recursos ma também arte. Qualquer clube que se construa em cima da formação é visceralmente saudável. Mas o Benfica não forma nada – e o Sporting, que forma mais que qualquer outro clube em Portugal, ainda assim não forma o suficiente, como eu defendi no último post.

Tudo isto parte de uma perspectiva pessoal, obviamente. Eu sou um darwinista. Não o sou por pensar que sou mais apto que os outros – não o suficiente para pensar que sou melhor, seguramente – mas porque a lei da sobrevivência dos mais aptos está de tal forma patente à nossa volta que a tomo como inquestionável.

Acredito que, no fim, os mais aptos prevalecem, e que é por isso que, por exemplo, no futebol, muitas vezes um jogador estrangeiro (pode ser um português no estrangeiro, entenda-se) se torna melhor que um nacional: porque é colocado perante uma adversidade maior e, com o desafio, recorre a mais capacidades pessois, que o tornam, no fim, mais forte que o que poucas vezes ou nunca foi desafiado.

Acredito que é sobre este princípio que o futebol está suportado, e, como tal, acredito que é pensando nisto que se deve formar um jogador de futebol.

No seu comentário, o Rui diz que a mentalidade pode ser trabalhada. Não discordo. Mas o ponto inicial é fundamental. Sim, pode-se pôr um miúdo que tenha uma perna mais pequena que a outra a correr os 100 metros – mas não se pode esperar, realisticamente, que algum dia ele venha a conseguir competir com um miúdo com as duas pernas do mesmo tamanho que treine tanto e tenha tanta vontade como ele.

Poder trabalhar-se a mentalidade competitiva, pode-se. Mas a primeira parte do trabalho consiste em eliminar, à partida, os miúdos que não tenham os requisitos mínimos. Não tenho nada contra eles – caramba, provavelmente eu ou os meus filhos não teríamos capacidade para competir ao nível que é exigido num Benfica, mesmo que tivéssemos jeito para a bola! – mas cada macaco no seu galho. Fazer desporto é uma coisa, fazer desporto de altíssima competição internacional é outra, completamente diferente.

Num grupo de animais, o que faz a força  do grupo é a selecção natural. Os mais fracos mal conseguem chegar a adultos, quanto mais fazerem filhos a alguém. Num clube de futebol a lógica terá de ser a mesma. É a selva, pessoal. Como disse, um dia, um treinador americano, «uma equipa é tão mais forte quanto mais forte for o seu elo mais fraco», porque é por aí que a equipa será atacada.

O que se vê, nos jovens que o Benfica forma, é uma quase total inaptidão competitiva de alto nível, mesmo que um ou outro até consigam dar dois pontapés seguidos na bola.



Deixo só uma provocação – um exagero, decerto, mas vocês perceberão o sentido – à vossa consideração. Onde é que é mais difícil entrar: nos Comandos ou no plantel principal do Benfica? E onde é que deveria ser mais difícil entrar?

Seria engraçado ver como as respostas divergiriam.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Juniores

O Sporting é o principal clube formador do futebol português. Os três melhores jogadores do futebol português dos últimos 30 anos foram formados, desde os iniciados, no Sporting – por ordem cronológica (inversa à ordem qualitativa, por sinal) Paulo Futre, Luis Figo e Cristiano Ronaldo.

Curiosamente, ou talvez não, dos três apenas Luís Figo começou e concluiu o seu processo formativo no clube. Futre foi para o Porto com 20 anos e Ronaldo para o United com 18.
O mais significativo, contudo, é que nenhum destes três jogadores se encaixa na matriz do jogador formado no Sporting. Os três têm personalidades atípicas – em boa verdade, são atípicas não só em relação ao Sporting mas também em relação ao futebol português, e até ao futebol de uma maneira geral.

Estes três jogadores foram, durante um período da sua época, os melhores do Mundo.
Sim, Futre também. Não esqueçamos que Futre (este Futre que os mais novos só conhecem da rábula do chinês e dos anúncios do Meo) só não ganhou a Bola de Ouro porque, enquanto jogava no Atlético de Madrid, conquistando nada mais que Taças do Rei, e numa selecção que não jogava fases finais de coisa nenhuma, sem máquina política e mediática atrás, Ruud Gullit jogava no Milão, com companheiros como Van Basten, Rijkaard, Baresi, Donadoni ou Maldini, onde ganhou a Taça dos Campeões Europeus, e na selecção holandesa também campeã da Europa. Em termos de qualidade pura, assumo-o: Futre estava para Gullit como Messi está para Ronaldo. Digo mais, à parte de Maradona (que acabou mais ou menos por essa altura), Paulo Futre foi, durante dois ou três anos seguidos, como Figo, o melhor jogador a actuar na Europa.

Futre, Figo e Ronaldo foram os melhores do mundo por causa das suas personalidades.

Futre era louco de extroversão, um carácter histriónico que o fazia ignorar qualquer regra de segurança. Tem de se ver Futre a atacar um defesa para se saber o que é agressividade ofensiva. Não me lembro de voltar a ver outro igual. Na relação técnica-velocidade-agressividade o jogador mais completo que já vi jogar.

Figo era um maníaco do trabalho. Talvez poucos saibam, mas, em iniciado, Figo era igual a dezenas de outros miúdos. Tinha mais jeito que os normais, mas menos que os fora-de-série. Tudo o que Figo conseguiu, do físico à finta, foi arrancado ao trabalho. Com essa confiança infinita no seu esforço tornou-se no mais perfeito médio-ofensivo dos tempos modernos. Menos talentoso que Zidane mas mais completo, mais forte, melhor tacticamente, até mais inteligente. Só o instinto natural era inferior. O facto de ser português, e não francês, inglês ou brasileiro não impediu o seu reconhecimento, mas limitou-o consideravelmente. Figo foi melhor do que o que os prémios que recebeu possam indicar. Colocar Beckham, por exemplo, no mesmo campeonato de Figo, como se colocou, só se justifica quando o futebol éentendido como 50 por cento de folclore e 50 por cento de jogo.

Ronaldo é uma espécie de up-grade de Futre depois de se incorporar a mentalidade de Figo com os benefícios do treino moderno. Fisicamente e em termos de versatilidade ninguém tem memória de um jogador assim, capaz de marcar cinquenta golos por ano a jogar a partir da linha lateral, capaz de correr mais que qualquer defesa, de ganhar uma bola de cabeça a qualquer central, de marcar livres, de fazer centros com ambos os pés de qualquer ponto do ataque, de rematar de qualquer forma, de ler o jogo e jogar mais depressa do que qualquer companheiro - e de fazer tudo isto em equipas diferentes, não nos esqueçamos. Ronaldo é uma máquina, mas começa por o ser dentro da cabeça.

O Sporting «deu» estes três jogadores ao Mundo, mas nenhum destes três jogadores representa, realmente, a formação, porque a verdade e que são três excepções num universo de dezenas de jogadores de matriz diferente.

No jogo de Copenhaga a Selecção jogou com sete jogadores formados, de facto, no Sporting: Rui Patrício, João Moutinho, Carlos Martins, Veloso, Quaresma, Nani e Ronaldo. Sete em catorze utilizados, cinco titulares em onze.
O Porto tinha dois – Bruno Alves e Postiga – e o Benfica um, João Pereira.

Vamos mais longe. Nos convocados para o último Mundial havia 5 jogadores formados no Sporting, mais do que qualquer outro clube, e não foram Moutinho e Quaresma.
No último Europeu tinha sete. No Mundial 2006 outros sete, e também não foram Moutinho e Quaresma.

Isto é um problema para Portugal por uma razão simples: o jogador à Sporting é um jogador macio. Tem sempre muita técnica (até os defesas), geralmente tem grande inteligência táctica, normalmente é disciplinado, sem se ligar muito ao físico (pode ter ou não ter, é relativamente indiferente, o que muda é o lugar onde é posto a jogar) mas, de forma geral, é macio. Convive perfeitamente bem com a derrota. Não está disposto a atravessar-se à frente de uma avalanche para não voltar a perder.

Há inúmeras evidências dessa lacuna mental ao longo da história. Podemos começar por Futre, mas se falarmos em Litos, Mário Jorge, Carlos Xavier, Morato, Fernando Mendes, Venâncio, Peixe, Quaresma, Moutinho, Varela e tantos outros encontramos dois denominadores comuns: um é a qualidade de base; o outro é o facto de só ter sido possível ver nesses jogadores um espírito competitivo acima da média quando (e não foi em todos os casos) se viram incorporados noutros ambientes, mais agressivos e mais exigentes. Mesmo assim, em nenhum desses casos estamos a falar de uma força mental que inspire, imediatamente, um sentido de liderança. Moutinho, por exemplo, é um operário incansável, mas não está, no espírito combativo, nem perto do nível de um André, Paulinho Santos, Jorge Costa, Fernando Couto, João Pinto e muitos outros.

A melhor prova desta deficiência será, contudo, a actual equipa do Sporting. Qual foi a solução encontrada pelos responsáveis para tentar aumentar o nível de competitividade da equipa até ao patamar de Benfica e, sobretudo, Porto? Basicamente, mandar às malvas a filosofia dos «jogadores da casa» e ir buscar estrangeiros. Actualmente, a formação do Sporting tem um jogador no onze: Rui Patrício – um guarda-redes que, provavelmente, não jogaria nem no Benfica nem no Porto nem em nenhuma grande equipa do Mundo. Os outros são suplentes e pouco relevantes.

Para o Sporting, este é um momento seminal. O seu futuro como clube formador está posto em causa a partir do momento em que se determina que os seus jogadores não são suficientemente competitivos para titulares da sua própria equipa sénior. O Sporting poderá passar a formar suplentes, e com isso, gradualmente, tomar o caminho de Benfica e Porto, que pura e simplesmente deixaram de se preocupar com a formação porque é mais barato ir comprar à América do Sul.

No caso do Benfica, não confio minimamente na chamada revolução do futebol de formação. Penso que estão apenas a fazer o que o Sporting já faz há vinte anos e que os resultados serão os mesmos: teremos, no Benfica, um Paulo Sousa de geração em geração, e poucos campeões genuínos. Se querem mesmo que lhes diga, penso que o único projecto racional e realmente inteligível na formação do Benfica durante os últimos vinte anos foi o de… Vale e Azevedo, que decidiu acabar com aquilo. Os outros são, pura e simplesmente, débeis, e meras repetições de modelos já usados, contra os quais o Benfica dificilmente poderá concorrer porque também dificilmente terá acesso ao talento de base.

Quanto ao Porto, tornou-se uma «escola de transição», um clube que, mais do que formar jogadores de raiz, se especializou na fase de passagem dos jogadores a patamar de alta competição. O que o Porto aprendeu a fazer muito bem foi a pegar em jovens talentos e educá-los especificamente na entrada no futebol profissional. Tem dificuldades, contudo, em Portugal, em detectar talentos, devido à grande rede de prospecção do Sporting (o maior activo do clube, na verdade, com um nome, Aurélio Pereira, que transforma dezenas de simpatias locais em milhões para os Bettencourts) e à sua exiguidade territorial relativamente ao Benfica. Dessa forma, passou a ir buscá-los ao «terceiro mundo» – onde se incluem os outros clubes portugueses à excepção de Benfica e Sporting.

A triagem principal em relação a um jogador da formação deveria ser o seu espírito competitivo. Um futebolista não joga futebol – um futebolista compete no futebol. E quem ganha é o melhor competidor, não é o melhor jogador.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um belo e estéril pântano

A Selecção vai ganhar o play-off e vai ao Europeu, onde vai passar a primeira fase e perder com a Espanha, a Alemanha, a Itália ou a França, por 1-0, 2-1 ou coisa do género. Vi o jogo de viés e não senti absolutamente nada quando sofremos golos ou quando marcámos. E eu sou dos que sofrem com a Selecção. Isto, para mim, quer dizer tudo sobre a selecção. Não sofri porque não sinto que aquelas pessoas me representem ou queiram realmente representar-me.
Atenção a uma coisa: não creio que a Selecção represente Portugal; acredito que a Selecção portuguesa representa o futebol português, o que é diferente. O futebol português, actualmente, é 70 por cento de estrangeiros entre os jogadores titulares dos clubes da I Liga e 85 por cento entre os quatros maiores clubes do campeonato. Achar que um Pepe, um Liedson ou um Deco não representam o futebol português é, perdoem-me, pateta. Para representar o futebol português,aliás, teria de haver mais um ou dois jogadores naturalizados na Selecção.
A Selecção representa-me não por eu ser português mas por eu pertencer, de livre vontade, à comunidade do futebol português.

À parte disto, a questão fundamental: o problema da Selecção Nacional nunca foi o talento de treinadores ou jogadores, o estilo de jogo, a componente física ou, sequer, os adversários. O problema da Selecção Nacional sempre foi um e apenas um, e, coerentemente, também é o mesmo problema do futebol português: o problema do futebol português e da Selecção que o representa é e sempre foi um problema de compromisso.

O homem de futebol português, do futebolista ao dirigente, nunca se comprometeu realmente com a Selecção, da mesma forma que nunca se comprometeu realmente com o futebol.
A relação do homem de futebol português com o futebol é uma relação de parasitismo, mais que se altruísmo. O jogador português, o treinador, o dirigente, o adepto português, não respeitam o jogo. Toleram a batota, desde que os favoreça, cultivam o anti-jogo, desde que os favoreça, e pensam sempre naquilo que o jogo lhes pode dar antes de pensarem naquilo que têm de devolver ao jogo. E assim que podem saem para onde tiveremem mais a ganhar, sem se importar de deixar a terra toda queimada atrás de si.

É esse défice de reciprocidade que torna o futebol português num pântano, e é por o futebol português ser esse pântano que o que dele nasce (a Selecção do que de melhor é gerado pelo futebol português) é, invariavelmente , uma experiência mórbida, algo que é apenas suportável e raramente agradável.

Que ninguém se esqueça, à entrada da chicane que vai dar à recta da meta de mais uma campanha internacional que acabará da mesma forma de praticamente todas as outras – sem grande relevância –, que o único período de sucesso relativamente continuado dos representantes do futebol português (entre 2004 e 2010) foi quando foram liderados por um estrangeiro, que não tinha nada a ver com o futebol português nem voltou a ter, e que teve a audácia de se comprometer a fundo e de comprometer com a equipa todos os que nela trabalhavam.

Saíu o elemento do compromisso – o mercenário, como lhe chamava o atrasado mental do Porto – voltou a Selecção ao ponto morto, dependente da inclinação do terreno.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O amigo de um amigo meu

Segunda-feira é o dia impossível, mas quero só dar uma achega a uma coisa que li de relance no site do Record – não tenho tempo nem vontade para comprar o jornal em papel. É a propósito do suposto «plano do Carraça», em que está incluída a contratação de um treinador-adjunto «do Benfica» para a equipa técnica.
Quero partir desta perversidade que é considerar que os que lá estão não são «do Benfica».

A perversidade justifica-se. A animosidade que os clubes criaram com os seus treinadores a partir do momento em que os acharam descartáveis leva, de facto, a que se considere que uma equipa técnica não «é» do clube, apenas «está» no clube transitoriamente. Isto é muito mais importante do que parece.

O facto de não haver um factor de continuidade técnica numa equipa de futebol é um motivo de empobrecimento. Há uma quantidade preciosa de informação e de aprendizagem que se perde sempre que uma equipa técnica sai de um clube.
A ideia do adjunto é apenas um «remake», não é originalidade nenhuma, é o Carraça a aproveitar uma coisa que já se fez no Benfica, por exemplo, com Fernando Caiado, Peres Bandeira e, na parte final, Toni. Fernando Martins, como presidente, fez isto até ao fim.

Seria, inovador, sim, criar não um novo posto mas um departamento técnico independente da equipa técnica, de carácter permanente, e altamente qualificado, que fizesse todo o histórico dos treinos, que recolhesse relatórios específicos dos treinadores, que analisasse, de forma metódica e sistematizada, o rendimento desportivo de cada jogador e da equipa ao longo da temporada. Um departamento formado por técnicos de futebol qualificados que permitisse uma passagem detalhada de informação de uma equipa técnica para outra, que tornasse possível compreender o que é que funciona, o que é que não funciona, porquê, e como se deve fazer para funcionar.
Seria a melhor forma, por exemplo, de aproveitar a passagem de um treinadorzinho como José Mourinho pelo clube… O que é que ficou de Mourinho no Benfica? Só a nostalgia. Do seu conhecimento, não ficou nada. Com Trapatoni, com Koeman, com Heynckes, idem. E com Jesus será a mesma coisa.

O futebol não é uma ciência oculta, é uma ciência, até, bem acessível. Além do factor talento – que existe e que é importante – a maior parte do futebol é trabalho, aprendizagem e transmissão de cultura, como qualquer outra actividade humana. A base do sucesso, no futebol, é o trabalho metódico. O talento faz o resto. Há, evidentemente, treinadores mais talentosos que outros. O objectivo do Benfica deveria ser contratar treinadores para aproveitar o seu talento, e não partir do princípio que o treinador que entra deve começar a construir tudo de novo.
O responsável pela criação de identidade e pela transmissão cultural dessa identidade numa equipa de futebol não deve ser o treinador, deve ser o clube.

É, também, por esta razão, que, se eu fosse presidente do Benfica, havia duas coisas que, de certeza, o treinador não poderia escolher: jogadores e adjuntos.
Em relação aos jogadores, os treinadores saem, mas os jogadores que eles escolhem ficam, e saem muito caros, quer pelo que custam quer pelo espaço que ocupam, impedindo que outros apareçam. Isso do «modelo de jogo» do treinador é uma treta maior que o fair-play. O modelo de jogo pertence ao clube, se o treinador quer um modelo de jogo que compre ele os jogadores e faça uma equipa no quintal.

Pela mesma lógica, andar com os amigos atrás para fazer equipas técnicas é das coisas menos profissionais que existem. É, mesmo, surreal. A pior coisa que se pode dizer em abono de um profissional é: «Escolhi-o porque o conheço muito bem, é meu amigo há muitos anos e tenho confiança nele.» É passar-lhe um atestado de invalidez.
Se o treinador quer ter à sua volta «pessoas da sua confiança» que contrate ele os amigos e faça reuniões técnicas em casa. No clube devem estar os melhores jogadores, os melhores treinadores e os melhores adjuntos, e a única confiança de que o treinador precisa é a do clube.
Ainda está por determinar qual é o prejuízo de um clube por ter de contratar, para trabalhar com jogadores altamente profissionais e qualificados, técnicos de segunda ou terceira categoria, cuja única aptidão profissional excepcional conhecida é ter feito amizade com um tipo que, por sorte, subiu na vida.

No desporto profissional americano, onde essa treta da confiança e da lealdade foi posta no devido lugar há muito tempo, os técnicos são contratados pelas equipas para ocupar posições específicas, e numa perspectiva de longo prazo. Um técnico auxiliar sabe que, ao entrar no corpo técnico, terá maiores possibilidades de vir a ser o técnico principal, e não há dramas, porque o processo natural é, ao fim de alguns anos, o técnico principal sair. É o mais natural que existe.
Um bom exemplo: Phil Jackson, o treinador com mais vitórias na história da NBA, ao serviço dos Chicago Bulls e dos Los Angeles Lakers, foi adjunto dos Bulls durante vários anos antes de pegar na equipa e ganhar aí seis campeonatos, com Michael Jordan.

É vulgar um adjunto de uma equipa ser contratado para treinador principal de outra, e vice-versa. Acontece regularmente principais passarem a adjuntos de anteriores adjuntos que entretanto se tornam principais. Porque o que conta é a competência, não são as «lealdades».
Acontece assim na NBA, na NFL, no basebol, no hóquei no gelo. Acontece assim, em suma, no desporto profissional evoluído – o que não é, entenda-se, o caso do bem marialvae conservador futebol português

domingo, 9 de outubro de 2011

Tão certo como os impostos e a morte

Há um conjunto de reveses a que o Benfica não vai conseguir fugir, e que fazem parte do percurso de qualquer grande equipa em qualquer campeonato do mundo.


A derrota

Em setenta anos (e isto num campeonato com apenas três equipas candidatas) só por duas vezes o campeão conseguiu não perder. Haver equipas a consegui-lo em anos consecutivos não seria impossível, mas quase. Tanto o Benfica como o Porto vão perder pelo menos uma vez. A questão não é se vão perder, mas como vão reagir, e em que circunstâncias vão perder.

Se eu tivesse de escolher um jogo para perder, teria duas alternativas: com o Braga, fora, a 6 de Novembro, ou com o Marítimo, também fora, a 11 de Dezembro – e isto assumindo que duas derrotas comprometeriam muito o campeonato e que só pode haver uma.

Em qualquer um dos casos, não seria uma derrota completamente surpreendente (uma derrota do Benfica é sempre motivo de histerismo, mesmo que aconteça todos os anos, mas há umas que provocam mais histerismo que outras), não seria contra um concorrente ao título, o que não provocaria desvantagem no confronto directo, seria mais fácil de encaixar devido ao valor da equipa adversária, e qualquer um destes jogos seria após um jogo europeu. Para mim, aliás, faz todo o sentido que o Benfica perca pontos em qualquer um destes dois encontros, e diria até mais: uma vitória em Braga, depois do empate das Antas, colocaria o Benfica, sem dúvida, à frente das apostas.

Além disto, perder aqui permitiria uma reacção e uma recuperação pontual, ao contrário do que aconteceria, por exemplo, se se perdesse dentro das últimas cinco ou seis jornadas, no caso de uma recta final ombro-a-ombro.



A quebra física

Todas as equipas a têm, sempre, e as que têm de começar a época mais cedo por causa das competições europeias ressentem-se mais do que as outras. Ficam sem gás. É uma evidência histórica.

A gestão do plantel pode ajudar Jesus a atenuar este problemas, mas não o resolve. Nada o resolve, aliás, porque é sobre os elementos nuclears, e não sobre os outros, qu o desgaste incide. Outra atenuante seria a eliminação de uma das provas secundárias, e incluo aqui a Liga dos Campeões – sobretudo, até, a Liga dos Campeões, uma vez que na Taça de Portugal e na Taça da Liga, geralmente, jogam os suplentes.

É quando houver a quebra física que se vai ver a qualidade do trabalho do treinador, porque nesse ponto vai faltar velocidade, potência e critério, e é aí que os automatismos e a capacidade de jogar com eficácia a um nível mais baixo se notam e fazem a diferença. Basicamente, estamos a falar da capacidade de ganhar a jogar mal, que é algo que qualquer equipa campeã tem de saber fazer – precisamente porque nenhuma equipa do mundo está fisicamente bem durante o tempo todo.

O ideal, para o Benfica, seria a quebra física chegar em Dezembro. Nesse mês só tem três jogos a sério: Marítimo (f), o Otelul (c) e o Rio Ave (c). Depois vem a pausa do Natal e o primeiro jogo a doer é só a 8 de Janeiro, em Leiria. É quase um mês de férias, comparado com Novembro (Braga, Sporting, Basileia e United).



O Inverno

Disto já falei ontem. Não lhe foge o Benfica nem lhe foge ninguém. A pausa de Natal, instituída recentemente (sem qualquer boa razão, acrescente-se), atenua bastante o efeito do Inverno, mas não o elimina, bem longe disso. O Benfica, este ano, tem a vantagem de praticamente não ter jogadores inadaptados ao clima europeu e de os seus principais jogadores já conhecerem o campeonato português nesta altura do ano – os campos mais difíceis, os adversários mais traiçoeiros. O famoso «conhecimento do futebol português» que leva a que as equipas já praticamente não contratem treinadores estrangeiros torna-se útil a partir do momento em que chega a chuva.



As lesões

Não há profundidade de plantel no mundo que supra a ausência de três ou quatro jogadores nucleares num onze, sobretudo na sua coluna vertebral. No Benfica há três jogadores que, pelas funções que desempenham em campo e pela falta de solidez defensiva, não podem faltar à equipa durante muito tempo: Artur, Luisão e Javi Garcia. São eles quem segura defensivamente uma equipa totalmente virada para o ataque. Não tem a ver com sistema nem com táctica, tem a ver com características e com qualidade. O ponto fraco do Benfica é a eficiência defensiva.

Num plano imediatamente a seguir, Garay, Aimar, Witsel e Cardozo não têm substituto à altura. Pontualmente, sim, numa sequência prolongada de jogos, não.

Depois há os jogadores extra, não-estruturais, mas sem os quais o Benfica não chegará ao título porque são eles que lhe dão a qualidade extra: Gaitán e Saviola.

Nenhum dos outros jogadores é indispensável.

Apesar de tudo, uma grande evolução em relação ao ano anterior, em que se chegou a sentir que os dois jogadores indispensáveis, tal a sua forma relativa aos outros, eram os dois defesas-laterais, Maxi e Coentrão. O que, obviamente, não pode acontecer num Anzhi qualquer, quanto mais num Benfica.



O mercado

Se o Inverno põe à prova a qualidade do trabalho do treinador e a vontade dos jogadores, o mês de Janeiro põe à prova a qualidade do trabalho dos dirigentes. Mais do que pelo que compram ou vendem, pelo controlo de danos.

Janeiro é o mês em que os jogadores pensam mais em dinheiro que em jogar futebol. Quem disser o contrário estará a mentir. Se Gaitán receber uma proposta do United a ganhar quatro vezes mais e disser que só pensa no Benfica está, pura e simplesmente, a mentir, independentemente do que diga nos jornais para não ser multado. O mesmo se passará com Luisão, Cardozo, Saviola, Aimar, Artur, Garay, Rodrigo, Nélson Oliveira, Mika ou qualquer outro – incluindo Jorge Jesus. Querer mais é a natureza do animal de competição, e ainda bem. Um futebolista satisfeito com o que tem é um empregado de escritório.

É nesta fase que a palavra do dirigente ganha significado. Se houver, da parte do jogador, uma consciência de que o que está acordado é para cumprir, é-lhe mais fácil resignar-se a uma decisão desfavorável.

Controlar os empresários, controlar os media – o que é mais difícil, no caso do Benfica, pois é, tradicionalmente, o alvo mais fácil da especulação – controlar os efeitos de cenários que não existem mas que põem os jogadores com a cabeça fora do campo é o grande trabalho dos directores. No caso do Benfica é de temer a inexperiência de António Carraça, um dirigente com pouca tarimba a este nível e que parece ser o responsável pelo acompanhamento da equipa. Vamos ver se não é um a menos em vez de ser um a mais.

Por outro lado, Vieira já tem obrigação de saber as linhas com que se cose.

Os ataques da propaganda portista e da guerrilha sportinguista não vão faltar neste período, Podemos esperar uma enxurrada de cenários nas páginas do Record, do Jogo e na Renascença. Vão vir contentores de propostas da China e vai haver resmas de jogadores insatisfeitos. Mas depois chega o dia 1 de Fevereiro e, vai-se a ver, o que sobra é um campeonato por ganhar e um contrato por fazer no final da época. Atingir esse 1 de Fevereiro sem danos irreversíveis e, se possível, com mais um ou dois trunfos dentro de campo, é uma arte.