sábado, 8 de outubro de 2011

'tumaticamente...

Quando o Sporting passou dezoito anos sem tocar na chincha o seu trauma mais conhecido era o do Natal. Agora já quase ninguém se lembra disso, mas na altura a coisa era de tal forma complicada que se chegou ao ponto de, no início da época, já haver quem dissesse nos jornais: «Este ano temos de Natal». E depois chegava o Natal e já iam com dez pontos de atraso. Mesmo quando o Sporting foi campeão, com o Inácio, a coisa no Natal ia muito tremida. Depois foram buscar três jogadores em Janeiro, tiveram sorte, e enganaram o Porto.

Os benfiquistas riram-se, mas depois chegou a vez deles. Das onze épocas (ou doze, já não me lembro) em que não ganharam o campeonato a maior parte ficou enterrada no Natal. E o processo era praticamente sempre o mesmo. Nas primeiras jornada havia um ou outro mau resultado, «nada de comprometedor», diziam os responsáveis – o que até podia ser verdade se, depois, nos primeiros jogos de Dezembro, não houvesse mais dois ou três atascanços seguidos que, no espaço de 15 dias, deixavam a equipa a uma distância de dez pontos de atraso, com meio campeonato para jogar. A consequência era uma desmoralização que levava, depois, aos esticões de quinze e vinte pontos com que se chegava ao fim. E assim se criou o fantasma do Natal presente.

Nada disto acontecia por acaso, assim como não é por acaso que se diz que o futebol é um desporto de Inverno, apesar de em Portugal muito mais de metade dos jogos serem jogados a seco ou com calor.

Em Dezembro há uma convergência de dois factores de ordem física que fazem com que comece aí o «sim ou sopas» da época desportiva: por um lado a frescura física que vem da pré-temporada já acabou (até 1 de Dezembro o Benfica terá realizado 20 jogos em pouco menos de quatro meses, com alguns decisivos pelo meio); por outro, chega o frio, o vento e a chuva e a exigência física passa para o dobro de um momento para o outro. Ora, o futebol, apesar de poder parecer ser sobretudo um jogo técnico (especialmente visto pela televisão), é iminentemente um jogo de pernas, em que a capacidade física vale oitenta por cento do resultado, para não dizer mais. No futebol, tudo, dos pés ao cérebro, obedece ao pulmão.

É por isso que o Natal separa o trigo do joio, porque até ao Natal o desempenho de uma equipa é conjuntural, e daí para a frente é estrutural. Só quem tem estrutura, base, é que suporta o choque. O Inverno é a época do ano para os verdadeiros profissionais – para os que vão trabalhar mesmo quando não lhes apetece, para os que fazem sempre mais um bocadinho do que o que lhes é pedido, para os que encontram truques para disfarçar as insuficiências, para os que não perdem tempo a pensar nos problemas mas a arranjar soluções. No fundo, para os que resistem.



Há uns anos, o Toni falava nos automatismos. Ninguém levava o Toni a sério, no fundo, porque o Toni nunca foi treinador de futebol, foi um treinador do Benfica, alguém cujo único grande talento foi ter compreendido a natureza do clube e aprendido alguma coisa, empiricamente, com todos os grandes treinadores com quem trabalhou. Os automatismos, para o Toni, eram como o Santo Gral. Para um adepto vulgar, os automatismos eram uma treta.

O que é um automatismo e porque é que o Toni adormecia a pensar neles? Porque o Toni, como todos os jogadores de alta competição, sabia que, a partir de certo ponto de um jogo e de uma época, nomeadamente nos momentos de maior pressão, a condição normal de quem está dentro do campo com uma bola à frente é de aflição. Um homem fica à rasca. Está cansado, não consegue pensar como deve de ser, tem à frente onze tipos igualmente à rasca, à volta 50 mil tipos que se estão a cagar para o facto de ele estar à rasca, e não só tem de enfiar aquela porcaria numa baliza que está a cinquenta metros de distância como tem de impedir que os outros lho façam a ele. O único verdadeiro papel de um treinador de futebol é ensinar aos jogadores uma saída para essas situações. O resto é folclore, chicletes e penteados.
O futebol é muito lindo, apaixonante, sensacional, mas, para um jogador de alta competição, é, acima de tudo, o medo e a forma de lidar com ele.

Um automatismo é uma coisa que uma equipa aprendeu a fazer sem pensar. É um desenrascanço. Uma pequena rotina de corrida e passe que lhe permite libertar um jogador e dar-lhe dez metros de liberdade condicional e dois décimos de segundo para pensar. É o suficiente para aliviar a pressão. Quando uma equipa consegue encadear uma série de pequenas rotinas o efeito multiplica-se, com uma perversidade adicional: não só a equipa que as faz se liberta da pressão como, ao fazê-lo, coloca sob maior pressão a equipa adversária. Se esta não tiver os seus próprios mecanismos de desenrascanço, está feita.

O que permite a uma equipa jogar a alto nível – a alto nível há SEMPRE pressão – não é o talento, são os automatismos. O talento permite-lhe ganhar a outras equipas igualmente mecanizadas. Mas sem os automatismos não há sequer a oportunidade de atingir o nível em que o talento decide o resultado. Antes de chegar lá a equipa perde o controlo de si própria.
É por esta razão que equipas de alto nível não só se mantêm ao mesmo nível alto durante muito tempo como, ao longo dele, mesmo ganhando, o seu jogo se torna rotineiro, quase maçudo, a gasóleo, sem grandes erros nem grandes rasgos, mas com resultados.

Equipas como o United, o Porto, o Barcelona, um Lyon e alguns outros distinguem-se, mais que pela capacidade de refulgirem permanentemente em campo, de muito raramente descerem de um certo patamar técnico, físico e de concentração, o que lhes permite resistir quando os outros sucumbem à pressão. Resistir é o primeiro passo. O segundo é, depois, jogar com o talento. É por essa razão que, geralmente, as finais da Liga dos Campeões, ou dos Europeus e Mundiais, são uma estucha – porque o grande valor daquelas equipas são as rotinas. Durante 85, 86 minutos elas anulam as rotinas umas das outras, tentando encontrar a nesga por onde o talento e a inspiração desse dia possa decidir o resultado, geralmente por 1-0, 2-1 e pouco mais. É, também, por isso que um Messi vale dez vezes mais dinheiro que os outros – porque tem um gene de diferença que os outros não têm.

No Benfica, a questão não é tanto a existência de automatismo, pois esses automatismos já começam a existir. Aí, a questão é mais a natureza dos automatismos.
Ao contrário do Porto, onde o espaço para a liberdade criativa é muito restrita a um certo de locais do campo e a certos momentos do jogo, no Benfica Jesus apostou, desde o início, num tipo de automatismo mais arriscado, mais veloz, tão baseado no entendimento momentâneo dos jogadores que fica muito perto de não ser automatismo nenhum mas apenas uma invenção do momento.

Ao contrário do Porto, onde a ideia é «isto só pode sair desta maneira» e o resultado é sensivelmente sempre o mesmo, no Benfica a ideia é «vamos ver se isto pode sair desta maneira» e o resultado é mais imprevisível. O que não quer dizer que o Benfica já não tenha formas automáticas de inventar algum espaço para os seus jogadores. Demorou, e vai demorar, é mais tempo a interiorizar.
O 2-2 das Antas prova que não há uma fórmula prevalecente quando os automatismos atingem um certo nível de funcionamento. Os ingleses têm automatismos, como os italianos os têm e, apesar de serem estilos de jogo completamente diferentes, ambos encontram ou encontraram espaço para ganhar, à sua maneira.

O Porto optimizou os seus automatismos para atingir resultados sem ter de recorrer a grande talento. Nos últimos anos, à medida que tem ganho a capacidade de comprar mais talento, tem vindo a mudá-los lentamente, tornando o seu jogo um pouco mais aberto e mais fluído.
O Benfica começou a construir os seus mecanismos automáticos com Jesus. Antes disso era o marasmo. Ao fim de dois anos, já atingiu um nível a partir do qual não desce. Ainda é um nível mais baixo do que o do Porto. Há momentos, de maior pressão, em que a coisa ainda emperra seriamente. É mesmo assim. É por isso que é preciso tempo. Os budistas dizem que aprender é conseguir deixar de pensar antes de agir. Toni não o diria melhor.

O pensamento do Porto é mais defensivo, mais fechado. É, sem dúvida, mais seguro, mas tem menos espaço de expansão, não deixa grande margem de conquista. Por isso é que o Porto, mesmo ganhando, não tem uma equipa que, pelo seu estilo, marque uma época. O Porto vai demorar muito tempo a cair, porque está blindado da cabeça aos pés – aproveitando o que o Pinto da Costa disse, vamos mais facilmente vê-lo apodrecer aos poucos que assistir ao seu funeral. Mas também já não vai a lado nenhum. O que conseguiu é o máximo que pode conseguir. Não tem espaço suficiente para o talento. Não pensou nisso. Se calhar porque não pôde, se calhar porque não fazia sentido na altura.

Já o estilo do Benfica é, parece-me, mais condizente com o de um grande clube europeu. Os grandes são-no porque têm acesso ao talento. Criar um estilo de jogo automatizado em que se conte, à partida com a existência e a necessidade de talento é, na minha opinião, apenas, melhor. O Benfica nunca conseguiu renunciar ao talento. Como teve um dos melhores futebolistas de todos os tempos – apesar de ter ganho a sua primeira Taça dos Campeões sem Eusébio, e graças, sobretudo, aos automatismos, é preciso notá-lo – aprendeu a compreender o brilho das estrelas, e nunca mais lhe conseguiu fugir. Faz parte da sua natureza, de tal forma que, nos seus piores dias, a primeira solução em que pensava, mais que no colectivo, era no talento, no messianismo, no jogador «que nos vai salvar». João Pinto, Nuno Gomes, Rui Costa e outros viveram, no Benfica, esse tempo de esperança vã. Vã porque o problema não era de talento, era de mecânica. Sem automatismos, sem tempo, o talento não tem espaço para aparecer. O talento nunca faltou. A equipa sim.

Mas agora o Benfica encontrou o seu ponto de «fissão nuclear». Compreendeu a importância das rotinas sem negar, à partida, a inevitabilidade do talento. Creio que, com o tempo, se o trabalho se mantiver honesto e inteligente, o Benfica terá mais condições de seduzir as pessoas que o Porto, quer interna quer externamente. E, consequentemente, de ficar melhor com o futebol do que o Porto – um clube que, ao fim de trinta anos, transmite a ideia de ganhar «apesar» do futebol e não tanto «graças» ao futebol. É por isso, e não por mais nada, que o futebol, de uma maneira geral, não vai muito à bola com o Porto.

Esta época, como em nenhuma outra nos últimos anos (porque só agora se pode dizer que o Benfica começa a ter um estilo consolidado), vamos assistir ao confronto entre duas ideias de futebol. De que o Porto ainda é mais forte, não tenho dúvidas. De que o seu futuro é muito mais curto, também não.

Isto tudo era para dizer que chegou a altura do Benfica começar a pensar no Natal, mas pronto, talvez me tenha esticado um bocadinho... É melhor deixar para amanhã.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Eu vi um sapo...

Ando há uns tempos para escrever um post sobre o que o Jesus fez pelo Benfica e o que já não vai ser capaz de fazer (não é por não querer, é por não ser capaz). Ficava bem nesta onda de encarnadices, mas hoje ainda não dá. Entendam, é que o Jasus é um cromo tão grande que requer atenção especial.
De qualquer forma, estive a ver o Confessionário do post de ontem – espero que não achem Confessionário uma onda demasiado Big Brother, ou de mau gosto, mas é que faz tanto sentido, num blog chamado Religião Nacional, chamar Confessionário ao cantinho dos comentários, que não resisto (fazemos assim, se for má onda, digam-me e façam de conta que eu não escrevi nada disto) – e há lá duas coisas que merecem um Padre Nosso.

Em relação ao Roberto, o Rui tem toda a razão, ele não foi o jogador mais caro na história do Benfica. Mas é que pareceu mesmo! Aqui está a prova de como um mito ganha vida própria. Ouvimos falar tanto de quanto custou aquele barrete que acabamos por criar ideias fictícias.
Bom, como atenuante, ninguém tem dúvidas de que, na relação qualidade-preço, foi o mais caro. Apesar de termos por aí alguns Balboas… É melhor estar calado.

Ficamos assim: se considerarmos que em Portugal ninguém compra guarda-redes estrangeiros a não ser a preço quase zero ou em final de carreira, e chegarmos a um câmbio de 1 para 4 entre guarda-redes e jogadores de campo o Roberto custou para aí uns 35 milhões de euros «reais».
Porque é exactamente isso que sentimos que ele custou.


O Xirico coloca uma questão que eu próprio ando a tentar processar há muito tempo: que história é esta do Benfica com o Fernando Gomes?

Acho que não consigo processar porque não temos nem metade da informação. Não sabemos o que eles sabem.
O que é que podemos dizer que sabemos?

1 – O processo de saída do Porto foi, no timing e nos actos, mais do que suspeita. Recordo que ele sai da SAD do Porto precisamente no momento em que o Porto deixa transparecer, no meio da fúria do caso do túnel, que iria reagir a uma suposta tomada dos órgãos de poder por parte do Benfica.
Com Hermínio Loureiro e a cúpula da Liga alegdamente contra o Porto (ou pelo menos, o que me parece muito mais real, dispostos a perderem-lhe o respeito e a não o tratarem com o estatuto especial que o clube adquirira ao longo de duas décadas), tive a sensação nítida de que o Porto estava a preparar uma revolta, quer no plano técnico (como aconteceu), quer nos bastidores. E teve muito tempo para a preparar, pois no Natal já tinha o ampeonatoqase perdido. Teve tempo para ir roubar o Moutinho, com jeito, ao Sporting, e teve tempo para planear as coisas do lado de fora do campo.

Comecei a ver Vítor Baía a afastar-se sem razões aparentes, outros nomes a aparecerem e, de repente, o número 2 do Porto decide que está cansado, ou que está contra o que se gastou num barrete qualquer (como se já não tivesse compactuado com dezenas de outros barretes iguais), e deixa a SAD para tirar férias.

Coincidência das coincidências, a poucos meses das eleições na Liga.

Outra coincidência: quem é que os clubes da II Liga decidem que é o homem providencial para tomar conta do futebol português? Precisamente o homem providencial que, felizmente, agora estava desempregado.

Já referi neste blog que não acredito em coincidências, não disse?



2 – O Fernando Gomes era mesmo o número 2 do Porto. Não mandava nada no futebol? Talvez não. Mas sabia tudo sobre o dinheiro num clube em que o dinheiro corre a rodos e em que, entre a nascente e a foz, fica branquinho como a roupa na música da Beatriz Costa. No Porto toda a gente mama, desde a Fernanda do Jorge Nuno até ao mais miserável presidente de um Medellín qualquer na Colômbia, passando pelo Araújo da fruta. Tanta falcatrua dá trabalho, e implica ter pelo menos uma pessoa que saiba onde estão os cordelinhos todos, para não haver barraca com a Justiça. Essa pessoa, no Porto, era o Fernando Gomes.

O Fernando Gomes era uma espécie de contabilista do Al Capone. Não sei se sabem, mas o Al Capne, que matou e mandou matar centenas de pessoas, acabou por ser preso por fuga aos impostos, tal era a rede de terror e de influências que criou em seu redor. Se há uma pessoa que pode pôr o Pinto da Costa na prisão é o Fernando Gomes - o homem que se prepara para ser presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

É esta pessoa, um indivíduo de extrema confiança de Pinto da Costa, que passou por toda a tarimba interna do Porto, do basquetebol até à alta finança, que, de um momento para o outro, decide que agora ele é que é o presidente da Junta.



3 – Quando Benfica e Sporting se preparavam para lançar um candidato conjunto à presidência da FPF, concretizando uma frente comum que seria, potencialmente, a tomada de posição mais revolucionária do futebol português desde os anos 70 (haveremos de voltar a este ponto noutra oportunidade), quem é que aparece do nevoeiro? O homem providencial, novamente embalado pelos clubes da II Liga.

Reparemos que, neste país, nunca nenhum clube da II Liga se atreveu, sequer, a dar um traque, e agora, de um momento para o outro, assistimos à tomada da Bastilha pelos esfarrapados, finalmente convencidos do seu enorme poder. Que conveniente. Precisamente no momento em que a Federação, graças aos novos estatutos, volta a ser relevante e a deter o poder sobre os árbitros.

Felizmente para os clubes da II Liga que as Associações de Futebol do Porto (agora liderada pelo notável e polivalente Lourenço Pinto, advogado de Pinto da Costa, ex-presidente do CA da FPF e cúmplice de fugas para a Galiza) de Braga e de Coimbra atrasaram o processo de aprovação dos novos estatutos até além de qualquer limite razoável, dando, assim, tempo a Fernando Gomes para confirmar as suas capacidades de liderança invulgares na presidência da Liga, e para fazer o seu tirocínio no dirigismo institucional.



4 - O Benfica não parece apenas interessado na eleição de Fernando Gomes: parece demasiado interessado. Estupidamente interessado. Com uma inocência tão grande que até faz impressão. Já disse aqui mais de uma vez: quando assisto a gafes demasiado óbvias tenho a tendência para pensar que ninguém é assim tão estúpido, e que ali deve haver gato.



Muitas hipóteses se levantam.

Será que Fernando Gomes realmente traiu Pinto da Costa? Que decidiu que ia tomar conta da bola nacional e que Pinto da Costa não se manifesta por ter o rabo preso, por Gomes saber demais?  silêncio do Porto neste processo é claramente estratégico. Tratar-se-á de um recuo ou de um ardil?


Será que Vieira encontrou em Fernando Gomes a vulnerabilidade na blindagem portista, o traidor, o bufo, o contabilista do Al Capone, o homem de quem precisava para começar a minar o poder instalado no sistema?
 

Será que Fernando Gomes é, como sugere o Xirico, um «Junot» de António Oliveira, a verdadeira eminência parda na corrida pelo poder no Futebol Clube do Porto, um homem suficientemente brilhante para pensar a longo prazo e com a lucidez para entender os momentos, as correntes e os epifenómenos deste jogo?
 

Será que as coisas possam ser tão simples como parecem? Que, de facto, tudo é tão básico como um plano de Pinto da Costa para retomar o poder nos órgãos dirigentes do futebol português, e que Fernando Gomes está a conseguir enganar o Benfica – ou a jogar tão bem que lhe rouba qualquer espaço de manobra?
 

João Querido Manha, no Record, há uns tempos, após o anúncio da candidatura (e da futura vitória) de Fernando Gomes, tornava claro que acreditava que tudo isto é apenas a operação final de branqueamento de conduta por parte de Pinto da Costa, uma forma de acabar de apagar, dos livros de história e na opinião pública, a todos os crimes factuais e éticos que o Futebol Clube do Porto e o seu presidente cometeram para atingir o domínio do futebol português. Depois de conquistada a subserviência da imprensa e dos adeptos, muitos deles novos demais para conhecerem a verdadeira perfídia do polvo, depois de conquistados os políticos e as suas instituições, a eleição do todo-poderoso presidente da FPF seria, enfim, a forma de encerrar a completa portização do futebol nacional.
 
Atirar um palpite aqui seria jogar aos dados. Racionalmente, podemos dizer muito pouco. Como já disse uma vez, precisamos de tempo, de concretização, para saber exactamente o que se está a passar neste surreal e meteórico processo de ascensão de Fernando Gomes a dirigente máximo do futebol em Portugal.

Há, para já, pelo menos, uma conclusão que julgo poder tirar: Fernando Gomes saiu do Porto, deliberadamente e em devido tempo, para tomar conta da Liga.
Seguindo um plano do Porto ou um plano particular? Ainda não podemos saber.
Sabendo já do apoio de Sporting e, sobretudo, Benfica? Também não podemos saber, mas duvido muito.
 

O que me diz a tripa (que palavra tão apropriada)? Diz-me que, se eu fosse presidente do Benfica, não engolia.
Mas eu não daria um grande político. Tenho pouco daquela capacidade de engolir sapos para depois cuspir tubarões. Os meandros desta história macabra devem ser tão sinuosos que só mesmo o Vieira e os seus conselheiros estratégicos têm os dados todos na mão.
 

Os mais velhos, como eu (não sou muito velho mas tenho idade suficiente para conhecer a peça há trinta anos), sabem que há uma verdade incontornável em Portugal: não se pode confiar em Pinto da Costa. Nunca. Da mesma forma que, na fábula, o sapo não devia ter confiado no escorpião. Mesmo matando-os a ambos, a meio do rio o escorpião vai ferrar o sapo. É a natureza do animal.


Continuo a ter a sensação forte de que estamos a assistir a uma encenação entre dois cínicos a tentarem ser um mais esperto do que o outro, a ver quem é que consegue enganar quem, quem é que consegue levar o bluff mais longe – o Porto a fingir que não apoia, quando é óbvio que apoia (e tendo o cuidado de não desapoiar, o que seria o mais normal em caso de traição, porque a traição, no Porto é vingada com um furor siciliano); o Benfica a fingir que apoia, quando só está à espera da melhor oportunidade para puxar o tapete e jogar qualquer eventual trunfo que tenha na manga, ou então para apresentar a factura.


Pela corrente histórica, e sem conhecer todos os factos, eu diria que o provável vencedor desta guerra será o Benfica. Em termos de linearidade, é a sua vez de subir e a vez do Porto descer. Mas isto é apenas teórico. Na prática,  a teoria pode ser outra.
(Notemos aqui, como curiosidade, uma nova secundarização do Sporting, que parece pagar o preço de ter uma equipa directiva com falta de tempo de jogo, de ter passado demasiado tempo a ver os outros em guerra. Agora que é preciso puxar do fuzil não se lembra muito bem de como o usar.)

De que tudo isto é uma grande de uma filhadaputice, no entanto, não tenho a mínima dúvida.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O campeonato que Roberto já não ganhou

Comecei a tomar algumas notas sobre aquilo que ontem disse que ia escrever e, quando dei por isso, tinha aqui matéria para uma edição especial da National Geographic. Então dei uma de Professor-Manuel-Sérgio-aconselha-Jorge-Jesus sob mim próprio e disse-me: «Hugo, tens de ser sensato. As pessoas precisam de dormir à noite.» Ouvi a voz da minha consciência e conclui que o melhor seria dividir a segunda parte do meu devaneio em dois ou três segmentos. Dessa forma torna-se menos maçudo e temos (tenho eu, pelo menos…) duas ou três vezes mais prazer.

Ontem, o Xirico deixou um comentário a falar de banho de realidade. Achei interessante, por isso hoje vou falar um bocado sobre ilusões, mitos e realidade.

Os mitos não são uma invenção contemporânea. Muito pelo contrário. O Homem sempre procurou uma narrativa que o fizesse acreditar que estava protegido pela Fortuna. No fundo, acho que é porque o Homem percebe a sua verdadeira fragilidade, a quase irrelevância do seu esforço no desenrolar do destino, e precisa de se sentir especial.
Não vamos mais longe: o slogan que o Porto escolheu para vender bilhetes este ano foi: «Este é o nosso destino». Vamos ver que destino é esse daqui por três ou quatro anos…

Os mitos têm sempre uma parte de verdade e outra de ilusão.

A figura da loba que aparece no emblema do Roma, por exemplo, vem da lenda da fundação da cidade. Diz essa lenda que Rómulo e Remo foram encontrados e amamentados por uma loba, e que, mais tarde, vieram a fundar Roma.
É verdade e é mentira.
Essa história, encomendada pelo imperador Augusto setecentos anos depois da fundação (faz lembrar a laracha da fundação do «Foot-ball Club de Chá do Porto»…), dourou bastante uma pílula que era bem mais difícil de engolir. Rómulo e Remo foram criados por uma «loba», é verdade, mas essa «loba» era, na verdade, uma vulgar prostituta. Na altura, na região, as prostitutas eram tratadas por «lobas», e as casas de putas como «lupanários», ou «casa das lobas». (Vou-me abster de fazer mais comentários a Pinto da Costa…)
Rómulo e Remo eram, na verdade, dois bandidos sanguinários, que se rodearam de uma corja de assassinos, atacaram e saquearam em bando as cidades rodeantes, inclusivé roubando-lhes as mulheres, até se tornarem na mais importante cidade do Lácio.

Quando a verdade não nos convém, mudamo-la. Já diziam os romanos: «Vae victis». Ai dos vencidos! A História é escrita pelos vencedores, quer seja um clube de futebol quer seja o mais poderoso império que já existiu sobre a Terra.

(Num parêntesis, também convém pensar neste aspecto quando se pretende que o Benfica lute com o Porto dentro de um código de honra e decência enquanto, do outro lado, se anda a angariar putas para árbitros. Isso é lindo. Eu apoio. A nobreza é fascinante. Mas apenas se se ganhar. Porque se se perder, quem ganha escreve a História. E o nobre cavaleiro rapidamente se transforma em pobre idiota as olhos de quem a lê. Isto levar-nos-ia longe. Fica para outro dia.)


Eis um mito benfiquista recente:
«Artur Jorge começou a desgraça benfiquista ao destruir uma equipa campeã.»
A verdade mítica: o Benfica tinha sido campeão e Artur Jorge mudou quase tudo, em alguns casos contratando jogadores sem categoria.
A outra verdade: o Benfica já estava em decadência acelerada, ganhou o título sem saber como, beneficiando de uma série de factores conjunturais, incluindo o jogo mais extraordinário na história do clube, e Artur Jorge fez o que tinha de ser feito, tendo sido prejudicado quer pela terrível dinâmica de autodestruição que estava instalada no clube quer por vários episódios de grande azar.

A equipa do Benfica que ganhou o campeonato de 1993/94, treinada pelo afável Toni e com jogadores como Mozer, Isaías, Rui Águas, Vitor Paneira, Schwarz, João Pinto e Rui Costa, era um naufrágio iminente ambulante. Praticamente todos os jogos dessa época foram um exercício de sadomasoquismo, em que as deficiências defensivas e a desorganização ofensiva eram tantas que parecia impossível chegar-se ao fim sem se perder.
Incrivelmente, o Benfica chegou ao jogo da antepenúltima jornada (salvo erro…), em Alvalade, contra o Sporting (de Figo, Peixe, Paulo Sousa e Pacheco, estes roubados no Verão anterior ao Benfica) a precisar de um empate para ser campeão.
A história deste jogo, apenas, também dava um livro. É o jogo dos 6-3, com o hat-trick do João Pinto, depois do Benfica ter estado a perder duas vezes só na primeira parte.

Para se ter uma ideia do circo que era essa equipa do Benfica, basta lembrar que começou a época com três empates, um deles nas Antas, por 3-3, que foi nessa temporada que houve o jogo dos 4-4 em Leverkussen, que foram às meias-finais da Taça das Taças e que, depois de ganharem ao Sporting, ainda deram umas valentes baldas, tendo inclusivamente perdido o último jogo do campeonato, da consagração, na Luz, com o Guimarães, por 1-0.

Essa equipa do Benfica era um desastre de sucesso. Só foi campeã porque o Tomislav Ivic enterrou o Porto nas primeiras dez jornadas e porque o Sousa Cintra despediu o Bobby Robson para contratar o Queirós e, quando deu por ela, já estava a correr atrás do prejuízo. Quer Porto quer, sobretudo, Sporting, jogavam enormidades mais que o Benfica que, no entanto, não perdeu nenhum jogo nos confrontos directos e foi levando o barco aos trambolhões.
Durante a época de 2009/2010 só me lembrava dessa equipa do Toni. Parecia uma viagem no tempo. Em qualquer um dos casos, o Benfica não soube como as coisas correram tão bem. Mas em ambos os casos apressou-se a dourar a pílula.
A consequência dessa mistificação da realidade foi uma decadência abrupta.

No primeiro caso a treta do tipo que «destruiu uma equipa campeã» levou a que se andasse mais de dez anos a fugir para a frente, a fingir que o problema era esse, com Vales e outras coisas terríveis pelo meio, a pior fase da história do Benfica, que nem o título do Trapatoni conseguiu resolver por uma razão muito simples: porque, quer num caso quer no outro, a equipa não jogava nada e limitou-se a aproveitar os restos, não tendo uma base sólida de futuro. Enquanto isso, o Porto fez um penta, mais um tetra e mais qualquer coisa, o Sporting ganhou dois campeonatos e até o Boavista molhou a sopa.

No segundo caso… bom, ia a dizer que no segundo caso resultou apenas numa época de profunda desilusão, mas já estou a contar que o Benfica seja campeão este ano, quando isso (apesar do meu convencimento) estar longe de ser seguro. Ninguém nos diz que o Benfica não possa estar mais três, cinco, dez anos sem voltar a ganhar o campeonato. Acho difícil, mas impossível não é.

Os mitos têm este problema: não se limitam a dourar a realidade, condicionam-na. Para o bem e para o mal. Por um lado, no curto/médio prazo, dão confiança, por outro escondem problemas que, mais tarde ou mais cedo (às vezes nos piores momentos), acabam por vir ao de cima.
Tudo isto vem desaguar na mais recente mistificação benfiquista: Roberto.

O mito: «Roberto entregou o campeonato ao Porto nas quatro primeiras jornadas depois de uma época perfeita.»

A verdade do mito: Roberto foi um desastre, em termos técnicos, e teve a maior parte das responsabilidades nas derrotas que ditaram o afastamento prematuro da luta pelo título.
A outra verdade: com Bento, Preud’homme ou Artur os resultados no final da época teriam sido os mesmos. A equipa entrou em descompressão, pagando a factura de uma época a jogar acima das suas capacidades reais, em esforço físico e anímico constante, e o Porto, que já era melhor na época anterior, apareceu ainda mais forte. As hipóteses do Benfica ganharem aquele campeonato, com ou sem Roberto, eram de zero por cento. Só havia um campeão possível em 2010/2011, como se veio a demonstrar.

Posto isto, o twist, como dizem os americanos: o jogador-chave na próxima conquista do campeonato, para mim, é… Roberto.
O sucesso que o Benfica vai experimentar nos próximos anos não começou em Roberto, começou bem antes disso, mas, pela minha parte, vai sempre haver um lugar especial na história do Benfica para Roberto. Por duas razões:

- Primeiro, porque a contratação de Roberto demonstrou a agressividade que um clube aspirante ao domínio deve ter.
O Benfica tinha um guarda-redes consensual – português, barato, experiente, da casa e, sobretudo, (que palavra terrível…!) suficiente.
Ora, quando se quer ser o melhor, ser suficiente não chega.
O que fez o Benfica? Gastou mais dinheiro do que algum vez tinha gasto num único jogador, comprando um guarda-redes desconhecido e inexperiente, que entrou logo sob pressão por estar a roubar o lugar a um homem que tinha acabado de ser campeão.
Para piorar. O guarda-redes é visto, tradicionalmente, como o elo mais fraco da equipa, alguém que não importa muito.
Teoricamente, o Benfica arriscou muito, demasiado, numa recompensa insignificante.
Na prática, a coisa correu mal, porque o jogador, simplesmente, falhou.
A longo prazo, fica uma filosofia, que se reflecte também nas outras contratações: ousar tentar, ousar ganhar. Esta é a filosofia dos campeões. Um campeão não se satisfaz com o suficiente, mesmo que para isso tenha de ir contra o politicamente correcto, contra o senso comum ou contra a opinião pública. É por isso que só há um campeão: porque um campeão é especial. É diferente. É único. Tem a capacidade de acreditar e de ousar mais que os outros. E note-se que ser campeão, neste contexto, não é o mesmo que apenas dar um pontapé numa pedra e encontrar lá em debaixo um campeonato.

- Segundo, porque toda a gente embarcou facilmente no mito-Roberto menos as pessoas mais importantes: os responsáveis do Benfica. Os dirigentes do Benfica, com Vieira (devidamente aconselhado, presumo) à cabeça, fizeram exactamente o que tinham a fazer: despediram Roberto (não comento o processo de transferência, comento a parte prática) e purgaram o plantel de mais de uma dezena de jogadores que, na verdade, eram dez a menos e não dez a mais; mantiveram a aposta na compra de qualidade, ainda que a um preço alto; e viraram-se para dentro, não procurando desculpas esfarrapadas nem enfiando a cabeça na areia.
A gestão do plantel, do momento e do discurso, durante o último defeso, por parte dos dirigentes do clube, foi quase perfeita. Terá falhado, apenas, a aquisição de Danilo. Tudo o resto, que me lembre, foi praticamente perfeito. A continuidade de Jesus foi o corolário dessa boa gestão.

O facto de quem manda, actualmente, no Benfica, não ser vulnerável às suas trágicas e habituais mistificações é o melhor sinal possível para o futuro do clube. O último presidente do Benfica não susceptível a mistificações foi Fernando Martins. A desgraça começou no momento da eleição do seu sucessor, João Santos, com a aleivosia do «Benfica europeu». A partir daí foi sempre a cair, até Vieira, um homem da rua, lhe pegar e, correndo o enorme desgaste de aprender enquanto navegava, o trazer ao melhor ponto dos últimos 23 anos.

Podem dizer-me que é o próprio Benfica quem alimenta algumas mistificações, ligadas a arbitragem, a conspirações, etc. Eu concordo. De facto, a gestão da opinião pública para um ganho de poder no momento leva o Benfica a inventar factos. Mas a «realpolitik», para mim, é muito mais importante que os bombos mediáticos. E enquanto, nos jornais, o Benfica alimenta o folclore, nos gabinetes e no campo, que é onde interessa, a sua atitude é diametralmente oposta, e demonstra uma leitura correctíssima da realidade.

Foi nesse pragmatismo directivo que se começou a construir aquilo que eu julgo vir a resultar na reconquista do título de campeão nacional.

Benfica 3.0

A época de 2009/2010 do Benfica é mítica. No sentido literal do termo. Entrou, rapidamente, no âmbito do mito. Ou seja, a mente colectiva dos benfiquistas transformou-a em algo que, na verdade não foi, e aceitou essa nova versão como construtora da realidade, logo, como real. Factos foram criados, teses foram rapidamente aceites, heróis foram crismados. A época de 2009/2010, de facto, daria um grande livro, mas esse livro teria de ter dois apêndices: um que mostrasse que essa temporada foi, em termos de resultados, uma das dez melhores nos cem anos de história do Benfica e a melhor, de muito longe, em mais de 20 anos; e outro que falasse da época seguinte.
Porque a época de 2010/2011 é indispensável para perceber a de 2009/2010.
Em termos de resultados, uma foi muito boa, a outra paupérrima, e nem uma nem outra foram verdadeiras. O Benfica real de Jorge Jesus e Luis Filipe Vieira, no conjunto desses dois anos, encontra-se muito perto do meio termo: nem com cinco pontos de avanço sobre o Porto nem com vinte de atraso; nem na vitória por 1-0 sobre o Porto nem nos 0-5 das Antas, nem nas superexibições de 2010 (que nunca existiram, realce-se) nem nas cagadas de 2011 (cuja diferença para algumas vitórias do ano anterior foi, apenas, a sorte).

Se tomarmos a época de 2010 como um overload energético (devido, em grande parte, à prolongada acumulação de vontades que os quatro anos anteriores tinham provocado, e despoletado por um elemento rebelde – Jesus) e a de 2011 como um crash (um curto-circuito global, por assim dizer – para não utilizar a palavra apag~##), a temporada actual deverá trazer-nos a verdadeira dimensão do Benfica que começou a ser construído no ano 0, de Rui Costa e Quique Flores.

A ideia de todos os benfiquistas, ao longo quer da última época quer do Verão quer do início desta, é a de um regresso a 2009. Todos os dias as comparações surgem nos jornais, nos blogs, em todas as conversas de todos os cafés. A ideia é que é preciso voltar a ser tão bom como em 2009.
Pois bem, a premissa está errada, e a leitura da realidade também. Este Benfica não deve pretender ser tão bom como o de 2009 por uma razão simples: este Benfica é melhor, de facto, que o de 2009. Está a sê-lo (de longe) em termos de resultados e é-o enquanto equipa. O próprio Benfica, actualmente, é um clube muito mais forte do que era em 2009.

Novamente, em termos de resultados, se o balde água fria do Gil Vicente se pode assemelhar ao empate inicial de 2009 com o Marítimo, em casa, na primeira jornada, tudo o resto é muito melhor. O Benfica está à frente do campeonato já depois de ter ido empatar às Antas e de ir ganhar ao Nacional na Madeira. Já passou duas eliminatórias da Liga dos Campeões e tem meio caminho andado para os oitavos-de-final depois de empatar com o Manchester United.

Na prática, estes resultados são muito mais significativos que as goleadas que embalaram a equipa para o título em 2009, sobretudo por uma razão: enquanto que nas goleadas, como se veria depois, estávamos a assistir ao melhor que o Benfica tinha para oferecer até ao fim da época (era uma equipa plena de energia e em rotação máxima, explorando uma nova liberdade e uma nova dimensão futebolística que Jesus trouxera em relação a Quique), nas exibições actuais, mais sóbrias mas com resultados bastante bons (4-1 a esta Académica é melhor que 8-1 àquele Setúbal, por exemplo), temos a sensação nítida de estar a assistir a uma equipa ainda em processo de desenrolamento, uma equipa que será bem melhor do que aquilo que já mostrou, e que o será durante esta época.

Vamos agora comparar as duas equipas em termos qualitativos.
O estilo é o mesmo – exuberante, em raides, muitas vezes demasiado arriscado, com défice no controlo da bola e espaços defensivos em excesso, revelando demasiadas quebras de concentração mas, ao mesmo tempo, momentos de grande velocidade que rompem, com uma naturalidade invulgar, as defesas contrárias, uma equipa criativa, às vezes pura e simplesmente estúpida, outra brilhante.
A intensidade é diferente. Não é apenas ligeiramente inferior: é melhor. Própria de uma equipa mais experiente. E melhor.

Artur é melhor que Quim. Não é muito melhor mas é suficientemente melhor para não deixar dúvidas sobre quem é melhor. Quim é um guarda-redes de grande nível nacional. Artur é um guarda-redes de nível europeu.

Maxi é Maxi e Luisão é Luisão, mas dois anos melhores, o que se nota, sobretudo, em Luisão, que atingiu o seu estado de maturação perfeita.
Emerson é pior que Coentrão mas não necessariamente a defender.
Garay – choque e espanto! – é mais útil que David Luiz.

Sim, o carisma de David Luiz foi fundamental na conquista do título. Ele era alma e catalisador. Sim, David Luiz é um portento físico, e um defesa-central de nível mundial, cuja audácia o transforma num jogador de várias dimensões. Numa equipa sem passado, sem nada a perder, sem responsabilidades, uma personalidade liberal (quase libertina) como a de David Luiz caíu que nem uma luva.
Na equipa seguinte David Luiz facilmente se tornou dispensável. Já não fazia diferença, dada a alteração da dinâmica colectiva.

O lado negativo de David Luiz é menos debatido, mas eu faço as honras: era errático, muito faltoso, perdia demasiadas bolas, colocava a equipa em risco demasiadas vezes e, em muitas delas, só uma boa dose de sorte misturada com a sua impressionante capacidade física salvou o Benfica de perder.

Para defesa-central de uma grande equipa, prefiro Garay. É mais inteligente a jogar, tem uma cultura de passe (e passa muito bem), defende melhor, aposta menos na superioridade física que no posicionamento, não inventa apesar de atacar muito bem e é mais sólido. Não tem tanto potencial como David Luiz? Não sei o que é isso do potencial. Sei que o David Luiz passa metade do tempo no banco do Chelsea. O potencial é bom nas equipas pequenas. Em equipas grandes querem-se jogadores que joguem bem e que joguem agora.
«Ah, mas ele pode vir a…». «Pode vir» não existe. Num Benfica, num Chelsea, num Real, num Porto, quem não pode agora sai de cima.

Javi Garcia é melhor jogador hoje do que era há dois anos – inclusivamente aprendeu a dar porrada sem dar tanto nas vistas, o que é importante porque a porrada é uma parte fundamental do jogo. Uma equipa sem jogadores que gostem de dar porrada não tem hipótese nenhuma de ganhar absolutamente nada. Aliás, se noto alguma coisa que falte no Benfica é mais um ou dois que gostem de afiambrar.

Witsel, que é diferente de Ramires – menos rápido sobre a bola, menos sólido a defender, menos pulmão, mais versátil, mais criativo – teria grandes hipóteses de jogar na equipa de 2009.

Aimar assumiu um estatuto de líder que o torna mais fiável e já não apenas um desequilibrador técnico, mas alguém em quem a equipa se apoia táctica e mentalmente.

Di María tinha uma velocidade e uma agressividade que Gaitán não tem, esticava o jogo mais quinze metros, que Gaitán não estica, mas o Di Maria que vemos hoje no Real não é o Di Maria do Benfica. É um jogador mais adulto, tacticamente muito mais completo, mentalmente mais sólido. Gaitán passa melhor, remata melhor, marca mais e mais importantes golos, assiste, defende tão mal como Di Maria defendia, não é tão rasgador, mas, se eu tivesse de escolher entre este Gaitán e o Di Maria de há dois anos, escolheria Gaitán. É uma opinião controversa, tal como a de Garay. No fim da época faremos contas.

Cardozo está, actualmente, melhor jogador que em 2009. Aos poucos, mais do que conquistado, tem domesticado os benfiquistas. Estes já perceberam que Cardozo só vai até um certo ponto e habituaram-se a isso. Há muitos avançados no mundo melhores que Cardozo, mas Cardozo tornou-se aceitável. Continuo a dizer que uma equipa como o Benfica tem de ter um ponta-de-lança melhor que ele (ou Nuno Gomes…) se quiser ser grande na Europa, mas isso não escamoteia o progresso de Cardozo. Está mais experiente, mais calmo, mais convencido do seu valor. O Cardozo de 2009 nunca marcaria aquele golo ao United.

E chegamos ao ponto-chave: Saviola.
O ponto de crescimento da equipa actual do Benfica passa por Saviola. Continuo a dizer que Saviola é, em qualidade pura, o melhor jogador do Benfica. É o elemento que faz os golos nos grandes jogos, que sai da caixa, que pensa de forma diferente – e mais rápida. Ainda está por se saber o que conseguirá fazer o melhor Saviola actual com o melhor Gaitán. São os dois jogadores de classe extra do Benfica no ataque – Aimar é, para mim, apenas um bom médio ofensivo. Mas atenção, não confundamos as coisas: Saviola é o único jogador do Benfica actual de verdadeira classe mundial.

Há muita gente nova que nunca viu o melhor Saviola porque isso aconteceu há dez anos (ele chegou ao Barcelona muito novo). Nunca vimos o melhor Saviola no Benfica, e nunca veremos, mas o melhor Saviola era um jogador de top-10. O melhor Saviola jogaria no Barcelona actual e em qualquer das melhores equipas inglesas. O melhor Saviola é tão bom que 60 por cento desse melhor, em meia época, mais 30 por cento dele, na outra metade, foram suficientes para dar um título a um Benfica que nem sequer tinha a melhor equipa do campeonato.

A grande questão que se levanta na equipa do Benfica é se terá um Saviola melhor (que não o melhor Saviola) e, se sim, quando. As indicações são positivas: teve banco, merecidamente; está em fim de contrato; tem uma equipa em dinâmica crescente; e teve um grande jogo na última jornada.

Matic é incomparavelmente melhor que Ailton – mas de nem sequer pertencerem ao mesmo campeonato –, Ruben Amorim  é melhor que César Peixoto – tem meio cérebro e um pulmão a mais –, Bruno César é melhor que Carlos Martins e o melhor elogio que se pode fazer a Nolito é que ninguém se lembra que Enzo Pérez está lesionado.

Nolito está a ser para o Benfica 3.0 de Jesus o que Saviola foi para o Benfica 1.0: o factor surpresa, um coelho tirado da cartola, que joga de forma diferente dos outros, alguém que o tecido defensivo das equipas adversárias não consegue envolver, porque rasga pelo sítio que parece bem cosido, e que, por essa razão – por ter de ser defendido de forma diferente dos outros – marca tantos golos. Nolito é um ponta-de-lança a jogar na linha, muito à maneira de David Villa no Barça ou de Ronaldo no Real Madrid.

Falta o quê? Para já, em termos individuais, um defesa esquerdo como deve de ser e alguém que tire minutos reais das pernas de Maxi – cuja tendência, à medida que a época avance, é entrar em défice físico acentuado, o que se torna particularmente problemático num defesa lateral que, já por si, não é propriamente um portento físico. Um central que não permita a Jardel entrar na equipa por tuta e meia. Um verdadeiro extremo-direito (será Pérez?). Uma alternativa finalizadora (será Rodrigo?).

Dito isto, convém relativizar: o facto de o Benfica ter, neste momento, melhor equipa que no ano em que foi campeão, não faz dela, qualitativamente, nenhum Porsche. O que disse nessa altura em relação aos jogadores do Benfica mantenho em 90 por cento.

Se alguém me surpreendeu? Cardozo evoluiu quando eu já não esperava que evoluísse. Artur é melhor do que eu pensava. Bruno César não será, efectivamente, descartado com facilidade, pois adquriu grande utilidade. Em relação ao resto, ninguém. A época do Benfica está a ser o que eu esperava que fosse, e continuo a acreditar que o Benfica será campeão. Hoje essa ideia é mais facilmente aceitável do que era há dois meses, e daqui a dois meses será ainda mais.
Nada disto invalida que, se não evoluir bastante na sua forma colectiva de jogar, o Benfica continue a ser, até ver, uma equipa de trazer por casa, sem dimensão europeia.

Para amanhã fica o que mudou em termos colectivos, algumas falsas ideias que se criaram com a euforia após a conquista do campeonato de 2010 e o que penso que espera o Benfica até ao final do ano.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Índice de Relação Pressão-Resultado

Hoje era um dia porreiro para começar a fazer uma análise qualitativa das três equipas da «Religião», não era? Comportamento, confirmações, decepções, previsões, circunvalações, etc, etc. Pois era. (Ainda por cima ontem foi o dia em que veio mais gente ver o blog e temos aí pessoal novo. Bem vindos, reacção incluída. Vamos só combinar uma coisa: não censuro nada, o insulto aqui é livre – não foi o caso – mas só é livre quando é na minha direcção, certo? A partir do momento em que se começarem a insultar uns aos outros nos comentários começo a fechar as torneiras. Só há uma pessoa que escreve no blog, sou eu, chamo-me Hugo, e tenho as costas largas. Quem visita vem cá para se entreter, não é para se chatear. Posto este ponto de ordem…) Era porreiro, não era?
Pois era.
Mas…

- Hoje entrei às 9 e saí às 9 e amanhã tenho outra talega.

- Com o intervalo das selecções corremos o risco, se não deixarmos nada por dizer, de passar duas semanas em conversas circulares, redundantes e desinteressantes, com muitos nomes do tipo Bacalhausson, Pescadássen, Trazmaséasbatatássens ou Nãotesqueçasdapimentásson. Não, obrigado. Não vou falar islandês, dinamarquês ou paulobentoguês.

Como tal, hoje vou fazer uma resenha quantitativa do comportamento das equipas até esta fase da temporada – e quem não achar que «resenha quantitativa» é um termo que o próprio Rui Santos utilizaria no seu programa diário é porque ou não conhece a peça ou não fala ruissantoguês.
Para quem chegou agora, estou a inventar (da minha própria «ótoria», como diria o nosso Saramago da Táctica) um índice que mede o desempenho das equipas sob pressão. Chamei-lhe IRPR (Índice de Relação Pressão Resultado). Porque é que faço isto?

Primeiro, porque sou maluquinho pelas estatísticas, e não encontrei nenhuma que me satisfizesse neste aspecto. Acho que o futebol é, sobretudo, pressão competitiva, e que uma vitória por 2-0 debaixo de grande pressão não diz o mesmo, em relação a uma equipa, que uma vitória por 2-0 contra o Aliados do Lordelo. Na minha opinião, a qualidade da época de uma equipa depende do que ela faz debaixo de pressão. O IRPR é uma tentativa de medir essa qualidade. É uma espécie de barómetro de resposta à pressão competitiva através dos resultados conseguidos pela equipa.
Segundo, para ver se é possível.
Terceiro, no caso de ser possível, para ver se a ideia que temos do desempenho de uma equipa condiz com a realidade ou não.

O IRPR contempla três tipos de pressão sobre a equipa: interna (factores internos que dificultem o desempenho), externo (os factores externos iniciais no jogo, por exemplo o valor da equipa contrária e o facto de o jogo ser em casa ou fora) e as situações de jogo (ou seja, a sorte de jogo, que pode ser favorável, e não exercer pressão, ou desfavorável, e dificultar muito a obtenção de um resultado positivo.)
Há sempre subjectividade na atribuição dos valores mas também uma tentativa permanente de objectividade. No fim do ano vou ver o que esteve bem e o que esteve mal e aperfeiçoar.

Estou convencidíssimo que encontrei a pólvora, como devem calcular. É mesmo isto que vai mudar o mundo. Um dia destes tenho aí a CIA a convidar-me para colaborar com eles ou, melhor ainda, o BCP a pagar-me uma fortuna para fazer um anúncio com uma bracelete.
Seguindo em frente…

1.00 é a pressão máxima a que uma equipa pode estar sujeitar num jogo, considerando o seu potencial e o potencial máximo do adversário que pode encontrar ao longo da época. 0.00 é a ausência de pressão – não existe, há sempre alguma pressão, mas pode ser, por exemplo, 0.010. Já a equipa que algum dia venha a fazer 1.00 fez o jogo perfeito, no momento perfeito, contra toda a adversidade.
Como tal, decidi agora mesmo esta escala qualitativa de valores:

0.00 a 0.99 – pressão muito baixa
0.100 a 0.249 – pressão baixa
0.250 a 0.499 – pressão relevante
0.500 a 0.699 – pressão elevada
0.700 a 0.899 – pressão muito elevada
0.900 a 1.00 – pressão extrema

Prolegómenos despachados (sim, eu sei que disse que ia escrever pouco, mas já escrevi isto antes, ok?), vamos ver no que deu, até agora.

Pressão em valores totais e médios
Benfica
Pressão total – 4.330 em 13 jogos
Pressão média por jogo – 0.333
IRPR – 0.320

Sporting
Pressão total – 3421 em 11 jogos
Pressão média por jogo – 0.311
IRPR – 0.258

Porto
Pressão total – 3411 em 11 jogos
Pressão média por jogo – 0.310
IRPR – 0.169

Uma leitura destes valores:

- O Benfica é a equipa que foi sujeita, até agora, quer em termos absolutos quer em termos médios, a maior pressão. Não só começou a época mais cedo como, nos seus 13 jogos, já teve seis para a Liga dos Campeões (quatro deles a eliminar, um com o Manchester United e outro fora de casa com o Otelul), além do jogo nas Antas, com o Porto, e com o Nacional, na Madeira. Mete algum respeito. O jogo do Porto será, provavelmente, o mais difícil da época do Benfica quando olharmos para trás.
Também é o que está a responder melhor à pressão. De facto, o Benfica não só ainda não perdeu nenhum jogo como, entre os empates, o único que foi um resultado negativo (onde o objectivo não foi alcançado) foi o de Barcelos, com o Gil Vicente. Em 13 jogos, o Benfica teve um resultado negativo e 12 positivos.
Dito por outras palavras, sem ser possível dizer que é a melhor equipa das três, o Benfica está a ser a equipa com melhor desempenho competitivo.

- O Sporting, apesar das seis vitórias consecutivas, está, em termos globais, num nível mais baixo, em boa parte porque o seu calendário tem sido, dos três, o mais acessível. Perdeu mais pontos na Liga, está numa competição europeia de dificuldade inferior e ainda não jogou com Benfica, Porto ou Braga.

- O Porto é a equipa com pior desempenho relativamente ao seu potencial e à pressão a que pode ser sujeito.
Em 11 jogos, o Porto teve quatro maus resultados: Barcelona, Feirense, Benfica e Zenit. Nenhum dos dois empates, por exemplo, serviu os seus objectivos – serviu-os apenas parcialmente. Nestes casos de empate no campeonato, o IRPR potencial é dividido por três, seguindo a lógica de que o empate vale, em termos pontuais, três vezes menos que uma vitória, mas não vale 0. Na Europa, um empate que sirva, teoricamente e à partida para o jogo, os objectivos da equipa, é contabilizado a cem por cento – o do Benfica com o United, por exemplo. Como seria um empate do Porto com o Zenit, para dar outro exemplo.

Benfica
4 jogos mais difíceis:
Porto (f) – 0.825
Twente (f) – 0.610
Twente (c) – 0.455
United (c) – 0.435

4 melhores resultados: nos mesmos jogos (teve resultados positivos em todos)

Sporting
4 jogos mais difíceis:
Guimarães (f) – 0.633
Paços de Ferreira (f) – 0.490
Lazio (c) – 0.448
Olhanense (c) – 0.420

4 melhores resultados:
Três primeiros iguais mais
Nordsjaelland (c) – 0.325
em vez do Olhanense

Porto
4 jogos mais difíceis:
Barcelona – 0.720
Zenit (f) – 0.505
Shaktar (c) – 0.438
Guimarães (f) – 0.385

4 melhores resultados:
Shaktar (c) – 0.438
Guimarães (f) – 0.385
Académica (f) – 0.290
Guimarães (Supertaça) – 0.200

A minha avaliação intercalar em relação ao IRPR:

De uma forma geral, estou agradado. Parece-me que está a conseguir traduzir relativamente bem o comportamento global das equipas e que tem coerência. Vamos ver como se aguenta até ao fim da época e, depois, melhorar o que houver para melhorar.
Nessa altura publico um almanaque no Círculo de Leitores.

domingo, 2 de outubro de 2011

Saviola

A grande vitória do Benfica, tal como a Bola noticiou (com algum optimismo prematuro, é certo) na primeira página, é a eventual recuperação de Saviola como elemento válido na equipa.

Algo que o Record não quis evidenciar, apesar de ser algo, só por si, evidente, optando por um titulo vago e que não quer dizer nada. Podemos esperar, a partir do momento em que o Sporting teoricamente reentrou na luta pelo título (também aqui um optimismo muito prematuro) uma mudança no critério editorial do Record. Até aqui, o Record estava na fase de inchar o Benfica a torto e a direito e a tolerar o Porto. A partir de agora, veremos uma quantidade  crescente de notícias potencialmente desestabilizadoras quer para um quer para outro, mas sobretudo para o Benfica, que é quem está mais à mão.

A tentativa de venderem o Saviola em Janeiro é um exemplo disso. Na última semana não houve dia em que não viesse uma Saviolada no jornal, ou porque não tinha recebido convite para renovar, ou porque era caro, ou porque tinha mercado, ou porque não tinha mercado, ou porque estava marcado, ou porque já não joga, enfim...

Considerando a evidência de o Saviola ser, neste momento, um jogador demasiado caro para o que tem produzido, e de estar já numa fase de ocaso da sua carreira (não é que seja velho, pelo contrário, está na idade certa, mas começou muito cedo e, por isso, tem muito desgaste acumulado), o que fará dele, logicamente, um dos elos mais fracos na planificação do plantel para o ano que vem, sobretudo com novos valores a despontar, é claro que há uma forte possibilidade do Benfica não renovar.
Nada mais natural.
Eu próprio, que considero que o Benfica, com Saviola em boa forma, é ele e mais dez (não é o Aimar, nem o Cardozo, nem mais ninguém, é ele, porque é o melhor de todos, o que tem mais futebol na cabeça e nos pés, o que tem maior classe), admito que, ao nível actual, Saviola não tem lugar no Benfica.

O Record, como outros, identificou no Saviola o eventual ponto fraco na armadura e atacou. É compreensível. O Benfica está a ter resultados e a mostrar alguma qualidade. Não é fácil encontrar-lhe vulnerabilidades neste momento. Jogam os que estão melhor e há poucas invenções. O Saviola é, pelo estatuto que tem e pelo rendimento desfasado com esse estatuto, uma escolha lógica e, diria mesmo, a única possível.

Por isso e por tudo o resto, pela importância que ele pode vir a ter no que resta da época (a maior parte dos maiores desafios está para chegar), a exibição de Saviola contra o Paços de Ferreira era a pior notícia que o Record tinha para dar. Como tal, evidentemente, não a deu.

Até podem pensar que tenho a mania das teorias da conspiração, mas desculpem lá: meter o Nolito em grande destaque e o Saviola, que marcou dois golos e fez um jogão, numa notinha de rodapé, só pode ser visto como coincidência por quem pendura as asinhas no roupeiro à noite.

Já para o Benfica, a possibilidade de recuperar o seu melhor jogador à entrada do Inverno e quando os jogos com Braga e Sporting se aproximam é a melhor notícia possível. Agradece o Benfica e agradece o Aimar.

Posso dar uma de inteligente, à Jesus?
Querem saber quando é que me comecei a convencer de que o Benfica podia ser mesmo campeão na época de 2009/2010? Quando soube que o Aimar e o Saviola iam lanchar a casa um do outro em miúdos, na altura em que jogavam no River Plate.

Meçam as probabilidades. Dois putos argentinos, jogadores da bola, amigos de casa, pequeninos, espertos, que se separam aos 18 anos. Vai cada um para seu lado, atravessam o Atlântico para a Europa e onde é que se encontram dez anos depois? Numa equipa que nem sequer sabiam que existia quando eram miúdos, por acaso, sem nenhum dos dois saber bem como. Para mim, o grande gozo da época de 2010 foi esta história. Vê-los em campo, a pensarem da mesma maneira, a darem sapatadas sucessivas no marasmo, sem tácticas, nem estratégias, como se estivessem a jogar na rua, a arrastarem uma equipa vulgar, de miúdos parvos que só sabiam correr, com um treinador débil mental, a levarem um clube como o Benfica para uma das suas melhores épocas de sempre, para mim, foi puro desfrute e uma das melhores experiências que já tive como benfiquista. Por isso é que me dói tanto ver o Saviola a arrastar-se. Sempre gostei imensamente dele, desde o tempo em que o via jogar no Barcelona. Ontem, para mim, foi um deleite.

Quando procuro dados para medir as possibilidades de uma equipa raramente penso nas tácticas, nos jogadores, nos golos. Mas nestas coisas reparo. Porque acredito muito pouco em coincidências.

Um cálice de Porto

O Benfica teve a vitória mais fácil do campeonato. Pouca história neste jogo. O Paços é uma equipa fraca, tão simples como isso. Se há jogos talhados para o desastre, este não era um deles.

A grande jogada de ontem foi a do Vieira.
Apanhou-me de surpresa, confesso. Não o julgava capaz de subir a este nível. E faz-me acreditar que, de facto, a equipa dirigente, departamento de comunicação incluído, pode estar à altura de dar a volta ao Porto.

Primeiro, marcou pontos ao pôr o JJ na ordem. O JJ já se estava a atirar um bocadinho para fora de pé depois do empate nas Antas. O pessoal mais básico embarca facilmente no excesso de confiança. Já era o «quem é que meteu o jogador para segurar o empate», o «fiz bem em escolher o fulano tal», o «eu já tinha pensado nisso há muito tempo», aquelas pequenas avarias do Jesus, que começou a época pianinho e já está a querer abrir as asinhas porque há muito tempo que não ouve ninguém a dizer que ele é um génio.

O Vieira trouxe-o à Terra. Ao dizer que não quer um treinador do Benfica preocupado com treinadores de outras equipas (leia-se com os treinadores do Porto), disse-lhe: «Cala-te e trabalha, porque ainda não ganhaste nada.»
Excelente sentido de oportunidade e, sobretudo, espírito de iniciativa.

O que disse do Grande Timoneiro, contudo, é mais do que oportuno ou proactivo: é audacioso.
«Um treinador jovem que já deu todas as provas de ser capaz de treinar uma grande equipa», disse ele. E, para ter a certeza de que toda a gente percebia, ainda repetiu: «Um treinador que já não tem de dar mais provas a ninguém.»

A chave deste enigma está precisamente aí: Vieira sabe, como os portistas sabem, como toda a gente sabe, e Vieira sabe que todos sabem, que Vitor Pereira ainda não deu provas absolutamente nenhumas de ser capaz de treinar uma grande equipa, pelo contrário, esta a começar a dar provas de que não tem mãos para o barco.
E também sabemos que foi uma escolha pessoal de Pinto da Costa.

Ao pé desta jogada, aqueles cartazes de psicologia invertida que apareceram nas bancadas no Porto-Benfica eram uma brincadeira de crianças.
Vieira não se limitou a dar o troco às opiniões de Pinto da Costa sobre Roberto («É um grande guarda-redes») e Jesus («Se não fosse o treinador…») na época passada. Fê-lo com requintes de malvadez. Porque foi cirúrgico e porque tem razão.

O ponto mais fraco do Porto é o treinador, e Vieira assegurou-se de que ninguém ficava com dúvidas em relação a isso.
Já não me lembro da última vez em que ouvi alguém do Benfica a dizer bem de algo ou alguém do Porto. Nem eu nem ninguém. A única explicação é a mais simples: Vieira não estava, de facto a dizer bem de Vítor Pereira, pelo contrário, estava a atacá-lo de uma forma impiedosa, servindo ao Porto um cálice de veneno puro.

O brilhantismo deste ataque psicológico está no facto de não permitir defesa.
Ao elogiar um treinador que está, nitidamente, a falhar, Vieira está a vincar o seu falhanço. O recurso ao sarcasmo não tem retorno – a não ser com mais sarcasmo, mas isso é difícil porque o Benfica está, ao contrário do Porto, num momento positivo, o que levaria a que uma resposta representasse, previamente, uma derrota (Pinto da Costa aparece como vencedor destas históricas picardias verbais e psicológicas não pela razão que tem mas pela que ganha dentro de campo, quando a sua equipa acaba por cima).
Revela uma leitura perfeita da situação, pois percebe que a contestação ao treinador é real e generalizada e, ao apoiá-lo, mais o fragiliza.
E se, por acaso, o Porto der a volta por cima, Vieira sairá sempre por cima, ao recordar: «Eu sempre disse que a contestação não tinha razão de ser.» Ou seja: «Eu sei mais do vosso clube do que vocês. Vocês têm poucos segredos para mim.» Mesmo que a intenção seja enterrar.
No interior da equipa do Benfica, se o Porto der a volta, não há desculpas, porque o próprio presidente disse: «Eles vão dar a volta, porque o treinador é bom.»
Se alguém do Porto (Grande Timoneiro incluído) reagir à bruta, fica, na opinião pública, com o ónus da questão. Do género: «Então ele estende a mão, com fair-play, e agora eles cospem-lhe?» Marca pontos.

Quando vejo coisas que não fazem muito sentido – como seria, à partida, um elogio do presidente do Benfica a um treinador do Porto com problemas – o meu primeiro impulso é o de desconfiar que ali há uma intenção oculta, um plano.
Não tenho dúvidas de que esta intervenção do Vieira, sem pedir licença a ninguém, e batendo a quente onde devia, faz parte de um plano.
Quando estamos habituados a um barco à deriva, aparecer alguém com uma boa ideia e um mapa na mão faz-nos acreditar.