domingo, 18 de setembro de 2011

Profissão de fé: pai benfiquista

Moro na Linha do Estoril e o meu filho tem cinco anos. Isso quer dizer que está rodeado de sportinguistas e portistas. O mito é verdadeiro: a maior parte dos betinhos é lagarta e a maior parte dos miúdos novos é do Porto. O miúdo está na fase de começar a gostar de bola e é supercompetitivo – sim, é verdade, o meu filho é que o melhor do mundo, ao contrário do que todos os outros pais pensam. O esforço para o manter a salvo tem sido dantesco.
Evitar que ele veja as notícias das sucessivas vitórias do Porto, por exemplo, é um exercício stressante, assim como explicar-lhe que todas as equipas ganham e perdem de vez em quando. Já lhe disse que o Porto é batoteiro, e até agora esta versão tem-se aguentado, mas não sei por quanto tempo é que conseguirei convencê-lo com este argumento. Os miúdos nem sequer sabem que os jogos têm árbitros, quanto mais que também podem ter prostitutas. Descobri nos últimos tempos que a batota, para os miúdos, é um expediente perfeitamente normal.

Nas últimas semanas, contudo, bisquei uma manilha de trunfo: a águia. O puto ficou maluco quando viu a águia a voar na televisão e eu lhe disse que era a sério e que voava dentro do estádio antes dos jogos. Entendamo-nos: o miúdo é mais ou menos benfiquista, ou seja, quer ser, como o pai, e anda à procura de boas razões para ser. Também gosta do Messi e da Argentina (perigosamente azul e branca…).
Resumindo: vou levá-lo à bola hoje.

Escrevo isto para que se perceba bem o que significa ser benfiquista. Ser benfiquista é acreditar, contra todas as convicções, que tudo vai acabar por correr bem.

O Benfica joga com a Académica, que ganhou na Luz três vezes em quatro anos – uma delas fui com a minha mulher, perdemos 3-0, e a partir daí nunca mais fui com ela à bola (mas não sou supersticioso).
A Académica está a fazer o melhor arranque de campeonato dos últimos anos e tem lá o Pedro Emanuel, que pode não valer nada como treinador, mas leva os amuletos, como o Choramingos e o Bicho.
O Benfica, por outro lado, vem de um jogo-super (em dimensão, não em qualidade) e vai jogar, imagino, muito pouco, porque é mesmo assim que as coisas se passam  com «os meus jegadores».
Imagino que o onze titular ande à volta de Artur, Maxi, Luisão, Garay, Capdevilla, Javi, Bruno César, Matic, Nolito, Saviola e Cardozo, e se calhar ainda bem, porque é capaz de ser a única forma da equipa jogar a correr e não a passo, mas por outro lado suspeito que as alterações se vão reflectir na produção da equipa.
Posso dar um palpite à campeão? O Rodrigo vai estrear-se na segunda e vai ser decisivo. Vai ser um dos jokers deste campeonato. E começa hoje.

Para a semana vamos ao Dragão, o que significa que, se a coisa for para correr mal esta época, provavelmente vai começar a correr mal já hoje.
São muitos sinais, demasiadas coincidências (mas não sou supersticioso, atenção).

Ou seja, este é um jogo de alto risco. E o que é que o Hugo vai fazer? Vai levar o seu filho de cinco anos, que está no limbo entre a salvação e a heresia, ao futebol, pela primeira vez. E porquê? Bom, primeiro porque (apesar de não ser supersticioso) tenho a certeza absoluta que a única coisa que pode salvar esta época é a presença do meu miúdo nas bancadas do Estádio da Luz neste jogo. E depois porque, estupidamente, um benfiquista nasceu para acreditar. E eu, contra todas as provas científicas, continuo a acreditar que o Benfica ganha hoje, empata para a semana e ganha o campeonato este ano.

Mas se a puta da águia se lembra de se engasgar outra vez amanhã…



O Porto vai encostar com o Feirense – tantas vezes vaticino um empatezito deles que alguma vou acertar, certo? Bom, não vai nada. Vai ganhar. Vai chegar ao jogo das Antas só com vitórias e perde os primeiros pontos com o Benfica. Faz mais sentido.

Curioso tem sido acompanhar a mais recente saga do Hulk-que-não-pode-jogar-mas insiste-em-jogar, que, acompanhada da tirada do «o-único-insubstituível-é-o-Hulk-e-os-outros-dez-até-os-escolho-eu» e dos constantes elogios do Vítor Pereira (desconfiem sempre dos treinadores novos que sentem a necessidade de elogiar publica e recorrentemente os jogadores mais influentes do plantel – estão a um pequeno passo de lhes comerem as papas na cabeça) me leva a pensar que não só o Porto corre o risco de ter um pequenino débil mental a mandar na equipa, treinador incluído, como de esse pequenino débil mental vir a ter problemas físicos por querer jogar em todos os jogos a feijões. Para já, não me parece nada bom sinal o Vaginildo ter passado uma noite em claro com dores num tornozelo. Bom sinal para o Porto, quer dizer…
As lesões são um factor muito importante no rendimento de uma equipa. E a época ainda mal começou. E vem aí o Inverno.


Pela lógica, o Sporting vai passar por cima do Rio Ave. Mas há uma coisa que sei: os três grandes ganharem os seus três jogos em duas jornadas consecutivas acontece para aí uma vez de dois em dois anos. O Rio Ave está à rasca. O Sporting vai ter problemas sérios. O Rio Ave já não vai ser apanhado de surpresa, como o Paços de Ferreira.


Porque é que tenho a sensação de que vamos falar muito desta semana durante o campeonato?


Whatever. Desde que a cabrona da águia não voe para fora do estádio…

sábado, 17 de setembro de 2011

Apito envenenado (II)

A parcialidade da imprensa desportiva portuguesa pode chocar as mentes mais impressionáveis, até porque é evidente, mas a verdade é que a parcialidade da imprensa nunca foi um problema. Pelo contrário. A parcialidade implica a existência de diferentes partes, e o facto de haver imprensa parcial é uma garantia de que as partes não estão silenciadas e têm voz na opinião pública.

No futebol português essas partes e as respectivas tribunas estão bem identificadas. Bola, Jogo e Record, com uma habilidade relativamente engenhosa, conseguem servir Benfica, Porto e Sporting de forma eficaz, sem alienar em excesso as outras quotas do mercado.
Desde que foi inventada que a imprensa é parcial. Aliás, a verdadeira imprensa foi inventada exactamente para ser parcial. A imprensa histórica, real, é a do panfleto, o resto é negócio.
O problema da imprensa não é quando é parcial – é quando se torna cúmplice na desonestidade.

Parcialidade acaba sempre por resultar em cumplicidade, mas o tipo de cumplicidade que se estabelece é fundamental. Quando a imprensa insiste em ser cúmplice mesmo quando, obviamente, está do lado errado da verdade, então aí a imprensa tem um problema real para resolver, e a sociedade onde essa imprensa existe também.


Em Portugal, a imprensa desportiva apresenta algumas características distintivas:

- O aquartelamento dos jornais com os três grandes clubes.
Cada clube tem o seu canto, a coluna para o «intermediário entre a comunicação do clube e o público do clube», um senador, um general opinador, vários tenentes opinadores, uma página de mercado para a valorização de jogadores que, à vez, é feita para interesse do clube e (cultura da fonte oblige) para o interesse dos empresários, uma página de estatísticas inúteis e uma página de masturbação a seco.

Nos dias de jogo, as análises são invariavelmente escritas com uma preocupação benévola e desproporcionada, amplificando-se as coisas boas e diminuindo-se as más, tudo para que o adepto fique bem disposto. No caso de derrota do clube, é inevitável que o elo mais fraco – o árbitro – arque com boa parte das culpas.

Os «quartéis» dos clubes são pensados e executados de maneira a favorecer, geralmente, o interesse do clube, em termos de regime vigente, ou o ego dos adeptos desse clube.

A quantidade de vezes que o termo «cláusula de rescisão» foi escrito nas páginas dos jornais durante os últimos anos, apesar de nunca (um vez? duas vezes? em vinte?) um jogador ter saído pela dita cláusula, é significativo. A cláusula faz bem a toda a gente: ao adepto, que se quer convencer a si próprio, e ao clube, que assim tenta inflacionar o jogador. Como tal, falar em cláusulas é trigo limpo farinha amparo para os jornais.

Em troca, os clubes alimentam os jornais. Ou, pelo menos, convencem-nos de que eles precisam de ser alimentados.



- Exploração da marca Benfica como principal factor de vendas e de receitas para os jornais.

Mesmo o Record e o Jogo, tentando ao mesmo tempo jogar com Deus e com o Diabo, esmifram até ao tutano os ossos do Benfica. São tão solícitos a agigantar o fogo como, depois, a recolher os cadáveres. Isto porque quer uma quer a outra parte do processo vendem, além de ajudarem Sporting e Porto em termos políticos e mediáticos. (Também fazem isto com os outros, mas a uma dimensão muito menor). As expectativas criadas pelos jornais não correspondem, geralmente, às expectativas criadas pelo adepto real do Benfica – que, na sua maioria, é esperançoso mas sensato e já viu muito futebol – mas a manobra não tem riscos, uma vez que, como as únicas expectativas reais são as que a imprensa publica na primeira página, não há problema em dizer que a equipa não esteve à altura das expectativas (criadas pela imprensa).

O ideal, para a imprensa, é quando aparecem os próprios dirigentes do Benfica a dizerem disparates do género da «equipa maravilha». Nesses casos, os jornais assumem que, se o próprio dirigente é estúpido, não têm de ser eles a serem sensatos.

Para praticamente todos os adeptos do Benfica com alguma inteligência e com experiência, conhecedores de futebol, as possibilidades do clube ser campeão este ano são escassas, dada a disparidade de categoria para o Porto. Acabar em segundo não seria nada de extraordinário. Seria, aliás, racionalmente, o mais normal. Mas, nos jornais, se o Benfica não ganhar o campeonato este ano, haverá, certamente, uma crise profunda para explorar, cada um à sua medida, cada um à medida dos interesses que defende – Para O Jogo a manutenção do statu quo, para o Record o projecto de ultrapassagem do Sporting ao Benfica, para a Bola o simples desespero de ter perdido outra vez sem saber bem o que fazer para voltar a ganhar.



- Institucionalismo e ausência da investigação.

A imprensa portuguesa é extremamente conservadora. A sua perspectiva é sempre a da defesa das instituições, e raramente a de as desafiar. Por isso é que mais de 90 por cento do conteúdo de um jornal é composto por um discurso oficial ou oficioso, que poderia perfeitamente ter sido escrito pelos próprios departamentos de comunicação dos clubes, das federações, etc.

O culto do treinador e do clube, a secundarização do papel do jogador (por exemplo, as reacções ao caso Ricardo Carvalho) são outros sintomas desse institucionalismo.

Uma boa parte deste institucionalismo – que é contrário ao espírito de liberdade de imprensa e que funciona como uma espécie de censura prévia por sugestão e não-coerciva – resulta da má qualidade dos jornalistas e da incapacidade financeira dos jornais. Gastar recursos em investigação é demasiado caro, sobretudo com um ritmo diário de edição, em que as páginas têm de ter coisas para ler. Os recursos, que são limitados, são concentrados na quantidade e não na qualidade. O resultado é que o jornalista acaba por relatar o que tem tempo (e, geralmente, vontade) de ouvir, sem aprofundar.



Este cocktail mórbido transformou-se em enxofre quando se lhe juntou mais um ingrediente: a incapacidade da imprensa em reconhecer a importância histórica do Apito Dourado.



Uma imprensa deixa de ter valor público quando, num caso tão flagrante como o do Apito Dourado, não consegue forçar uma revolução. Não o conseguiu porque foi fraca, porque se deixou corromper durante demasiado tempo para, no momento da verdade, ter a força suficiente para se impor, não conseguindo criar uma opinião pública suficientemente forte para lidar com a dimensão do problema.

Os directores dos jornais darão muitas desculpas, apresentarão muitas justificativas para a imprensa ter perdido o seu estatuto de quarto poder (porque não tem, afinal, poder nenhum) nessa altura, falarão de condicionantes económicas, de literacia, do país da cunha, de mil e uma coisas, mas não dirão, provavelmente, o essencial: que o único problema real da imprensa desportiva portuguesa foi ter confundido parcialidade com promiscuidade, e de não se ter conseguido afastar suficientemente da porcaria para se conseguir limpar.

A imprensa desportiva portuguesa tornou-se obsoleta. A sua imagem está gasta e a insistência na exploração do tema da arbitragem, que é (como se vê pelas dúzias dos programas dos paineleiros nas televisões) o último catalisador de audiências à mão de semear, baixou-a ao nível da conversa de tasca, por um lado, e por outro tornou-se igualmente inócua. Afinal, uma imprensa que bate e rebate no tema da manipulação de resultados, defendendo, pelas palavras dos seus editores, a transparência e a vitalidade do futebol nacional, o que é que fez quando, finalmente, teve a oportunidade de agarrar com as duas mãos?

1 – Escondeu-se, primeiro. Fez de conta que não estava a acontecer nada, atirou o tema para as últimas páginas enquanto pôde (por desconfiança, por medo ou por pura incompetência) e, mesmo depois do processo estar em andamento, foi só quase por não conseguirem fugir mais que atiraram o tema para as primeiras páginas. O grosso do trabalho jornalístico e das revelações relativas ao Apito Dourado acabou por ser feito pela imprensa generalista (Correio da manhã, Público, Expresso e outros).


2 – Encolheu-se, depois, entregando a cobertura do caso a jornalistas fragilizados, quer por serem naturalmente frágeis, quer por residirem na cidade do Porto, onde estavam sujeitos a todas as pressões necessárias por parte dos clubes e das suas Forças Armadas, quer por integrarem o grupo de jornalistas demasiadamente parciais ou promíscuos em relação ao Futebol Clube do Porto, o grande alvo do Apito Dourado, sem margem para dúvidas.
Quando deveriam ter criado grupos especiais de trabalho para investigarem e aprofundarem as revelações do Apito Dourado, e insistido até fragilizarem de tal forma o sistema que ele teria de ceder, preferiram tratar do caso como uma mera crónica de tribunal, de leitura e transcrição selectiva de certas passagens das averiguações policiais, não fazendo o que à imprensa compete: usar o seu poder para ir além dos outros poderes.
Com o passar do tempo tornou-se óbvio que era muito mais importante para o Porto ganhar a guerra do que para a imprensa continuar a lutá-la. A imprensa capitulou. E o Porto, por mero exercício de resistência, ganhou.

3 – Comeu e calou, por fim.

Hoje, o Apito Dourado é um passado distante. O que os jornais não fizeram antes também não demonstram, agora, a mínima vontade de fazer. O presidente do clube que transformou radicalmente a índole do futebol português, transformando-o numa casa de alterne, continua em funções e é glorificado pela sua genialidade, apesar de ser evidentemente culpado de actos de corrupção e manipulação de resultados.
O jogo de futebol em Portugal, com potencial para ser um dos melhores do mundo, continua a ser poluído, diariamente, pelas insinuações e pelas acusações de corrupção, consumindo-se quando deveria estar a crescer.
Os miúdos que começam a ver o jogo crescem já com o veneno do vale tudo, do «os fins justificam os meios», do «eles não nos deixaram ganhar». A canalha colonizou o país desportivo. Em vez de ouvirem dizer que o futebol conseguiu erradicar as pessoas que falseavam resultados e que agora o jogo é limpo, e ganha o melhor mesmo com erros dos árbitros, aprendem que, com advogados habilidosos e a coberto da lei, os corruptos que davam dinheiro e prostitutas a árbitros safaram-se, e que o crime compensa, porque não só se safaram como continuam a ganhar, porventura usando os mesmos métodos: o que é que os impede?


A imprensa desportiva portuguesa, que sempre foi vista pela sua congénere generalista como a Cova da Moura da comunicação social nacional, esteve, afinal, precisamente à altura deste epíteto.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Apito envenenado (I)

O processo Apito Dourado foi calamitoso para o futebol português. Tornou pública e explícita a realidade de vazio de poder em que ele existe, e essa queda do poder na rua possibilitou que «esses dealers e esses ratos de esgoto» definitivamente se apoderassem dele. Mas de todos os poderes que caíram e continuam a cair em desgraça na sequência do Apito Dourado, houve um que perdeu mais do que todos os outros: o quarto.

Parte I – Os poderes instituídos

O Apito Dourado não foi apenas mais um caso de comprovada corrupção – foi o caso-Dreyfus do futebol português. As suas repercussões totais ainda não são compreensíveis, mas é muito provável que o que temos agora seja o que venhamos a ter no futuro – num futuro muito longo, com estes e com outros «ratos de esgoto».

No Apito Dourado a demagogia ganhou à democracia, e isso foi, claramente, uma derrota do poder político. Os políticos não tiveram a força suficiente para controlar a situação e impor a autoridade do Estado sobre um sector estratégico da sociedade portuguesa, sobretudo porque não sentiam ter a legitimidade suficiente para isso. Se a tivessem sentido teriam aproveitado a oportunidade e vincado o seu poder.

A polícia portuguesa foi humilhada pelos burocratas e pelos advogados escroques, vendo-se, para cúmulo, ridicularizada por fazer o seu trabalho em condições insuportáveis.

Os tribunais portugueses foram igualmente manietados pelas leias criadas pelos corruptos para se preservarem, e à situação de corrupção generalizada; leis feitas para tornarem praticamente impossível uma condenação. Vendo-se perante um caso nítido de corrupção, os tribunais, não podendo ir além do poder que lhe é dado pela lei, tiveram de libertar os corruptos.

A Liga de Clubes, numa situação frágil por ser constituída e dominada pelos próprios clubes que estavam a ser julgados, aventurou-se a tentar impôr um mínimo de ética apenas para acabar desautorizada pela FPF, uma estrutura totalmente manipulada pelo polvo de influências que apodreceu o futebol português durante os últimos 60 anos.

Neste aspecto, o Apito Dourado terá sido uma facada letal na Liga de Clubes. Todas as competências promocionais, organizativas, económicas da Liga são secundárias perante a sua função principal, aquilo para que foi, tacitamente, criada: moralizar o sector da arbitragem.
Ao não conseguir fazer compreender aos clubes a necessidade urgente de aproveitar a oportunidade do Apito Dourado para sanear, decisivamente, a arbitragem, a Liga deixou de fazer sentido – e é por isso que os novos estatutos das federação desportivas, impostos pelo anterior Governo, lhe vão retirar os poderes sobre o sector, colocando a sua extinção, por mera obsolescência, a prazo, e com o sangue a esvair-se lentamente. Veremos se dura mais cinco anos, ou se o futebo regressa por inteiro à FPF antes disso.

Os novos estatutos são a reacção política ao Apito Dourado, mas não só a reacção foi fraca como foi tardia. Os políticos tiveram medo – do Porto, leia-se. Do Porto-clube e do Porto-cidade. Em vez de serem audaciosos e corajosos foram… políticos. Neste momento, a reacção dos políticos já está a ser tomada de assalto pelos «ratos de esgoto», como se vê pelas movimentações em redor da eleição do presidente da FPF.
Os novos estatutos vão parir uma ratazana gigante. A oportunidade já passou. A janela esteve aberta durante alguns meses. Aí, tudo teria sido possível. Agora acabou. A podridão está para durar. Quando não for liderada por Pinto da Costa será por qualquer um dos outros que estão na fila para lhe suceder, quer a Norte quer a Sul.

No final do processo Apito Dourado, um sistema corrompido sacrificou o seu elo mais fraco, o rabo da serpente, para salvar a cabeça. Deixou cair o Boavista para não ter de atacar o Porto, mais culpado e mais responsável. Esta é a verdade, por mais voltas que se dê. Tudo o resto é argumentação errónea.

Isto não quer dizer que os únicos clubes corruptos em Portugal fossem o Boavista e o Porto. Quer dizer que o Apito Dourado deveria ter resultado numa punição exemplar de Boavista e Porto porque eram esses dois clubes, sobretudo, os implicados naquele processo. A sequência natural seria desencadear um efeito bola de neve, abrir-se um Apito Encarnado, um Apito Verde, uma colecção de apitos com mais de trinta anos, porque no momento em que as pessoas sentissem que já não existisse impunidade fariam o que qualquer pessoa deseja fazer: libertar-se. Falar. Redimir-se. Regenerar-se.

Não rejeito a teoria da conspiração – que o Apito Dourado tenha sido desencadeado para atingir especificamente o Porto, como parte de um plano para favorecer o Benfica na secretaria, ante a incapacidade deste de vencer dentro do campo. Não rejeito, mas aceito muito mais facilmente a explicação mais simples e mais óbvia: a de que o Porto e o Boavista dominavam o sistema de corrupção instituída e que, por isso, foram facilmente apanhados em flagrante delito.

A questão real não é tanto os objectivos ou a natureza da investigação. A questão é que os tentáculos do polvo seriam de tal forma longos que ninguém ficaria incólume, e os grandes clubes, que são quem historicamente sempre tentou dominar os bastidores e a arbitragem, iriam ter de chegar a um compromisso. O Porto não cairia sozinho porque é demasiado importante para isso e porque Pinto da Costa sabe demasiadas coisas para admitir ir a fundo sozinho. Um Porto, um Benfica, um Sporting caírem para a terceira divisão seria o fim do futebol em Portugal como o conhecemos. Mais verosímil seria que, mediante alguns compromissos mútuos, chegassem a um acordo para pôr o conta-quilómetros a zero e, forçados à boa vontade, regulamentados por uma ordem nova em que os actos desonestos têm consequências reais, partissem para uma era verdadeiramente nova no desporto português, sacrificando quem tivessem de sacrificar.

A oportunidade que se perdeu no Apito Dourado foi essa: a de regenerar o futebol português. Mas para isso, teria de haver sacrifícios reais. Teria de se matar o rei. Ou pelo menos convencê-lo a abdicar. Fazer-lhe uma proposta que ele não pudesse recusar. Menos do que isso, como se viu, seria igual a nada. O futebol português dos últimos trinta anos é um homem, e esse homem é Jorge Nuno Pinto da Costa – um homem inteligente, um presidente praticamente exemplar na gestão política e desportiva do seu clube, um dos melhores, senão mesmo o melhor dirigente desportivo do mundo, mas alguém com uma mácula fundamental: um homem que cedeu à tentação (ou que sucumbiu à necessidade) de explorar a corrupção para atingir os resultados.

Ao contrário do que se possa pensar, Pinto da Costa não é intocável. Pinto da Costa teria caído. Tem inimigos suficientes para isso, independentemente dos amigos que guarda nas gavetas. Mas, para que Pinto da Costa caísse, os políticos (que são os únicos profissionais suficientemente hábeis para o derrubar) teriam de ter sentido um apoio fundamental – bastava esse, mas esse era fundamental: o apoio da opinião pública. E a opinião pública é a comunicação social.

Foi neste ponto que o quarto poder falhou tragicamente.

 (amanhã há mais)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Champions,dia 1

O QUE PARECEU

Benfica
Às vezes é fácil parecer que se sabe mais do que o que realmente se sabe apenas por utilizar o senso comum. O jogo com o Manchester United não me surpreendeu minimamente, considerando o que escrevi na minha antevisão. Até o Nani ficou no banco.
Tornou-se óbvio, a partir do momento em que se soube a constituição das equipas, que o Manchester já estava jogar com o Chelsea e que um ponto na Luz lhe chegava.

O Jesus esteve bem ao pôr o Amorim. Não levo a mal o Jesus por inventar. Os treinadores são pagos para aguentar o barco e para inventar um bocadinho. Não foi genial, entenda-se, nem maestral, mas foi esperto e oportuno.

Tornou-se desde logo evidente que ambas as equipas estavam de acordo que o empate estava bem, obrigado, e que uma vitória sim senhor, se desse, mas com os defesas suficientes cá atrás para não haver confusões. Importante era não perder.

Houve apenas duas coisas que me surpreenderam:  que o Man. United ter jogado com 10, uma vez que o Rooney veio fazer turismo; e que o Cardozo tenha marcado um golo de pé direito que deu um empate potencialmente decisivo na carreira Liga dos Campeões. Quando o Cardozo marca um golo de pé direito depois de matar a bola no peito e driblar um defesa tudo passa a ser possível e, por um momento, cheguei a pensar que, se o Benfica não sofresse o golo até ao intervalo, até podia enganar os ingleses. 15 segundos de dimensão superior de um jogador de dimensão superior, Ryan Giggs, resolveram esse assunto. Foi naquele momento como podia ter sido noutro qualquer.

Em relação ao Manchester pouco a dizer. Se tivesse precisado de ganhar o jogo tê-lo-ia, certamente, ganho. Os poucos momentos em que decidiu andar foram suficientes para distinguir a classe das duas equipas. Se fosse preciso chegar ao 2-2 ou ao 3-3, chegava. Jogou a meio-gás, o Benfica jogou quase a cem por cento, deu empate.

O Benfica, uma equipa adolescente na grande Europa, mostrou uma coisa muito interessante: jogou ao ritmo certo para o jogo, e só por isso se aguentou fisicamente durante os 90 minutos. Saber jogar na Europa é, sobretudo, saber escolher os momentos, saber escolher a estratégia e cingir-se a ela, esperando pelas oportunidades e aproveitando-as quando elas aparecem. O que há para fazer na Liga dos Campeões é muito simples, pouca coisa, mas tem de ser bem feita. É um pouco como nas fases finais dos Mundiais e Europeus. Ser capaz de fazer o básico e mais um bocadinho geralmente chega, jogar simples, não fugir ao plano. Por isso é que os alemães ganham tantas vezes.
O Benfica fez pouco mas, desse pouco, o que sabe fazer, fez relativamente bem. O que não sabe fazer, claro, não conseguiu fazer. Tratar da bola, fazer pressão alta de forma harmoniosa, defender colectivamente, atacar colectivamente, são coisas que esta equipa do Benfica faz mal e pouco (comparando com as mais fortes, claro), por isso é que é uma equipa de segundo plano europeu e vai continuar a ser durante mais alguns anos.
A experiência que a Europa dá e que a Europa requer é, sobretudo, a experiência suficiente para controlar o jogo – controlar os ímpetos, controlar as emoções, distinguir as boas das más oportunidades, fazer o gesto certo no momento necessário. Ou seja, a ter classe.

Se fosse inteligente o Jesus fazia do Gaitán o melhor jogador do campeonato português esta época. Bastava-lhe pedir ao tipo que faz os filmes que fizesse um resumo de cinco minutos do Ji Sung-Park a fechar o flanco, a acompanhar o lateral, a fechar ao meio, a vir atrás, a jogar pela certa, a fazer todas as coisas que qualquer jogador mediano da II divisão que não sabe dar dois pontapés seguidos tem de saber para poder jogar ao fim-de-semana sem fornicar completamente o trabalho da equipa.
Depois, entregava o filme ao Gaitán, e dizia-lhe assim: «Olha Nico, este chinês nem camisolas vende, mas esta camisola que ele tem é para ti. Para conseguires jogar no United, um dia, só tens de aprender a fazer o que aqui está.»

Se não acontecer nada de extraordinário (como perder com o 14.º classificado da liga romena e com o 10.º classificado da liga suíça, mesmo considerando que as equipas se transformam de uma competição para outra) o Benfica praticamente garantiu, com este empate, o apuramento para as eliminatórias. O United já cedeu o seu empate e, depois disto, não vai querer acabar em segundo no grupo, pelo que forçará mais nos próximos encontros. Em condições normais, fora do campeonato a três para o segundo lugar do grupo, o Benfica arranca com um ponto de vantagem.
Fica, no entanto, a segunda parte do desafio ao Benfica europeu: vencer fora de casa. Algo que não consegue, pura e simplesmente, fazer, sendo que a capacidade de vencer jogos fora, na Europa, distingue as equipas regulares das equipas com ambições.

Se não perder o próximo jogo, com o Otelul, o Benfica passa, até porque me parece que teve sorte com o resultado do jogo na Suiça. Os romenos pareceram-me melhor equipa, embora muito tenrinha, e vão ganhar ao Basileia em casa. Já o Basileia, não o vejo a ganhar um dos dois jogos ao Benfica. Não perdendo na Roménia Benfica fará entre 9 e 11 pontos, e chega, desde que o United faça a sua parte.


Porto
Com o resultado do Zenit em Chipre,o Porto garantiu metade do apuramento ao bater o que passou a ser o seu concorrente directo.

O jogo podia ter dado para os dois lados, a verdade é essa, apesar do Porto ser superior.

O Zenit foi ao Chipre jogar pela certa, não diria para o empate mas para a vitória se possível, e lixou-se. A única forma de recuperar os pontos perdidos é fazendo o que, provavelmente, nenhuma equipa vai fazer: ganhar ao Porto.
Neste cenário, o próximo jogo do Porto, na Rússia, é uma final antecipada, em que um empate do Porto praticamente lhe garante o apuramento, pois fica, depois, com dois jogos com o APOEL para fazer seis pontos, o que daria 10, com mais um jogo em casa com o Zenit e outro fora em Donetsk. Pontuando na Rússia, o Porto pode ligara velocidade de cruzeiro.

O QUE FOI

Porto (IRPR = 0.438) – O desenrolar do jogo foi, inicialmente, desfavorável ao Porto (penálti falhado, penálti não assinalado, frango de Helton, desvantagem inicial), e, à excepção do Barcelona, o Shaktar foi o adversário mais forte da época, numa situação de vitória quase obrigatória e algumas baixas relevantes (Rolando, Guarín). No cômputo geral, assistimos à melhor prestação do Porto esta época, superando a da vitória em Guimarães para o campeonato.

Benfica (IRPR = 0.435) – A elevadíssima qualidade do adversário e o facto de se tratar de uma jornada inicial na Liga dos Campeões foram os únicos factores pressionantes sobre o Benfica, que, por outro lado, jogou sem a obrigação de ganhar, ante um adversário muito desfalcado (por opção e por imposição das lesões), tendo a vantagem de marcar primeiro. Um jogo difícil, obviamente, mas não o mais difícil. As duas prestações frente ao Twente não foram tão mediáticas, mas superaram, em eficácia, esta com o United.

De referir que o empate, neste caso, é contabilizado como um resultado positivo, pois considero que é um resultado que, no momento em que o jogo é jogado, é visto como servindo os objectivos

Doping

Já sei que depois de dizer isto as minhas hipóteses de ser eleito presidente da Junta cá da terra vão por água abaixo, mas não tenho nada contra o doping, nem acho que o doping seja um problema real.
Acho que o doping encerra dois tipos de problema, ambos ilusórios: um problema para o atleta que se dopa e um problema para os outros.

O problema dele

Em relação ao primeiro problema, da minha parte, resolve-se em duas penadas: cada um é responsável pelo que faz com o seu corpo. Se existe um verdadeiro problema, neste caso, é o da cortina de fumo que se lança à volta do doping tornar essa realidade obscura e fazer prosperar o chamado doping amador, feito por conta própria pelos atletas, sem o apoio médico que existe nos clubes bem organizados, sem se saber o que se está a meter, quais as consequências, se a dose é aquela ou outra. A diabolização do doping faz com que um desportista vulgar corra mais riscos do que o doping em si.

Daí para a frente, nada a discutir. Cada um é livre de fazer do seu corpo o que quiser, e quem acha que não, quem decide invocar religiões e morais para se meter na vida dos outros, deve certificar-se, antes de botar sentença, que o seminarista de quem anda a receber conselhos não esteve, cinco minutos antes, a roubar, a mentir, a intrigar, a comer uma brasileira no Calor da Noite ou, pior ainda, a comer um brasileirinho de escola primária. Quem se chocar com isto que vá a Fátima, ou à capelinha da praia de Matosinhos, que lá também muita gente muito crente que depois passa a vida a fazer filhadaputices aos outros.
(E pronto cá vão os últimos 500 votos…)

Curiosamente, ninguém quer saber realmente desta parte do problema. As pessoas estão-se pouco borrifando para o que acontece aos desportistas que se dopam. As histórias do testículo, dos dois testículos, dos três testículos, são contadas mais pela bizarria que pela comiseração. São «anedotas Fukushima».
As pessoas preocupam-se sobretudo com o acontece à competição quando os atletas se dopam.

O nosso problema

Primeiro engano: o doping estraga uma competição.
Não é verdade. O que acontece à competição quando os seus atletas de dopam é ficar melhor. Isso é comprovável até cientificamente. Todas as competições desportivas do mundo são hoje mais bem jogadas, ou mas bem executadas. Os records estão constantemente a cair, faz-se tudo melhor.

Segundo engano: o doping facilita a vida aos atletas.
De uma forma geral, não é verdade. Na esmagadora maioria das vezes o doping é usado não para cortar o volume de trabalho (leia-se treino) de um atleta mas para o aproveitar ao máximo. Um atleta dopa-se, sobretudo, ou durante os treinos, ou quando o nível de exigência da competição é elevadíssimo. Quem não trabalha arduamente geralmente nem quer doping nem aproveita os seus efeitos, porque sem trabalho o doping não serve para nada. Exceptuando alguns casos de abuso evidentes, o doping não transforma um atleta banal num campeão, transforma um grande atleta num campeão.

Terceiro engano: quem se dopa são eles.
Há uns anos estava a falar com um atleta português de nível mundial e, na minha ingenuidade, disse-lhe que enquanto eles estivessem todos mamados não havia hipóteses. Ele embaraçou-se e, com um bocado de vergonha à mistura, disse-me: «Ó Hugo, sabes, se a gente não fizer nada nem sequer consegue andar ao pé deles.»
Fiquei zangado quer por o ter obrigado a passar aquela vergonha quer por ter sido tão estúpido. Evidentemente que, se nem todos se dopam, quem compete ao mais alto nível tem de se dopar. É uma premissa fundamental. Faz parte do ofício, como treinar, descansar, comer legumes, fazer fisioterapia e curar lesões.
Quem pensar que o desporto de alta competição dá saúde a alguém ou que as famosas consultas de Zidane com o dr. Ferrari eram para receitar aspirinas está louco.
Não acredito que haja algum desportista de primeira classe que não se dope – de uma outra maneira, e já vou dizer o que quero dizer com isto.

Quarto engano: o doping provoca concorrência desleal.
Quando todos se dopam – todos entre os melhores, entenda-se – a única forma de haver concorrência desleal é quando um tipo de tecnologia de dopagem só está ao alcance de alguns. Não digo que isso não pudesse ser verdade há uns anos, quando, sobretudo no Leste europeu, os laboratórios de medicina desportiva eram autênticos Projectos Manhattan. Mas, depois da queda do muro, a ciência do doping – que também sempre esteve muito desenvolvida nos Estados Unidos, diga-se, mas num regime mais aberto, claro – globalizou-se. O mercado seguiu o seu curso normal e, hoje em dia, é tão fácil aceder a bons nutricionistas do desporto na Austrália como na Grécia ou em Espanha, onde existe um dos sistemas de doping institucionalizado mais activos do mundo. (Os espanhóis são assim: copiam tudo, mas quando copiam conseguem fazer melhor que os outros.)

Quinto engano: o doping é a única forma de concorrência desleal no desporto.
Digam isso aos milhões de indianos que têm potencialidades físicas para serem os melhores corredores de fundo, halterofilistas, futebolistas ou xadrezistas do mundo e que, pura e simplesmente, nem sequer têm uma carcaça para comer.
De acordo, não sejamos tão despropositados. Vamos tornar as coisas mais terráqueas. Um nadador português que não tem acesso a máquinas de optimização de treino, ou dinheiro suficiente para vitaminas, ou que só pode treinar metade do que devia, está ou não está numa situação de concorrência desleal com um francês, por exemplo, que tem todos os meios, fatos de pele de tubarão, uma piscina só para si, e que compete directamente com ele?

Um atleta de um país pobre, ou de uma região pobre dentro de um país, ou de uma família pobre, que tenha o mesmo potencial doutro atleta de um país rico, com todas as condições necessárias para atingir o máximo de si próprio, está, ou não, numa situação de desvantagem praticamente irrecuperável?

Um canoista português que não se dope queixa-se de um outro que se dopa, mas será que percebe que, em Angola, por exemplo, algures no meio do mato, há um miúdo que poderia ser melhor canoísta do que ele que nunca vai ter possibilidade, sequer, de pegar num remo, e muito menos de ser encontrado por alguém que reconheça o seu potencial?


A questão válida é a seguinte: as vantagens adquiridas por um processo não puramente natural – TODAS as vantagens – fazem ou não parte da competição? Ou seja, a envolvente de um atleta entra ou não na equação daquilo que faz o valor do atleta? Se sim, não faz sentido diferenciar o doping de qualquer outro artifício como os ténis feitos à medida, as bebidas isotónicas, as vitaminas, as máquinas de recuperação física, os períodos de descanso pagos.
Aliás, se há um tipo de vantagem artificial que pode mais facilmente ser minimizada é precisamente a do doping, que, ao contrário dos centros de estágio e das estruturas federativas, está mais ao alcance de todos.


A outro nível, este dilema do doping já se viveu quando os desportistas começaram a tornar-se profissionais. O facto de haver atletas pagos para treinar, com tempo e condições para aperfeiçoarem as suas capacidades, era visto como uma deslealdade para os restantes, originalmente amadores. O que hoje pode parecer uma questão obsoleta, na verdade, não foi um processo fácil. Os Jogos Olímpicos só acabaram com a hipocrisia do amadorismo – numa altura em que praticamente todos os atletas que neles participavam já ganhavam dinheiro – em 1992, em Barcelona, quase cem anos depois da sua primeira edição, exclusiva para amadores.

Também no muito tradicionalista râguebi só há poucos anos o profissionalismo saiu (e discretamente) do armário.

Em todo este processo esteve sempre em causa, mais do que a realidade prática, a idoneidade do atleta. Um profissional era considerado sujo, maculado, da mesma forma que, hoje, se encara um atleta que se dopa como um batoteiro. Demorou cem anos a aceitar o profissionalismo como uma tentativa honesta de ser melhor.

Acredito que o doping vai pelo mesmo caminho. À medida que se assuma que a ingestão de substâncias potenciadoras das capacidades naturais do atleta é uma atitude perfeitamente normal num competidor profissional, a estrutura desportiva vai adaptar-se à realidade. Eventualmente, o caminho será o mesmo, com os atletas que se dopam a assumirem um estatuto diferente dos outros, avisando formalmente que estão dispostos a ir mais além. O anátema irá, lentamente, esvanecer-se, até à altura em que as pessoas não se irão preocupar mais com o facto de haver atletas que se dopam para se passarem a preocupar em regulamentar devidamente o doping, criando maneiras para ele se tornar potencialmente menos danoso. Esse é, aliás, um processo já em curso, com os departamentos médicos dos clubes de futebol, por exemplo, a controlarem cuidadosamente a administração de produtos aos seus atletas, cuidando das doses, das tomas, dos períodos de pausa especificamente para cada atleta.

Na indústria do futebol, para falar, então do caso inglês que está a dar brado, o recurso ao doping está mais do que assimilado como componente do trabalho.
Daqui a trinta anos já ninguém irá querer saber se o jogador X ou Y se dopa, mas se se dopa como deve ser, se o Zé do Benfica está tão bem dopado como o Manel do Porto, porque se não estiver tinha de estar.


Nessa altura haveremos de estar a tratar de outro problema que «vai acabar com o desporto». A manipulação genética, por exemplo. «Qual é o sentido de fazer uma competição se se pode construir um desportista à medida para este jogo?», perguntar-se-á.

E, também nessa altura, haverá os conservadores, que acham que tem de haver uma maneira de voltar a pôr a caixa na prateleira onde sempre esteve, e os liberais, que acham que, depois de vermos o que está lá dentro, já não faz sentido voltar a meter a caixa na prateleira.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Men, United!

Porto e Benfica têm, na Liga dos Campeões, jogos contraditórios. O Porto tem um encontro decisivo para o apuramento, com uma equipa mais fraca. O Benfica, apesar da grandeza do adversário, tem pouco a perder neste jogo e muito a ganhar. O jogo com os ingleses não é decisivo a não ser que o Benfica consiga, pelo menos, empatar.

Porto-Shaktar
Vítor Pereira teria conseguido passar muito melhor a sua mensagem em relação ao jogo com o Shaktar se, em vez de dizer que a equipa ucraniana é «de grande nível europeu» (o que é discutível),  tivesse dito o seguinte:
- O Shaktar eliminou o Braga da Liga dos Campeões no ano passado e está, nos últimos anos, um nível acima do Benfica, por exemplo, na Europa. Como tal, um jogo em casa com o Shaktar para a Liga dos Campeões é mais difícil do que um jogo com o Benfica ou com o Braga, com uma agravante: ao contrário do Benfica, o Shaktar é uma equipa rotinada a defender e a sair no contra-ataque, que não vai ter complexos nenhuns em vir jogar aqui com dez atrás da bola porque está construída para fazer isso na Europa.

Se tivesse dito isto, o treinador do Porto teria conseguido não só fazer entender perfeitamente o tipo de jogo que vai enfrentar hoje como abrir (utilizando argumentos racionais e verdadeiros) abrir uma nova frente de hostilidades com o Benfica  a pouco mais de uma semana de um dos jogos do título, período em que o Porto encontra sempre maneira de pôr as pessoas a falar de tudo (sobre o Benfica) menos no jogo, enquanto os seus jogadores são metidos numa estufa.
Tenho poucas dúvidas de que o Villas-Boas já teria usado o Benfica para falar do Shaktar (e, no fundo, falar do Benfica.)

Postas as coisas nestes termos, as hipóteses do Porto para este jogo são as mesmas que terá no jogo com o Benfica: 70 % de vitória; 25 % de empate; 5 % de derrota.

Atenção, no entanto, aos problemas na defesa do Porto. O ataque, em termos de qualidade, é o ponto forte do Shaktar, sobretudo o contra-ataque. Maicon e Otamendí pouco ou nada jogaram juntos e Álvaro Pereira só joga porque não há alternativa. É uma vulnerabilidade que pode baralhar a equipa. Acho difícil o Porto não sofrer golos.

Benfica – Manchester United

Ponto prévio, da maior importância: no próximo domingo o Manchester United recebe o Chelsea, num dos jogos mais importantes da sua época. Considerando a fraca qualidade do seu grupo na Liga dos Campeões, que lhe garante o apuramento, o jogo com o Benfica não é irrelevante mas não anda muito longe. Um empate é um bom resultado.

Apesar da ideia de uma certa invulnerabilidade das grandes equipas, não é muito normal os vencedores dos grupos acabarem a primeira fase só com vitórias, ganhando, normalmente, todos os jogos em casa. Geralmente acabam 5v-1e ou 4v-2e, sendo que os pontos perdidos acontecem, também geralmente, logo no princípio, quando é mais importante não perder e, até, poupar jogadores, ou no fim, depois de o apuramento estar alcançado, altura em que os treinadores decidem, sem dúvidas, poupar jogadores.
Teoricamente, dada a sua qualidade relativamente a Zurique e Otelul  e o momento em que o jogo acontece (para mais sendo na Luz), o Benfica está, amanhã, na melhor posição para roubar pontos ao United.

Antes de mais, sendo o United uma equipa de topo europeu e o Benfica um aspirante à primeira linha, o Benfica não é assim tão mais fraco que o United. Tem alguns pontos fortes que não vão permitir aos ingleses facilitar na defesa, e pode, perfeitamente, marcar um ou mais golos. Eu diria que, em termos relativos, o Benfica receber o United é o mesmo que o Guimarães receber o Benfica. Façam vocês o resto do filme na vossa cabeça...

Acredito que a abordagem de Ferguson para o jogo de amanhã será a seguinte: defender bem, sobretudo na primeira parte, não apostando muito numa toada atacante; atacar pela certa e com método, sem entregar demasiadas vezes a bola ao Benfica e afastando-a da sua área defensiva (atenção ao ponto fraco do United neste momento: o guarda-redes, que não dá confiança), o que levará a um ritmo relativamente lento mas cansativo para o Benfica, que não sabe defender; poupar um ou dois jogadores importantes para o campeonato (eventualmente Nani); arriscar apenas em caso de desvantagem, e não forçar muito a vitória se o desenrolar do jogo se encaminhar para um empate, até porque, em princípio, um empate na Luz assegura ao United o primeiro lugar no grupo.
Ferguson sabe que o Benfica é a principal ameaça no grupo, e por isso vai fazer um jogo cauteloso.

Dito isto, mesmo nestas condições, o «andamento», como refere Jesus, é de tal forma mais elevado que o United continua a ter, pelo menos, 50 por cento de hipóteses de ganhar na Luz.
Mas o Benfica vai jogar com outro chip. Não falo tanto em motivação, mas em concentração. Podemos esperar jogos superiores de Gaitán, Aimar, Cardozo e outros.

O Benfica tem um ano a mais de experiência europeia, um factor que, por si só, é o mais importante nestas competições. Conta mais saber como jogar na Europa do que ser uma boa equipa – digo que conta mais, não digo que o valor da equipa não interessa.

O Benfica vai jogar empolgado, o público transmitirá a electricidade típica de uma noite europeia (não é um mito, a grande Luz europeia existe mesmo, quem já lá esteve neste tipo de jogo sabe). Não é uma questão de meter medo ao adversário, é uma questão de criar um ambiente tão eléctrico que se torna invulgar, estranho, diferente, e retira alguma lucidez a todos os jogadores. É como um daqueles dias de trovoada em que o céu está carregado de energia. É um dia com 24 horas, na mesma, tem manhã, tarde e noite, claro que sim, mas a nossa cabeça não funciona da mesma maneira, e às vezes até nos tornamos mais irritadiços. É essa electricidade que, por vezes, faz curto-circuito no sistema dos jogadores, sobretudo dos mais novos. Eu assisti ao jogo em que o Benfica venceu o Manchester e em que o Leo se enfiou nos calções do Ronaldo e lhe deu cabo da tola. Eu vi o Ronaldo a fazer o «passarão» para a bancada quando saiu – eu estava nessa bancada. Eu sei do que estou a falar.

Pegando nisto (no jogo de 2005, não no «passarão» do Ronaldo…), o histórico entre Benfica e United não vai passar em claro. O jogo de 2005 não foi apenas uma vitória do Benfica sobre o Man. United. O jogo era uma final. O Benfica ganhou, passou, e eliminou o United na fase de grupos pela primeira vez desde que começara a Liga dos Campeões. O Ferguson sabe que a Luz não é o Reebok Stadium, e sabe que o Benfica acredita. Vai resguardar-se. Tal como o Jesus, aliás. Curiosamente, não me parece que o primeiro golo vá ser muito determinante. Nenhuma das equipas vai jogar para a goleada. Vai ser um jogo muito táctico, o que é curioso, porque nem o «mestre » nem o Ferguson são grande coisa no que respeita a tácticas. Aquilo é mais chiclete, madeixas, pontapé na chincha e muitas peneiras.

Acredito que Saviola, mais experiente, possa jogar no lugar de Bruno César, a descair pela esquerda. Sei que se o Gaitán jogar a maior parte do tempo à esquerda o Benfica perde, porque metade da capacidade defensiva desse flanco desaparece.

Atenção à defesa do United, claramente debilitada. Se há um sector qu convém não estar debilitado quando se enfrenta o Benfica é a defesa.

Sim, Rooney é um dos cinco melhores jogadores do mundo na actualidade, e atingiu uma classe que lhe garante, à partida, quase, um golo por jogo, seja em que jogo for, além de um controlo absoluto sobre toda a dinâmica de ataque da sua equipa. Sim, o United está numa de massacrar. 8-2 ao Arsenal é de meter respeito, 5-0 ao Bolton, fora, também.
Mas cada jogo é um jogo, e continuo a achar que o Benfica tem 50 por cento de hipóteses de não perder. O que, na minha opinião, considerando o factor superação, vai chegar.



Um detalhe, para acabar: o Porto, candidato às meias-finais da Champions, tem hoje um jogo decisivo. O Record mete o Porto na esquina da primeira página e faz capa de uma não-notícia, dizendo que, amanhã, o Luisão vai jogar ao pé do Rooney. Paradigmático.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nuno Gomes

Quando procuro uma explicação para o fenómeno Nuno Gomes no Benfica acabo sempre numa palavra: timing. Em bom português, oportunidade. Mas a palavra lealdade é quase tão relevante.

Começando pelo fim, não tenho dúvidas de que Nuno Gomes só não continuou no Benfica este ano por causa do Europeu de 2012, e porque, de certeza, antes de tomar a decisão final falou com Paulo Bento sobre as possibilidades reais de ser convocado. A convocatória para um dos últimos jogos da selecção (não me lembro qual), feita sem qualquer razão objectiva, foi uma recompensa pública do seleccionador e uma forma de solidificar um compromisso. Se Nuno Gomes jogar com regularidade, Paulo Bento vai chamá-lo – e provavelmente bem, porque, numa competição de poucos minutos e em que o que conta é o momento, a experiência de Nuno Gomes pode valer mais que a boa vontade de Postiga, por exemplo, além da importância que um jogador experiente tem num grupo que disputa uma fase final, mesmo quando não joga.
A saída do Benfica foi uma mera questão de oportunidade.

O facto de Nuno ter passado tanto tempo a pensar na saída, quando era evidente que Jesus daria mais minutos a Weldon ou Kardec, por exemplo, é revelador. Qualquer outro jogador, depois de uma temporada passada como figura de porcelana, teria tomado a decisão em cinco minutos. Nuno Gomes levou cinco meses.
O curioso é que, neste momento, tendo voltado a jogar, não me surpreenderia se jogasse mais cinco anos, porque gosta do jogo o suficiente para isso.

Confesso que não esperava a revelação do «Nuno Gomes líder de balneário» que se deu durante as duas últimas épocas, e admito porquê: Nuno Gomes nunca me pareceu um jogador de carácter verdadeiramente forte, e muito menos um líder. Em campo, pelo menos, Nuno Gomes nunca me mostrou a fibra de um verdadeiro campeão.
Um jogador muito bom, sim, com uma técnica de passe invulgar, extremamente inteligente a ler o jogo, com capacidade para jogar nos jogos grandes, mas um vencedor nato, não.
Talvez seja injusto, por Nuno Gomes ter sido um símbolo do Benfica no pior período da história do clube, mas sempre vi Nuno Gomes mais como uma das causas do problema do que como uma vítima. Um dos problemas do Benfica era a falta de liderança, e Nuno Gomes, sendo líder, era um líder fraco. Nunca foi um daqueles líderes que consegue, com a força do carisma, liderar uma revolta contra o azar, ou contra a superioridade de um adversário.

Por outro lado, pode parecer uma incoerência dizer isto de um jogador que já marcou 200 golos, mas Nuno Gomes também nunca foi um matador. Nesse aspecto, assemelha-se a Cardozo.
Cardozo, sendo um goleador, é um goleador da estirpe fraca. Embora marque alguns golos decisivos, a maior parte dos golos que marca são pouco importantes, e precisa de demasiadas oportunidades para marcar. Em jogos contra equipas mais fracas, onde ou ele ou outro acabam por meter a bola na baliza, isso não é importante. Nos jogos em que perder um golo é quase perder o jogo, como são os clássicos ou os jogos europeus, é.
Nuno Gomes, enquanto ponta-de-lança titular do Benfica, era igual a Cardozo, com a desvantagem de, mesmo sendo muito mais inteligente, tecnicista e móvel, ter menor poder de fogo que Cardozo, cujo remate com o pé esquerdo é dos mais letais que já vi em qualquer avançado. Tal como Cardozo, também Nuno Gomes jogava relativamente mal de cabeça. E, tal como Cardozo, também Nuno Gomes era facilmente anulável por uma boa defesa. Daí ter um registo tão fraco nos jogos com o Porto.
Não creio que os cerca de 160 golos que Nuno Gomes marcou no Benfica sejam uma marca fabulosa em termos relativos. Jogou 12 anos no Benfica. Dá uma média de 13 golos por época. Numa equipa grande, que joga 95 por cento dos seus encontros frente a equipas inferiores, num campeonato de segunda linha europeia – a Liga portuguesa só subiu de divisão depois de Mourinho -, 13 golos numa época é, aliás, muito pouco. Um bom goleador faria, facilmente, entre 25 e 30 golos por ano no Benfica. Um grande goleador, como Jardel, 40.

Considerando que os títulos do Benfica, nesses 12 anos, foram escassos, é fácil, para quem acompanha o jogador desde antes de se tornar um verdadeiro fenómeno mediático, não o considerar assim tão indispensável.

O que conduz, então, ao fenómeno Nuno Gomes?
A longevidade, numa era em que passaram pela Luz centenas de jogadores, é um factor óbvio, mas não tanto como a oportunidade.

O último grande jogador-ídolo na história do Benfica foi João Pinto. A sua saída, nos culminantes anos de Vale e Azevedo, provocou um vazio igualmente histórico. O reingresso de Nuno Gomes no Benfica, em 2002, apresentado como uma vontade expressa do jogador em voltar à Luz apesar de estar no seu apogeu de carreira e de ter mercado na Europa, preencheu esse vazio, dando aos benfiquistas pelo menos a ilusão de que ainda havia um jogador para quem o amor à camisola valia alguma coisa. João Pinto, nessa altura, estava no Sporting.
A vontade de manutenção de Nuno Gomes na Luz sempre me pareceu mais fruto da acomodação que da lealdade, mas admito que essa ideia possa ser errada.

Outra explicação que encontro é a de estes segundos nove anos de Nuno Gomes no Benfica, como referência portuguesa do maior clube da capital, vivendo na Linha do Estoril, coincidirem com a entrada das mulheres e da imprensa cor-de-rosa no mundo do futebol.
Nuno Gomes sempre teve grande impacto no público feminino, o que aumentou bastante a sua popularidade, sem que ela viesse necessariamente do seu rendimento desportivo. Nuno Gomes vendia muita publicidade, e cavalgou sem complexos a onda mediática.
Os adeptos queriam Nuno Gomes na equipa porque era o único jogador que realmente conheciam, sobretudo os mais novos, e as mulheres - que de facto, percebem muito pouco de futebol apesar de comprarem bilhetes e camisolas cor-de-rosa (a camisola cor-de-rosa do Nuno Gomes era sempre a mais vendida) – simplesmente não percebiam que um jogador tão giro e que parecia saído de uma telenovela não jogasse sempre e não fosse o melhor jogador da equipa.
Nuno Gomes, sendo bom jogador, era um melhor produto mediático. Confundiu-se com a grandeza do Benfica, o melhor vendedor de jornais do país. Sentindo que o jogador tinha estabelecido empatia com a massa adepta do maior clube português, a imprensa aproveitou-o.

Com Jesus, um treinador sem feitio para mitos, demasiado egocêntrico e preocupado em ganhar «aqui e agora» para alimentar histórias da carochinha, Nuno Gomes, como Mantorras, foi colocado no lugar que a sua qualidade exigia naquele momento. Nuno Gomes é, actualmente, inferior a Cardozo, apesar de me ter surpreendido a facilidade com que Jesus fez a escolha assim que chegou. Pensei, durante alguns meses, que acabaria por colocar Nuno a jogar com Saviola. Eram os dois jogadores mais inteligentes do Benfica a jogar futebol. Imaginei Nuno e Saviola a jogar em tabelas, em velocidade, a abrir espaços, e parecia-me evidente. Jesus apostou no contrário, na diferenciação de características (um pouco como quando o Benfica trouxe o dinamarquês Maniche para dar físico a uma equipa incrivelmente técnica, no princípio dos anos 80), provavelmente com medo que, dada a fraca capacidade finalizadora de ambos, um grande volume de ataque resultasse em poucos golos.

A sua adaptação a reconhecido líder moral de balneário, confesso uma vez mais, surpreendeu-me. Menosprezei-lhe a inteligência e a lealdade. Continuo, no entanto, a pensar que a elevação de Nuno Gome a símbolo do clube é revelador do mau estado a que o Benfica chegou entre 1995 e 2005. Raramente vi em Nuno Gomes um golpe de asa anímico, um momento de revolta, de agressividade. A mesma falta de instinto assassino que tinha em campo, que o levava a falhar tantos golos, teve-a na carreira. O que é tomado como desrespeito pela instituição quando Luisão diz que quer sair é, na verdade, o inconformismo natural em qualquer grande competidor. Quando um jogador de futebol está bem num clube mediano (como é o Benfica a nível mundial, neste momento), então esse jogador não é competitivamente saudável. Não tem a garra suficiente. Nuno Gomes nunca se importou muito em conviver com a mediania.

O facto de ter assistido ao pior período na história do Benfica tornou-me, como a muitos outros, cínico em relação a ídolos de pés de barro. Ver jogadores como João Pinto, Simão, Nuno Gomes e outros acomodados ao lugar e à braçadeira de capitão, sem render sequer perto do que poderiam render, curou-me dessa idolite. Assisti, na força do meu benfiquismo juvenil, à traição de Paulo Sousa (na altura o meu ídolo) e de Pacheco, como assisti, no ano seguinte, à maior vitória na história do Benfica – o 6-3 em Alvalade. Aprendi, a partir daí, a entender a natureza mística e turbulenta do Benfica, e a não me impressionar sem razão. Às vezes ainda me surpreendo – a época de 2010 apanhou-me completamente de surpresa – mas impressionar-me, é difícil.

Nuno Gomes foi um dos melhores jogadores do Benfica nos últimos 15 anos. Novamente, é uma pessoa honesta, leal, inteligente e um profissional válido. Eu gosto do Nuno – não ao nível de adoração que a maioria dos adeptos do Benfica lhe vota, mas gosto. Em termos de qualidade futebolística, vi jogar no Benfica vários jogadores que, mesmo não estando (alguns) tanto tempo como ele no clube, eram melhores jogadores. Chalana, Diamantino, Valdo, Ricardo Gomes, Mozer, Preud’homme, João Pinto, Isaías, por exemplo. Nuno Gomes está no top 20 da minha experiência benfiquista, não tenho dúvidas disso.

Se Nuno Gomes teria lugar no actual Benfica? Sim. Pelo factor cultural, que já referi em relação ao Luisão, sim. Tem inteligência suficiente para passar experiência e cimentar uma equipa em construção. E provavelmente teria ficado se não fosse o Euro 2012.
Mas a questão de fundo, para mim, é apenas uma, em todos os momentos: não é com líderes da qualidade de Nuno Gomes que o Benfica vai conseguir tornar-se mais forte do que o Porto. É preciso mais. Mais força. Mais carácter. Mais vontade.

Portanto, que fique, que volte, que participe, sim, tem capacidade para ser um a mais e não um a menos, mas não como vaca sagrada, porque nem fez o suficiente nem é suficientemente bom para isso.