domingo, 11 de setembro de 2011

Um grande abraço, Gerard...


Sequencia da Shakira a ir para o emprego, de manhã, no autocarro da Carris, no percurso Chelas-Olaias

Jornada 4

O QUE PARECE

Sporting
Um momento de viragem do campeonato para o Sporting, com todo o drama necessário para que se acredite realmente num destino diferente. Esta vitória vai ficar nos jornais como mais uma vitória no meio de muitas, mas que não se duvide de que é uma das maiores vitórias na história do Sporting – e não, não estou a exagerar.
Neste momento da vida do clube, num ponto de não-retorno em termos directivos e económicos, no dia em que o treinador, perante um teste decisivo para ele próprio, revoluciona completamente a equipa onde se esperava e até onde não se esperava (não pensei que tirasse o Izmailov para meter o Pereirinha, os outros todos confesso que sim, que calculei que houvesse varridela da grossa), dias depois da mais cara contratação de sempre, o Sporting vê-se a perder por dois zero, com dois erros gritantes no pior momento possível, e em vinte minutos dá a volta ao marcador.
No dia em que, daqui por dez anos, depois de dois ou três campeonatos ganhos, se perguntar onde é que tudo começou, a resposta que se deve dar é: «Na noite de 10 de Setembro de 2011, em Paços de Ferreira. Estávamos a perder 2-0, com uma equipa toda nova, e ganhámos 3-2. O profeta marcou um golo.»

Juro (pela alma do meu gato, que tinha quinze anos quando morreu) que aos dez minutos – não foi logo aos seis, nem aos sete – senti que o Sporting ia ganhar o jogo, até porque o golo do Paços aconteceu cedo demais. Só por milagre o Paços aguentaria uma equipa como esta do Sporting durante 85 minutos a carregar.
Com o golo, não se afundou no buraco, nem procurou um buraco para se enfiar mesmo quando estava a perder por 2-0 – porque é uma equipa sem traumas, sem passado. O Capel, o Elias, o Rinaudo, o Schaars, não conhecem o Paços de Ferreira de lado nenhum.
É verdade que, quando há o segundo golo, ainda julguei que, mais uma vez, o inacreditável azar do Sporting estava à prova de qualquer tentativa, mas a verdade é que tive razão: por portas e travessas, mas com indiscutível mérito, o Sporting ganhou. Com o 2-2 sentiu-se que o 3-2 não tardava.
E, claro que sim, não vai ganhar os jogos todos até ao fim do campeonato, mas ganhou uma equipa. Parece que chegou a hora do karma inverter. Atenção: nunca se deve menosprezar a capacidade do Sporting em inventar uma parede onde ela não existe para ir lá bater e ficar estendido no chão.

O Domingos fez o que devia, deixou-se de merdas e pôs os jogadores a sério a jogar. Fica-lhe a faltar um defesa-direito melhorzinho, mas o Pereira faz o lugar, desde que não tenha de mandar em nada e o ponham no seu lugar, que é o de quarto defesa e jogador esforçado. Com isso, o Sporting deixou de ter uma equipa de juniores.
O Evaldo só pode ser suplente do Insúa, que não joga marreco e sabe correr, e que pisa o meio-campo de ataque com a mesma facilidade com que pisa a sua zona defensiva.
O Rodriguez, mesmo com a fífia do segundo golo, é mais jogador que o Carriço a milhas.
O Onyewu dá uma presença física na defesa e nos cantos ofensivos que o Polga nunca deu. É um cepo? É. Mas é um cepo grande para caraças, e vai dar sempre o máximo, porque é americano. Vai dar fífias? Vai. Mas é o segundo melhor central do Sporting. Podiam ter melhor? Podiam. E vão. Mas não por agora.
O Rinaudo mete o André Santos num bolso, no Sporting e em qualquer equipa do mundo, e se está com saudades de casa que compre um postal.
O Elias é um jogador de futebol de altíssima qualidade, desde o toque de bola à capacidade táctica e física. Como o Ramires? Sim. Um bocadinho menos rápido, mas parece-me que mais inteligente a jogar.
O Bojinov fica por ver melhor, se desenvolve ou não. Tem força e convicção. Não sei é se joga muito à bola. Desde que marque golos, contudo, parece melhor que o Cardozo.
O Volkswagen marcou um golo de classe pura. Até a celebração do golo teve classe. Não tirou a camisola, não se atirou para o chão como um débil mental. Foi uma celebração profissional, de quem fez o que sabe que pode fazer, nada de extraordinário.
O Rubio é um caso sério, até como suplente.

Ao meter os bons, o Sporting passou, automaticamente, a jogar mais depressa, mais largo, mais agressivo, com maior presença no campo inteiro. Encontrou o seu onze-base (com o Izmailov no lugar do Pereirinha, mas não obrigatoriamente com o João Pereira em vez do Pereirinha) e, a partir deste momento, passa a ser uma ameaça real, não para ganhar o campeonato, porque já não vai a tempo, mas para chatear que se farta.
E agora perguntam-me: esta equipa vale os 45 milhões de euros que o Sporting pagou durante o Verão para a ter? Vale.

Uma nota: novamente, tal como o Olhanense e o Marítimo, duas pernas de frango de Rui Patrício, que facilita no atraso de Rodríguez e que, no 2-0, leva um golo quase ao meio da baliza com um cabeceamento da entrada da grande-área.



Benfica
Juro (pela alma do meu gato, que, não sei se já disse, mas morreu com quinze anos) que estive mesmo para escrever, no final do meu palpite para o jogo Benfica-Vitória: «Não descarto a hipótese de o jogo se decidir numa decisão arbitral.» Só não pensava que fosse uma decisão arbitral (ou três) tão evidentemente correcta. Pensei que fosse num penalty duvidoso. Foram todos claros – apesar de, no primeiro, ter sido a inteligência do Saviola a arrancá-lo, desacelerando só o suficiente para o defesa o abalroar. O Saviola é o jogador mais inteligente do Benfica, mas de muito longe. Numa equipa de burros, o Saviola, mesmo a jogar aos solavancos, torna-se um jogador fundamental apenas por pensar um bocadinho.

A ideia de que a defesa do Guimarães devia jogar andebol é falaciosa: no andebol os jogadores de campo não podem estar defender na grande-área. Por outro lado, se a defesa do Vitória fosse proibida de entrar na grande-área teria menos quatro penalties por esta altura…

É inacreditável como só ao fim de um ano e tal de Benfica é que só hoje se viu que o Gaitán marca os melhores cantos de Portugal do lado direito. Repito, é inacreditável. E também é inacreditável a quantidade de cantos curtos invariavelmente inconsequentes que se marcam com seis jogadores dentro da área, quer do lado esquerdo quer do direito.

O Benfica, como sempre, perde clarividência com facilidade e deixa de saber interpretar o momento do jogo. Com 2-0 podia ter feito mais dois ou três, mas achou que não era preciso. O costume. O Cardozo, que tem cabeça de passarinho, é o pior. Depois sofreu e já não conseguiu voltar a entrar no ritmo do qual nunca deveria ter saído antes de, pelo menos, fazer o terceiro golo. Esta é uma história que já se repetiu quarenta vezes nos últimos dois anos e que se vai repetir mais vinte este ano.

A equipa segue um caminho de resultados muito positivos, mas a confiança que transmite é quase nula. Imaginamos este Benfica sem cérebro a ser pressionado nas Antas e lembramo-nos dos 5-0 do ano passado. Como uma equipa destas pode ser campeã é um insondável mistério.

Porto

Ganhou a jogar com quatro jogadores da segunda equipa (Maicon, Belluschi, Cebola, Defour), com facilidade total, domínio do jogo e da pressão de chegar ao intervalo a zero, e, ao contrário do que se diz, sem necessidade real de meter Moutinho e Hulk.
Sim, acabaram por ser decisivos, mas as três bolas na barra demonstravam já uma superioridade total, que acabaria por ser concretizada mais cedo ou mais tarde.

Quem vê a experiência desta equipa do Porto teria de ser louco para não a considerar, desde já, a futura campeã de Portugal.
Eu continuo a ser um desses loucos.

O resto já disse.



O QUE É

Sporting (IRPR = 0.490) – A favor do Sporting o facto de ter o plantel praticamente todo disponível para Domingos escolher quem queria pôr a jogar, o facto de o paços, apesar de combativo, ser uma equipa relativamente limitada, e a importante expulsão a mais de vinte minutos do final da partida.
Contra, sobretudo, o desenrolar da partida, com uma desvantagem de 0-2 num campo sempre difícil. Com 0.490 em 1.00 máximos, o Sporting teve o seu melhor desempenho da época debaixo de pressão.

Benfica (IRPR = 0.200) – O desenrolar do jogo tornou muito fácil o que a nova energia da equipa do Vitória e a proximidade do jogo com o Manchester dificultavam. Tanto que o Benfica jogou, afinal, o seu segundo jogo mais fácil da época, a seguir ao do Feirense. Tanto num como no outro os problemas resultaram, exclusivamente, da sua inépcia, porque a sorte do jogo esteve sempre do seu lado.

Porto (IRPR = 0.125) – Outro jogo muito fácil para o Porto, o que se reflecte no seu IRPR. A única pressão que o Porto sofreu resultou da manutenção do 0-0 até ao intervalo e da proximidade do jogo com o Shaktar Donetsk, que levou o treinador a abdicar de quase meia equipa titular.


O QUE FICA POR SABER

Sporting
Ganhou apenas um jogo ou ganhou uma equipa? Acredito mais na segunda.
Até onde pode chegar? Acredito que até ao segundo lugar, e não mais. Mas mesmo esse é difícil.
Tem seis jornadas até começar o outro campeonato, mais a sério, com as boas equipas. Chegará para consolidar a equipa? Acredito que sim. E reafirmo que o calendário é o maior aliado do Sporting este ano.

Benfica
A quebra que se segue ao bom momento, fruto de um início de época antecipado, chega já, ou apenas daqui por umas semanas? Que chegará, chegará. E a sorte, chegará para tanto?

Porto
Há alguma possibilidade real do Porto ficar mais fraco no campeonato com a Liga dos Campeões? Se não for assim, não se vê como. Mas vai, digo eu.


Como eu disse, o campeonato real, aquele que vai ficar para o resto da época, começou ontem.

sábado, 10 de setembro de 2011

Berlusconi mais dez

Actualmente há uma tendência evidente para considerar Messi o melhor jogador do mundo. Passou a ser moda e, por isso, toma-se essa conclusão como mais racional do que realmente é. A verdade é que o suposto fosso (ainda que pequeno) que se diz que existe entre os dois neste momento não o é – ou é ainda mais pequeno do que se julga. De tal forma que creio que facilmente as posições se reverterão no momento em que o Real ganhar ao Barcelona, e graças a apenas uma nuance no pensamento: basta aparecer alguém com suficiente reputação a dizer «a verdade é que Ronaldo faz a sua equipa ganhar à equipa de Messi» para a agulha mudar.
Continuo a pensar que só haveria uma maneira – que não existe, realmente… - de saber quem é o melhor: se cada um dos treinadores das onze equipas mais ricas do mundo tivesse a oportunidade de contratar um dos dois, mas acreditando realmente que o poderia ter. Ou seja, não sendo uma mera hipótese académica mas uma possibilidade real.
O Berlusconi chegar ao pé do treinador do Milão, por exemplo, e dizer-lhe: «Figlio mío, estou velho, já comi as gajas todas que tinha para comer, isto nem com pastilhas de dinamite já lá vai, por isso vou fazer uma loucura. Quero comprar o Messi ou o Ronaldo para ver se ainda consigo ter um orgasmo, mas só tenho dinheiro para um e não consigo decidir. Qual é que quer?»

O melhor jogador do mundo seria aquele que fosse escolhido mais vezes – e sim, é por isso que seriam precisos onze treinadores: porque provavelmente com dez havia empate 5 a 5. Ah, e o Mourinho e o Guardiola não podiam votar, obviamente. Até porque já os têm.

Mas também digo que não vou na onda do «são os dois muito bons», do «ficava com os dois» típico dos botas-de-elástico do pontapé na chincha ou do «são os dois diferentes». Pois são.
O Messi tem o melhor drible em velocidade desde que a televisão passou a ser a cores. Sim, melhor que o Maradona. O Maradona era melhor em tudo o resto, mas no drible rápido não. Bom, na habilidade natural, provavelmente também era melhor. Não podemos esquecer a melhor definição de sempre de Maradona. Disse Platini: «Não façamos confusões, eu fui um bom jogador, mas o que eu fazia com uma bola Maradona fazia com uma laranja.»

O Ronaldo, como o Maradona, também é melhor do que o Messi em tudo o resto, excepto numa coisa: na capacidade (que virá, digo eu, da necessidade) de jogar em equipa. Imagino que, desde miúdo, sendo mais pequeno e leve do que os outros, ao contrário do Ronaldo, o Messi tenha tido de procurar mais o apoio dos companheiros, o que lhe deu um espírito mais colectivo. Isso explicaria por que razão, na ausência da equipa (na selecção, até agora, por exemplo), o Messi tenha mais dificuldade em mostrar a sua qualidade que o Ronaldo, que se distingue, na mesma ausência, por um individualismo relativamente produtivo.

Tirando esse sentido colectivo invulgar para um jogador com semelhante talento individual, o Ronaldo é melhor que o Messi em tudo. É mais forte, mais rápido, mais completo, de longe.
Se estivesse na mesma situação, Messi teria conseguido ver o passe que Ronaldo viu no terceiro golo do Real frente ao Getafe, mas nunca o teria conseguido fazer com o pé direito como Ronaldo o fez com o pé esquerdo – porque não tem técnica nem força para isso.
O Messi faz um golo de cabeça quando o rei faz anos (é verdade que, há três anos, o rei fez anos na final da Liga dos Campeões, onde, curiosamente, o Ronaldo não fez nem anos nem meses, mas depois disso não me lembro de outro). O Ronaldo é, apenas, um dos melhores cabeceadores do mundo, em impulsão, técnica e produtividade (há poucos a marcar mais golos de cabeça que ele).

Dito isto, atenção: ao Ronaldo não falta sentido colectivo. Pelo contrário. O Messi tem muito, o Ronaldo tem o suficiente. O suficiente para, se eu fosse o treinador do Chelsea e o Abramovich me quisesse dar um presente, o escolher a ele.

Mais uma achega importante: Messi e Ronaldo não são do mesmo campeonato. Messi é o melhor do mundo em Espanha, e, até ver, só no Barcelona (de onde, provavelmente, nunca sairá). Ronaldo é o melhor do mundo em Espanha e Inglaterra, jogando por duas enormes equipas, com estilos diferentes e em tipos de futebol diferente. Alguma vez poderemos comparar a produtividade de Messi noutro campeonato, e a jogar com outro tipo de jogador – com um Anderson em vez de um Iniesta, por exemplo?

Feita a minha escolha, há outra coisa que acho importante dizer: está na hora de encerrar a discussão sobre qual é o melhor jogador português de todos os tempos. A resposta só pode ser uma. Não há nenhum critério, objectivo ou subjectivo, que aponte para outro que não Ronaldo.

Em termos meramente futebolísticos, Ronaldo faz tudo o que Eusébio e Figo, no seu tempo, fizeram, e ainda mais.
Em termos de feitio, é vaidoso, sim, mas o feitio não se pode discutir. Aliás o tratamento que é dado a Eusébio – o de ser extremamente humilde, simples, inocente, etc – é, na minha opinião, perfeitamente degradante. É um tipo de paternalismo que só existe por ele ser negro e africano.
Quanto a Figo, que tem excelente imprensa e foi um grande profissional, sim (mas mais do que Ronaldo?) fez algo – e por duas vezes, uma enquanto júnior, no Sporting, quando assinou pelo Benfica – que não se vê Ronaldo a fazer. A troca do Barcelona pelo Real é um dos actos mais infames na história do futebol. E digo isto gostando muito do Figo. Ronaldo deixou o Manchester não por dinheiro, porque o United lhe pagaria o mesmo, mas por paixão, por dar, realmente, importância ao facto de jogar no Real Madrid.
Em termos de distinções e títulos, Ronaldo ou já chegou lá ou falta muito pouco – e não tenho dúvidas de que vai ser o mais titulado dos três. Mas, mesmo que não os consiga, já tem o suficiente para ser considerado o melhor futebolista português de todos os tempos.

Jámes cheirava

No final desta época James Rodríguez será um jogador fabuloso. Antes de vir foi comparado, pelos solícitos jornalistas do Porto, a Cristiano Ronaldo. Tem parecenças físicas, mas é um jogador muito diferente. Não é um velocista, como Ronaldo, nem é um jogador físico, como Hulk. A velocidade do seu jogo vem da inteligência e da facilidade técnica. Quando a sua estrutura física assentar vai tornar-se um polivalente, capaz de jogar em qualquer lugar do terreno do meio-campo para a frente.
Note-se que já foi apontado como mais um furto de Pinto da Costa ao Benfica, mas desta vez houve um engasganço na máquina de propaganda. Geralmente só se fala do interesse do Porto depois de se insinuar o interesse do Benfica, para reforçar a ideia de vitória. Acredito até que, mesmo quando não há interesse real do Benfica, se fala dele apenas para ver se pega a ideia de que houve uma ultrapassagem. Às vezes há interesse real – Falcão, Álvaro Pereira, Danilo e outros –, outras não há nada, e outras ainda há desistência do Benfica, antes de começar o sprint. Mas, no caso do James, lembro-me perfeitamente de, um ano antes de se falar de um interesse do Benfica, ter lido num jornal que o Porto já estava interessado em James, tinha ele uns 17 anos. O Bandido saiu da gruta cedo demais…

Em condições normais teriam observado os jogadores, como fizeram com todos os outros, esperado pelo momento certo, e só deixavam sair a notícia depois do empresário do jogador, devidamente industriado, lançar a lebre do Benfica para os jornais. Desta forma, o Benfica nem sequer precisava de conhecer o jogador para ser vencido e para ver o seu «sistema de prospecção» elogiado por Pinto da Costa. É um esquema esperto, mas básico, que depende da cumplicidade de uma imprensa controlada e da inocência dos benfiquistas para funcionar.



Já começou o processo de valorização artificial de Defour. Daqui em diante vamos assistir a uma sucessão de «grandes exibições» do belga, mesmo quando, como foi o caso ontem, a exibição tenha sido perfeitamente banal. Muitas pessoas ainda não perceberam que o propalado alto rendimento, o «pegar de estaca» de que se fala dos reforços do Porto, tem a ver com as expectativas muito baixas em relação às suas funções e ao seu rendimento imediato. Um reforço do Porto tem de impressionar muito pouco para ser imediatamente apelidado de reforço. Geralmente basta-lhe entrar na equipa, passar a bola como deve de ser e não fazer porcaria a defender. A verdade é que um reforço do Porto só é reforço, de facto (quando é) ao fim de muitos meses. Até o Hulk.

O problema com Defour é que o Porto vai querer fazer dele, na imprensa, melhor do que Witsel, para não perder essa pequena batalha do mito da infalibilidade. A imprensa colaborará, desde que o Porto ganhe o campeonato. Nesse caso, será fácil dizer que, «afinal o melhor era mesmo o Defour», quando, na verdade, não parece ser. Não parece…



É tão fácil fazer de guarda-redes banais grandes guarda-redes como, depois, quando chegam aos clubes grandes, fazer deles o que são: banais.

Um guarda-redes que joga em cem metros quadrados (na pequena área) é um jogador de equipa pequena. Um guarda-redes que joga em 800 metros quadrados é um guarda-redes que pode ser de equipa grande. Para não ir mais longe, lembro-me da diferença entre o Neno e o Preud’homme, por exemplo. Ou do Roberto para o Valdés. O único problema do Roberto é não sair da baliza. E chega.

O guarda-redes do Vitória de Setúbal é, claramente, um guarda-redes banal. O Setúbal leva três bolas no poste e, talvez, o golo de James, para além de várias outras jogadas de perigo, porque Diego não saía da baliza nem que tivesse um ninho de cascavéis lá dentro. Só apanha cruzamentos que caem na pequena-área e não tem velocidade para dar quatro passos à frente quando os avançados aparecem. Ao defender só em cima da linha obriga os defesas a jogar cinco metros mais atrás, não dá espaço para o fora-de-jogo e permite o massacre de uma equipa pressionante, como ontem. Além disso, no primeiro golo, precisamente por estar tão perto da baliza e não diminuir o ângulo, foi mal batido, lançando-se tarde. Ou seja, defende as bolas que vão à figura e pouco mais, como qualquer guarda-redes mediano. A diferença entre um guarda-redes mediano e um bom guarda-redes é a sua amplitude de acção.

No final do jogo, os jornalistas dão-lhe setes e oitos por defender muitas vezes. É futebol. Na minha opinião, Diego é vendido em Janeiro, depois de mais umas «grandes exibições» e de algumas entrevistas aos amigos do empresário, e dá o lugar ao Ricardo, que, mesmo com 40 anos, é o dobro como guarda-redes.



Prevejo uma vitória do Sporting para hoje por dois ou três golos em Paços de Ferreira. E tudo vai ficar bem, porque, de repente, o Sporting perde o único factor que lhe complica o futebol: a pressão. O azar do Sporting é que o único factor que lhe complica o futebol é, infelizmente, o único factor realmente importante na diferença entre uma equipa vencedora e uma equipa perdedora: a pressão.



Apesar do barulho mediático, a verdade é que acontece poucas vezes os três grandes ganharem os seus jogos na mesma jornada. Considerando esse padrão estatístico, partindodo prinípio que o Sporting, à quarta jornada, vai ganhar, a proximidade do jogo com o Manchester United, o facto de o Vitória jogar fora de casa, sem pressão, sem adeptos raivosos e com o factor chicote ainda a funcionar, não se pronuncia uma noite auspiciosa para o Benfica.
Acredito que o factor decisivo do jogo vai ser o momento e as circunstâncias em que (e não se…) o Vitória marcar o primeiro golo. O quando e o como. Vai ser um jogo de nervos para o Benfica.

A fauna

Às vezes é giro dar uma volta por um jornal. Comprei a Bola de hoje.
 

Página 3.

«Até porque depois há o risco de as pessoas engordarem…»

Pinto da Costa elogia os clubes da segunda liga por não andarem a escolher candidatos «em almoços e jantares».
Já há muito tempo que não via o homem a ter tanta piada. Para mais, o texto aparece ao lado de uma foto em que estão ele, o Antero Henrique e o Luís Duque, que vai a caminho de pesar uns trezentos quilos. O Duque é o principal responsável por o Sporting se estar a aproximar do Benfica e a deixar o Porto a nadar sozinho. É o alvo.
Já agora, isto não é «fina ironia». É sarcasmo. Ironia é quando o cão que pomos a dormir na rua nos rouba a chave de casa. É morrer pela espada depois de viver pela espada.


Página 4

Soares Franco apresenta a sua candidatura à presidência da FPF no mesmo hotel onde, na véspera, «Godinho Lopes e Luís Filipe Vieira almoçaram juntos para definir uma estratégia a propósito de um candidato consensual».

O Hotel é o Tivoli, onde o Porto fica quando vem a Lisboa, assim como o Braga, e onde se dão 90 por cento das reuniões, conferências de imprensa e assembleias do futebol português.
No dia em que o Tivoli deixar de pagar as contas da luz o futebol português emigra, por inteiro, para Espanha.


Página 6

«Seguro nas palavras e ludibriando polémicas, o treinador do F. C. Porto, com a sua voz forte de mais para uma sala que não é propriamente um salão, abordou sem problemas a questão de Hulk, a contas com uma entorse no tornozelo direito.»

Os jornalistas da Bola (este é um Carlos Pereira Santos), como lhes disseram que o jornal onde trabalhavam tinha tido grandes vultos do jornalismo no passado, metem na cabeça que têm de ser escritores, e depois dá nisto.
O que dizer deste vibrante naco de prosa? Do atropelo de ideias tão inúteis quanto incoerentes num breve parágrafo sobre uma não-notícia? Da intenção de elogio que, de tão, bacoca, só cheira a graxa? Lembro-me sempre do que li na férias, quando, ao fim de meia dúzia de dias de comear a época, um jornalista do Record já falava do treinador do Porto como um «condutor de homens», à Ghandi, ou à Churchill.
As páginas do Porto, em qualquer jornal, são um verdadeiro clinic de jornalismo dirigido em ploto automático. Torna-se ridículo de tão óbvio.
 

Página 7

«O Sporting entra nesta luta, tal como o Sporting de Braga ou mesmo o Vitória de Guimarães.»

Disse o treinador do Porto sobre a corrida a dois para o título.
Ao aumentar o volume da cassete, Vítor Pereira revelou precisamente o que pensa em relação ao Sporting: que está a jogar para o terceiro lugar.
 

Página 11

«O presidente é de visão, já tinha antecipado este cenário. Tenho um carinho especial por ele, por me ter mantido aqui mesmo nos momentos difíceis, e nessa última conversa isso ficou bem claro»

Luisão sobre LF Vieira. De vez em quando aparecem estes testemunhos que, ao mesmo tempo, nos parecem tão desfasados da realidade (a sério, o Vieira, um visionário?) mas que nos dão indícios de que o presidente do Benfica, não sendo um génio, pode ser muito melhor do que parece.


Página 11

«Sábado o jogo com o Guimarães é mais difícil e mais importante que o de quarta com o M. United. Sábado é importante na luta do título; quarta não é decisivo no apuramento da Champions onde a nossa obrigação é vencer romenos e suíços. Os dois jogos seguidos em casa para o campeonato podem certificar uma candidatura ao título. Perder pontos agora é proibido.»

Uma análise quase perfeita de Sílvio Cervan. Coloco apenas uma ressalva: um empate em casa com o Manchester seria qu definitivo num apuramento do Benfica. Em relação à prioridade, resta saber se Jesus concorda, quem joga e como.
 

Página 15

«Esses não são sportinguistas.»
Godinho Lopes sobre os adeptos que assobiam os jogadores.
Um erro de palmatória. O Benfica deu a volta conquistando os adeptos. O Sporting, pelos seus dirigentes, continua a pensar que a obrigação está do lado dos adeptos, não dos profissionais. Ainda não perceberam.


Página 17

«O Sporting ganhou dois campeonatos nos últimos 28 anos. (…) Esta é a história do Sporting e mais títulos só na época dos cinco violinos.»
Idem.
Aqui, um momento de clarividência. A natureza vencedora (e não quase vencedora) é um dos grandes mistérios do futebol português. E o futuro do Sporting o maior desses mistérios.
 

Página 17

«Sá Pinto foi expulso no último jogo frente ao união de Leiria»
Nãããão…


Página 47
A namorada do Garay. Valente.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O jogador mais barato

A renovação do contrato entre Luisão e o Benfica é o maior triunfo do clube nesta época, independentemente dos títulos que irá conquistar no final. A importância deste negócio, provavelmente, nunca será devidamente reconhecida, mas este é o tipo de decisões que ganha campeonatos.


1 – Ganhar é apenas metade de continuar a ganhar

O problema do Benfica nunca foi a falta de jogadores de qualidade. Entre as centenas de jogadores que representaram o Benfica durante o período de onze anos em que não ganhou nenhum campeonato houve dezenas que eram de grande categoria, e que o demonstraram antes ou depois de estarem na Luz, ainda que raramente durante.

A razão para não o conseguirem demonstrar na Luz era, sobretudo, por estarem a jogar no vazio.

Tendo muitos bons jogadores, estes, no Benfica, tinham de começar do princípio e fazer o que raramente não é impossível: uma equipa por mero e instantâneo fenómeno químico.

Uma equipa é muito mais que um conjunto de jogadores. É uma unidade viva, que tem uma genética e cultura próprias. Nessa genética e nessa cultura ficam impressas as etapas de crescimento. A forma de transmitir essa informação é só uma – e não é levando os jogadores ao museu, porque isso é história, e a história é apenas uma parte da cultura: a cultura transmite-se através dos próprios jogadores.

Não existem grandes equipas em que não existam os sacerdotes. Os sacerdotes são os doutores dos rituais, os guardiães da cultura. A sua principal tarefa é guardar registo das vitórias e das derrotas e transmitir certezas aos que chegam, porque uma equipa é uma entidade eternamente renovável, um todo de energia mais ou menos intensa que precisa, acima de tudo, de orientação.

Há dois tipos de jogadores fundamentais a uma equipa campeã: o jogador que permite a vitória; e o jogador que a guarda. Que Luisão seja os dois é apenas uma feliz coincidência para o Benfica, mas que a Direcção do Benfica perceba isto quando, economicamente, a curto prazo, poderia ter facilmente trocado essa possibilidade por alguns milhões de euros, é uma diferença fundamental entre um clube perdedor e um clube ganhador. Assim como é bom que isso já tenha acontecido quando seria ainda mais fácil vender Luisão, após a zanga em campo com Katsouranis, no tempo de Camacho.



2 – A possibilidade da liderança

Há uma tendência, nas organizações fracas, para minimizar o papel do jogador. Qualquer autoridade teme que o poder caia na ralé e, no futebol, a ralé é o jogador, o soldado que tem de obedecer, ser leal, comer e calar, responder aos jornalistas com chavões e nunca levantar ondas. Porque o jogador tem, de facto, muito poder, e pode, em caso de subversão, minar um clube até ao ponto de o deixar sem presidente e sem saída.

Luisão não é o jogador que come e cala. É «vocal», como dizem os americanos, sabe da importância que tem, não anda a lamber o cu aos adeptos (os No Name Boys não o gramam nem um bocadinho porque ele os manda literalmente à merda), e não se fica.

Um Benfica que faz deste jogador um jogador vitalício é um clube que confia em si próprio, na sua organização interna e na capacidade de lidar com personalidades. Porque um grande líder é, sempre, um indivíduo anormal, com uma personalidade atípica – para melhor, entenda-se, mas atípica e não enquadrável nos padrões de normalidade.

Acima de tudo, esta renovação para a vida com Luisão transmite uma mensagem forte. A de que voltou a existir, no Benfica, o que já houve com Coluna, Humberto, Diamantino e outros: espaço para a liderança voltar aos jogadores.

Ter um jogador que é um dos líderes do clube tem um valor inestimável, porque a afirmação do clube se faz em campo, onde tudo, realmente, se decide. O poder fica mais perto do nível de decisão. O Porto jamais teria feito a sua passagem para um nível superior de competição sem jogadores de nível médio – como João Pinto ou Jorge Costa – que, mais do que darem qualidade à equipa, lhe dão legitimidade. Ao minimizar a importância de Jorge Costa no Porto, Octávio Machado – que é um bombeiro, não um general – enfraqueceu decisivamente a equipa não pela qualidade que lhe retirou mas pelo vazio de legitimidade que criou no seu núcleo.

Há mais jogadores, no Benfica actual, que podem aspirar ao papel de continuadores. Artur, Maxi, Ruben Amorim, Javi Garcia, Pablo Aimar, por exemplo, são jogadores que, por uma conjugação de qualidade (não «excessiva»), idade e maturidade (Amorim e Garcia têm uma idade mental bem superior à idade civil), podem ficar seis, sete, oito anos no Benfica, ou mesmo acabarem aí a sua carreira. Não estão num nível tão alto que os torne alvos evidentes para clubes maiores que o Benfica nem num ponto tão inicial da carreira que lhes permita sonhar com muito melhor que o Benfica. O que nos leva ao terceiro ponto: a disponibilidade do Benfica em pagar a estes jogadores acima do valor do mercado -  melhor explicado, acima do que teria de pagar às alternativas que, certamente, teria.
 

3 – A massa
Numa lógica de mercado, o Benfica teria vendido Luisão (de 30 anos) com um laçarote vermelho ao pescoço. Mas preferiu ficar a pagar-lhe mais do que seria economicamente racional – e fazer dele, provavelmente, o jogador mais bem pago do plantel quando, com o que pouparia nos seus salários, poderia pagar a aquisição do seu substituto. Se Maxi, Garcia e outros ficarem no Benfica será porque o Benfica preferirá, igualmente, pagar-lhes pelo que eles valem para o Benfica, e não pelo que valem para o mercado.

Para mim, isto é fundamental. Nos tempos actuais, um grande clube só passa a sê-lo, realmente, quando se liberta do mercado, ou seja, quando se liberta da sua lógica e aposta numa lógica cultural, de dinâmica interna. Os outros são, pura e simplesmente, destrutíveis a partir do momento em que apareça um predador acima na pirâmide alimentar.

Usar o dinheiro para construir cultura é o melhor investimento possível, porque o dinheiro vai mas a cultura fica. Ora, o Benfica agora tem dinheiro, e vai ter ainda mais. Se passar a saber usá-lo, como demonstra esta renovação, pode realmente alcançar a grandeza.

E Luisão, além de já ter ganho e perdido, é um vencedor. Com 20, 30 ou 40 anos, como jogador, treinador, conselheiro ou seja o que for, um vencedor é um vencedor, e, numa equipa de futebol, cujo ofício é vencer, encontrar e manter um vencedor é valioso.



Além de tudo isto, a forma como o Benfica lidou com uma situação que, a certo ponto ,pareceu irreversível, demonstra uma capacidade de resistir à pressão e de resolver problemas que indica competência e convicção a nível interno. Teria sido, de facto, facílimo vender Luisão. E trágico. Porque Luisão voltará a ser campeão pelo Benfica.