quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Champions a longo prazo


Algumas considerações prévias ao sorteio da Champions de hoje:

1.

Quadro muito forte de equipas. No Pote 4 há duas equipas muito fortes (Dortmund e Nápoles), três que, com um bom sorteio, podem chegar aos oitavos-de-final (Plzen, Genk e Zagreb), e duas que, em casa, vão roubar pontos (Otelul e Trabzonspor). No Pote 3 há cinco candidatos claros aos oitavos: Zenit, Ajax, Leverkussen, Olympiakos e Man. City. No Pote 2 não há nenhuma equipa claramente inferior ao Benfica. No Pote 1 o Porto é o mais fraco das 8 (se pensarmos que, com o Arsenal, a chapa 5 é algo de vulgar…).

De 21 candidatos, dezasseis equipas para entrar nos oitavos-de-final da Champions League:

De caras, independentemente do sorteio (8) : Man. United, Barcelona, Chelsea, Bayern Munique, Real Madrid, Porto, Inter, Milan.

Com um sorteio minimamente favorável (7): Arsenal, Valência, Villarreal, Zenit, Manchester City, Borussia Dortmund, Nápoles.

Para um a quatro lugares disponíveis (6): Benfica, Shaktar, Marselha, Ajax, Leverkussen, Olympiakos.



2.

Para o Benfica – mais do que para o Porto, que depende menos do calendário – boa parte das hipóteses de ser campeão nacional passam pelo sorteio desta tarde. Por um lado, a qualidade doa adversários ditará muito do que o Benfica fará na prova, sendo que, aqui, uma caminha longa na Champions significa, quase inevitavelmente, a perda de pontos no campeonato. Por outro, o momento em que defrontará os jogos decisivos (em casa contra o Pote 1 e em casa e fora com o Pote 3) é importante, porque isso significará poupança de jogadores ou desconcentração competitiva a nível interno (em que jogos?).



3.

O apuramento do Benfica para esta Champions pode ter, na minha opinião, maior relevância na próxima época que propriamente nesta. Continuo a acreditar que o Benfica tem grandes hipóteses de ser campeão mas, se, racionalmente, a diferença do Porto se traduzir no bicampeonato (e agora, com ambas as equipas em igualdade de calendário, ainda maior será a vantagem do Porto), este apuramento do Benfica significa um ou dois jogadores a mais no princípio da próxima época – Witsel e Garay custaram 11,5 milhões de euros, o mesmo que o Benfica fará na Champions este ano – e isto numa altura em que, na pior hipótese, o Benfica, acabando em terceiro este ano, apenas terá de passar as pré-eliminatórias para chegar à Champions outra vez, podendo mesmo garantir o apuramento directo se acabar em segundo. Numa época em que se prevê uma diminuição do fosso entre Porto e Benfica, isso – e uma grande improbabilidade estatística de, no ambiente actual, o Porto conseguir um terceiro título consecutivo – daria ao Benfica grandes hipóteses de ser campeão em 2013 (quando começaram a entrar as receitas do novo acordo televisivo). Para mais, a equipa do Benfica, mesmo saindo um ou outro jogador, chegaria à nova época com um ano de verdadeira experiência europeia em cima, o que é importantíssimo em termos de crescimento colectivo. Além disto, há sempre a hipótese de o Benfica aparecer para a nova época com um novo treinador, com todas as boas possibilidades que isso envolve depois de um ciclo de três anos (como se viu com Jesualdo e Villas-Boas).

Por esta razão, estrategicamente, este apuramento para a Champions League foi, na minha opinião, o mais importante de todos, independentemente dos resultados esta época – e considerando que, dado o nível da equipa e a oposição, passar aos oitavos-de-final já seria um sucesso. Quer na competição para cima (Porto) quer para baixo (Sporting), e tendo em conta o momento de consolidação económica-desportiva do clube, nunca terá sido tão importante para o Benfica chegar a uma Champions.

É que enquanto o Porto joga para se manter a um nível de onde já não vai passar, lutando contra a inércia, o Benfica está em dinâmica ascendente. Ir à Champions não significa, nitidamente, o mesmo para ambas as equipas. Já para não falar do que significaria uma não-passagem do Porto aos oitavos-de-final.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Classe

Até hoje não encontrei nenhuma definição de classe melhor que esta: fazer o que tem de ser feito na altura em que tem de ser feito.

Num jogo de futebol, em que cada jogador tem um limite resistência, de opções e de tempo para as executar, classe tem muito a ver com economia. Quando se diz «quem não marca, sofre», o que se diz é que, dado o número limitado de oportunidades para marcar golo de que uma equipa dispõem num jogo, se não as concretiza, normalmente perde esse jogo, porque a outra equipa aproveitará as suas.

Esse conceito económico, que podemos traduzir para custo de oportunidade, também pode ser ampliado para as vertentes «capacidade física» e «posse de bola». Uma equipa que desperdiça a sua resistência física em situações estéreis ou que torna a posse de bola barata, perdendo-a nessas mesmas situações de que muito dificilmente algo de produtivo poderá sair, mais facilmente se torna vulnerável a um melhor aproveitamento por parte do adversário.

Isto tem tudo a ver com o Benfica de Jorge Jesus, como ficou claro no jogo com o Twente (escrevo isto no intervalo do jogo, num momento em que sinto que o Twente tem 70 por cento de probabilidades de passar a eliminatória).

Uma equipa com classe teria, aos vinte minutos, marcado pelo menos um golo, aproveitando uma oposição que aposta numa defesa de pressão alta e marcação individual sem saber fazer pressão nem conseguir defender individualmente.

Aparentemente, as equipas holandesas jogam sempre assim – apostam no um-contra-um e esperam que a sua capacidade ofensiva desequilibre os jogos a seu favor. Por isso é que perdem tanto, e por isso é que há tantos resultados de três e quatro golos de diferença.

Por outro lado, o Benfica derrotou-se a si próprio pela mesma razão que leva as outras equipas que jogam contra os holandês a derrotarem-se a si próprias: não estava preparada mentalmente para defrontar esse tipo de jogo, um engodo suicidário, em que a aparência de facilidade, por um lado, provoca desconcentração e uma sensação de superioridade (real), mas, por outro, acaba por trair quem não a concretiza. Ou seja, à décima oportunidade clara de golo, tal como os comentadores da televisão, sempre aptos para discernir o imediato e para não entender o menos óbvio, a equipa do Benfica convenceu-se de que teria toda a noite para marcar golos. Não percebem que o número de oportunidades, mesmo que pareça alto, é limitado. E depois acabou.

(Início da segunda parte. Na primeira jogada, bem à Benfica, contra toda a lógica, num livre, o Benfica marcou. Mas o Twente também vai marcar. Resta saber quantos. Continuo a pensar que o Twente tem mais hipóteses de passar.)

O Benfica, que é uma equipa à imagem o seu treinador, é uma equipa com pouca classe. Não lhe falta capacidade técnica, física ou táctica para fazer as coisas que têm de ser feitas, o que lhe falta é a capacidade de as fazer quando elas devem ser feitas. E isso faz muita diferença.

A falta de velocidade e de reacção do Benfica nas partes finais dos jogos, por exemplo, não resulta (tanto) de uma condição física pior do que a das outras equipas; resulta do desperdício de energia em jogadas de possibilidade de aproveitamento praticamente nulo e de um estilo de jogo em que se aposta muito em poucas jogadas em desfavor de uma fluidez mais lenta, menos desgastante e mais colectiva.

(Dois golos do Benfica enquanto eu lavava os dentes aos meus filhos. Os benfiquistas não sabem a sorte que acabaram de ter neste jogo.)

Ponto extra: Porque é que uma equipa inferior, muitas vezes, consegue obter um melhor resultado que uma equipa muito superior? Porque o seu aproveitamento económico é superior. E isso, muitas vezes, tem a ver com uma preparação mental também superior.

O caso mais conhecido desta economia de esforços é o catenaccio, que levou a Itália a ganhar quatro títulos mundiais e os seus clubes a conquistarem dezenas de taças europeias. Toda a lógica do catenaccio é de aproveitamento. Uma equipa italiana clássica – e o motivo para o futebol italiano estar decadente é já não haver diferenças entre as equipas italianas e as outras, mas o Inter de Mourinho ganhou ao Barcelona a jogar em ultracatenaccio – sabe que, defendendo como lhe foi ensinado, terá, duas ou três oportunidades claras para marcar. Os seus avançados estão (estavam) preparados para as identificar, assim como os seus médios. A forma de as obterem é jogando directo e incisivo, tentando uma e outra vez até aparecer a brecha. E os avançados sabem que, se não aproveitarem aquelas, não terão mais. Estão mentalmente preparados para não falharem. Marcam e ganham 1-0. É a mesma lógica de uma equipa pequena que joga nas Antas, na Luz ou em Alvalade, por exemplo, mas com uma grande diferença: classe.

O Porsche

«(…) a Jesus foi oferecido um Porsche, faltando saber se terá mãos para tão elevada cilindrada.»

Fernando Guerra, em A Bola de 16 de Agosto de 2011

Fernando Guerra não tem grandes cuidados (apenas as defesas deontológicas mais elementares) a disfarçar o seu benfiquismo. Tem, sim, mais cuidado em geri-lo. Encontrou trabalho e um posto de chefia num jornal que definiu, há bastante tempo, a proximidade ao Benfica como pilar estratégico empresarial e ele, Guerra, é uma das pedra-chave nesse plano de longo prazo, funcionando como opinion-maker ao serviço do clube, trabalhando como veio de ligação entre a estratégia de comunicação do Benfica e o público, alimentando-se, e ao seu jornal, do Benfica e ao mesmo tempo alimentando o Benfica com o seu jornal. Não é, evidentemente, um caso único; pelo contrário, pertence a um tipo de jornalismo que, neste momento, nos jornais, é o mais difundido, de supremacia dos clubes em relação ao quarto poder, que tem muito menos poder do que aquilo que julga que tem, precisamente porque desistiu de ser soberano e se entregou aos interesses dos clubes. No Record, no Jogo, na Renascença, na TSF, na RTP, na SIC, mas sobretudo nos jornais diários, há muitos Guerras, uns em cargos internos mais importantes, outros menos.

Hoje, dia em que o Benfica defronta e em que, na minha opinião, vencerá o Twente, quero falar do Porsche.

O Benfica é um estudo de caso no futebol mundial. A proximidade e a falta de cultura, não só futebolística como desportiva e, até, geral, não permite aos adeptos portugueses, como aos seus jornalistas, compreendê-lo. O que torna o Benfica especial não é apenas ser um grande clube – existem dezenas de grandes clubes no mundo. O que o torna especial é a sua natureza mística, que muitos tentam interpretar, alguns tentam roubar e quase ninguém consegue compreender. Todos os jogadores que representam o Benfica, todos os treinadores, todos os dirigentes, são apanhados na dinâmica voraz dessa natureza mística, que supera em muito o que eles têm capacidade de assimilar, e vêem-se afogados ou salvos por ela, sem perceberem o que os rodeava e como isso aconteceu. Qualquer jogador, e qualquer técnico. O caso de Trapattoni, que Fernando Guerra aponta como tendo recebido um FIAT 600 para comparar os seus resultados com os de Jesus, é exemplar. Com a pior equipa a jamais ter ganho um campeonato pelo Benfica, triunfou, contudo. Nem ele nem ninguém sabem como, apesar dos Guerras pensarem que sim – falam de trabalho e manha como se Trapatoni tivesse jogado para o empate se a isso não fosse obrigado.

Não vou tratar dessa natureza mística. Dava um livro.

Também não vou falar do treinador do Benfica, porque disso falarei mais tarde – entre hoje e amanhã, depois da vitória do Benfica, porque acho que as críticas devem ser feitas após as vitórias, e não após as derrotas, que as fazem parecer irracionais.

Mas vou falar do Porsche. Ou seja, daquilo que, na sua boa vontade profissional, Guerra entende ser um conjunto de jogadores topo de gama.

Começando pelos que jogam mais:

Luisão – Terceiro central da selecção brasileira até há alguns meses, e não ficou pior jogador depois disso, pelo contrário. Atingiu o seu ponto máximo como futebolista. É o mais fiável central a jogar em Portugal, o que não faz dele um jogador fora-de-série nem o torna impermeável (como todos os centrais grandes, depende muito do meio-campo para não ser apanhado em velocidade pelos lançamentos para os avançados) mas o torna indispensável. É o melhor jogador do Benfica. Numa escala de 1 a 100, sendo 1 o pior jogador na alta competição a nível europeu e 100 o melhor jogador do mundo na sua posição: 84.

Maxi Pereira – Titular da selecção uruguaia, não está, provavelmente, entre os vinte melhores do mundo. Adaptou-se muito bem ao Benfica e está a jogar praticamente no limite. É um jogador seguro e resistente, falta-lhe velocidade e jogo de cabeça. Não é por ele que o Benfica não chegará mais longe. Valor internacional: 74.

Garay – Suplente da selecção argentina e do Real Madrid, é um defesa de classe mundial, potencialmente melhor que Luisão. Penso que não durará muito tempo no Benfica, porque é um jogador acima da categoria actual do clube e porque o clube não tem capacidade para segurar jogadores como este. Valor internacional: 88.

Javi Garcia – É, potencialmente, um jogador de nível mundial na sua posição, de carácter forte em campo e fora dele. Tem escola e qualidade, apesar de não ser versátil. Só pode jogar numa posição a alto nível. É o melhor trinco do campeonato, e melhor seria numa equipa bem organizada. Valor internacional: 78.

Aimar – Tem qualidade mas não a suficiente para lhe dar um lugar numa equipa de topo da Europa. É inconsistente, joga a rasgos e a verdade é que raramente consegue executar no último terço do campo, ou por tomar a decisão errada ou por falhar tecnicamente. À primeira vista decide jogos a favor do Benfica, e isso é verdade. Na prática, decide muito poucas vezes para o que joga e para a importância que tem no esquema da equipa. Joga a época a 70 por cento por questões físicas. Valor internacional: 65. (Seria suficiente perguntar às equipas da Liga dos Campeões quais as que o quereriam para o onze titular. Provavelmente, nenhuma da metade de cima, para ser generoso.)

Saviola – Aos 29 anos está prematuramente no ocaso da sua carreira, o que é natural porque sofre o desgaste da mais alta competição desde os 19 anos. Fisicamente, não consegue responder à velocidade a que pensa, o que o leva sistematicamente a falhar a execução. Nenhum jogador no plantel do Benfica alguma vez esteve a um nível tão elevado como ele, eleito terceiro melhor jogador do mundo em jovem. Quando perdeu velocidade, por volta dos 24 anos, juntamente com a falta de competição por estar no banco de Barcelona e Real Madrid, perdeu o auge. Apesar disso, o Benfica só será campeão com Saviola a jogar no seu melhor actual. Estará melhor que no ano passado. Valor internacional: 74.

Cardozo – O avançado-centro do Benfica não consegue ser titular da selecção paraguaia. Se os benfiquistas não estivessem habituados a ele e se houvesse a hipótese de o ir contratar provavelmente diriam que isso não faria sentido nenhum. Apesar de marcar muitos golos, perde mais jogos do que os que ganha, quer pelo que falha quer pelo que não constrói. Não teria lugar no Porto nem em nenhum das quinze melhores equipas da Europa. Aliás, é duvidoso que possa ter lugar num Benfica que quer ser campeão, apesar de o ter sido há dois anos. Como diz Jesus, tem a arte do golo, mas os que marcou com o Twente, na Holanda, e com o Feirense, em casa, provavelmente serão dos mais importantes que vai marcar esta época, o que é pouco. É um jogador fácil de defender por uma boa equipa, o que o leva a render muito pouco nos jogos em que, realmente, um bom ponta-de-lança faz a diferença. Só se verá, de facto, o verdadeiro valor de Cardozo no dia em que outro jogador ocupar o seu lugar nesta equipa, com esta forma de jogar, de forma tão regular como ele. Acredito que não só marcará tanto como ele, devido ao fluxo ofensivo, como fará os colegas melhores jogadores.Valor internacional: 70.

Gaitán – Tem o melhor pé esquerdo que já vi depois de Maradona, e um hemisfério esquerdo do cérebro (juntamente com o direito) subdesenvolvido. É alvo das invenções de Jesus, que quer fazer dele três jogadores ao mesmo tempo, e vítima de um ponta-de-lança de quase dois metros que não sabe jogar de cabeça e é sempre mais lento a arrancar que os defesas e que o faz pensar quatro vezes antes de meter a bola na área. Com um Falcão a marcar de cabeça, e a jogar à esquerda, onde pode centrar, e bem à frente, onde possa perder bolas sem causar danos à equipa, Gaitán daria a marcar vinte golos por ano, e não exagero. Assim, faz umas maravilhas, perde dezenas de bolas a meio-campo fazendo com que a equipa seja apanhada em contra-pé e perca o controlo do jogo e, provavelmente, sairá do Benfica sem nunca ter mostrado o seu verdadeiro valor. Não joga na selecção argentina, sobretudo porque ainda mostrou muito pouco na Europa, por falta de treinador e de equipa – se calhar, também, porque não é jogador para isso... Só finge que defende, o que lhe é permitido por Jesus mas não o seria por qualquer Wenger. Quando sair para uma equipa com um treinador exigente que o obrigue a ser um jogador completo será um dos melhores do mundo. Valor internacional: 80.

Esta é a espinha dorsal do Benfica. O motor do Porsche.

Em resumo:

«Eu, em forma, tinha lugar no Real Madrid (porque, para jogar, no Barcelona, tinha de ter nascido lá)» - Ninguém, o único que havia era o Coentrão, foi para lá, onde está e continuará no banco, como décimo-segundo jogador.

«Eu, em forma, jogava no Chelsea» - Garay

«Eu, em forma, jogava no Porto» - Luisão, Javi Garcia, Maxi Pereira, Gaitán

«Eu, em forma, jogava Benfica» - Cardozo, Aimar, Saviola.



Depois, há os outros:

Witsel – Se confirmar o que mostra, pode vir a ser o melhor jogador do Benfica, de longe, e até do campeonato português, quando Hulk sair e se a equipa do Benfica engrenar. Mas está, como todos os outros, à mercê da equipa. Valor internacional: 80

Emerson – É um defesa esquerdo regular. Ver falar-se dele como possível jogador da selecção brasileira é praticamente uma heresia. Valor internacional: 70.

Nolito – Jogava no Barcelona B. É um jogador útil, com aparente margem para progredir. Mas se lhe for entregue a carga ofensiva de uma equipa como o Benfica vai rapidamente vulgarizar-se. Valor internacional: 65.

Enzo Pérez – Quem disser bem ou mal dele está enganado, porque pouco ou nada o viu jogar. Eu incluído. É uma incógnita. Pelo estatuto na Argentina, valor internacional: 70.

Jara – O caso clássico do futebolista a quem a bola e a equipa atrapalham bastante. Parece capaz de fazer tudo e não é capaz de fazer nada como deve ser. Tem jogo nas pernas e nenhum jogo na cabeça – não o consegue pensar, não levanta os olhos da bola e do chão. Quer muito ser uma estrela (o que é bom) mas ainda ninguém lhe explicou como. Se encontrar um treinador preocupado com isso, em vez de estar sempre preocupado em encontrar uma táctica de mestre como se disso dependesse a sua eternidade, será um jogador excepcional. Valor internacional: 65.

Jardel – Bom para tapar buracos quando se vende um titular da selecção brasileira e despachar no Verão seguinte. Só que, no Verão seguinte, ficou. Valor internacional: 50.

Matic – Em potência, um bom jogador. Na prática, também parece que sim. Não me espantaria que se tornasse melhor que Javi García. Valor internacional: 65.

Capdevilla – Resta saber se pega ou não. Não parece que Jesus vá apostar nele. Se assim for, no Natal está em Espanha. Valor internacional: 70.

Artur – Começou o ano passado como suplente em Braga. Parece seguro. Valor internacional: 70.

Eduardo – Ainda não teve uma época de alta competição em que se dissesse: «Este ano não me lembro do Eduardo dar uma balda.» Valor internacional. 70.

Rúben Amorim – Se não se fartarem dele e ele do clube, vai passar dez anos no Benfica, porque tem inteligência para isso, e vai jogar muito, sem nunca chegar a ser titular. É um daqueles jogadores que, dentro de um clube, vale muito mais do que aquilo que, fora dele, estão dispostos a dar por ele. Valor internacional: 63.

Bruno César – Seis milhões por um suplente no Corinthians. Não quer dizer que não venha a valer. Mas Jesus, que provavelmente viu nele a descoberta do ano e convenceu o amigo Vieira a comprá-lo, vai descartá-lo tão depressa quanto o tempo que leva a dizer: «Mestre da Táctica!». Valor internacional. 52.

Este é o Porsche do Guerra. Os outros, de que não falei, ainda têm de provar que sabem vestir a camisola. Qualquer tipo de antecipação do futuro radioso de Rodrigo, Mora, Nélson Oliveira, Urreta e outros é pura boa vontade jornalística. A alto nível, ainda nenhum mostrou nada, quanto mais ser peça de motor de alta cilindrada.

Conseguir mexer na caixa de velocidades do Porsche, ou no BMW, ou até no Renault, já é outra conversa.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Jornada 2

O que parece:

Vitória muito fácil do Porto, facilitada por uma expulsão perdoada que, admitamos, tornaria a vitória mais difícil, mas não impossível. Mesmo sem Otamendi e a perder por 1-0, 88 minutos a jogar em casa – e não obrigatoriamente em superioridade numérica, uma vez que facilmente o árbitro encontraria uma maneira de expulsar também um jogador do Gil (é a regra, sobretudo quando há expulsos nos jogos dos três grandes) – seriam mais do que suficientes para o Porto dar a volta ao resultado. Só em condições muito anormais isso não aconteceria.

O Benfica salvou-se à pele no jogo, provavelmente, mais fácil da época, perante uma equipa extremamente fraca, que só ganhou alguma dificuldade por se situar no meio de uma eliminatória europeia vital. Em termos de resultado, por ter acabado em 3-1 e por ainda ser início de temporada, passa quase em branco, aos olhos dos comentadores e, aparentemente, dos adeptos, a possibilidade real de o Benfica ter perdido o campeonato à segunda jornada, por culpa completamente própria. A verdade é que, numa arrancada irracional, e ao acaso, Maxi Pereira salvou a época do Benfica, assim como o árbitro, que não teve coragem de marcar uma penalidade mais evidente do que a empatou o jogo para o Porto, nas Antas – ainda que menos que a que não foi marcada a favor do Gil Vicente já perto do final da partida.

O Sporting acaba dois jogos perante equipa medíocres sem marcar um golo e com dois empates. Seis dos pontos mais baratos da época ficam reduzidos a dois. Racionalmente, o Sporting enterrou, à segunda jornada, as suas hipóteses de ser campeão. Uma recuperação de quatro pontos para o Porto, ainda sem ter jogado com uma equipa que vá acabar entre as nove primeiras, quando o Porto já foi a Guimarães, implicaria ter de fazer, daqui para a frente, os mesmos resultados que o Porto e, nos confrontos directos, ganhar o jogo em Alvalade e não perder o das Antas. Reafirmo que o arranque de campeonato do Sporting seria fundamental e foi péssimo. A partir deste momento o Sporting passa a jogar para o segundo lugar, esse sim, ao seu alcance. Aliás, não é de desprezar a hipótese de o Sporting, sem pressão excessiva, e colocado perante um desafio a que pode, de facto, responder, faça, daqui para a frente, um campeonato satisfatório.

O que é:

Porto (IRPR = 0,110) – Voltou a dar a melhor resposta dos três à pressão. Poucas horas de ter perdido Falcão (que, na prática, não tinha chegado a começar a época) e sofrendo um golo primeiro, mas muito cedo e com decisões arbitrais favoráveis que ajudaram a libertar pressão, teve o jogo mais fácil da época até agora.

Benfica (IRPR = 0,085) – Toda a pressão que o Benfica sofreu neste jogo foi auto-inflingida, à excepção do Twente metido no subconsciente. Sem lesões, sem adversário, com árbitro, com vantagem rápida, o Benfica teve praticamente tudo a seu favor. O jogo mais fácil do ano, até agora, que a incapacidade do Benfica em gerir o momento tornou o mais difícil.

Sporting (IRPR = 0,051) – A pior prestação da época, até agora, entre os três grandes, no jogo mais fácil, também, para o Sporting, até agora – mais do que o do Olhanense, em que a pressão própria da estreia oficial, no próprio estádio (onde, o ano passado, a equipa se enterrou completamente), e uma arbitragem relativamente desfavorável aumentaram bastante o IRPR potencial (1.20 em 3.00 possíveis contra apenas 0.400 neste). O Sporting suicidou-se por negligência.

O que fica por saber:

Porto:

- Até que ponto faz sentido, existindo um clima de segurança, que Pinto da Costa sinta necessidade de ir ao canal do Porto transmitir uma mensagem de confiança aos adeptos, dizendo-lhes que voltarão a formar uma grande equipa, quando, até agora, e depois de uma troca de treinadores que, segundo ele, foi benéfica, a única coisa que mudou foi a saída de Falcão? Os portistas não deveriam estar completamente seguros da equipa que têm, e de que basta comprarem um bom avançado, e não de que têm de refazer uma equipa? A equipa tem a eficácia normal, mas os índices de confiança no Porto estão nitidamente abalados, com duas das três principais figuras do grupo (Villas-Boas e Falcão) a saírem à má-fila e sem contemplações. Como já disse, a religiosidade que se atingiu a época passada, pura e simplesmente, não está lá. E o treinador não ajuda nada.

- Será sensato ao treinador do Porto escalar tão rapidamente o nível de conflito, extravasando o âmbito do jogo para o nível pessoal (aí Jesus respondeu muito bem, demonstrando muito maior experiência, e no tom certo - «Não ataquei o carácter»), na reacção a apenas uma frase por parte do seu rival? Assim como será sensato tornar tão claro como Vítor Pereira tornou que queria a equipa a render mais que na época passada? Na verdade, no segundo caso, essa é a verdade: o Porto tem de render mais que na época passada se quiser ir longe na Liga dos Campeões e voltar a ser campeão, mas a ideia que Pereira passou é que isso não seria assim tão complicado, quando, na verdade, é. Parece-me que Pereira tem, ao mesmo tempo, maior necessidade de afirmação pessoal, maior dificuldade de conviver com a pressão e muito menor élan mediático que André Villas-Boas. Tem a mesma escola de confiança que Mourinho inaugurou mas não parece ter a mesma inteligência que aquele ou Villas-Boas. Tem as costas quentes e sente que está situado num patamar muito superior ao da concorrência, mas não tem um passado propriamente inequívoco. Já falhou uma subida com o Santa Clara e pouco fez debaixo de pressão.

- o Porto parece nitidamente inquieto, sem razão aparente para isso, e os resultados têm ajudado. O jogo com o Barcelona, de grande pressão, será um verdadeiro teste à fiabilidade desta equipa, e fica a dúvida sobre que efeitos poderia ter, a médio prazo, um resultado muito mau contra o Barcelona, ou uma exibição muito má. Numa equipa que passou um ano praticamente sem ser beliscada, a Supertaça europeia deste ano terá o mesmo papel determinante que a Supertaça portuguesa teve na temporada passada.

Benfica:

- Numa equipa que é e será, na forma de jogar, nos defeitos e nas virtudes, exactamente a mesma que foi no ano passado e no anterior, apenas com o acrescento de cinco jogadores de capacidade real e não apenas hipotética (Nolito, Garay, Emerson, Artur e Witsel, para já), há uma diferença fundamental desta época para a anterior, no Benfica: o factor estrelinha. Em três jogos traiçoeiros de início de época o Benfica salva-se com uma vitória (com o Feirense quando, no ano passado, se calhar teria deixado ficar aí o campeonato – Académica…), um empate que sabe a vitória (depois de ter começado a perder com o Twente aos 10 minutos de jogo fora de casa) e um empate com o Gil que, sendo mau em relação ao desenrolar do jogo, não é, ao contrário das derrotas do ano passado com o Nacional ou o Guimarães de há um ano, definitivo, e que se assemelha em muito ao empate com o marítimo na primeira jornada de 2009/2010. Em três jogos de desfecho potencialmente ingrato o Benfica já teve dois empurrões da sorte. Pode ser só disso que a equipa precisa para balançar, desta vez, para o lado certo. E daí para a frente o desfecho é incerto. Os próximos dois jogos do Benfica assumem-se, assim, como dois dos mais importantes da época. O do Twente, ante uma equipa que pode perfeitamente vencer na Luz e desacreditar definitivamente o treinador. O do Nacional para saber se a sorte, este ano, está mesmo virada ao contrário ou se não chega a para tanto. O jogo da Madeira encerra um factor de relevância suplementar: se o Benfica ganhar passa a estar, pela primeira vez num ano, à frente do Porto, que adiou o jogo de Leiria até 6 de Setembro. Não é desprezível. Vamos estar perante um campeonato mais equilibrado do que o que se pensa neste momento. Estas pequenas nuances psicológicas, sobretudo numa equipa muito volúvel, como é a do Benfica, muito dependente dos pormenores, podem assumir grande importância final.

Sporting:

- Domingos começa a parecer vulnerável apenas porque já se viu que não é nenhum génio, nem nada que se pareça. Em três jogos perfeitamente acessíveis o Sporting não só não ganha nenhum como não marca nenhum golo, e praticamente sem lesões no plantel. Dos reforços só falta jogar Bojinov – o ponta-de-lança em que mais se aposta… - e de resultados, nada. O Sporting conseguirá fazer uma equipa se, mesmo não jogando bem, obtiver resultados. Sem resultados, não há tempo. Domingos poderá resistir a uma eliminação da Liga Europa, mas não resistirá a um avolumar da distância para o Benfica, que é sempre o barómetro real para o Sporting. Neste momento, o Sporting está já atrás do Benfica, e só por isso a pressão aumentou exponencialmente, mesmo muito mais que depois do empate com o Olhanense, um resultado muito pior mas apagado pelo empate do Benfica em Barcelos. A sorte de Domingos, Duque e Freitas, novamente, é o calendário: mesmo com um péssimo arranque, provavelmente a equipa chegará à sexta jornada à frente do Benfica, se este perder nas Antas. O pior é se não perde porque, depois disso, começa o verdadeiro campeonato para o Sporting…

- Algumas opções de Domingos que convém analisar: Yannick e Matías substituídos à meia-hora, um bom sinal de inconformismo e de comando sob o plantel do treinador, com confiança para fazer o impensável (eu, pelo menos, nunca vi tirar dois avançados à meia-hora para tentar ganhar um jogo) sem perder a mão nos jogadores, mas efeitos duvidosos porque a equipa, basicamente, pouco reagiu e perdeu; Rubio sem jogar, quando não acredito que não tivesse marcado um dos golos que VW (vou chamá-lo de Carocha daqui para a frente) não marcou por falta de energia – pelo que vejo, Diego Rubio é o melhor avançado do Sporting, que, entre as políticas, as tácticas, a estratégia e as economias está a ser desaproveitado a bem de qualquer outra coisa que não os resultados imediatos, e isso é péssimo, porque nenhuma grande equipa sucede colocando o futuro à frente do presente; Carriço a entrar porque tinha de ser, depois de nem para o banco ter ido na Dinamarca, um sinal muito mau para ele, como eu já tinha previsto antes do início da época.

- O jogo de Aveiro marcará a época do Sporting, não só porque, como se verá mais à frente, a equipa entregou aí o campeonato, mas também porque, politicamente, o clube saiu muitíssimo fragilizado desta jornada. A rejeição dos árbitros em arbitrarem os jogos do clube apanhou-o de surpresa, e a capacidade de resposta, quer dentro quer fora do campo, foi fraquíssima.

Primeiro, Carlos Freitas e Domingos saíram a atacar Carlos Xistra, de forma clara, depois de Duque ter dito que o clube não se desculparia com os árbitros. Na prática, fê-lo ao primeiro mau resultado, e o resto é conversa.

Depois, o clube usou a imprensa para, veladamente – e não frontalmente, como seria melhor se, de facto, a intenção fosse reequilibrar a balança do poder do clube com a arbitragem e marcar posições – pressionar o árbitro e a Liga para o jogo seguinte. A oportunidade era boa porque João Ferreira, de facto, é um árbitro do Benfica e já prejudicou muito o Sporting, com dolo, e porque a Liga se pôs a jeito ao nomeá-lo depois de uma prestação prejudicial de Xistra. Mas o Sporting jogou mal. Ao utilizar o jornalista Bernardo Ribeiro – subchefe de redacção do Record, um dos aliados mais sólidos de Carlos Freitas, seu antigo colega no Jogo, nos jornais, e elemento, neste momento, muito disponível para fazer do seu jornal o veículo de criação de opinião pública do Sporting – para pressionar, indirectamente, a arbitragem e marcar posição, o Sporting foi tíbio e deu o flanco. Não estava, seguramente, à espera que os árbitros marcassem também eles a sua posição. Fizeram-no, contudo, à custa do Sporting, que, como ficou mostrado, não mete medo. É difícil de imaginar este tipo de situações a ocorrer com Porto ou Benfica. Mas o Sporting é de outro campeonato – um campeonato inferior, onde os árbitros podem jogar taco a taco e sem medos.

Para os árbitros, este jogo foi uma importante tomada de força colectiva. Uma vitória, sem nenhuma dúvida, e provavelmente a maior vitória dos últimos anos – das últimas décadas? – para o futebol português. Digo isto porque só os árbitros podem salvar a arbitragem e, com ela, o futebol de alto nível em Portugal. Ver os árbitros unidos, convictos e com uma agenda própria é um passo fundamental, provavelmente o mais essencial, nesse salvamento. Só fica a faltar a coerência e o seguimento: os árbitros conseguirão, depois disto, fazer o mesmo ao Porto e ao Benfica, e alargar o âmbito do seu protesto, também, para as declarações a seguir aos jogos, e não apenas às pressões anteriores a eles?

Para o Sporting, enorme fragilidade. O clube não só não mete medo como parece ter medo de se fazer ouvir, fala por interposta pessoa e, pior ainda, chega ao ponto de se deixar entalar entre a porta e a incoerência, quando Freitas diz que «o Sporting nunca falou de João Ferreira» e que «não coloca em causa a idoneidade» de Xistra. Sem ter coragem de dizer as palavras, o Sporting fez precisamente isso, e perdeu a face, ainda que teime em continuar a falar. Não só não se mostrou diferente dos outros como se mostrou mais fraco que os outros. Para piorar tudo, os dirigentes não conseguiram transmitir à equipa o significado do jogo, e esta responde com a pior exibição da época, não conseguindo ganhar, nem sequer jogar, mesmo sem árbitro. Qual a moral real do Sporting, depois da exibição de Aveiro, para falar de árbitros? Falar podem, mas quanto mais falarem mais se enterram.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Enganar o Porto

A superioridade técnica (pela boa escolha de jogadores), física (pela mesma razão e pelo bom trabalho nos treinos) e psicológica (pela confiança acumulada que os bons resultados acarretam) que o Porto tem sobre todas as outras equipas portuguesas, assim como o facto de as equipas do Porto serem construídas para competir no campeonato português, faz com que seja apenas por acidente que o Porto não ganha. Que tenha sido apenas o ano passado que tenha ficado uma época inteira sem perder é que é de espantar. Outras vezes passou muito perto.

Quais são as condições para acontecerem esses acidentes? Considerando apenas os jogos com pressão competitiva, ou seja, descartando aqueles jogos em que o resultado já não conta para nada, normalmente porque o Porto já leva mais de dez pontos de avanço sobre os outros, são as seguintes:

- no caso das equipas muito inferiores, o momento dos golos é muito importante. Marcar um golo nos primeiros vinte minutos pouco ou nada significa porque, normalmente, a diferença que o Porto tem para as outras equipas é de três ou quatro golos, o que lhe falta é a motivação ou a concentração para os aplicar.

- uma noite de muito azar para o Porto. Às vezes acontece. Lembro-me de uma derrota por 1-0, há muitos anos, nas Antas velhas, com o Famalicão (no final do jogo o repórter Paulo Martins foi agredido em directo por um adepto do Porto), em que o Porto rematou umas 30 vezes à baliza e podia rematar mais 30 que não conseguiria marcar. Normalmente o Porto tem um ou dois jogos destes por ano. Há dois anos foi com o Belenenses. No ano passado não houve nenhum.

- um árbitro de Marte, ou do Benfica. Ambos são raríssimos. A questão dos árbitros é muito mais fácil do que parece. A prejudicar deliberada e premeditadamente o Porto não há. Às vezes há árbitros que pertencem, ocasional ou sistematicamente, à facção vermelha e que, vendo a oportunidade no jogo (e apenas pelo seguro) tentam subtrair um ou outro pontinho ao Porto. Mas, regra geral, como é pouco seguro que o resultado vá mesmo ser negativo no fim, protegem-se. Os outros, os que estão a meio da carreira profissional ou a começar na primeira categoria, protegem-se sempre e, por isso, em caso de dúvida, têm poucas dúvidas em decidir a favor do Porto. De vez em quando enganam-se, ou esquecem-se, e às vezes dá bronca: o Porto empata, vem para os jornais e vinga-se nos bastidores, a seu tempo.

A questão dos árbitros é relativamente fácil. Há cerca de trinta anos a coisa estava relativamente equilibrada. Pinto da Costa, João Rocha e Fernando Martins tinham um poder de influência semelhante. Com a saída de João Rocha e, posteriormente de Fernando Martins, a coisa desequilibrou-se. Passou a ser Pinto da Costa contra Gaspar Ramos, que, pelo Benfica, manteve, durante algum tempo (mais ou menos cinco anos), algum do poder acumulado do Benfica entre os árbitros, mas já em perda. Pinto da Costa ganhou, primeiro, uma dianteira curta, mas construiu sobre ela. Os anos do desequilíbrio foram os primeiros da década de 90, com o treinador brasileiro Carlos Alberto Silva. O Porto foi bicampeão mas, sobretudo, cimentou a base do domínio total sobre a arbitragem para os vinte anos seguintes. Eram os tempos de José Silvano, José Guímaro, Carlos Calheiros, Martins dos Santos e muitos outros. O Benfica, do seu lado, tinha figuras secundárias como João Mesquita, de Braga, e poucos mais. O Porto teve uma jogada de poder decisiva ao passar a controlar, através da Associação de Futebol do Porto, a presidência do Conselho de Arbitragem da Federação (Lourenço Pinto, o advogado de Pinto da Costa, foi presidente do CA durante vários anos), controlando a classificação e, logo, as promoções, descidas e subidas ao escalão internacional dos árbitros. A corrupção deixou de ser apenas uma questão casuística e passou a ser, de facto um «sistema», como Dias da Cunha bem o adjectivou. O grande poder do Porto passou a ser não só o de pagar a árbitros como o de controlar quanto dinheiro recebiam e o que lhes aconteceria em termos de carreira.

O Benfica, envolvido em lutas internas, foi engolido, como o Sporting já tinha sido antes. A sua resistência ocorria em situações pontuais, de nítido benefício, mas claramente insuficiente para equilibrar uma luta decidida á partida. Criou-se um ciclo vicioso, em que o sistema alimenta o sistema até que o sistema já não precisa de ser mais alimentado porque se alimenta a si próprio. Quem entra sabe como as coisas funcionam, onde está o perigo, onde esta a recompensa, e como as coisas têm de funcionar para que todos fiquem na paz do senhor. Os bons árbitros, com capacidade para singrar, sentindo que não têm quem os proteja – e o caso do Apito Dourado foi o culminar da impunidade, uma vez que, na prática, as consequências para o órgão vital do polvo (o Porto, o único clube que realmente prosperou com o sistema, uma vez que o Boavista sempre foi um projecto pessoal e temporário dos Valentins) foram nulas – protegem-se a eles próprios, sabendo que um erro realmente importante provocará inevitáveis represálias (como na máfia, no futebol português a vendetta é segura, e o mais eficaz processo de coerção). Os outros, fazem pela vida. Nem é pelas prostitutas ou pelas viagens ao Brasil, é só para poderem ficar na primeira categoria.

Não há grandes segredos no sistema. Como se disse, ele alimenta-se a si próprio, porque as pessoas olham para a realidade e percebem onde está a força e onde está a fraqueza. A entrada em cena de Luis Filipe Vieira provocou um início de golpe de estado que, apesar do «campeonato do Veiga», roubadíssimo (mas ao Sporting…), e do de 2010 (em que o Porto cometeu hara-kiri nas primeiras dez jornadas e o Benfica apareceu com uma força que ninguém esperava, muito menos Pinto da Costa, depois de ter sido terceiro na época anterior), ainda não deu em nada. O poder, até ver, mantém-se intocado. Já não é tão opressivo porque se entranhou, culturalmente, no futebol português e as coisas estão mais ou menos bem oleadas. Tal como o Porto conseguiu construir, com vitórias muitas vezes baseadas mais na força dos árbitros que na capacidade real dos jogadores, uma equipa sólida, também conseguiu conquistar alguns dos melhores árbitros. Duarte Gomes, Pedro Proença e um ou outro são relativamente imparciais. Olegário Benquerença, Carlos Xistra, Artur Soares Dias, Rui Costa e muitos outros, pertencem à esfera portista. O Benfica tem, ainda, nomes relativamente secundários, como João Ferreira, e vai, através da pressão e da tentativa de controlo de alguns órgãos dirigentes, tentando equilibrar as coisas. O Sporting, definitivamente, não tem ninguém, e foi por ter perdido o comboio há muito tempo que também nunca mais foi campeão. A última vez em que o conseguiu foi quando, coincidindo com anos maus do Porto, recebeu essa benesse. Foram os anos em que Roquette e Dias da Cunha, depois de terem gritado pelo 25 de Abril no futebol português, passaram a ir jantar ao Porto com Pinto da Costa de forma a urdirem uma aliança contra João Vale e Azevedo. Ganharam dois campeonatos e, depois disso, chouriço.

A treta dos milhões

«Os nossos milhões são a sério, não são milhões da treta»

Pinto da Costa

Falemos, então, das tretas.

O negócio Falcão é um grande triunfo de Pinto da Costa.

Treta. É, quanto muito um triunfo da máquina de propaganda portista. Pinto da Costa não queria vender Falcão, e pensou, genuinamente, que, com a extensão do contrato, poderia guardá-lo pelo menos mais um ano e fazer uma boa Liga dos Campeões esta época. A venda de Falcão, forçada pelo jogador e pelo empresário do jogador a dez dias do encerramento do mercado e a duas semanas do início da referida Liga dos Campeões, e sem alternativas credíveis imediatas no plantel, é uma derrota para o Porto – que, por agora, tem o Kléber, o Djalma e o Walter para jogar à frente, três que (ainda) não fazem um.

O negócio Falcão é um grande negócio

Querem mesmo a verdade? É treta. O negócio Falcão, como o negócio Hulk daqui a um ano, é, na verdade, a pior notícia possível para os adeptos do Porto, porque lhes garante uma verdade indubitável: o Porto ainda não conseguiu dar o salto.

O percurso natural para uma equipa como a do Porto seria a de se estabelecer entre as cinco ou seis melhores da Europa, e como candidata natural, no início de cada ano, pelo menos à presença nas meias-finais da Liga dos Campeões. A qualidade do seu trabalho a isso conduziria. O Porto está no seu ponto civilizacional mais alto. Há alguns anos, com o melhor treinador do Mundo, ganhou a Liga Europa sendo uma das vinte melhores equipas da Europa mas sem ter de jogar contra uma das restantes 19. No ano seguinte ganhou uma Liga dos Campeões vencendo, na meia-final, um Corunha que desceu este ano à II Liga espanhola e a um Mónaco que não é campeão de França vai para vinte (?) anos. Em 2011 voltou a ganhar uma Liga Europa onde não jogam, novamente, as melhores equipas da Europa, batendo na final o quarto classificado do campeonato português, que por sua vez tinha batido o segundo, que ficara a 21 pontos, internamente, do próprio Porto, e ambos eliminados, sem espinhas, da Liga dos Campeões na fase de grupos. Mas, mais de 300 milhões de euros ganhos em transferências (e gastos em transferências) depois, o Porto vê um dos seus jogadores fulcrais facilmente roubado por uma equipa de segunda linha de Espanha, das que «fazem rir».

E assim se vão as esperanças de fazer do Porto uma verdadeira grande equipa europeia. Porque jogadores como Falcão são os que fazem a diferença entre as grandes equipas e as equipas que só dão luta. O que é que o Porto conseguiu com a transferência de Falcão? Recapitulemos:

- trocar um jogador e meio (Falcão e Micael) por nove, o que seria excelente se, nesses nove (praticamente uma equipa inteira, note-se), houvesse, por um lado, um único Falcão, ou alguém que se aproximasse, ou se houvesse, nesses nove, alguém que fizesse a diferença (já para não ir à questão de fazer golos), ou se não pudessem jogar, apenas, onze de cada vez. Na verdade, por mais que os futeboleiros falem da riqueza do plantel, o que faz o verdadeiro sucesso de uma equipa são os seus melhores jogadores. O Manchester United seria banal sem Rooney, por exemplo, e o Barcelona não seria o Barcelona sem Iniesta, Xavi e Messi, por mais equilíbrio que os outros pudessem ter. Um plantel profundo pode ajudar uma equipa a chegar mais longe, sobretudo tendo de jogar tantos jogos importantes ao longo de uma temporada, mas não é a profundidade do plantel que dá, realmente, títulos. Esses, são os grandes jogadores que garantem, e as excepções só confirmam a regra. Sem Hulk e Falcão o Porto não seria o mesmo. Sem Falcão, o Porto não será o mesmo. Nos nove jogadores que o Porto contratou (e falta o substituto de Falcão), não há nenhum para entrar de caras na equipa e elevar o seu valor. É claro que é difícil entrar de caras numa equipa como a do Porto, mas aí é que está a questão. Para ser realmente grande na Europa, o Porto teria de estar, agora, a gastar 43 milhões não a contratar futuros mas a contratar um ou dois jogadores melhores que Souza, ou Fernando, ou Varela, ou Otamendi, ou Fucile, que são bons para o Porto que ganha a Liga Europa mas não são bons para um Real Madrid, um Man. United, ou Chelsea que querem ganhar a Liga dos Campeões.

Para que é que o Porto quer 50 milhões de euros? Para contratar e manter alguém como Falcão. Esse Falcão que vendeu, agora mesmo, ao oitavo classificado da Liga espanhola. E é por isto que a venda de Falcão não é um bom negócio mas sim um retrocesso. O Porto acabará por encontrar outro Falcão? Sim, é verdade, eventualmente sim (até um dia…). Mas quantos 350 milhões de euros mais serão precisos para, quando o encontrar, conseguir fazer uma equipa com ele?

- empacotar a encomenda Micael. E este sim, é um grande negócio, porque, ao contrário do que os propagandistas andam a dizer, Micael não só não tem como não tinha mais mercado que um Carlos Martins ou um Maniche. Como eu tinha dito no último post, assim que li no Record que o Micael tinha mercado e que era, desde há pouco tempo, representado pelo Jorge Mendes, Micael (que, segundo alguns jornalistas, chegou a ser cobiçado pelo próprio Bayern de Munique – como seria giro ver o perna curta do Micael a jogar a meio-campo com o Ribéry, o Schweinsteiger, o Robben…) entra neste negócio metido a martelo pelo Jorge Mendes, que viu aqui uma boa oportunidade para apaziguar a ira do amigo Pinto da Costa, que tanto dinheiro já lhe(s) deu a ganhar, oferecendo-se para o livrar de um saco de lixo ao mesmo tempo que lhe levava o maior tesouro à má fila. Terá sido, mais ou menos, isto que o Mendes disse aos dirigentes do Atlético:

                - Eu trago o homem pelos 38 milhões (mais os meus dois), mas temos de fazer isto com jeito para ninguém se queimar. Vocês pagam agora o Falcão e outro rapaz que eu lá tenho pelo total do valor da cláusula de rescisão do Falcão. O Pinto da Costa pode fazer de conta que fez um grande negócio e ainda arranja uma distracção para levantar a moral às tropas. Metemos o outro rapaz a jogar um ano numa equipa daqui, para ver se ele vai à selecção no Euro da Ucrânia, e daqui a um ano ou vocês ficam com ele ou eu arranjo uns cinco milhões da treta, como arranjei ao meu amigo Vieira para o Roberto, para vocês se verem livre. O rapaz não é mau jogador, até pode ser que pegue.

- E tu consegues meter o rapaz a jogar aqui? Não vamos ficar a arder com a massa e agarrados a mais um salário para pagar durante não sei quantos anos? Olha que isto anda mal, pá.

- Ó pá, fica à minha responsabilidade, palavra de honra. E se não arranjar outro sítio fica mesmo no Saragoça, de que eu agora estou a tomar conta com um amigo. Garanto-te que por menos de cinco milhões o homem não sai, daqui a um ano.

Como é evidente, nenhum jogador suplente do Porto vale cinco milhões de euros – o Fernando, mais um dos que só saem pela cláusula de 30 milhões não vale, para a Roma (que eu continuo a dizer que não existe) sequer, dez, pelo que vinha na Bola de anteontem. Tal como os sete milhões dos objectivos do Falcão (se fossem objectivos viáveis o Porto não teria dúvida em dizer quais eram, para aparecer melhor na fotografia), os cinco milhões do Ruben Micael são da treta. Só que, tal como os 8,6 milhões do Roberto, entram nas contas. Ou, melhor será dizer, na contabilidade criativa.

Uma questão: irá a CMVM suspender as acções do Porto até se compreender o papel do Ruben Micael, comprado para ser imediatamente emprestado ao mesmo clube que não teria dinheiro para comprar o Roberto? Quanto mais não fosse para se perceber exactamente como é que se chega aos tais 5 milhões. É que o Micael ainda paga direitos de formação ao Nacional do amigo Rui Alves, salvo erro…

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O mito da infalibilidade

«Pinto da Costa domina de novo o mercado de Verão.»

Jorge Barbosa, em Record de 11 de Agosto de 2011

O seu a seu dono. Para entendermos a lógica e a beleza de uma organização bem organizada, onde toda a gente sabe quem é o pater famílias, eis uma semana do aparelho de propaganda portista. Fiquemo-nos pelo Record, porque chega. Escusamos de ir ao Jogo, não há necessudade de exagerar.

11 de Agosto

Segundo Rui Sousa, no Record, «os 45 milhões de euros da cláusula de rescisão são proibitivos» para o Atlético de Madrid, cujo interesse em Falcão deu a Pinto da Costa «vontade de rir». A tecla dos 45 milhões, após a renovação e suposta blindagem do contrato de Falcão há apenas dez semanas, tem sido batida em força como uma vitória negocial do presidente do Porto, um dos seus grandes negócios e uma prova da fidelidade do jogador. O intensificar das movimentações em torno do internacional colombiano provoca uma «guerra de nervos» que, na opinião do jornalista, «favorece as intenções dos azuis e brancos [não se percebe bem como], já que é vontade de Pinto da Costa que o seu maior goleador continue ao serviço do clube.»

Paralelamente, uma eventual proposta de 40 milhões por Hulk «nem deverá merecer a atenção de Pinto da Costa».

12 de Agosto

Diz Rui Sousa que a SAD portista está a gerir o processo Mangala com toda a tranquilidade porque «mantém o controlo da situação». Pierre François, director do Standard Liége, diz à imprensa do seu país que não entendeu a nega de Mangala ao valência, quer desportiva quer financeiramente.

O «controlo da situação», digo eu, é o controlo do jogador e do empresário, feitos à revelia do clube, muito provavelmente a troco de contrapartidas financeiras (escondidas ou não) no momento em que o Benfica fez a sua oferta pelo jogador e este se revelou uma possível nova vitória de mercado. O arrastar da situação deve-se a isso. Para que ninguém se esqueça, Rui Sousa acrescenta no penúltimo parágrafo: «Certo é que o central, de 20 anos, deu preferência ao FC Porto, depois de ter recusado o Benfica e o Valência, tendo já um acordo com os azuis e brancos.»

Mais à frente, o mesmo Rui Sousa, dá conta do interesse do Chelsea em Álvaro Pereira, por 18 milhões mais um jogador, mas uma fonte da SAD garante que, com o Chelsea, depois do roubo de Villas-Boas, Pinto da Costa não conversa com Roman Abramovich, e a única proposta válida seria de 30 milhões de euros, que é o valor da cláusula.

14 de Agosto, manhã

A situação de Defour também «está controlada» (André Monteiro). Novamente, o Standard de Liége foi apanhado na curva e, com tudo negociado com o jogador, tem de comer e calar. «A SAD não está disposta a deixar que os obstáculos colocados pelo emblema belga acabem por inflacionar o preço de uma eventual transacção.» O método do Porto, obviamente, é segurar os jogadores, quer directamente quer através dos empresários, e encostar os clubes à parede. As suas vitórias de mercado sobre o Benfica assentam neste método.

Quanto a Falcão, os 40 milhões de euros mais um jogador que o Tottenham estaria disposto a oferecer não chegam, porque ficam a cinco milhões dos 45. A vontade de Falcão em concordar com essa condição sine qua non é, desde sempre, tida como um facto consumado.

14 de Agosto, noite

O Porto ganha em Guimarães e, depois do jogo, onde foi suplente utilizado, Falcão, à revelia do departamento de comunicação do clube, vai à zona de imprensa e diz, por meias mas suficientes palavras, que quer ir para o Atlético de Madrid. Toda a gente é apanhada de surpresa.

15 de Agosto

Segundo André Monteiro e Paulo Paulos, o avançado foi propositadamente ao local para transmitir a mensagem que «nitidamente tinha em mente». No final da notícia, dá-se que esta forma de pressão do jogador pode resultar das dificuldades que a subida da cláusula de rescisão está a provocar numa saída para o exterior.

Entretanto, Fernando, o proscrito por ter dito que queria sair do Porto e, dessa forma, desvalorizar o seu valor de regateio no mercado, é fotografado na bancada dos Superdragões, em Guimarães, apesar de não ter sido convocado e de mais nenhum jogador não-convocado ter comparecido ao jogo. Está a ser trazido de volta para terreno amigável.

É anunciada a aquisição de Mangala e Defour, por 13 milhões de euros.

16 de Agosto

Jorge Barbosa, em coluna de opinião, defende que, ao fim 43 milhões de euros gastos em nove jogadores, está na hora de começar a vender para equilibrar um orçamento de 90 milhões. No meio-campo vai sair alguém que será substituído por Defour – mas só pela cláusula ou perto disso.  Anúncio público de Falcão «prejudicou sobremaneira os interesses do clube». Já Mangala é para aprender durante um ano, pelo que Rolando e Otamendi não devem sair. O departamento de propaganda já informou, assim, os seus opinion-makers do que vai acontecer: Falcão, depois de ter encostado o clube à parede como Mangala, Defour, Danilo e outros fizeram com os seus, está à porta para sair; um médio também, e é tudo. Com isso chegarão aos 60/65 milhões de que precisam para não darem grande prejuízo. Subtraindo os 43 que já gastaram mais os 9 ou 10 que terão de gastar para comprar um bom substituto brasileiro para Falcão, sobram sete ou oito que, em ano de Champions, chega para manter a loja aberta e ficar, ainda, com a melhor equipa portuguesa.

A comunicação de Falcão, na véspera, provocou um «terramoto». Numa nota paralela recorda-se a calorosa recepção ao avançado quando regressou da Colômbia. Começa a ser clara, a quem queira ver (e se não quiser vai ter de ver à mesma), a ingratidão do jogador em relação ao clube. Já quanto ao substituto para Falcão, «os olhos estão bem abertos», assegura-se. Deve ter sido alguém que lhes disse: «Temos os olhos bem abertos.» Porque ninguém deve ter dúvidas disso.

17 de Agosto

Na primeira página: «Falcão no Atlético de Madrid por horas – Acordo deve ser selado por 38 milhões» e, ainda, «Ruben Micael e Fernando também podem sair»

Depois de terem andado quase um mês a assegurar aos leitores que Falcão sairia apenas pelos sacrossantos 45 milhões, Rui Sousa e André Monteiro dizem agora que os cerca de 38 milhões por que se fará o negócio serão, ainda assim, a maior transferência do futebol português.

Afinal, o Porto ganhou. Falcão vai ser um grande negócio, até porque perdeu margem de manobra no Dragão desde que disse que queria sair (como se o jogador precisasse de manobrar mais) e porque, como se indicia no parágrafo seguinte, afinal não é suficientemente ambicioso para jogar no Porto, uma vez que não vai nem para o Chelsea nem para o Real Madrid, preferindo o secundário Atlético de Madrid.

O momento seminal é uma foto de uma parede em que, durante a noite, os Superdragões, o braço armado da direcção do Porto, saindo à rua (que é onde está a voz do povo), escreveram: «Vai embora Falcão.» está tudo dito.

Note-se que, na véspera, a Bola tinha escrito que os 38 milhões eram um acordo tácito, dando a entender que Jorge Mendes, o recém-contratado empresário do jogador, o tinha orientado no sentido de pressionar o clube na comunicação social, como fizera Fábio Coentrão com o Benfica, informando o Atlético de que o preço real eram os 38 milhões acordados e não os 45 da cláusula. Nesse momento, o mito da cláusula de rescisão estava morto.

Paralelamente, informa-se que dificilmente o Porto convencerá a Roma a pagar os 30 milhões da cláusula de Fernando (e aposto que a Roma nem sequer sabia que queria comprar o Fernando, muito menos por 30 milhões) e que Ruben Micael, um jogador cujos grandes feitos de carreira tinham sido ser portista desde pequenino, no Funchal, ter levado com dois dedos na cara do Jorge Jesus e ter marcado um livre à traição no primeiro jogo que fez pelo Porto, passando depois um ano no banco assim que Villas-Boas substituiu Jesualdo Ferreira, Rubem Micael afinal tem mercado. O empresário, curiosamente, é… Jorge Mendes. Certamente que na sua estratégia de rapina de Falcão das Antas Jorge Mendes já tinha em vista esta benesse de oferecer ao Porto o favor de o livrar de um peso-morto por dois ou três milhões de euros, eventualmente até com algum a entrar por fora, como é de bom tom.

O mito

Outro mito que, mais tarde ou mais cedo, vai morrer é o da infalibilidade de Pinto da Costa no mercado.

Vejamos, então, o balanço de Verão, até agora, de Pinto da Costa:

- perdeu o seu treinador e trave-mestra do sucesso no ano passado ao ser apanhado na curva;

- roubou Danilo e Alex Sandro ao Benfica, dois laterais saídos agora dos juniores, por 23 milhões de euros. Vejamos como e quando é que qualquer um dos dois jogará, recordando que, por Hulk, o Porto pagou praticamente o mesmo, e que Falcão veio por metade do preço apenas há dois anos, não tendo o mercado sido assim tão inflacionado. Para serem um bom negócio, à maneira antiga, cada um deles deveria ter sido comprado por 3 ou 4 milhões de euros, no máximo. Têm cláusulas de rescisão de 50 milhões, mais vinte que a cláusula original de Falcão, tal como Mangala e Defour. O que nos leva a questionar porque era a cláusula de Falcão, já na altura muito mais promissor que qualquer um deles, tão baixa.

- gastou mais 20 milhões de euros, num total de 43, em Kléber, Iturbe, Mangala, Defour, Djlama e Bracali. Desafia-se o mais bondoso adepto a encontrar, no meio destes 43 milhões de euros, dois titulares indiscutíveis.

- vai perder o seu melhor e único avançado-centro fiável, um dos três melhores atacantes europeus na temporada passada, quando a sua intenção era, claramente, atacar a Liga dos Campeões este ano. Com os 38 milhões que vai ganhar aí terá de gastar entre 7 e 10, pelo menos, a comprar alguém que demorará pelo menos um ano a atingir o mesmo nível, se é que atingirá. E aqui já vamos, pelo menos, em 50 milhões.

- Fernando está a ser trabalhado para não ser vendido a preço de saldo. É capaz de dar 15 a 18 milhões, com boa vontade de quem quiser comprar, porque não está a jogar nem quer. E não vale isso, mas enfim… Rolando já abriu brechas ao dizer que também quer sair.

- aos 26 anos, idade de plena maturação competitiva, Cebola Rodríguez, que custou 7 milhões de euros para ser roubado a um Benfica que tinha acabado de acabar em terceiro no campeonato anterior, e que tem um dos maiores salários do plantel pela mesma razão, está encalhado e ainda deve vir a ser emprestado para não passar um ano encostado. Walter, a grande aposta do ano passado (6 milhões?), vai pelo mesmo caminho. Micael, a fantástica aquisição de há ano e meio (4 milhões?), igualmente.

Que o Porto tem mais experiência e mais qualidade no trabalho de mercado de jogadores e de constituição de plantéis, é inegável. Que Pinto da Costa domine esse mercado, é falso. Domina enquanto ganha. Mas se o Porto perder o próximo campeonato, depois de gastar mais de 50 milhões de euros em contratações, ou se não for aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, quem ousará dizer que Pinto da Costa domina seja o que for?

Até ver, o Porto gastou 43 milhões de euros a comprar futuros. Na prática, em vez de nove possíveis bons jogadores, que vêm ocupar o lugar de outros nove possíveis bons jogadores que já não o vão ser ou que passaram de prazo – porque, dos titulares, sair ainda não saiu nenhum, e não se vê como é que qualquer um destes miúdos vá pegar de estaca, se for preciso, numa equipa da categoria da do Porto, pelo que o mais provável é haver entrada por saída –, na prática, com esses 43 milhões o Porto já teria comprado dois jogadores jovens e titulares indiscutíveis, para reforçarem o seu onze, e não nove para reforçarem o seu banco.

Entre os negócios, as negociatas, os flops e os retoques, as comissões e as rasteiras ao rival, o clube com maior rendimento de mercado no futebol mundial nos últimos dez anos continua a ser, economicamente, vulnerável a qualquer Atlético de Madrid, e ainda o ano passado ficou fora da Liga dos Campeões num campeonato com apenas três candidatos ao título. Fica a dúvida: e quando a vaca emagrecer?