segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Jornada 1

O que parece:

O Porto obtém o melhor resultado, num dos terrenos mais difíceis do campeonato, perante um Vitória que aposta, este ano, numa equipa muito física, de feios, porcos e maus, e que jogou num sistema de passe longo rápido que colocou problemas.

O Benfica acaba o jogo com um resultado sofrível mas não completamente mau. Um ponto num campo adversário na primeira jornada não é um resultado definitivo. As condições em que foi alcançado fazem-no parecer pior do que é. Não impede o objectivo de chegar ao final do jogo das Antas, na 6.ª jornada, à frente do campeonato, mas aumenta a pressão para os próximos quatro jogos, onde tem, obrigatoriamente, de ganhar.

O Sporting, independentemente das contingências, compromete as suas escassas aspirações ao título ao empatar um dos dois jogos, no máximo, que pode empatar em casa se quiser ser campeão. Tem, dos três, o pior resultado.

O que é:

Recorrendo ao meu Índice de Relação Pressão-Resultado (IRPR), baseado em factores internos e externos e em situações de jogo, e em que um valor teórico de 0,0 equivale a um resultado positivo numa situação de total ausência de pressão e 1,0 equivale a um resultado positivo na situação de maior pressão potencial para a equipa dentro das competições que disputa, as conclusões são algo diferentes:

Porto (IRPR = 0,385) – teve a melhor prestação, porque ganhou perante o adversário mais forte e no ambiente situação mais complicado.

Sporting (IRPR = 0,140) – as situações de jogo e o histórico recente em Alvalade tornavam o jogo mais difícil para o Sporting que propriamente o adversário. Em caso de vitória o Sporting teria tido o melhor índice entre os três grandes nesta jornada (0.420). O empate divide o IRPR potencial por três e reflecte, na minha opinião a relação entre o resultado possível e o resultado alcançado no contexto em que aconteceu.

Benfica (IRPR = 0,078) – O pior desempenho sobre pressão, que o desenrolar do jogo atenuou bastante e o Benfica não soube controlar.

O que fica por saber:

Porto:

- A incapacidade de responder às expectativas, manifesta nas crónicas, vai agudizar-se ou ser resolvida? O resultado foi positivo, e isso, até há poucos meses, no estado de graça, chegava. A mudança de treinador gera desconfiança, Vítor Pereira não tem a mesma imprensa que Villas-Boas. É possível que o Porto deste ano sofra do mesmo estigma do Benfica no ano passado, em que toda a gente falava das proezas do ano anterior como se elas tivessem mesmo existido, em vez de terem existido apenas na cabeça das pessoas. Na realidade, a qualidade e o estilo de jogo do Benfica campeão não era muito diferente da do Benfica de 2011, apenas alguns resultados foram diferentes, mais pela sorte do jogo que por capacidade de resposta interna. Isso não impedia os críticos de falar no «Benfica do ano passado» para, comparando com o «Benfica deste ano», invocar exibições que, na verdade, nunca existiram. O Benfica campeão jogava apenas um pouco melhor do que o Benfica entre a quinta e a vigésima quinta jornada do campeonato seguinte.

Da mesma forma, fala-se do Porto do ano passado como se ele fosse uma máquina exibicional perfeita quando, na verdade, até aos 5-0 ao Benfica, nas Antas, o Porto era antes uma equipa de resultados, de trabalho, de dinâmica e sem grande brilho. Isso não impedirá os críticos de fazer desse Porto uma equipa que não era. Vivemos num mundo de expectativas, em que a realidade, muitas vezes, é acessória. O Porto até pode ser melhor do que no passado, mas se não for tão bom como os críticos idealizam que deve ser, terá problemas na opinião pública e, a prazo, por causa disso, internos.

- Falcão apareceu na sala de imprensa, contra a vontade dos dirigentes, a dizer que não rejeita sair para o Atlético de Madrid. É, na prática, uma forma de dizer que quer sair. Fernando viu o jogo no meio dos Superdragões, e é um claro caso disciplinar. Rolando já tinha dito que era o melhor momento para sair, tal como Fucile, e Álvaro Rodríguez está na rampa de lançamento. O discurso do novo treinador ainda não convenceu ninguém. O todo é, aparentemente, sólido, mas há claras brechas que só não serão mais visíveis no caso de não haver pressão exterior.

- Uma vantagem inicial pode ser traiçoeira e transmitir uma ideia de facilidade que, certamente, não vai acontecer.

Benfica:

- Em dois jogos consecutivos o Benfica volta a mostrar o seu principal defeito, que tem já vários anos e que Jesus, tendo disfarçado com a mudança do tipo de jogo para um registo muito ofensivo, não conseguiu corrigir: a incapacidade de controlar o tempo e o momento do jogo. O Benfica vai conseguir começar a jogar a duas ritmos (alto risco e baixo risco) ou passará todo o campeonato a jogar sempre em risco elevado e a deixar fugir vantagens e pontos? Provavelmente a segunda hipótese será verdadeira, porque sem os jogadores que jogam em alto risco não consegue chegar a vantagens que depois tenha de guardar. Quando as coisas correram, bem, no ano 1, o alto risco deu um campeonato, uma meia-final da Taça e uma Taça da Liga. No ano 2 deu um segundo lugar, uma meia-final da Taça UEFA, uma meia-final da Taça de Portugal e uma Taça da Liga. A verdadeira dúvida para o Benfica deste ano é a seguinte: vai alcançar muito bons resultados a jogar com o coração nas mãos ou resultados apenas bons (mas insuficientes) a jogar com o coração nas mãos? Tanto pode dar uma como a outra. Para já, não perdeu o primeiro jogo e não o perdeu em casa, o que é uma evolução muito importante em relação ao ano anterior.

Sporting:

- Ao contrário do ano passado, o empate em casa, ainda que provavelmente comprometedor para as suas possibilidades de lutar pelo título, parece mais um acidente de percurso que um desastre anunciado, como eram os jogos em casa no ano passado. A equipa respondeu relativamente bem à pressão. Mas o empate aumenta, ao mesmo tempo, essa pressão. Passará por cima deste resultado ou deixar-se-á enganar por ele?

domingo, 14 de agosto de 2011

Choramingos?

Domingos tem boa imprensa. Tem, aliás, excelente imprensa. Isso resulta de vários factores:
- o seu passado como futebolista, que lhe transmite uma espécie de honestidade intrínseca (porque os futebolistas são o melhor que há no futebol…);
- a sua ligação ao Futebol Clube do Porto, que motiva a imprensa a extrapolar a qualidade de qualquer pessoal que esteja ligada ao clube, por mais mediana que se possa revelar (após a Supertaça deste ano, um jornalista começava já a chamar a atenção para a possibilidade de Vítor Pereira – que apenas ainda fez um jogo oficial, herdando uma equipa completamente feita e ganhando 2-1 a um Guimarães feito de novo no Verão – ser, mais do que treinador, um «condutor de homens», qual Winston Churchill);
- ter treinado apenas a Académica e o Braga, onde as expectativas nunca excederam as suas capacidades ou das respectivas equipas. (Domingos nunca falhou porque ainda pouco treinou, e porque o fez em ambientes seleccionados). O mesmo se aplica a José Peseiro, Paulo Sérgio, a outro nível Carlos Carvalhal, e outros que, depois, mostraram não ter estofo para estar num clube grande;
- o seu discurso portuguesinho, politicamente correcto, do «somos mais pequenos mas vamos tentar fazer o impossível», que fica sempre bem num jornal quando se tem pouco a perder mas que, num clube como o Sporting, não é suficientemente agressivo;
- ter lidado apenas, desde que começou na Liga profissional, com uma imprensa domesticada, nortenha, de ascendência portista, que faz as perguntas que o clube precisa que se façam e nunca o colocou em situações difíceis, antes o ajudando a passar por elas sem grandes danos para a imagem (a derrota por 5-1 frente ao Porto em 2010, por exemplo, totalmente incaracterística em relação ao percurso do Braga nesse ano, e em que houve um claro sub-rendimento de alguns jogadores e uma amaciamento do discurso de Domingos na semana antecedente, totalmente inversa ao adoptado quando os adversários foi o Benfica).
- os resultados do Braga nos últimos dois anos, que foram uma evolução (acima do esperado, é verdade) do que tinham sido os dos quatro anos anteriores.
O espírito até agora acrítico da imprensa leva a não se dar importância a alguns pontos que se vão revelar durante a estadia de um ou dois anos de Domingos no Sporting:
- Domingos chegou a Braga com uma dinâmica de vitória instalada no clube e uma estrutura organizada. O seu grande mérito foi adaptar-se. O segundo foi fazer um trabalho bem feito, certinho, sem grandes rasgos a nível técnico. Considerando que o Braga evoluiu muito em termos de prospecção e que recebe a protecção do Porto, Domingos não fez, relativamente a outras equipas e outros tempos, muito mais do que treinadores como Cajuda, Manuel José, Marinho Peres, Autuori, Jaime Pacheco e vários outros. No primeiro ano, o Braga beneficiou de uma sequência de bons resultados que provocou uma hipermotivação e permitiu ao clube lutar pelo título até ao fim. No segundo ano o Braga concentrou-se quase completamente nas taças continentais e fez uma excelente Liga Europa, provavelmente irrepetível, seja por Domingos seja por qualquer outro técnico. No Sporting, Domingos vai encontrar uma pressão completamente diferente e vai ter de construir uma equipa praticamente do zero. Uma derrota no Sporting não sofre, nem de longe, o mesmo escrutínio que uma derrota em Braga, nem o conceito de tempo é igual em ambos os clubes, mesmos que os resultados seja, ocasionalmente, coincidentes. A auréola em redor de Domingos vai começar a desaparecer rapidamente, a menos que o Sporting consiga fazer um início de época praticamente perfeito.
- Domingos perde-se em incoerências sobre os árbitros. Para quem ganhou tanto como ele, quer como futebolista quer já como treinador, envolve-se demasiado nas teorias de bastidores e vai acabar por pagar por isso profissionalmente. É demasiado rápido a localizar conspirações e a fazer o discurso do desgraçadinho, a encontrar desculpas nos árbitros e a não reconhecer as vantagens quando estas lhe tocam. Pressiona os árbitros de forma cínica, constante, mas pouco convicta, que passa em branco quando representa uma força não-ameaçadora mas que ganha visibilidade quando o objectivo é defender um Sporting e, por inerência, atacar um Benfica ou um Porto. E isto é relevante, porque Domingos vai ter um jogo difícil de gerir quando defrontar o Porto. Se não for agressivo dirão que não está suficientemente empenhado e que, em Portugal, só poderá treinar o Porto. Se for agressivo perde grande parte da imprensa que o susteve até aqui. Em qualquer uma das situações, a opinião pública atacá-lo-á, e a sua boa imagem, confortavelmente unânime, deixará de ser cristalina. No fundo, Domingos abandonou a sua zona de conforto, quer psicológica quer geográfica. Muito em breve – quando houver decisões controversas de árbitros, por exemplo, ou quando os interesses de Porto e Sporting colidirem – Domingos vai ser confrontado com o seu portismo, especialmente numa altura em que o Sporting tem assumido uma posição de subalternidade em relação ao Porto e em que os seus adeptos se querem ver livre dela.
- Não se vislumbra em Domingos uma personalidade verdadeiramente marcante. Falta-lhe carisma. Chora demais. Tem um discurso antiquado e monocórdico, que não é mobilizador dos adeptos e que, sem o suporte dos resultados, se virará contra ele. Uma fase tão má como a que o Braga atravessou entre Setembro e Novembro do ano passado, por exemplo, ditaria o seu destino em Alvalade. Ainda está por se perceber se Domingos é verdadeiramente um líder que leva os outros a exceder-se ou apenas se beneficiou de ambientes favoráveis e foi um a mais, como tantos outros treinadores noutras ocasiões.
Porque é que Duque e Freitas escolheram Domingos para treinador? Porque, além dos bons resultados acumulados nos últimos dois anos e do sentido ascendente da sua carreira, reúne uma série de vantagens:
- porque conhece o ambiente de um grande clube e isso dar-lhe-á agilidade mediática e tempo;
- porque conhece o campeonato português e isso valerá alguns pontos em relação a um treinador estrangeiro. O Sporting precisa de pontos para deixar de viver nos projectos. Entre os jovens treinadores disponíveis nenhum daria garantias suficientes além dele – só na segunda linha, e a experiência de Paulo Sérgio, por exemplo, foi traumatizante e desmobilizadora;
- para injectar cultura portista no interior do Sporting e, ao mesmo tempo, para estabelecer, de imediato uma clivagem entre o passado recente de subalternização ao Porto e um futuro de desafio à força dominadora, sem o qual Duque e Freitas falharão – porque o verdadeiro desafio, a longo prazo, do Sporting, não é ser melhor que o Benfica mas ser melhor que o Porto;
- para ganhar ao Benfica no imediato, o que é fundamental para que o Sporting ganhe tempo para consolidar a sua equipa e ganhar fôlego financeiro. Mais do que ser campeão no primeiro ano, o que será quase impossível dada a diferença para o Porto, Duque e Freitas pensam em acabar em segundo, ficar à frente do Benfica, receber o balão de oxigénio da Liga dos Campeões, dar um ano de crescimento à equipa e crédito a Domingos, reforçar o plantel e atacar o próximo ano, em que o Porto provavelmente estará menos forte. Um segundo lugar para o Sporting, no actual contexto, com apuramento directo para a Liga dos Campeões, equivaleria a uma óptima época. Domingos tem não só uma aparente vantagem táctica no confronto directo com Jesus como tem o hábito e o prazer de ganhar ao Benfica. A sua abordagem psicológica aos jogos com o Benfica é sempre apurada e estrategicamente perfeita.

sábado, 13 de agosto de 2011

Para as calendas

O calendário é o grande trunfo do Sporting, porque lhe dá exactamente aquilo de que precisa: tempo. Não tem a melhor equipa, não tem os melhores jogadores – nenhum jogador do Sporting seria, à partida para o campeonato, titular do Porto e, no Benfica, nenhum o seria sem margem para discussão – mas tem o melhor calendário, onde se inclui, já, a vantagem de não estar a disputar a Liga dos Campeões, que é sempre (sempre) um foco desestabilizador na frente interna.

Em condições normais, mesmo numa fase de sub-rendimento resultante da necessidade de aclimatar todos os novos jogadores ao campeonato e uns aos outros, nos seis primeiros jogos do campeonato o Sporting concederia um empate, o que lhe daria, senão a liderança do campeonato, a vice-liderança. No melhor cenário, com seis vitórias e a perda de pontos dos seus adversários, o Sporting pode chegar ao fim da sexta jornada com uma vantagem de cinco pontos em relação ao Porto ou ao Benfica, sem sequer ter tido de fazer nada de extraordinário.

A dinâmica interna daí resultante, a que se juntaria o estado de conhecimento mútuo dos jogadores e da formação do colectivo, juntando-se a um grupo de técnicos e dirigentes muito conhecedores do campeonato, do desafio que é o Inverno e do mercado de Janeiro, daria ao Sporting uma hipótese real, e já não meramente académica, de lutar pelo título.

Pelo contrário, se o Sporting não aproveitar as primeiras seis jornadas para acumular pontos, o mais provável é voltar a acabar no quarto lugar, uma vez que o Braga vai, certamente, fazer um campeonato muito superior ao da época passada – não tem Liga dos Campeões, não parece ter piores jogadores e tem, provavelmente, o melhor treinador do campeonato (o tempo o dirá).

As hipóteses de o Sporting ser campeão (cinco por cento de probabilidades, na minha opinião), dependem da conjugação dos seguintes factores:

- manter-se invicto até à décima jornada, em que visita o Benfica, perdendo, no máximo quatro pontos (dois empates);

- aproveitar o mercado de Inverno para reforçar a equipa com um ou dois titulares indiscutíveis, o que será mais fácil se a primeira volta correr bem e encorajar o investimento;

- ser eliminado da Liga Europa na primeira eliminatória após a fase de grupos (chegar a uma meia-final da Liga Europa, por exemplo, não é um objectivo credível).

Se tudo isto correr bem, o Sporting tem uma hipótese de conseguir consolidar uma equipa-base suficientemente forte para enfrentar o seu verdadeiro desafio: chegar à última jornada, nas Antas, já campeão. Qualquer cenário que implique ter de ganhar nas Antas na última jornada para ser campeão inviabiliza a conquista do campeonato, sobretudo se o Porto tiver também essa oportunidade. A pressão seria demasiado para uma equipa (desportiva e dirigente) de primeiro ano.

Qualquer tentativa de compreender o que este Sporting pode valer, antes de se jogar a primeira jornada do campeonato, é infrutífera. A constituição de um onze-base que conjugue qualidade com resistência anímica e física suficiente para durar um campeonato inteiro, suportando o inevitável período de quebra física com uma disciplina colectiva que garanta os resultados mínimos, e em que pelo menos sete jogadores joguem sempre, é um ponto fundamental numa equipa campeã.

O Benfica teve isso, há duas épocas, com Quim, Maxi Pereira, Luisão, David Luiz, Coentrão, Javi Garcia, Di Maria, Cardozo e Saviola. O Porto teve-o, o ano passado, com Helton, Rolando, Álvaro Pereira, Fernando, Moutinho, Varela, Falcão e Hulk. O Sporting vai ter de encontrar esse núcleo duro.

Numa primeira análise, o melhor onze do Sporting seria:

Patrício; João Pereira, Rodríguez, Polga e Evaldo; Schaars, Rinaudo e Matías; Izmailov, Bojinov e Jéffren.

Não é um onze esmagador e, considerando que Izmailov esteve um ano parado, do meio-campo para a frente todos os seis jogadores seriam novos. Mais problemático, eventualmente, é que no pior sector da equipa, a defesa, apenas o peruano Rodríguez pareça um verdadeiro reforço – não sendo ele, aos 27 anos, um jogador mais que mediano ao nível internacional.

O plantel do Sporting, na verdade, não é tão forte como se poderia crer quando se assistiu ao descarregamento de jogadores durante o Verão.

Caso a caso, da baliza para a frente – considerando que Patrício, provavelmente o próximo jogador a ser vendido pelo Sporting, uma vez que vai fazer todos os jogos do campeonato e da Selecção Nacional e será titular no Euro-2012, não tem discussão:

João Pereira não tem o estofo mental para ser o defesa-direito do Sporting. Vai, provavelmente, custar pontos ao Sporting, certamente perderá, também, o lugar de defesa-direito na Selecção para Bosingwa ou Ruben Amorim (um jogador que vai jogar muito este ano, dada a fadiga acumulada de Maxi Pereira, e que deverá aproveitar uma oportunidade na Selecção dada a escassez de opções), e creio que, provavelmente, acabará por perder a titularidade no Sporting para Pereirinha, um jogador mais inteligente e mais consistente. Não seria surpreendente que João Pereira, aproveitando a actual visibilidade na Selecção Nacional, fosse transferido na janela de Janeiro. Não conheço Arias. Nunca se sabe de onde vem uma revelação.

Daniel Carriço não tem um sexto sentido para o jogo suficientemente desenvolvido para colmatar a sua falta de presença física no centro da defesa. Aparentemente é um jogador mentalmente forte, mas também não parece suficientemente forte para liderar, a partir da defesa, uma equipa como a do Sporting. Se o fosse já o teria demonstrado. Não seria surpreendente ver Domingos a adaptar Carriço a médio-defensivo para aproveitar os seus pontos fortes e disfarçar os seus pontos fracos. O futuro de Carriço – um jogador que, no futebol actual, em alguns clubes nem sequer tem físico para ser trinco –, em Portugal ou no estrangeiro, será a médio ou não será. Polga é uma espécie de Carriço mas para melhor. Já não é, no entanto, fisicamente dominador como era nos dois primeiros anos de Sporting. Um dos dois desempenhará o papel de libero e terá exactamente as mesmas dificuldades na marcação ao segundo avançado contrário. Um dos problemas tácticos do Sporting no ano passado foi ter dois líberos, com as mesmas características, a jogar simultaneamente, sem que nenhum seja realmente dominante no jogo aéreo.

Alberto Rodríguez será o único titular indiscutível na defesa do Sporting. É o único dos titulares em estado óptimo de maturação (e isso é suficiente), e é um bom marcador. Não é, no entanto, um central de nível continental. A relação qualidade-preço só é importante, ao nível dos resultados, se a qualidade for alta. Se essa relação for positiva apenas porque o jogador é barato o resultado prático é ter um jogador de qualidade inferior na equipa, com reflexos nos resultados. Para render bem, Rodríguez, um bom terceiro ou quarto defesa, tem de ter uma defesa rotinada e forte à sua volta, o que parece difícil. Onyewu sentirá dificuldades de adaptação. Culturalmente não é fácil a um americano assimilar Portugal. Fisicamente é um jogador poderoso, mas não tem a malícia necessária para triunfar em Portugal, onde o jogo é pouco honesto. Será usado, eventualmente, em situações pontuais, em terrenos pesados ou em momentos de defesa aérea, e não estará mais de um ano no Sporting.

O facto de Evaldo ter sido dispensado do Porto sem nunca ter realmente jogado define-o. É um defesa apto para jogar como segunda figura numa equipa de nível médio-alto mas não tem qualidade para o tipo de pressão que o Sporting provoca. Não seria espantoso que Turan, um jogador de escola francesa, acabasse por lhe tirar o lugar, o que não abona a favor das opções defensivas do Sporting.

Temos de ver Rinaudo e Schaars em jogos a sério para comprovar a sua verdadeira utilidade – se assumem o jogo ou se se escondem nele, até onde estão dispostos a ir. Formalmente, têm tudo no lugar – experiência de alta competição, qualidade e idade. Mas não os conhecemos. Sendo, no entanto, o meio-campo o sector mais importante numa equipa, não devemos aceitar sem réplica que um meio-campo com dois jogadores que não se conhecem nem conhecem o campeonato português possa ser tão forte como devia. Da mesma forma, apesar da boa vontade de quem o conhece (entre eles Pauo Bento), não se vê em André Santos a qualidade de um Fernando ou um Javi Garcia. Sendo um jogador certinho, pode dizer-se dele o mesmo que se diria de Polga, Carriço e outros: não sendo um ponto fraco, não é também, certamente, um ponto forte, um jogador que seja uma nítida mais-valia numa equipa campeã. Também não seria por ele, contudo, que o Sporting deixaria de ser campeão. De Luís Aguiar se pode dizer o mesmo que de Evaldo: que, não tendo tido qualidade para jogar no Porto, está por se provar que possa ser mais do que um titular num Braga ou do que um suplente num grande. André Martins não vai jogar.

Onde está o difference maker do Sporting? Para que o Sporting se transformasse numa equipa de bom nível e se aproximasse do Porto seria necessário que dois jogadores, do actual plantel, concretizassem pelo menos uma boa parte do seu potencial: Matías Fernandez e Izmailov. Pelo seu papel criativo, pela experiência que já possuem no campeonato e no clube, pela idade, pelo estilo de jogo, um Sporting campeão teria de ser um em que, no Verão seguinte, se dissesse que Matías e Izmailov estavam a ser pretendidos por um Inter, por um Arsenal, por qualquer grande clube europeu. Matias terá o seu ano decisivo. As últimas semanas da última época mostraram um jogador em crescimento numa equipa em depressão e sem pressão. Se não triunfar este ano, com uma equipa feita em seu redor, não passará de um jogador mediano a nível internacional. Quanto a Izmailov, o caso é mais complicado. Um ano sem competir fará com que, provavelmente, venham lesões a interromper os bons momentos de forma, que tardarão a chegar. Apostar num jogador com o histórico de Izmailov para liderar o processo ofensivo de uma equipa candidata ao título faria pouco sentido se não fosse por necessidade absoluta. Serão Matías e Izmailov suficientemente bons, este ano, para colocar o meio-campo do Sporting ao nível de um campeão? Provavelmente não. O meio-campo do Sporting tem muitos nomes no papel mas poucas soluções reais ao nível de uma equipa campeã.

No ataque tanto Capel como Jeffren são, em teoria, melhores que Djaló. Este terá, também, uma época determinante. Não se vê como muito provável uma explosão de Djaló, tendo em conta os antecedentes, mas juntando o seu estado de maturidade ao potencial e ambiente da equipa em seu redor, as possibilidades existem.

Jeffren, um jogador com escola e em segundo plano na melhor equipa do mundo, muito completo (física, táctica e tecnicamente), será a melhor contratação do Sporting. Não engana e foi feito para o lugar que se espera que ocupe na táctica de Domingos.

Não antevejo em Capel um grande futuro no Sporting. É um jogador de contra-ataque, de espaços, e vai passar grande parte do tempo que jogar a passar a bola para trás. Chega ao Sporting numa fase descendente, de relançamento, em que passou de grande promessa a jogador de banco no Sevilha, indiciando falta de consistência, e com menos velocidade no jogo devido ao aumento de peso muscular que vem com o avançar da idade – como Quaresma, Simão, Ronaldo, Figo e tantos outros. O principal motivo para o Sporting ter conseguido contratar Capel terá sido, provavelmente, porque os clubes espanhóis perceberam que a janela de oportunidade deste jogador se tinha fechado.

Há outro factor em jogo no caso de Capel: os jogadores espanhóis, sobretudo os do Sul, tanto no futebol como nos outros desportos, são muito ligados à sua terra e à família, e têm, geralmente, grandes dificuldades de adaptação fora do seu país. Capel é uma contratação mais arriscada do que o que parece. Entre Jeffren, Djaló e Capel, escolhendo dois para ter resultados rápidos, Domingos provavelmente prescindirá de Capel, e isso não ajudará a sua adaptação, pois é um jogador de ritmo alto, que tem de jogar muito para chegar a jogar bem.

Carrillo é um total desconhecido. O que não quer dizer que não seja melhor que os outros.

Uma época inteira ao nível do que Rubio tem mostrado na pré-época faria dele um dos dez jogadores mais desejados a nível mundial. Aos 18 anos, a capacidade física, instinto pelo jogo e pelo golo, técnica e critério que mostra fariam dele titular indiscutível no Sporting. Mas não se deve acreditar que isso venha a acontecer. Não seria de estranhar, contudo, que Rubio alimentasse o Sporting nos primeiros dois meses de competição. É um caso raríssimo de adaptação e o seu estilo de jogo vai dar pontos ao Sporting. Mas se Rubio fosse o jogador-chave na conquista do campeonato entraria na história do futebol português - e deixaria o campeonato rapidamente…

Um dos problemas de Domingos é que Rubio não veio para jogar. Seria o quarto avançado e, de repente, é o primeiro, passando à frente de um jogador que chegou lesionado (Bojinov), de outro que ainda não chegou (Van Wolfswinkel) e de um veterano que não consegue marcar golos suficientes para ser um indiscutível.

Aos 28 anos, Postiga atingiu o seu limite – é um bom jogador, pode fazer estragos, mas anula-se a si próprio. Será sempre um segundo avançado, e é aí que mais rende, porque é melhor a fazer jogar que a marcar. Para o ser, contudo, Bojinov teria de ser o ponta-de-lança que o Sporting perdeu em Liedson. Van Wolfswinkel tem 22 anos e nenhuma prova real dada. Tem escola, mas terá estofo?

Olhar para o futebol como um mercado de transferências leva a olhar para o Sporting como um triunfador (ou levou). Louva-se a capacidade de Carlos Freitas comprar «bom e barato», citando um dirigente do clube. É uma análise prematura.

Em primeiro lugar, está longe de ser seguro que todas as contratações venham a revelar-se boas. Pode haver uma explicação mais lógica para o facto de o Sporting ter conseguido as pechinchas que conseguiu que não apenas de ter sido mais espeto do que os outros: a de, simplesmente, os jogadores contratados não serem valores tão seguros como a novidade sugere. É por isso que os jogadores são mais baratos: porque o Sporting aposta muito na valorização e na recuperação física ou anímica dos jogadores.

Dos jogadores que chegaram, Alberto Rodríguez, Rinaudo, Schaars foram contratados exactamente pelo que rendem agora e para entrar na equipa. São jogadores maduros. Quanto aos restantes, Bojinov vem de um ano nulo, assim como Onyewu, Luis Aguiar e Capel. Serão boas contratações se conseguirem recuperar a forma e atingir o seu potencial. Caso contrário serão apenas dinheiro mal gasto.

Jeffren e Van Wolfswinkel têm uma primeira oportunidade como titulares numa equipa candidata ao título – Jeffren era suplente no Barça e o holandês jogava numa equipa sem ambições.

Arias, Turan, Carrillo e Rubio são «apostas de futuro», mas há um problema: numa equipa que luta para ser campeã não há futuro, há o presente e há o primeiro lugar, e quem não é parte desse processo muito simples está a mais. Ou um jogador jovem é suficientemente bom para ser titular numa equipa candidata ao título, como Di Maria, James Rodríguez ou David Luiz, por exemplo, ou perde a sua oportunidade. O Sporting tem a melhor formação de Portugal. Se houvesse a possibilidade de um clube grande fazer crescer internamente bons jogadores jovens até ao ponto de se tornarem campeões o clube não estaria há nove anos sem ser campeão.

Sem ter dinheiro para comprar jogadores seguros, o Sporting precisa de apostar nas pechinchas. Uma pechincha é boa no sentido económico, mas nem sempre é recompensadora no plano desportivo. Acabar no segundo lugar, vender um ou dois jogadores valorizados e voltar a investir em pechinchas para voltar a acabar em segundo lugar e, apenas se possível, em primeiro, não é uma opção, e isso ficou demonstrado durante o roquettismo, uma dinastia tecnocrática que começou em Roquette e acabou na iminência da desesperada eleição de Bruno de Carvalho para presidente do clube, de que o Sporting se salvou por meia-dúzia de votos.

A questão fulcral no Sporting é que o seu núcleo de veteranos, formado por Rui Patrício, Carriço, Polga, Matías, Izmailov e Postiga, não tem qualidade suficiente para sustentar uma equipa campeã, o que coloca demasiada importância num grupo de jogadores novos no clube e no campeonato português, sendo estes, na sua maior parte, incógnitas em termos de rendimento real. Numa equipa quase completamente nova, o factor mais importante é a química de base – a sintonia entre os jogadores. Se ela for muito boa o todo resulta maior que a soma das partes. Se ela não for suficientemente boa e o talento também não for o suficiente (o que pode muito bem ser o caso do Sporting) a equipa acaba por consumir-se lentamente e sem sucesso.

O Sporting parte para a primeira época do resto da sua vida à procura de um milagre: enganar, ao mesmo tempo, Porto, Benfica e a lógica do mercado. Cinco por cento de hipóteses de isso acontecer será, possivelmente, um valor optimista.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Janela de oportunidade: 25 de Setembro

Quais as razões para acreditar que o Benfica estará mais forte este ano que no anterior?

- Ao contrário do ano passado, em que comprou um titular válido (Gaitán) mais um que só chegou, realmente, em Novembro, quando a época já estava perdida (Salvio) e perdeu dois, mais um em Janeiro (Di Maria, Ramires e David Luiz), este ano o Benfica perdeu dois titulares válidos (Coentrão e Salvio) e comprou quatro (Artur, Garay, Capdevilla, Witsel). O onze base do Benfica é muito mas forte este ano, e o onze base é o factor mais importante na disputa do campeonato.

- Elevou muito o nível do plantel (Eduardo, Emerson, Matic, Bruno César, Nolito, Pérez, Rodrigo), aumentando as opções e permitindo a Jesus manter um ritmo físico mais constante e mais elevado. Será mais difícil as lesões e as quebras de forma afectarem a equipa e, por outro lado, o tipo de jogo que Jesus implementou, muito dependente de uma rotação alta e constante, não consumirá tanto a equipa como nos últimos dois anos, em que o Benfica acabou sempre em quebra física acentuada. Além disso

- O Benfica comprou para os lugares certos (baliza, centro da defesa, meio-campo e alas), e no processo ainda reequilibrou a equipa, quer em maturidade quer por deixar de ter no seu defesa-esquerdo o jogador desequilibrador, o que tornava a defesa adversária muito mais fácil – ter o defesa-esquerdo como referência atacante da equipa significa uma subversão estrutural tal que nem um Roberto Carlos conseguiria compensar.

- O facto de ter de entrar mais cedo em competição permitirá ao Benfica corrigir o que mais falhou no ano passado: o início. Nessa altura, como foi fácil de reconhecer ainda antes do bailarico da Supertaça, o Benfica, dos dirigentes aos jogadores, passou o defeso todo no Marquês de Pombal enquanto os outros trabalhavam. Dificilmente o Benfica entrará tão displicente na nova época. E um bom início é fundamental para um bom campeonato.

- A equipa estará prevenida, assim como o treinador. Já se nota uma alteração no discurso e nas acções. Haverá maior concentração, e o nível de ambição elevou-se. Há sangue novo e parece notar-se sede de triunfo em vários jogadores (Nolito, Emerson, Matic, Witsel)

- O Benfica parece ter começado a fazer as coisas bem. Desde o discurso do presidente (mais humildade) às movimentações de mercado e internas (venda de Roberto sem perda de capital; compra de guarda-redes bons e baratos; afiliação de Maxi com oportunismo; controlo sobre a habitual birra de Luisão; Garay, o jogador certo para a ocasião; Capdevilla a custo zero e um experiente e enérgico, mesmo que mediano, Emerson em vez de um júnior brasileiro sobrevalorizado; Matic, outro jogador certo para a ocasião, que (creio) vai dar pontos, como Javi Garcia deu há dois anos; Witsel, a aposta certa pelo dinheiro certo no momento certo, concluído rapidamente e sem dar azo a interferências (Witsel é melhor que Moutinho, e cairia como uma luva numa equipa como o Porto); Nolito, bom reforço a custo zero, defendido do assédio apesar da longa espera; Enzo Pérez, contratação rápida e no lugar necessário; Rodrigo, outro negócio de ocasião com um empréstimo bem gerido, que vai trazer resultados na melhor altura; a eterna situação-Cardozo desta vez bem gerida; evidente qualidade na capacidade de prospecção; forcing por Danilo até onde se devia ir, apesar da derrota negocial, pois era um jogador para entrar na equipa). Há, ainda, jogadas mal calculadas – 6 milhões por um Bruno César, suplente no Corithians e futuro suplente no Benfica, tal como Jara continua a ser; falhanço relativo no processo Danilo, por exemplo – mas a relação entre boas e más acções aponta num sentido tendencial muito positivo.

- Maior maturidade da equipa. Saviola e Javi Garcia, por exemplo, dois dos titularíssimos da equipa, não conheciam a dimensão da derrota no Benfica, só conheciam o sucesso e, sobretudo, não conheciam o valor real do seu verdadeiro adversário, nem a dificuldade real do campeonato português. Além disso, os líderes da equipa experimentaram um ano terrível. Isso dar-lhes-á maturidade, que será bem aproveitada se, psicologicamente, se formar uma dinâmica de grupo e de vitória.

Existem, ainda, situações de vulnerabilidade da equipa, mas essas são já antigas. O defeso não enfraqueceu o Benfica, como no ano passado – fortaleceu-o em alguns pontos, se bem que não em todos.

A grande questão é: serão estes factores suficientes para eliminar o grande fosso qualitativo que no ano passado separou o Benfica do Porto e para permitir uma ligeira vantagem, no final, para o Benfica?

A resposta é não. Mesmo considerando estas mudanças e uma eventual baixa de rendimento do Porto, as hipóteses racionais de o Benfica ser campeão rondam os vinte por cento. Na actual relação de forças, este Benfica ganharia um campeonato em cinco ao Porto. Mas será o deste ano?

A solução, para o Benfica, tem duas vertentes complementares à da sua melhoria interna: o rendimento do Porto e o calendário. Sobre as possibilidade de o Porto fraquejar, já falei. Em relação ao calendário, as primeiras seis semanas de competição após o início do campeonato serão o período decisivo para o Benfica.

Jornada 1 , 12 a 14 de Agosto

Gil Vicente – Benfica; Guimarães – Porto

Um jogo, na prática, mais difícil que na teoria. O Gil vem da segunda divisão como campeão, traz a dinâmica de vitória que geralmente permite aos recém-promovidos manterem-se na I Liga mesmo com plantéis teoricamente inferiores e mais inexperientes, joga em casa e sem qualquer pressão. O Benfica tem a vantagem do ritmo competitivo superior, além de todas as outras mais evidentes. Jesus ainda não ganhou o primeiro jogo do campeonato no Benfica, e nunca o jogou fora. Da última vez que o Benfica ganhou na primeira jornada do campeonato, há seis anos, com Trap, foi campeão.

O Porto enfrenta um adversário a quem terá ganho uma semana antes, o que o tornará, e ao ambiente mais difícil. É mais provável que o Guimarães aprenda algo da derrota da semana anterior que o Porto da vitória. Além disso, o Porto não esteve tão imperial na Supertaça como poderia.

Em Guimarães, o Porto geralmente consegue ganhar quando chega pressionado e não desempenha tão bem quando está mais à vontade, Nas duas vezes em que o Porto não ganhou na primeira jornada nos últimos dez anos não foi campeão. Voltar ao segundo lugar do campeonato mais de um ano depois seria uma mudança estranha em todo o contexto da competição, e sugeriria vulnerabilidade de uma equipa que, na cabeça das pessoas, acabará o campeonato novamente invicta – apesar de isso ser altamente improvável, a última imagem é sempre a que fica.

Jornada 2, 21 de Agosto

Benfica – Feirense; Porto – Gil Vicente

Jogo fácil em casa entre os jogos da eliminatória da Liga dos Campeões com o Twente (dois dos dez jogos mais importantes do Benfica em toda a temporada) e que, por isso, se pode tornar difícil. Uma vez que ainda se trata de uma fase muito precoce da época, é possível que Jesus não faça poupanças, até porque o campeonato vai parar pouco tempo depois e a maior parte dos jogadores não joga pelas selecções.

Jogar com as duas equipas recém-promovidas nas duas primeiras jornadas, pela razão da competitividade atrás referida, pode ser traiçoeiro, até porque se uma vitória é o mínimo exigível, empatar um jogo em casa com o Feirense equivale a dizer adeus ao título.

O Porto tem um jogo em casa em que, se não tiver sido surpreendido pelo Guimarães, pode facilitar – um jogo do tipo daqueles em que o Porto costuma, nos anos maus, ceder o seu empate em casa, contra equipas muito mais fracas, a jogarem fechadas. Num campeonato tão equilibrado como o que se adivinha, os tradicionais (raros mas caros) empates em casa com equipa menores podem ser decisivos, não tanto pelos pontos que se perdem como pela posição de pressão em que deixam as equipas candidatas, condicionando a sua abordagem aos jogos mais complicados. Esta jornada abre essa possibilidade.

Jornada 3, 28 de Agosto

Nacional – Benfica; Leiria – Porto

Quando o Benfica ganha na Madeira, ao Nacional, faz bons campeonatos. O Nacional já deve estar num bom momento, pois também começou a época mais cedo, e parece ter uma boa equipa, com um treinador que não inventa. Será um dos jogos-chave do Benfica, três dias depois da decisão da eliminatória da Liga dos Campeões. Em caso de eliminação com o Twente é natural que a pressão interna suba e que leve a uma maior concentração por parte dos jogadores, de forma a não deixar fugir outro objectivo. Em caso de vitória na LC, o oposto é admissível. O factor-sorte, que foi fundamental no último título do Benfica e no descalabro do início da última época, revelar-se-á aqui. O Benfica não conseguirá ser campeão sem sorte, e este é um jogo para a sorte aparecer. O Benfica terá uma eventual vantagem por jogar tão cedo na Madeira, o que também aconteceu na época passada, na qual perdeu ali o campeonato, à quarta jornada. Não se sabe, por um lado, se estará avisado (presume-se que sim), e, por outro, se será afortunado. O jogo com o Nacional será perfeitamente crucial para o campeonato do Benfica. Encerra o primeiro ciclo de competição, com três jornadas no campeonato (com dois jogos fora) e duas eliminatórias da Liga dos Campeões. No máximo, o Benfica pode ceder, nestes três jogos a nível interno, um empate, se quiser ter hipóteses de lutar pelo título. Depois da interrupção do campeonato o Benfica tem dois jogos em casa, o sempre fulcral primeiro jogo da fase de grupos da LC, e o jogo nas Antas.

O Porto tem um jogo tradicionalmente difícil, com o Leiria, contra o qual, por vezes, e sem explicação evidente, deixa fugir vitórias certas.

Pode parecer exagerado dizer que a terceira jornada é fundamental na corrida para o título mas se é verdade que o campeonato é uma maratona não o é menos que se um corredor perde um minuto para os da frente no terceiro quilómetro da maratona muito dificilmente terá hipóteses de a acabar bem. Quando se fazem as contas, no fim da época, as primeiras jornadas contam tanto como as últimas – as hipóteses tanto morrem numas como nas outras.

 4.º jornada, 11 de Setembro

Benfica – Guimarães; Porto – Setúbal

Um empate de qualquer uma das equipas nesta jornada pode revelar-se crucial, dado o encadeamento de jogos que se segue. É o tipo de jogos em que se ganha ou se perdem campeonatos. O Guimarães é sempre um adversário difícil para o Benfica, mesmo na Luz. Quando ganha, o Benfica parece fazê-lo sempre no limite e com sorte. É, nos tempos modernos, um dos jogos mais traiçoeiros da época para o Benfica.

Sobretudo porque o Porto recebe um adversário que nunca lhe consegue roubar pontos nas Antas.

Um factor importante é o de a Liga dos Campeões se iniciar na quarta-feira após esta jornada, o que pesará na cabeça dos jogadores, sobretudo se o adversário europeu for um dos candidatos ao apuramento. Quem ganha o primeiro jogo do grupo passa aos oitavos-de-final em 90 por cento das vezes e paga a época seguinte. É difícil não achar isso mais importante que um dos trinta jogos para o campeonato, e em casa.

5.º jornada, 18 de Setembro

Benfica – Académica; Feirense – Porto

É uma vantagem para o Benfica ter dois jogos seguidos em casa nesta fase de embalagem, desde que consiga materializar. O jogo pode parecer fácil, mas a Académica tem tido sorte nas últimas épocas, na Luz, incluindo uma vitória no minuto 93, na primeira jornada da última época. O efeito pode ser o inverso, contudo. O Benfica não terá razões para entrar convencido, pois estará avisado. A Académica tem, este ano, novamente, depois de Domingos e Jorge Costa, um ascendente portista, com o estágio profissional de Pedro Emanuel e o empréstimo de vários jogadores. Passar este adversário seria um bom auspício. Tropeçar nele, o contrário. Todos os jogos do Benfica, neste período, surgem com um factor de interesse especial, mesmo este. Há um nível de intensidade inerente a cada um deles que, resultando positivamente, faz cheirar a título.

O Porto joga fora contra uma equipa que deve ser muito difícil em casa, apesar de pertencer ao grupo de influência portista. Nas poucas vezes em que perde campeonatos, o Porto costuma deixar-se empatar ou perder fora com uma ou duas equipas do seu círculo de influências, geralmente ao Norte.

Para ser campeão o Benfica tem de fazer seis pontos nestas duas jornadas em casa, nem mais nem menos.

6.ª jornada, 25 de Setembro

Porto – Benfica

Num campeonato extremamente equilibrado, uma vitória de um dos candidatos sobre o outro na primeira volta vai condicionar o resto do campeonato, porque vale sete pontos: três da vitória, três da derrota do adversário e mais um no desempate directo, além de condicionar o tipo de jogo que se jogará na segunda volta, onde o jogo passará a valer oito pontos – três mais três mais dois.

Se o Benfica chegar a esta fase da temporada à frente do campeonato isso significará, certamente, que não perdeu nas Antas. Isso dar-lhe-ia a vantagem anímica necessária para o resto do campeonato. Não lhe garantiria a vantagem necessária mas representaria cerca de setenta por cento de possibilidades de ser campeão, e praticamente cem de acabar nos dois primeiros lugares.

Por outro lado, o inverso significaria que teria cinco a dez por cento de hipótese de manter as esperanças no título vivas até ao Natal, até porque provavelmente viraria atenções para a Champions League.

Uma não-vitória nas Antas frente ao Benfica lançaria o Porto numa espiral de desconfiança, a duvidar do seu destino, um revés importante após um ano de perfeição em que ganhou por 5-0.

Esses 5-0 pairarão sobre a cabeça de todos os jogadores. A reacção de ambas as equipas à influência psíquica que essa memória exercerá será importante, embora o Benfica não tenha dado mostras de grande resistência à adversidade. Não é uma equipa suficientemente orgulhosa nem confiante para se inspirar num resultado negativo para triunfar. É, antes, uma equipa algo desgarrada, que facilmente sucumbe à adversidade e depende muito da sorte. Pelo menos até aqui. Os novos jogadores terão um papel determinante numa eventual alteração de mentalidade, porque os outros, por si só, já não aprendem línguas.

Este jogo disputa-se antes da segunda jornada da Liga dos Campeões, e, ainda que dependendo muito do resultado no primeiro jogo, a abordagem de cada uma das equipas vai dizer, realmente, quem é que está mais interessado em quê, independentemente das frases politicamente correctas atiradas para os jornais todas as semanas a dizerem que o campeonato é que é importante ou que todas as provas são para ganhar. Em 2010 foi claro para toda a gente que o Porto queria muito mais singrar na Liga dos Campeões que ser pentacampeão nacional, e isso viu-se em campo. Só assim um Benfica sem dois ou três titulares ganhou na Luz por 1-0 e arrancou para o triunfo no campeonato.

Ano 1 Depois de Pinto

Quando a diferença competitiva entre um campeão em título e os aspirantes é tão grande como no caso português, e quando existe um domínio estratégico tão amplo de uma equipa sobre as outras, mais do que por qualquer pressão externa é por questões internas que o favorito pode não chegar a ganhar.
Na época pós-Mourinho, em que o Porto atingiu, graças à valorização conhecida nesse período de dois anos, um patamar financeiro que até aí não conseguira atingir, permitindo-lhe recorrer ao dinheiro para alargar a base de renovação da equipa, a possibilidade de desgaste interno e de enfraquecimento estrutural diminuiu muito. Com o dinheiro ganho nas receitas originadas por esses dois anos de expansão europeia o Porto passou a ter acesso a mercados mais caros, podendo não só gastar mais dinheiro em melhores jogadores como fazê-lo de forma rápida e mais livre. Noutros tempos seria impossível, para a sobrevivência financeira do clube, gastar tanto dinheiro em tantos jogadores, com um nível de aproveitamento tão baixo, assim como comprar jogadores tão caros como Diego, Luis Fabiano, Hulk ou Falcão, numa base regular. O Porto passou de se munir apenas a nível interno para operar a nível externo, entrando num ciclo superior onde se gasta mais, se ganha mais e a qualidade, os erros e as recompensas são maiores. Mais do que a qualidade, o que distancia o Porto de Benfica e Sporting, neste momento, é a dimensão.

E isto tornou-o menos vulnerável à possibilidade de afundamento como a que estava a ocorrer precisamente no momento em que Mourinho pegou na equipa. Não foi a capacidade financeira que elevou o Porto ao patamar de riqueza actual, foi a criatividade e o talento quer para apostar num Mourinho quer para lhe dar as condições para o sucesso, mas é a capacidade financeira que permite ao Porto, actualmente, não descer abaixo de determinada fasquia.

É por esta razão que, desde Mourinho, o Porto só perdeu dois campeonatos: o primeiro, em que uma inevitável quebra de dinâmica (após o melhor período de dois anos na história do clube até então) se conjugou a uma má escolha de treinador (Del Neri) e a uma breve série de maus resultados, levando ao ano mais atípico da sua história, com quatro técnicos e o terceiro lugar no campeonato; e o de 2010, em que, mesmo tendo a melhor equipa, a ausência dos dois jogadores mais importantes da equipa, vendidos em simultâneo no Verão (Lucho e Lisandro), se juntou à acomodação proveniente de quatro títulos seguidos, à sedução da Liga dos Campeões e a uma concorrência invulgarmente forte no primeiro terço de campeonato por parte do Benfica, e resultou no terceiro lugar, ante o campeonato invulgar feito pelo Braga.

Em todos os outros campeonatos o Porto limitou-se a confirmar a sua superioridade, no último dos quais fazendo a melhor época de sempre.

Ou seja, mais do que serem os outros a ganhar, neste momento o Porto só não é campeão se for ele a perder o campeonato. E, para isso acontecer, neste momento, com uma equipa consolidada e em fase ascendente de maturação, tal é a distância competitiva entre Porto e Benfica e Sporting que tem de haver uma conjugação de desequilíbrio interno com superação externa dos adversários, sendo que esta segunda, sem ser, por si mesma, mais importante que a primeira, é mais necessária. Benfica e Sporting podem ser campeões sem que o Porto tenha uma quebra, mas não o conseguirão ser se não fizerem campeonatos acima do seu nível médio/alto dos últimos dez anos.

Qualquer tipo de previsão matemática do próximo campeão, com os dados conhecidos neste momento, realisticamente, teria de andar em redor do seguinte: Porto, 75 por cento de hipóteses; Benfica, 20 por cento; Sporting, 5 por cento. Ou seja, Porto, três hipóteses em quatro, Benfica, uma em cinco, Sporting, uma em vinte. Coincidentemente, estes números não andam muito distantes dos resultados obtidos nos últimos vinte anos. Porto, catorze campeonatos ganhos em vinte; Benfica, três em vinte, Sporting, dois em vinte.

Em termos pontuais, antevejo uma classificação final entre as seguintes janelas:

- Porto, entre 79 e 74 pontos;

- Benfica, entre 76 e 73 pontos;

- Sporting, entre 74 e 66 pontos.

No entanto, acredito que este vai ser um ano invulgar e contra as estatísticas. Penso que o campeão será o Benfica.

O que me leva a pensar que o Porto não será campeão:

- O Porto acabou de ter a melhor época da sua história, em que literalmente tudo lhe correu bem. Em termos não apenas desportivos, mas civilizacionais, foi um ano de apogeu. O treinador-adepto com o discurso perfeito, sempre, e um talento genial, portador do portismo básico e fundamentalista. A vingança na Supertaça, frente ao Benfica. O campeonato ganho à quarta jornada, permitindo-lhe gerir o resto da época. A vitória por 5-0 frente ao Benfica. As humilhações, impunes, das pedradas e das bolas de golfe. O descalabro interno do Benfica, com o vexame de Roberto à mistura. A importância na equipa de Hulk, o suposto injustiçado do túnel, Falcão e Álvaro Pereira, os roubados ao Benfica, e Moutinho, a jogada mestra de Pinto da Costa, todos vincando superioridade sobre Benfica e Sporting. A conquista do campeonato na Luz, com apagão incluído. A eliminação do Benfica na Taça de Portugal, na Luz, virando um 0-2 com um 3-1, marcando Falcão e Hulk. Um campeonato sem derrotas, pela primeira vez, e o máximo de pontos de sempre pelo clube. A vitória na Taça UEFA após a eliminação do Benfica pelo grande aliado Braga (uma espécie de Porto B). A goleada no final da Taça, frente ao amigo ingrato Guimarães. Até o Braga conseguiu a sua melhor época de sempre, sob a influência portista (presidente, treinador, principais jogadores, claques).  Há em tudo isto a sensação de ser demasiada felicidade, que nenhum karma pode ser assim tão forte. Estatisticamente, as hipóteses de o Porto voltar a ter uma época sequer semelhante são praticamente nulas. Da mesma forma que há dois anos o Porto foi batido por um início de campeonato apenas ligeiramente abaixo do normal e por uma derrota na Luz que o deixou a oito pontos de um Benfica muito acima do normal (e não pelo castigo de Hulk, uma vez que, na altura do castigo, a diferença era de oito pontos e no fim do campeonato, já com o castigo pelo meio, acabou em cinco), é possível que algo do mesmo género aconteça este ano – uma lesão num jogador-chave, um resultado fora do normal, uma situação anómala, algo fora do plano.

- A dinâmica do Porto vai ser, obrigatoriamente, menor, simplesmente porque não pode sequer ser igual. E, em futebol, a dinâmica é mais importante que a qualidade. Uma dinâmica superior de uma equipa inferior pode impor-se a uma qualidade superior do lado oposto, e o contrário também é verdadeiro: uma dinâmica desacelerativa, mesmo que não se lhe possa chamar negativa, influencia negativamente a qualidade – relativiza-a. Em termos internos, uma dinâmica em quebra gera desconfianças e afecta o desempenho;

- O Benfica está mais forte, o que acrescentará uma pressão que o Porto nunca sofreu ao longo da temporada passada. O Porto jogou sempre relativamente à vontade, na margem de pressão ideal, quer no campeonato quer na Liga Europa. Em nenhuma das duas competições a pressão adversária era tão elevada que o Porto não lhe conseguisse responder e tão baixa que lhe permitisse relaxar. A relação desafio-resposta foi sempre acessível para o Porto, e também em crescendo à medida que a capacidade interna aumentava, ou seja, esteve sempre num nível óptimo;

- O desafio e a atracção da Liga dos Campeões roubará ao Porto, como rouba sempre e a qualquer equipa, mas sobretudo às que têm aspirações fortes na Europa, concentração de forças a nível interno. Entre os oito a doze jogos que o Porto fará (com a forte possibilidade de chegar às meias-finais, dada a qualidade da sua equipa), existe a igualmente forte possibilidade de perder um ou dois resultados imprevistos no campeonato, que podem representar quatro a seis pontos. A atracção pela Champions é muito maior que a da Liga Europa, cujo carácter secundário permitiu, desde o início do ano passado, fazer uma escolha fácil de prioridades. A jogadores campeões invictos e convencidos da sua evidente superioridade interna será difícil convencer que a Liga dos Campeões não é mais importante, a nível pessoal, profissional e até do clube, que uma competição interna perfeitamente acessível. Não há, sequer, o factor-vingança pós-túnel que, desde o princípio da época passada, foi utilizado como maximizador de recursos pelo próprio treinador para apontar o campeonato como alvo principal;

- O Porto não acrescentou (ainda) qualquer mais-valia significativa ao seu plantel, ao contrário do ano passado, em que comprou Moutinho. Não comprou nenhum titular, e dificilmente comprará, porque tem jogadores secundários para valorizar e vender (Fucile, Rolando, Otamendi, Varela, Fernando, Souza, James, Ruben, Guarín, Belluschi) e enquanto não os vender não os substituirá. Isso fará com que todo o crescimento da equipa seja interno, sem nenhum acréscimo exterior de qualidade exterior, o que dificulta muito a dinâmica de crescimento de uma equipa já de si em muito alto rendimento. E se perder algum titular será um jogador nuclear, o que significará um retrocesso qualitativo de base, mesmo que adquira um jogador de nível semelhante. A aposta em jogadores ditos «de futuro» (Iturbe, Danilo, Sandro) indicia isso mesmo. Creio que só um muito mau arranque de época no campeonato ou Liga dos Campeões motivaria Pinto da Costa a gastar 15 ou 20 milhões de euros num titular para entrar de caras na equipa e encostar um dos jogadores que tem para vender, porque mais suplentes não comprará concerteza – ter gasto vinte e cinco milhões de euros a comprar quatro (os três referidos mais Kléber) já foi um investimento altamente arriscado, e, na minha opinião, um erro que certamente será pago no futuro.

- A quebra civilizacional já começou com o abandono de Villas-Boas (o tal que estava no seu lugar de sonho e que queria ir treinar para o Vietname depois do Porto, para conhecer novas culturas…). O sentido de religiosidade que o Porto tinha atingido o ano passado ficou abalado. O Porto desceu à Terra pela mão de quem o tinha levado ao céu. Não há forma de negar que a saída de Villas-Boas foi um passo atrás no idílio portista.

- As expectativas são extremamente altas, sobretudo se Hulk e Falcão não saírem. Um mau resultado (que vai aparecer, e quanto mais cedo pior) trará um estado de espírito negativo, provavelmente desproporcional, e obrigará o Porto, sobretudo através dos seus jornalistas, a um recuo estratégico mediático. A pressão aumentará, e facilmente se verá que o Porto tem muito mais um excelente onze que um excelente plantel. Será uma reversão da dinâmica e facilmente o campo vai começar a nivelar-se, pois na época anterior foi sempre a descer para uns e sempre a subir para outros.

- O Porto nunca teve uma má fase na época passada. Vai tê-la este ano. O momento da época em que ela acontecer, e a competição (o ano passado foi na Taça da Liga), vai determinar muito do sucesso da equipa. Se for no campeonato, há boas hipóteses de o Benfica aproveitar.

- O Porto foi demasiado longe na competição com o Benfica. Gastou mais de 22 milhões de euros em dois laterais juniores que ficarão no banco na maior parte da época, e que provavelmente não estarão, tão cedo, à altura da pressão. Foram tão caros que mesmo o falhanço de apenas um resultará em críticas à política de guerra total do Porto relativamente ao Benfica. Nunca o Porto gastou tanto dinheiro em contratações, e até ver limitou-se a comprar suplentes ou jogadores de futuro, seja lá isso o que for.

- O Sporting entrará na luta, o que poderá roubar pontos ao Porto e aumentar a pressão. Dois dos jogos mais fáceis do Porto no ano passado foram contra o Sporting, em que a motivação existia naturalmente e a diferença de qualidade se tornou mais evidente. Este ano o Sporting estará mais apto a defrontar o Porto.

Há, ainda, um outro factor (concordo que de natureza algo metafísica) que me leva a acreditar que o Porto não é tão favorito como racionalmente se pode concluir à primeira vista: apesar das aparências o momento histórico não é favorável ao Porto. Na História não existe estabilidade, ou há ascensão ou decadência. Em termos civilizacionais, a última época (já com a conquista do celebrado título na Supertaça deste ano incluída e o histórico 70-69 em relação ao Benfica) está para o Porto como as guerras germânicas estiveram para Roma no tempo de Marco Aurélio: nunca se foi tão longe, mas não se iria mais longe do que isso daí para a frente. O Império Romano não entrou em decadência imediatamente a seguir a isso, depois de um breve esplendor durou ainda três séculos de imobilidade, mas a decadência iniciou-se precisamente porque a expansão terminara. O mesmo aconteceu com o Benfica nas décadas de setenta e oitenta. O Porto não voltará a ganhar sete campeonatos em dez. Ganhará, provavelmente, cinco nos próximos dez. E, nos dez a seguir a esse, eventualmente três, ou dois. E creio que, dada a perversidade da História e a natureza fatídica e vingativa dos seus ciclos, muito feliz se poderá dar se a tanto chegar.

Em termos de dinâmica civilizacional, Benfica e Sporting estão em fase de recuperação – lenta, como é sempre, com avanços e recuos, com erros e sucessos, mas permanente. No Sporting, que culturalmente é um clube menos denso, e em que as mensagens passam com maior facilidade, percebeu-se (muito pelo contraste com os seus dois concorrentes, e sobretudo pelo eterno espelho Benfica) que o futebol tem uma economia própria, o que creio que era o passo fundamental. Percebendo que o dinheiro apenas faz parte do futebol, e que o futebol não se mede em moeda, o Sporting, concluída que está a dinastia roquetista, está agora a iniciar o seu regresso à grandeza, que não se coaduna com a satisfação de ser segundo desde que seja à frente do Benfica.

A revitalização é, por agora, mais visível no caso do Benfica, em que se instalou um processo de fortalecimento interno em lugar da desagregação sucessiva que durou até à entrada de Luis Filipe Vieira – um homem simples, em muitos casos mesmo básico, mas pragmático, o que é muito mais importante do que os projectos abstractos de glória. Os sintomas dessa mudança de paradigma são, neste momento claros: o Benfica perdeu um campeonato mas, pela primeira vez em vinte anos, manteve um treinador na entrada para a terceira época; está a negociar um pacote de transmissões televisivas que lhe dará uma vantagem de um jogador transferido/ano em relação à concorrência, ou seja, para poderem ter o mesmo nível de receitas os concorrentes terão de vender mais um titular, por ano, que o Benfica (ao fim de três anos isso significará uma margem significativa de qualidade e estabilidade); o clube mostra que está a melhorar a sua capacidade prospectiva e de recrutamento, os jogadores que chegam são cada vez mais valores seguros, diminuindo muito o risco de esgotamento de recursos e elevando as possibilidades de sucesso; a resistência ao insucesso e a capacidade de análise do erro são incomparavelmente maiores do que há dez anos, em que tudo mudava se alguma coisa não resultava – e este factor cultural é o principal ganho na última década do Benfica. Não se vê como é que, neste ponto, após tanto ter sido recuperado em termos de funcionamento interno, o Benfica possa regredir tão acentuadamente ao ponto de não vir a ganhar, pelo menos (e para já, dada a dimensão adquirida pelo clube), um campeonato em cada três.

Não é difícil imaginar o Porto a não ser campeão dentro de duas épocas. Nessa altura venderá Moutinho, Hulk e/ou Falcão (porque tem de vender) e, a ter sido campeão este ano, estará ainda menos focado no campeonato, exponenciando-se ainda mais todas as razões que apontei atrás, incluindo um fortalecimento do Benfica e, sobretudo, do Sporting. Este cenário ajustar-se-ia, é verdade, ainda melhor, à referida hipótese do declínio civilizacional lento. Além disso, o mais provável é que a diferença de andamento seja ainda tão grande que chegue para um Porto em quebra chegar à frente dos dois perseguidores. Ainda assim, acredito, pessoalmente, mais noutro: um em que o Benfica vence o campeonato deste ano à justa, dando um passo firme na sua reconstrução (mais firme que a do campeonato de 2010, que ganhou sem saber bem como), e em que o Porto, ainda superior e alimentando-se da rivalidade, volta a ganhar em 2013, embora já não com a superioridade que evidenciou até aqui e que, estou certo, não voltará a ter.