Em relação ao Sporting, o que se passou em Madrid foi mais uma etapa da saga «José e a Manipulação do Espaço». Mourinho passou uma data de meses a convencer os seus jogadores de que era possível defender o Barcelona no meio-campo deles sem levar 5 a 0, e os deuses deram-lhe toda a ajuda de que precisava: aos 20 segundos de jogo, Valdés passa uma bola a Di Maria, a bola anda ali aos rebolones e vai cair aos pés do Benzema na pequena-área. O Real Madrid, que só precisava de um empate para ser campeão – ah, pois é… viase a ganhar em casa por 1-0.
O que o Barcelona fez depois foi uma das maiores demonstrações de carácter futebolístico a que já assisti. O Barça não mudou nada. Absolutamente nada. Nem sequer vacilou. Isto é confiança total. Depois de ver o que o Barcelona fez hoje em Chamartín tirei as dúvidas sobre qual é a maior equipa que já vi jogar.
Até ao dia de hoje continuava a colocar este Barcelona ao lado do Milan de Sacchi/Capello, que não teve culpa de ser de outra era do futebol nem de ser italiana. Não digo que este Barça é a maior equipa que já vi por uma questão de estilo – aliás, não gosto do estilo do Barcelona, acho-o monótono, com rasgos de classe permanentes, é certo, mas chato de ver, sem variações. Adoro jogadores inteligentes, e nunca os vi mais inteligentes do que estes, inteligência a mais também chateia. Ter controlo sobre qualquer adversário é admirável. Ter TODO o controlo é aborrecido. É anti-jogo.
Digo que este Barcelona é a maior equipa que já vi jogar pela sua pura personalidade.
Nunca houve a mínima dúvida, no relvado, fosse qual fosse o resultado, sobre qual era a melhor equipa. Mourinho tentou tudo.
1 - Montou a equipa para levar o Barcelona a chegar à linha lateral cedo demais, para tirara bola do miolo do terreno o mais depressa possível. Quando a bola chega a linha lateral demasiado cedo a equipa atacante perde vantagem, porque a linha também defende (aprendi isto no basquete, aos dez anos, vejam lá). Se o real conseguisse fazer com que o Barça fosse para a linha conseguia equilibrar a luta.
2 – Juntou ainda mais os jogadores, e mais acima no campo. Apesar de parecer que eles conseguem sempre escapar, a única forma de defender Messi, Xavi, Iniesta, etc, é tirar-lhes espaço, e Mourinho continua a tentar tirar-lhes mais um metro a cada jogo que faz contra eles. Conseguiu-o, novamente, mas ainda não foi suficiente. É claro que, na segunda parte, a equipa já estava toda deslassada.
3 – Tentou, quer com as contratações que fez quer com o treino, anular a vantagem na velocidade de raciocínio do Barcelona com a vantagem na velocidade física dos seus jogadores. E não conseguiu. Comprovei, novamente, uma máxima que tenho vindo a defender há muitos anos: o nível máximo de potência não chega para bater o nível máximo de inteligência. Um jogador inteligente é intrinsecamente melhor que um jogador potente, e o mesmo ao nível da equipa.
A história do jogo é a história da demonstração de classe superior da melhor equipa mundial sobre a segunda melhor equipa mundial, banalizada, tal como o seu melhor jogador, transformado num avançado vulgar a procurar a bola e a despejá-la em centros destinados ao insucesso.
Foram 3, podiam ter sido mais 3, 4 ou 5.Mourinho vai ser campeão de Espanha sem ter a melhor equipa, graças a dois beneplácitos: o de só ter de jogar duas vezes por ano com o Barcelona; e o de o Barcelona ter de suportar o frete de ter de jogar com todas as outras (medíocres) equipas ao longo de sete meses. Nenhuma equipa tão boa é capaz de sobreviver a tamanha provação. Seria como obrigar Mozart a competir com um tocador de rabeca, na rua, todas as semanas durante um ano – chegaria a um ponto em que Mozart, depois de ter tocado todas as perfeitas sinfonias, começaria a tocar as notas todas ao contrário só para matar o aborrecimento, por já não ter mais maneira de se entreter. Este Barcelona só acabará quando a sua arte ficar tão exausta que tenha de se tornar destrutiva só para não ficar parada.
Quanto ao Barça, vai perder o título de uma maneira sádica: não deixando ninguém pensar, sequer por um minuto, que foram os outros que o ganharam, mas sim eles que não o quiseram ganhar. E que se o quiserem ganhar de novo para o ano ganham-no, como e quando lhes souber melhor.
Em relação ao Benfica, acho que vai ganhar. Não vai jogar por aí além, não vai passar sem sofrer um bom bocado, mas vai ganhar, e vai fazer os sete pontos que estavam previstos antes dos três jogos com Braga-Sporting-Marítimo.
