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sábado, 14 de abril de 2012

O plebeu

Um breve interlúdio verde antes da próxima especulação benfiquista para 2012/13.



Algumas coisas que vão ficando claras.

Como escrevi aqui, duas facções dentro do Sporting: os políticos, liderados por Luís Duque; e os fundamentalistas, de quem o Guarda Pretoriano Cristóvão era o representante na Direcção.

Duque tentando criar condições para uma aliança com o Benfica, Cristóvão tentando conquistar o poder por dentro.

Cristóvão é (era) o homem do trabalho sujo, desde o início, no Sporting. A sua função não era só pintar girassóis nos corredores: era entrar nos meandros do futebol (que devia conhecer muito bem porque, como ex-PJ, tinha maneiras de conhecer) e voltar a meter o Sporting no jogo. Não há, nem no Sporting nem em clube algum à excepção do Porto, assim tanta gente disponível para chafurdar na lama. É por isso, aliás, que Pinto da Costa chego a Papa: por falta de vergonha. Nem toda a gente tem a capacidade de se rebaixar eticamente ao ponto de viver confortavelmente no meio da escumalha.

Essa era base da influência de Cristóvão junto do presidente – um coninhas, como já toda a gente percebeu – e era a partir daí que Cristóvão (um plebeu, note-se)esperava alcançar o poder dentro do Sporting e tornar-se o Pinto da Costa do clube (um sonho comum a tantos e tantos benfiquistas e sportinguistas). O controlo do submundo, libertando os viscondes sportinguistas desse ónus, dar-lhe-ia um poder funcional e a postura anti-benfiquista, que tinha vindo a trabalhar com afinco, dar-lhe-ia o poder demagógico para subir no barómetro do poder e, na altura certa, disputar a presidência do clube.

Confirma-se que, no Sporting, todos sentem ter direito ao poder, e que essa é a grande vulnerabilidade interna do clube.



A saída de Cristóvão – não se pode dizer irreversível porque, em política, os cadáveres só dormem – abre a porta à facção duquista e à respectiva estratégia.

Enfraquece brutalmente a posição estratégica do Sporting, não só por garantir que o clube não é inocente mas também pela imagem de amadorismo que passa.

O presidente, principalmente, sai muitíssimo enfraquecido, e Duque, que trocou Domingos por Sá Pinto, que vai ganhar a Taça, que chega às meias-finais da Liga Europa e que acaba o ano a tirar o campeonato ao Benfica (a mais importante das três façanhas para os sportinguistas), está em alta, quando ainda há poucas semanas parecia preso por arames.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Duas formas da banalidade

O Benfica devia ter entrado com a táctica que usa na Luz contra as equipas pequenas. O Sporting jogou como se estivesse a jogar na Luz, mas com a vantagem de estar em casa. Se o Benfica tivesse entrado a perceber que ia defrontar um autocarro teria ganho vantagem.

Já o Sporting, ganhou o jogo mas não ganhou mais nada, pelo contrário. O que o Sporting tinha a ganhar hoje não era o jogo, nem os três pontos: era o mesmo que o Benfica tem a ganhar quando joga com o Porto – uma atitude de predador. E fez exactamente o contrário. O Sporting ganha um jogo mas, não chegando ao extremo de dizer que perdeu uma equipa (porque seria um claro exagero), perdeu uma grande oportunidade de lançar a próxima época com um sentimento de superioridade sobre o Benfica. Algo que lhe vai ser muito necessário, pois o seu objectivo será, novamente, ficar à frente do Benfica.

A forma como cada jogada perfeitamente banal era aplaudida pelo banco do Sporting, como fosse o banco do Rio Ave a ganhar ao Benfica na Luz, chegou a ser constrangedora. A festa imensa no final do jogo também, sobretudo no olhar embevecido do Sá Pinto, como que a dizer: «Ganhei ao Benfica. Hoje posso dizer que cumpri o meu destino como treinador do Sporting.» Fazer de um Sporting-Benfica, no quinto lugar do campeonato, o jogo da época, é de facto revelador, e só augura novos cataclismos vermelhos no caminho do Sporting nos próximos anos. Claro que o que vão dizer na imprensa não é isto, é que este jogo foi só mais um, porque, no fundo, têm noção da mediocridade. Só não estão dispostos a prescindir dela.

Quanto à sua importância na conta corrente dos dérbis, até nem é mau que o Sporting tenha ganho. Equilibra os números para quando for preciso jogar os jogos a sério. O da primeira volta, por exemplo, foi bem mais importante do que este. O Sporting começou a morrer nesse dia. Hoje, o Benfica só acabou de morrer, a ferida já estava a sangrar há muitas semanas.


A porrada que o Javi deu no Volkswagen aos 25 minutos deveria ter sido dada aos 5. Anjinhos.



Acho que já percebi porque é que o Maxi Pereira começou a fazer aquela finta marada de metar para dentro sempre que tem a bola: esqueceu-se de como se centra. Escusava era de ter voltado a começar neste jogo.



Segundo os critérios do Soares Dias houve três penáltis na primeira parte, um deles a favor do Benfica no primeiro minuto. Em nenhum dos três o jogador caíu por causa do contacto. A razão por que marcou só um é um mistério de Fafe. Aliás, faltas iguais àquela houve dezenas durante o jogo, e ele só marcou metade. Ter calhado uma delas ser um penálti é, obviamente, pura coincidência.



Mas agora a sério…



O Benfica entrou mal preparado e completamente desconcentrado para um jogo em que teria de mostrar fibra de campeão. Não sabia como jogar, não soube executar, mostrou novamente todo o seu défice colectivo e mostrou que não tem estaleca suficiente para chegar e ganhar quando é preciso – faltou-lhe classe. Deu a ideia de ter entrado convencido de que já não havia nada a ganhar depois da vitória do Porto em Braga.

É um ponto final conclusivo que, tal como no jogo com o Porto, na Luz, pode ser encarado de duas maneiras pelos adeptos: ou fazem de conta que perderam por causa do árbitro, e voltam a perder para o ano e para outros anos a seguir; ou assumem que perderam porque não têm equipa suficiente para ganhar um campeonato de forma categórica.

Tenho a sensação de que sei o que o Jesus e o Vieira vão dizer, mas a opinião pública só pode ser manipulada se se deixar manipular.

O Benfica passou por situações muito distintas neste campeonato: sendo a equipa mais mediática (e não, atenção, a mais eficiente), fez figura de campeão durante metade da época, não por ser a melhor equipa mas porque a melhor equipa estava a perder o campeonato por si própria; quando teve oportunidade para mostrar que tinha estofo para ser campeã não a aproveitou e foi ela a perder o campeonato.



Neste momento, em que tudo vai parecer mau (porque o animal-homem é mesmo assim) convém dizer duas coisas muito breves:

- se o Benfica acabar em segundo lugar terá feito uma época acima das expectativas (realistas) iniciais, e em termos de qualidade competitiva, no cômputo geral (e na minha opinião), fez a melhor das três épocas do Jesus. Melhor que a primeira, onde só foi campeão porque a concorrência era menor, e muito melhor que a segunda;

- o que levou o Benfica a sucessivos fracassos nos últimos 30 anos não foi ter perdido campeonatos: foi, por um lado, não ter compreendido as razões das derrotas, e, por outro, não ter construído sobre elas, atirando-se a mudar o que estava mal e o que estava bem, sem método nem critério.



O ponto da situação do Benfica, não só a partir de agora mas desde a derrota em casa com o Porto, é o seguinte: se acabar o campeonato no segundo lugar está em óptima situação para começar o próximo como principal favorito (real, não teórico) à conquista do título. No fundo, o melhor que realisticamente se poderia esperar depois de uma época avassaladora por parte do Porto. Tudo depende do trabalho que se fizer no Verão – e o que o Porto possa fazer na resposta nem sequer é assim tão importante, porque a iniciativa está do lado do Benfica. Basta começar a dar ao pedal com força, acreditar e não facilitar – incluindo, obviamente, com os Soares Dias deste país.

Se ter ficado em segundo neste campeonato será, a longo prazo, melhor do que o ter ganho, veremos. É algo que só se pode dizer ao fim de muito tempo. No fim de dez anos há sempre campeonatos que se ganham e campeonatos que se perdem. O que fica, e o que faz a diferença nesse grande plano, é como eles são ganhos.

Volto a dizer o que já disse aqui várias vezes: ganhar sem o mérito suficiente é uma tentação perigosa, pela qual o Benfica pagou bastante caro ao longo dos últimos anos.



P. S. 1 – O Benfica não conseguiu fazer um único remate à baliza na sequência de um canto ou de um livre, e não chutou de longe. Como é que queriam marcar golos ao Rui Patrício?

P.S. 2 – Quando vejo o Jesus a gesticular para os jogadores, aos berros, a descobrir, naquele preciso momento do jogo, a chave para a vitória numa simples troca de posicionamento de dois jogadores ou no adiantamento dos médios em dois metros, fico sempre com uma angústia cá dentro de mim, em forma de dúvida: o que seria desta equipa do Benfica se em vez de passar a semana a treinar tácticas treinasse futebol?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Futebol quântico

Há um segredo por revelar e que joga a favor do Benfica nestes últimos 30 dias de competição. É possível que eu possa estar a dar azar ao falar disto, mas, considerando que já lixei o campeonato ao Benfica ao dizer que não íamos perder com o Porto em casa, espero que isto permite reverter o feitiço (porque só se eu conseguir reverter o feitiço é que temos a mínima hipótese de ainda ganhar isto, obviamente).

O segredo é este: entrámos no plano do irracional.

Basta olhar para os sinais. Começando por Olhão, para não irmos mais longe. Saviola falha um golo feito no último remate do jogo e o Benfica fica com o campeonato pendurado por um cabelo. Dois dias depois, em Paços de Ferreira, o Porto desperdiça cerca de 10 golos em frente ao guarda-redes e, a 8 minutos do fim, com o título no bolso, sofre um golo de canto com o jogador do Paços a marcar de cabeça no centro da área, sem um único jogador do Porto saltar. Juro pela saúde dos meus filhos que, desde que vejo futebol, nunca vi o Porto sofrer um golo destes numa situação destas. Nunca. Jamais. Em tempo algum. Ponto final, parágrafo. Eu, se fosse do Porto, depois daquele jogo, teria sentido o mesmo que um japonês ao ver chegar a tsunami.

Mas calma. Não é tudo.

No sábado, o Porto vê os seus dois rivais chegarem aos 78 minutos com o resultado que lhe interessava. O Benfica ficaria fora do campeonato. E o Benfica estava morto. O Elderson faz um penálti de apanhados. Com o Cardozo no banco e três tipos à volta da bola sem saber o que lhe fazer até ao próprio Cardozo mandar, do banco, que fosse o Witsel a marcar (leiam no Jogo, está muito bem sacada a notícia). Golo. Três minutos depois o Braga empata outra vez. Tudo perfeito, outra vez. E, de repente, na última jogada, o Gaitán e o Chuta-Chuta sacam um coelho da cartola. Duas vezes, no espaço de uma semana, o Porto vê fugir, por minutos (por segundos!), em jogadas insólitas, um campeonato que já esteve a perder por 5 pontos e a liderar por 3. Quero aqui remeter para o vídeo já indicado, mas avançando 30 segundos, por favor – quando já chegou a segunda vaga e a água subiu mais cinco metros...

Mas calma, não é tudo.

No meio disto há o Chelsea. Do David Luiz, do Ramires e do Villas-Boas. Um Chelsea de segunda categoria que, salvando-se até de um dos penáltis mais escandalosos que alguma vez não se marcaram nuns quartos-de-final da Champions, ganha por 1-0.

Para o Benfica, obviamente, perder não bastava – também tinha de ficar sem o seu terceiro central no segundo jogo do título da época, para juntar à ausência do defesa-esquerdo titular.

Leram aquele comentário que eu fiz sobre o Jesus ter a sorte de passar a ter mais dois jogadores de futebol na equipa para o jogo com o Braga em vez de duas tentativas de defesa? Era um exagero propositado, obviamente, mas não escrevi aquilo por acaso. É que, no ponto em que estamos, isto já não tem nada a ver com jogadores.

É preciso ter assistido à vitória do Benfica no campeonato dos 6-3 em Alvalade para perceber que, a partir de certo ponto, os jogadores, os treinadores, os dirigentes, os adeptos e os árbitros já não têm nada a ver com isto.

Entra-se no campo do futebol quântico. Porque é que a bola vai para ali quando teria exactamente as mesmas probabilidades de ir para o lado contrário? Ninguém sabe. Podia, exactamente da mesma maneira, não ir. Mas vai. Podia ser o Hulk a chutá-la ou o júnior que lá vai treinar às segundas-feiras. Não interessa. A puta da bola vai porque quer ir.

Ora, quando entramos no plano do transcendente em que actualmente nos situamos, entramos no campo de colheita do Benfica. Quando as coisas começam a acontecer ao contrário do projecto, ao contrário da razão, ao contrário da lógica, ao contrário do método e dos princípios básicos do trabalho a longo prazo, quando se entra no plano do insondável, o Benfica pode não ficar em vantagem em relação a qualquer clube do mundo, incluindo o Porto, mas em desvantagem não fica de certeza.

Estamos no campo da mística. E no que toca ao Benfica, pode não valer nada no resto, mas no campo do sobrenatural dá cartas seja a quem for.



Eis o ponto da situação: na quarta-feira o Benfica joga em Londres e tem de ganhar ao Chelsea do Abramovich para ser apurado para a meias-finais da Champions. Vai jogar com um central agarrado ao joelho e outro adaptado, e nada disso terá importância absolutamente nenhuma. Para o Jesus vai ser um bicho de sete cabeças, porque aquilo na cabeça dele não joga, mas o treinador que o Benfica precisava de ter em Londres não era o Jesus – era o Toni. O Toni nunca foi nem metade do treinador que o Jesus é, mas conseguiu ser campeão no Benfica, mais do que uma vez, por uma razão extraordinariamente simples: porque tinha sensibilidade para entender a natureza mística do Benfica. Como o Mário Wilson, por exemplo. Com o Toni ou o Mário Wilson, em Londres, os jogadores do Benfica teriam a surpresa das suas vidas. Estariam à espera de ver um treinador sorumbático, acabrunhado, derrotado antes do jogo começar, e de repente ia-lhes aparecer um Toni vermelhusco, sem ter nada de relevante tacticamente ou estrategicamente para dizer, mas de que iria transparecer uma ideia absurda: «Temos de ganhar em Londres, ao Chelsea, sem centrais, quatro dias depois de jogar com o Braga e quatro dias antes de ir a Alvalade, onde temos de ganhar para seros campeões? Fantástico. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

A sério: ninguém tem noção de como o Benfica está perto de eliminar o Chelsea. A começar pelos jogadores.

O que vai acontecer é o seguinte: o jesus vai entrar com a equipa tão arranjadinha quanto possível, e com o Cardozo, o Witsel, o Aimar, a tropa toda, e com o Javi a central, claro. Porque é o que faz sentido, em termos futebolísticos. O Benfica vai ser eliminado e, no final, toda a gente vai chegar à conclusão que não foi por causa de quem jogou que o Benfica perdeu, e que nem sequer foi por causa de ter perdido na Luz: foi por não ter acreditado que podia ganhar e não ter sido convicto nas oportunidades que teve.

Teoricamente, o Benfica perdeu a sua oportunidade na Luz. Foi superior, podia ter ganho e perdeu, em casa, contra uma equipa, em princípio, superior e mais experiente em todos os aspectos. Hipóteses de apuramento? 5 por cento. Na prática, vai ser este pressuposto que vai eliminar o Benfica. Porque… o que é que o Benfica tem a perder? Precisamente.

Se eu fosse o Toni, em Stamford Bridge, conhecendo o Benfica, faria isto: primeiro dizia-lhes «temo-los mesmo onde os queríamos». Depois, já no avião, antes de levantar voo, dizia-lhes: «Amanhã jogam Artur, Maxi, Javi, Emerson e Capdevilla; Witsel, Aimar e Gaitán; Saviola, Nélson e Rodrigo. E o Chuta-Chuta e o Nolito entram na segunda parte para acabar o serviço. É para correr até cair para o lado ou até marcarmos o quarto golo, o que quer que aconteça primeiro.» Para que eles não tivessem dúvida do tipo de missão que teriam em Londres. E colocaria o Chelsea perante o último tipo de problemas que está preparado para encontrar: uma equipa kamikaze. Perante o estado de fragilidade psíquica em que o Chelsea se encontra (nem à Champions provavelmente vai para o ano, atenção), o jogo seria lançado numa base absolutamente errática. Perfeito para os malucos do Benfica, péssimo para a equipa na posição superior.

Ia ser um festival.

O Benfica ou passava ou fazia um escarcéu que até à China chegava. Daqui a dez anos ainda se ia falar deste jogo. 3-2, 4-3, 5-2, 2-5, não sei, mas que ia ficar para a história ia.



E depois disto, claro, o que verdadeiramente interessa. «Temos de ir ganhar ao Sporting, a Alvalade, sem centrais, a quatro jornadas do fim, frente a um Sporting que tem a hipótese de nos roubar o título? Perfeito. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

(passem para o minuto 8.30 do vídeo…)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Aspirina psicológica

Em tons de azul desmaiado, o conto de Carnaval mais bonito de que há memória no futebol moderno.

A enternecedora história do jovem aristocrata seduzido por um oligarca russo que, vendo-se assolapado da cadeira de sonho pela tentação de superar as façanhas do seu antigo mestre, dá por si perdido num enorme palácio cheio de monstros, e que, no regresso de uma viagem terrível ao Reino das Duas Sicílias, da qual por pouco escapou com vida, e sabendo que o seu antigo clã se encontra numa floresta ao seu alcance, voa 400 quilómetros para Norte e consegue, finalmente, encontrar um momento de conforto sentado num lugar de sonho, entre um ancião administrativamente inocente e um ex-pugilista de boas famílias.

Haverá imagem mais assassina que a de André Villas-Boas, ladeado por Pinto da Costa e Reinaldo Teles, a poucos dias de ser despedido, vendo a anterior equipa a levar 4 na pá com o seu ex-adjunto e a-poucas-semanas-de-ser-substituído Vítor Pereira no comando?

Ontem dizia num jornal que o Barcelona estava a pensar no Villas-Boas para substituir o Guardiola. Eu cá acredito…

Acredito que ele está outra vez no Porto em Agosto, claro. Vem é quebrado, como os cães que são postos a treinar na GNR e nunca mais se esquecem. Primeiro o Pinto da Costa deu-lhe umas chapadas no focinho pelos jornais, Depois, desde os Masturbações de Ouro que lhe anda a passar a mão pelo pêlo. Ontem, o André deu a patinha. Tudo isto é educativo. Para que conste, ainda assim, vale mais um caniche de Villas-Boas que um doberman de TOC.

As hipóteses de o Pinto da Costa, político hábil e experimentado, não fazer ideia do impacto e da leitura que aquelas imagens provocariam (e não é propriamente que eles se tenham escondido das câmaras...) são exactamente iguais a z-e-r-o.

O Manchester City passou o jogo todo quase a treinar, a deixar o Porto correr e a fingir que dominava. A eliminatória ficou decidida quando o Aguero marcou o… 2-1 cá. O momento de maior frissom do Mancini foi quando não estava a conseguir o pacote dos Sugus para dar um ao adjunto. Mas depois lá resolveu o problema e pode voltar a recostar-se, a cruzar os braços e a ver os seus jogadores a treinarem o posicionamento defensivo e o TOC a apanhar chuva.

Não deixou de ter piada o TOC a dizer que o Porto tinha o jogo controlado até ao 2-0 depois de sofrer um golo aos 20 segundos. Há qualquer coisa de bizarro e simultaneamente trágico naquele personagem. É uma espécie de Calimero. Vê-se que é bem intencionado, que tenta fazer as coisas como acha que devem ser feitas, que dá o melhor, mas é um daqueles tipos que parece que nasceu com uma cruz por cima. E lá vai, tentando enganar o destino, sem querer convencer-se de que nasceu para perder.

Talvez eu esteja a ser cruel e tenha de engolir estas palavras, mas olho para o Vítor Pereira e vejo um daqueles filhos enjeitados que nunca tiveram hipótese e não o sabem.



Em Alvalade, um adversário perfeito para o Sporting: estúpido a jogar à bola, matreiro, experiente, a apostar tudo no físico e com mais gente nas bancadas que a equipa da casa. Se a isso juntarmos os traumas recorrentes do Sporting em casa, tínhamos ali um belíssimo cocktail verde.

Se viram o jogo, diga-me lá: é verdade ou não é que os polacos, por terem empatado a 2  em casa na primeira mão, entraram muito mais convictos e concentrados que o Sporting, e que graças a isso, mesmo sem jogarem nada, tomaram a iniciativa do jogo e estiveram quase a ganhar vantagem e a pôr o Sporting à beira de um ataque de nervos? Com vantagem na eliminatória, o Sporting viu-se «n» vezes em igualdade numérica no seu meio-campo. Claramente, os médios do Sporting não sabiam tão bem o que fazer como os médios do Légia.

Penso que não estou a ver o que quero ver, mas o que aconteceu. Vocês me poderão dizer melhor.

Até conseguir marcar o golo a 10 minutos do fim o Sporting esteve sempre no fio da navalha, e pode-se legitimamente dizer que esteve tão próximo de ser eliminado como de eliminar. Bastava aquele cabeceamento em chapéu ao Patrício ter entrado e os fantasmas sairiam todos de baixo da cadeiras coloridas vazias.

Agora apanha o City. Se contra uma equipa que só sabe correr o Sporting passou à justa, contra outra que sabe correr e fazer tudo o resto prevê-se uma eliminatória equilibrada... Sobretudo no capítulo das bolas paradas, em que as equipas inglesas são muito débeis, o City vai ter dificuldades.

Em relação ao Sá Pinto, começam a reunir-e condições para lhe traçar o famigerado perfil, mas, para já, fico com a ideia clara que ele entrou meiguinho, meiguinho. Vê-lo a dizer: «Tá bem, João» depois do João Pereira fazer um daqueles passes esquizofrénicos de primeira a 50 metros para a terra de ninguém é enternecedor. Se aquilo é o Sá Pinto Coração de Leão, que ia trazer garra à equipa, vou ali e já venho. O Sporting passou de uma equipa Cerelac histérica para uma equipa de mama amorfa. Regrediu. Até pode ser aquilo de que precisa para depois começar a andar, mas, considerando a inocência do Sá Pinto em todas as acções que teve até agora como treinador apetece dizer que o que aconteceu em Alvalade foi muito mais uma aspirina psicológica que uma chicotada.


Prosseguindo para o tema seguinte da agenda, cumpre-me transmitir a triste notícia de que o nosso leitor Danilu Kerdi Zerkarma já não está entre nós. Pelo que me foi dito pôs a casa no prego para poder jogar tudo o que tinha e suicidou-se após o sétimo resultado negativo do passado fim-de-semana.

É um castigo justo para um homem de pouca fé. Se tivesse esperado mais um dia teria começado a aprender uma lição eterna que qualquer benfiquista de boa cepa há muito aprendeu: é perfeitamente possível levar 7-1 e mesmo assim chegar à frente no fim do campeonato.

Estou em pesquisas e amanhã lanço a chave milionária. Estou à espera de pelo menos 15 mil visualizações quando se souber que em apenas três jornadas mais uns pozinhos já dobrei o dinheiro falso que tinha no início.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Jogar o football (III)

O Futebol Clube do Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.  

Podia começar de muitas maneiras diferentes, mas achei melhor começar já por aqui, não só para aquecer o sangue ao pessoal neste dia mais frio do ano como para poder também falar em distanciamento analítico. O distanciamento analítico é o grande problema dos cientistas sociais. Sendo um observador inserido no sistema que observa, o cientista social tem de se distanciar do objecto que está a analisar, sob pena das conclusões serem adulteradas pelos seus preconceitos.

No caso português, sendo um terço dos adeptos do futebol portistas e os outros dois terços anti-portistas, é difícil conseguir o distanciamento analítico suficiente para concluir, sem preconceitos, que o Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.

Os que poderiam desempatar – os que não são portugueses – sofrem do mal oposto: estão demasiado afastados para nos ver.
 

Mas o Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.
 

Em 1977, o Porto, principal clube da segunda maior cidade do país mais pobre e isolado da Europa Ocidental, com dez milhões de habitantes, em grande parte iliterados, em que nem televisão quase havia, saído de uma revolução política, estava há 18 anos sem ganhar um campeonato e nos onze anteriores só por duas vezes tinha conseguido ser segundo. Tinha 5 títulos nacionais no seu palmarés.

Tirando partido de todas as (poucas) condições que tinha ao seu dispor, incluindo um sistema formatado no compadrio e no caciquismo secularmente português e típico do sul da Europa, que tratou de conquistar através da modernização e profissionalização da corrupção (não foi o clube que inventou a corrupção, apenas se tornou melhor a fazê-la do que os outros), o Porto evoluiu em todas as vertentes – científica, económica, política e cultural.

Em 2011 o Porto, esse mesmo clube dessa mesma cidade desse mesmo país que continua a ser o mais pobre e periférico da Europa Ocidental, tinha ganho, entre muitos outros troféus relevantes, vinte campeonatos e duas Taças dos Campeões Europeus, e ascendido ao lugar incontestável de líder do futebol português em todas as suas componentes contemporâneas, ou seja, que não dependam de factores históricos.

Se (e é um grande se, concordo) excluirmos da equação a questão ética – que, de facto, só interessa aos portugueses, e que só nós, verdadeiramente, conhecemos – nenhum outro clube europeu fez tanto nestes anos como o Porto.

Mostrem-me outro que, perante condições semelhantes, tenha feito tanto como o Porto (tenho a certeza de que vontade não vos vai faltar e eu, por acaso, até agradecia se conseguissem…) e eu admito que o Porto não é um clube único no contexto europeu de 1977 para cá.


Não é que os outros não tenham tido os seus momentos, mas falar do futebol português depois do 25 de Abril é falar do Porto – e que isso, em termos de regime político, seja interpretado como se quiser.
 

Porque é que não damos o valor suficiente a estas façanhas portistas? À parte da questão do «um terço/dois terços» que referi logo no início, e da questão da corrupção que ficou aqui pelo meio, por uma razão ainda mais espantosa: porque não nos parece nada de sensacional. Estamos habituados.

É que, para se tornar no melhor clube europeu dos últimos 35 anos, o Porto tomou o lugar de um dos três melhores clubes europeus dos 20 anos anteriores a isso. O Benfica.
 

Entre 1955 e 1977, o Benfica, clube das classes mais baixas de um país completamente isolado do resto da Europa, ainda mais pobre que agora, que andara a saltar de estádio em estádio até chegar, enfim, em 1954, à Luz, com um futebol sem qualquer tipo de expressão internacional à excepção de uma esporádica Taça Latina, tinha ganho 15 campeonatos em 22 e disputado cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, ganhando duas. Se não tivesse havido um Real Madrid na década de 50, eu diria o mesmo que disse do Porto: mostrem-me quem fez mais e eu admito o erro de avaliação.
 

A impossibilidade de distanciarmos a nossa análise de um ambiente que nos envolve leva-nos a não compreender perfeitamente a dimensão dos dois maiores clubes portugueses e do próprio futebol português. Menosprezamo-los. Já aqui disse e repito-o: é um privilégio, para o Benfica (e para o Sporting) ter como objectivo superar o melhor clube europeu dos últimos 35 anos, porque, se o conseguir, ficará, automaticamente, muito perto de atingir a elite futebolística internacional – assim consigam superá-lo por se tornarem melhores do que ele e não apenas porque ele se auto-destruiu.
 

O que me interessa, realmente, é que tudo isto assenta em romantismo. Numa palavra, na mística. A mística é uma palavra que pretende definir um sentimento de elevação que se torna superior à rude matéria, uma propriedade espiritual, uma exaltação acima das ciências exactas que faz com que uma entidade seja maior do que ela própria. Isto foi o Benfica. Isto foi o Porto. E não há nada mais romântico e heróico do que isto.

O Benfica encontrou a sua mística no socialismo das classes baixas, em Lisboa e não só; o Porto encontrou a mística na sua ligação à terra, como bandeira de uma cidade com características muito próprias, mas nas conquistas de ambos há um distinto cheiro a portugalidade, a sebastianismo, ao pequeno país que vai por mares nunca dantes navegados, enfrentando Adamastores e tornando-se maior do que o seu destino, fazendo o seu caminho de fé, agradecendo a Fátima pelas graças impossíveis.

A palavra método tem origem grega, e significa caminho. O método de Benfica e Porto teve muitas semelhanças e a maior é a do apelo à mística.



A grande questão é esta: «Como é que um futebol de raízes místicas, de um país ultra-conservador, representado por três entidades que, encontrando soluções diferentes, apelam todas ao mesmo método romântico para atingir o sucesso, se vai adaptar à fria globalização do futebol, em que imperam outras místicas



2004 foi o primeiro ano do resto da vida do futebol português, o ano em que este se viu atingido pela modernidade, e não há, sequer, nenhuma dúvida sobre isso. No mesmo ano o Porto sagra-se campeão europeu, Mourinho revela-se ao mundo e Cristiano Ronaldo também, ao serviço de uma selecção que, a jogar em casa, em estádios de primeiro mundo, atinge a final do Campeonato da Europa – que acaba numa verdadeira tragédia grega, o melhor desfecho possível para um romance que dura 60 anos, ao estilo Doutor Jivago.

O Porto, mais uma vez, na vanguarda isolada do nosso futebol, protagonizou essa transição melhor do que ninguém. Em Maio sagrava-se campeão europeu fazendo um subito e ineperado regresso à mística, com um treinador de Setúbal, nado e criado no folclórico futebol português, filho de guarda-redes, e com uma equipa de jogadores made in Portugal, dos lateralíssimos Paulo Ferreira e Nuno Valente aos alusados Deco e Derlei, com os dois últimos representantes da geração-garrafão (como eu gosto de chamar aos anos do João Pinto…), Vítor Baía e o recuperado Jorge Costa; em Outubro passara à dimensão europeia, investindo como nunca antes tinha investido em promissores internacionais brasileiros como Diego e Luís Fabiano, à patrão, numa aposta clara de tentativa de aproveitamento do balanço financeiro dessa super-conquista para subir a um nível inalcançável pelos dois outros grandes portugueses. Em 2004, após a conquista do titulo europeu, o Porto, olhando para o lado e não vendo mais por onde crescer, tentou globalizar-se.

É desse movimento de expansão internacional, e dos lucros da fase pós-Mourinho, que resulta a possibilidade da sucessiva contratação de jogadores de classe extra, como Lucho González, Hulk, Falcão ou James Rodríguez entre vários outros, que têm permitido ao Porto, já sem a mesma mística mas com mais acesso ao dinheiro, manter a supremacia interna, com cinco campeonatos em sete anos.



Hoje, oito anos passados, olho para um Porto que fez mais de 300 milhões de euros só em vendas de jogadores; que fez, no Verão, a sua melhor venda de sempre; que está no ponto mais alto da sua história, e vejo-o sem dinheiro para pagar transferências banais, sem crédito sequer para fazer um empréstimo obrigacionista a três anos e a vender quinhões de jogadores três meses depois de chegarem e sem lucro. Economicamente, o Porto é um fracasso, não porque esteja muito pior do que os outros mas porque nenhum dos outros teve, sequer, o potencial aproximado de receitas que o Porto teve nos últimos dez anos. Se o Porto não consegue passar a fronteira nestas condições, como passará? (E não me digam que ganhar uma Liga Europa é passar a fronteira porque para isso basta olhar para o quadro das meias-finais.)

É este clube, optimizado e ainda assim praticamente (mais do que tecnicamente) falido, que chega ao fim da primeira década de globalização do futebol português, metido em sarilhos, enrolado em off-shores para contratar suplentes, empenhado em comissões para se conseguir agarrar ao bastião romântico de ir ganhando ao Benfica nos Álvaros Pereiras e nos Danilos do além-mar, custe o que custar. Estou bastante seguro de que não chega, até por uma razão muito importante: na guerra (e em Portugal o que há é uma competição permanente entre três nações) o factor decisivo nunca é o poder absoluto, mas o poder relativo. Os nossos recursos são importantes, porque sem recursos não se faz a guerra, mas aquilo que nos permite ganhá-la é a relação dos nossos com os recursos dos outros. Podemos ter pouco, mas se tivermos mais que os outros estaremos muito mais perto de ganhar a guerra. E, hoje, este Porto civilizacionalmente no topo não tem mais recursos que um Benfica que só ganhou três campeonatos em vinte anos.



Não é minha intenção aqui dizer quem de entre os três grandes se vai sair melhor na realidade do futebol global pós-Bosman. Ler o passado, mal ou bem, todos conseguem. Ver o futuro é mais complicado.

Há factores aleatórios, pontuais ou conjunturais que se misturam, do simples factor humano – nunca sabemos onde e quando vai surgir o próximo Pedroto, o próximo Mourinho, o próximo Eusébio, e eles vão surgir de certeza – ao macro-social – em que tipo de país se vai transformar Portugal nos próximos 20 anos, se mais periférico em termos europeus, se atlântico, se ibérico, se mais rico se mais pobre, e tudo isso influencia os clubes de futebol.

Olho para os três grandes, vejo o Benfica a fazer pontes aéreas entre Lisboa e Buenos Aires e a empreender joint-ventures com as canteras de Real Madrid e de Barcelona, vejo o Sporting a ser obrigado a falar, pela primeira vez, em investidores estrangeiros para conseguir, sequer, sobreviver (ainda vai ser o Futre a arranjar um dos chineses da moda, vão ver) e, além de confirmar que o nosso futebol, de facto, saiu do quintal, tudo me parece ainda extremamente artesanal, levado a cabo por artistas curiosos, pequenos grupos de amadores metidos em camisas-de-forças de hábitos retrógrados, tentando aplicar à lógica macro-económica contas de merceeiro de província, estruturas demasiado pequenas e demasiado frágeis para resistir à exposição à pressão internacional, demasiado dependentes de fulano ou cicrano, em que se continua a falar de um presidente como patrão, como cacique, cuja ausência determinaria a falência da própria estrutura. Pergunto: conseguiria o Benfica, ou o Porto, resistir a uma eleição presidencial em que fosse eleito outro presidente? Ou as famosas estruturas profissionais viriam por aí abaixo como um baralho de cartas?



Considerando que, como já disse, falar do futebol português pós-25 de Abril é falar do Porto, sou forçado a colocar o Porto no seu lugar: à frente do comboio.



Até ao último Verão, confesso, não calculei que a causa da decadência do Porto fosse económica. Talvez por propensão pessoal para valorizar as questões culturais, presumi que o Porto viesse a decair porque os dois factores óptimos de evolução que lhe permitiram tornar-se no melhor clube europeu dos últimos 35 anos – um contexto sócio-político propício coincidindo com as pessoas certas no poder (Pedroto e Pinto da Costa) e um desafio suficientemente grande para provocar o crescimento interno (o Benfica) – estariam esgotados. Quando o Benfica venceu o campeonato de 2010, no contexto em que o venceu, tornou-se difícil conceber que o grande objectivo histórico do Porto – pôr-se acima do Benfica em tudo – pudesse ir mais longe do que tinha ido até aí. O Porto parecia ter atingido o seu limite civilizacional.

A época de 2010/2011 aparece na contra-corrente. A reacção fortíssima do Porto resultou naquela que, tudo considerado, dificilmente não será vista como a melhor época de sempre do clube, e prova que o Porto continua a ser quem mais bem trabalha em Portugal.

Se eu tivesse de apostar, diria que a época passada foi uma espécie de canto do cisne do Porto – um último momento de esplendor, que não se repetirá, e após o qual a decadência será, ainda que lenta, inevitável. Mas isso é, de facto, subjectivo. Diria que é provável que seja, mas não inexorável.

Só nestes últimos meses é que dei por mim a considerar a hipótese real de o Porto vir a ser minado pela economia – mas, depois de a considerar, percebi que fazia sentido. Afinal, é sempre pela economia que começam as revoluções – até a Revolução Francesa se inicia por causa de um imposto… É pela barriga vazia, pela falta de recursos, pelo excesso de consumo, pelo endividamento, por tudo aquilo que o dinheiro ou a falta dele provoca, que chegam as crises e que os sistemas ruem. A primeira parte que falha é sempre a do dinheiro.



Ao olhar para o estado actual do Porto, enquanto último representante da mística à antiga portuguesa, e para o contexto, não consigo deixar de pensar que ele será o primeiro mártir da globalização do futebol em Portugal.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Salada búlgara

Acabou o Janeiro louco. Se o Janeiro fosse um livro e tivesse um título seria algo como isto: «Janeiro – O Mês Em Que Tudo Acontece. E Em Que Também Há Um Bocadinho De Futebol». Se repararem bem, se fossemos fazer um resumo das coisas interessantes que aconteceram este mês estávamos aqui todo o dia.

Foi uma barrigada, como é sempre, e hoje, último dia do mês, quando toda a gente se começa a preparar para o início da segunda metade da época (incluindo os suplentes, que neste fim-de-semana vão já entrar em força na Taça da Liga), precisamos de uma coisinha leve. Uma saladinha.

*

Substituídos que estão os erros do Verão pelos futuros erros do Inverno, as centrais de propaganda clubísticas começam a fazer o seu trabalho e a transformar todos os negócios, incluindo os flops, em golpadas geniais.

«Bojinov pode render 2,3 milhões de euros», escrevem uns. Pois pode. Se os italianos o quiserem comprar. Ao contrário do Sporting, que o comprou mesmo, por 2,5 milhões, e não recebeu nada pelo empréstimo. Portanto, o Bojinov pode render 200 mil euros negativos. Por agora está só a render 2,5 milhões negativos.

«Leões poupam 400 mil euros com a saída de Bojinov», dizem outros. São novamente os salários a entrar nas contas quando dá jeito. Parece que o Bojinov ganha 80 mil euros por mês. Coisa pouca. Mas, lá está, se vamos meter os salários ao barulho, temos de considerar que, tendo ainda mais quatro épocas de contrato, para não fazer do Bojinov um buraco búlgaro de aproximadamente 4 milhões de euros o Sporting vai ter de encontrar mais cinco ou seis Lecces até 2016. Mas como o Sporting não tem problemas financeiros essa questão torna-se irrelevante. Se houvesse falcatruas lá dentro, como diz o Baltazar, é que era mau sinal…

Acho mesmo que o caso Bojinov justifica que se comece a usar a expressão «buraco búlgaro» como definição de «negócio de sonho que mete toda a gente a louvar a competência de um dirigente e que seis meses depois se transforma numa sportinguite», sendo que «sportinguite» poderia começar a ser usada como «processo de auto-mortificação em que todas as partes, numa sequência lógica, encadeiam precipitações até criarem um problema administrativamente insolúvel». O sinónimo de sportinguite, em inglês, seria clusterfuck.

É claro que, se juntarmos ao caso os salários do Ribas, que veio precisamente para o lugar do Bojinov, as contas têm de ser diferentes, mas pronto, não vamos já por aí. Vamos esperar primeiro que o Ribas se torne num erro de Inverno antes de o cortarmos para tirar a madeira para fazer a cruz onde possamos crucificar o Duque, o Freitas e o Domingos, lá mais para o Verão.

Em relação a isto, só mais duas coisas.

1 - Vamos partir do princípio que o Ribas é o jogador que treinava amarrado a uma corda, apenas por uma questão de lógica: num campo aberto onde é que se ata uma corda? Obviamente, à volta da árvore.

2 – Bastou o Domingos apanhar-se perto dos ares acolhedores de Leça da Palmeira, na reunião da ANTF, para começar a vazar que nem uma gasosa. De jogadores atados a jogadores a conta-gotas, incluindo a explicação para o fracasso da época do Sporting («não pude trabalhar como queria...chuiff»), aquilo foi uma autêntica sessão psicanalítica. «Afirmações de Domingos agitam Alvalade», titula o Record. A sério? Que estranho. Só porque o treinador sacudiu completamente a água do capote? Haveremos de voltar a este tema daqui a uns dias, de certeza, porque, até pelas palavras de Eduardo Barroso sobre a contratação do Yannick pelo Benfica («não digo mais nada porque não sou carpinteiro nem fadista»), não tenho a mínima dúvida de que estamos perante mais uma típica sportinguite – rever o significado, escrito atrás, por favor.



No Porto, a racional é a mesma: Belluschi foi vendido por 5 milhões no próximo Verão e Guarín foi vendido por 15 milhões na mesma altura. Claro que, quando chegar o Verão, vai-se perceber que o Verão não é em Janeiro (a não ser no hemisfério Sul, e, apesar de irmos bem encaminhados, ainda não chegámos lá) e que FMI não significa Fundo Monetário Italiano.

Uma pergunta: porque é que um clube não compra um jogador em Janeiro e prefere esperar por Junho, mesmo sabendo que o jogador é dinheiro empatado no clube teso em que está?

A resposta: porque quer gastar o mínimo de dinheiro possível, não tem a certeza sobre o jogador e só se a coisa correr muito bem é que o compra, até porque na altura hão-de aparecer outras alternativas e possivelmente mais baratas. Já para não falar na conjuntura económica.

É bom que se entenda uma coisa, seja Benfica, Porto ou Sporting: um jogador emprestado é um jogador desvalorizado, e a tendência em 90 por cento dos casos é que o jogador não se revalorize. Passa pela cabeça de alguém que um Manchester United sugira um negócio nestes moldes, por exemplo, por um Hulk, um Witsel, um Javi Garcia ou um… (ia a dizer o nome de um jogador do Sporting mas não me ocorre nenhum, peço desculpa)? Claro que não. A não ser em circunstâncias absolutamente anormais, de cinco ou seis lesões num sector, e é só para seis meses, não é a contar com compra nenhuma.

O empréstimo de um jogador é sempre a conclusão de um mau negócio, que começa, geralmente, ou na compra do jogador ou quando se deixa passar o momento da venda, como é o caso exemplar de Guarín. Para já, a conjugação de palavras que tem sido, historicamente, o augúrio do desastre: «Lesão mal curada atrasa Guarín». A Gazzetta dello Sport diz que leva um mês a ficar bom. Depois é só começar a treinar, ganhar ritmo de jogo na Serie A (o que não é difícil, porque é uma liga suave, onde se joga devagarinho...), ganhar um lugar no onze do Inter de Milão no momento mais crítico da época depois de passar três meses parado, esperar pelo fim da época e meter o cheque dos 13,5 milhões no correio. A coisa promete...

Para cúmulo, um jornal generalista afirma que «Belluschi e Guarín pagam Janko». Um grande negócio em qualquer parte do mundo: 0 milhões de Beluschi + 1,5 milhões de Guarín = 3 milhões de Manko.

Já em relação a Lucho, só uma ideia, bem proverbial: quando a esmola é muita o pobre desconfia.

Desvalorização de um jogador em 18 milhões de euros no espaço de um ano e meio, passagem de um salário de 380 mil euros por mês para… bom, não sabemos, mas devem ser para aí uns 10 mil, porque é por amor à camisola (agora já são três, contando com o Hulk e o Moutinho, que não ligam ao dinheiro), e um jogador prontinho a jogar?

Se for verdade, é o negócio do ano – mais do que o do Yannick no caso da coisa correr bem. Se o joelho der de si, se o TOC decidir que o Lucho tem de trabalhar muito nos treinos para ganhar o lugar ao Defour (e vá lá que já cá não está o Dois Dedos Micael...), se por acaso o Lucho estiver na curva descendente e for por causa disso que ninguém lhe pegou a pagar os tais 300 mil, se o regresso ao Porto for um sinal de acomodação mais que de paixão, então poderemos estar a assistir a mais uma sportinguite. É esperar para ver.

*

Ao fim de seis meses, o Jesus inscreve o Capdevilla para a Champions. Daqui a seis meses já deve ter emagrecido o suficiente para jogar. Sportinguite, do início ao fim, que vai ser, pelos vistos, lá para o Inverno do hemisfério Sul.

Já o Enzo não foi inscrito. Aqui, gosto de como vai acabar: o Enzo a jogar só para o campeonato, que é o que interessa, se o Benfica passar com o Zenit, e o Gaitán a jogar na Europa, que é o que lhe interessa mais e é onde ele mais rende.

O Benfica, entretanto, contrata um miúdo sueco de 19 anos para emprestar ao Leiria. A sportinguite não é só o Barkroth – a sportinguite vai ser toda a equipa B para o ano que vem. E a ver vamos se não se transforma num buraco búlgaro, quando se tiver de começar a emprestar os jogadores que já não tiverem lugar no plantel da equipa B...

O Nélson Oliveira não foi emprestado a ninguém, para poder continuar a treinar na Luz. Se as pessoas tivessem bem consciência de quantos Nélson Oliveiras – leia-se projectos falhados – é que o Benfica já teve nos últimos 30 anos vendiam-no já. E não culpo absolutamente nada o Jesus por não aproveitar o jogador. É o jogador que tem de demonstrar que é um profissional, e não um cavalinho de cortesia a quem basta apresentar o Cartão de Cidadão e comprovar a nacionalidade portuguesa, a altura e a idade para ter direito seja ao que for. Pelo contrário, o que o Nélson Oliveira mostra, de cada vez que entra em campo, é uma tendência irresistível para cair, em vez de lutar pelo seu lugar. Até os pinheiros morrem de pé, caraças!

Cada vez me convenço que a única forma do Oliveira algum dia vir a ser jogador de futebol é ir jogar dois ou três anos para Inglaterra, onde ouça as pessos a rir-se dele quando se atirar para a piscina e onde se estejam a borrifar para o que ele era enquanto júnior.

Para mim? Para mim era… emprestá-lo a um clube inglês qualquer com uma cláusula de compra de 10 milhões.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pinheirinho, pinheirinho...

Vamos tentar racionalizar o mercado, ainda antes de sabermos se há fisgadas de última hora ou não:


PORTO

Lucho

A mesma água pode voltar a passar por baixo da mesma ponte?

Futebolisticamente, nada nos diz que não.

Em termos desportivos, Lucho faz todo o sentido. Muito mais sentido, aliás, do que Iturbe ou Defour, por exemplo. Lucho tem mais dois ou três anos de bom nível para dar ao Porto, e é um reforço, de facto – vem para entrar directamente no onze e vem para começar a jogar agora mesmo. Apesar de, com o TOC, o que é evidente nunca estar garantido à partida. Nada nos diz que o Lucho não precise de um período de adaptação às «ideias» do novo treinador, como o resto do plantel que já trabalhava com ele hám ano precisou. E ainda agora não conseguem compreender o homem...



Pinheiro Manko

(Gostaram do trocadilho? É só um docinho para a rapaziada)

Porque não? Um internacional austríaco de 28 anos, devidamente documentado e educado nos melhores preceitos do futebol-trabalho, que mete a menina lá dentro se ela lhe aparecer a jeito. Entre uma invenção de projecto de internacional brasileiro a martelo, como o Kléber, e um jogador batido na escola europeia e habituado a mudar de ares, como o Manko, alguém duvida que daqui a duas semanas o titular está encontrado? Manko pode resultar e pode não resultar. Numa equipa com o volume atacante do Porto, vai fazer golos.
Lá está, se o TOC não chegar à conclusão que o Hulk deve continuar a jogar a ponta-de-lança...



Apreciação geral

Em termos de tipologia de jogador a contratar, tudo certo. O único lugar em défice, no Porto, era o de ponta-de-lança, e está colmatado. Quanto a Lucho, vem para liderar a equipa a meio-campo, algo que Moutinho, claramente um operário de luxo mas sem espírito de liderança, não é capaz de fazer. Um jogador como Lucho, em plena idade de maturidade competitiva, é sempre para somar.

Quanto ao planeamento, também não há dúvidas: mesmo sendo dois jogadores contratados para o longo prazo, são contratações feitas a pensar nesta época, na Liga, na Liga Europa e no apuramento para a Champions, e não em receitas futuras. Nestes dois casos, mais do que de investimento, pode-se falar de despesa – o que não tem problema nenhum, pois não é suposto que todo o dinheiro metido numa equipa de futebol seja para multiplicar através da venda de jogadores. Há jogadores que estão numa equipa sobretudo para ajudar nos resultados e para potencializar a venda de outros. Lucho é um exemplo claro, neste ponto da sua carreira.

Mas em relação à filosofia da gestão do Porto há grandes questões que crescem no horizonte.

Pessoalmente, nunca gostei de ver jogadores regressar aos clubes de onde saíram, e não é de agora. Já quando Valdo, Ricardo e Mozer regressaram de França para o Benfica, apesar de serem, inquestionavelmente, melhores do que os que cá estavam, não gostei. Acho que é um mau sinal ver os clubes a olhar para trás à procura de soluções. Mesmo quando se dá o caso de aparecer um negócio de ocasião, como foi, claramente, o do Lucho, com o Marselha a abdicar de um salário inflacionado, que mais ninguém pagaria, e o jogador a aceitar descê-lo apenas no Porto, há qualquer coisa que não bate certo. É como se o mecanismo estivesse a falhar. E, no caso do Porto, estamos a falar de um mecanismo de prospecção e contratação de jogadores que não só está na base quer do sucesso quer da sustentação económica do clube. Lucho faz sentido, mas seria de esperar que fosse outro Lucho a vir. Como Manko faz sentido, mas seria de esperar que viesse um Dzeko de 23/24 anos de que ainda ninguém tivesse ouvido falar, como aconteceu com Hulk, por exemplo.

A contratação de dois jogadores para morrer no Porto (e não estou a falar em rendimento desportivo, repito) pode significar várias coisas.

Pode ser um mero reequilíbrio pontual depois de um Verão em que se gastaram mais de 30 milhões de euros em jogadores «de futuro», sendo que ainda nenhum tem sequer presente; pode querer dizer que o dinheiro, simplesmente, não dá para mais; pode querer dizer que o Porto, na verdade, não sabe bem o que há-de fazer para sair da encruzilhada em que se viu metido, o que se reflecte numa gestão errática.



A encruzilhada é um facto, e há muito de culpa própria, sobretudo pela imprevidência de Pinto da Costa – sacrilégio!...

Como já aqui escrevi, o Porto foi apanhado pela vaga do seu próprio sucesso. Esperava que a vaga tivesse 5 metros e, afinal, tinha 15. Sem a vitória na Liga Europa, por exemplo, teria sido possível ao Porto manter as suas principais estrelas debaixo do radar durante mais um ano. Villas-Boas não teria saído, Falcão não teria saído e uma série de outros jogadores não sentiria que tinha direito a sair. O Porto teria mantido a sua super-equipa, teria ganho novamente o campeonato este ano e iria, com alguma sorte, às meias-finais da Champions. E aí sim, faria os seus milhões e recomeçaria de novo, como já fez n vezes.

Todas as suas contratações, no Verão, foram feitas nesse sentido. A filosofia foi: «Temos uma equipa feita e daqui a um ano temos uma equipa por fazer. Vamos começar a fazê-la já.» Era um excelente plano. Poderia, mesmo fazer o Porto subir um patamar na escada europeia. Mas depois saiu Villas-Boas e, sobretudo, saiu Falcão, a dois dias do fecho do mercado.

A escolha para substituir Villas-Boas e a escolha para substituir Falcão (neste caso a não-escolha) foram ambas más, nitidamente porque o Porto não estava preparado – algo espantoso para alguém tão habituado a lidar com as consequências do sucesso.

Quem o Porto devia ter vendido, não vendeu. Com Fucile, Guarín e Belluschi, todos perfeitamente dispensáveis e em topo de carreira, o Porto poderia ter feito, no Verão, entre 15 e 20 milhões de euros. Quando vemos os mesmos três jogadores a sair por empréstimo, em Janeiro, por cerca de 3 milhões de euros, em conjunto, percebemos que o Porto está, apenas, a tentar manter a cabeça fora de água e a agarrar-se a qualquer coisa que bóie. E aposto já que, em Junho, o Inter não vai pagar sequer perto dos tais 9 ou 10 milhões para ficar com o Guarín. Aliás, muito me surpreenderá se Guarín, um jogador vulnerável a lesões e com dificuldades clara de adaptação a curto prazo, chegar a fazer mais de dois jogos seguidos pelo Inter a titular no campeonato.

Álvaro Pereira e João Moutinho ficaram numa lógica clara de manter uma equipa dominante – uma equipa que já não existia, como não demorou mais de um mês a comprovar.

Entretanto, chega a crise. Quanto valeriam, neste Janeiro que agora acaba, os mais de 30 milhões que o Porto gastou em suplentes, em lesionados e em ausentes? Poderiam valer um campeonato. Em vez disso o Porto vê-se forçado a esperar até ao último dia do mês para contratar um salva-vidas (Lucho) e para tapar um buraco (Manko), à espera de um Verão em que, forçosamente, seja qual for o desfecho da temporada, vai ter de reconstruir a equipa.

Hulk, que não é vendido por 60 milhões na esperança de ainda ir a tempo de ganhar o campeonato e pela simples razão de que vendê-lo seria admitir o fracasso e dar meia época de barato – uma escolha insustentável – terá de sair em Junho. Não há qualquer hipótese de Álvaro Pereira continuar para 2012/13. Sobrará, eventualmente, Moutinho, o mais leal e também o mais acomodado. Com ele, Lucho, James (que também já andará com a cabeça noutro sítio, por essa altura) e pouco mais o Porto vai ter de reconstruir a sua equipa, esperando que Danilo, Sandro, Mangala e Kléber sejam suficientemente precoces, que Benfica e Sporting não mantenham o seu fortalecimento gradual e que o mercado lhes permita comprar os jogadores que vai ter seis meses para procurar.

Como se tudo isto não bastasse, é só a dois dias do fecho do mercado, com uma derrota perfeitamente traumática em Barcelos, que o Porto percebe que, na verdade, as suas hipóteses de ser campeão esta época se reduzem a 10 ou 15 por cento. Se a derrota de Barcelos tivesse acontecido há três semanas não tenho dúvidas de que a abordagem do Porto ao mercado teria sido diferente.

Só faltava mesmo uma coisa: que o Braga (que dificilmente poderá fazer da recepção ao Porto, este ano, um jogo amigável) ganhasse ao Marítimo e se colocasse mais perto do segundo lugar do que o Porto está do primeiro.

Se a tudo isto juntarmos o pormenor do Porto ter perdido o seu primeiro jogo para o campeonato em dois anos no segundo jogo que Hulk perde, em nove anos, por lesão muscular, somos obrigados a interrogar-nos: será karma?



BENFICA


Yannick

Em termos de investimento, excelente negócio. Internacional português, 25 anos, custo zero? É bom para qualquer equipa do mundo, menos para o Sporting.

Em termos desportivos, boa escolha. Um jogador que tanto joga no flanco esquerdo como no direito, que conhece perfeitamente o campeonato e que passa, competitivamente, de burro para cavalo. O Benfica está num patamar competitivo superior ao do Sporting, e isso, para um jogador habituado a jogar sob pressão, é diferente de ir para uma equipa de meio da tabela do campeonato francês. É perfeitamente vermos em Yannick o que vimos com Moutinho: um jogador que atinge a saturação num determinado ambiente evolutivo e que, colocado no patamar imediatamente superior de exigência, responde elevando o seu nível de resposta. Ao passar do Sporting para o Benfica Yannick não só não desceu de escalão como subiu para o nível certo, nem pouco nem muito.

Resta saber se está à altura. Porque não é por mudar de camisola que se vai tornar melhor jogador, ao contrário do que parece pelo que já se vai lendo por essa Internet fora…

Há duas coisas que não me agradam nada neste negócio:

- o empresário do Yannick, o Paulo Barbosa, que é uma víbora. Acaba sempre mal;

- a hostilização do Sporting. Continuo a dizer que uma aliança com o Sporting deveria ser a prioridade institucional do Benfica nestes próximos anos. Pelos vistos, o Sporting ainda tem de limpar muito lixo dentro de casa para eliminar os anti-corpos. Temo que, mais do que uma palmadinha de tau-tau, esta contratação à revelia do Sporting seja aproveitada pela facção anti-Benfica para fazer política. Aqui, novamente, eu preferiria que Vieira se oferecesse para negociar uma espécie de compensação ao Sporting. Mesmo que o Sporting não aceitasse, a disponibilidade do Benfica para qualquer coisa que se parecesse com uma arbitragem paralela aos trâmites legais seria útil para não queimar pontes. Não me parece que haja algum Yannick mais importante que a possibilidade de ter Benfica e Sporting numa frente comum. É claro que, se o Sporting não quer…


André Almeida

Entre tantos, há-de haver algum que pegue. Pode ser que seja este. Mas se o Maxi Pereira se lesionar ainda haveremos de falar muito do Rúben Amorim.



Apreciação geral

Dois reforços. Duas palavras: custo zero.

Tenho a sensação de que o principal reforço do Benfica para a parte final da época vai ser Enzo Pérez.

Honestamente, não sei se não estaremos perante um caso de excesso de confiança. Isto do custo zero é muito bonito, mas há uma razão para o «custo zero», normalmente, redundar em «benefício zero». Querer enganar o mercado é como querer enganar o casino: de vez em quando acontece (como com o Artur, por exemplo), mas na maior parte das vezes a casa ganha.

Encaro o facto de o Benfica não ter gasto um cêntimo no reforço da sua equipa como um sinal de que o estado económico dos clubes é muito pior do que o que se pensa. Com o campeonato à mão de semear e uma eliminatória da Liga dos Campeões que lhe pode pagar a época frente ao Zenit de São Petersburgo, o Benfica, em vez de avançar, encolhe-se.

Há uma descompensação nítida entre o ataque, cheio de soluções, e a defesa, que só tem quatro jogadores. O défice de qualidade nas laterais, ao nível de alternativas, é gritante. Se Maxi se lesiona a equipa do Benfica vacila por inteiro, e chegamos ao ponto de temer um castigo ou uma lesão de um jogador tão sofrível como Emerson.

Mais do que de um Yannick, o Benfica precisava de um Fucile que aprendesse depressa.

Por outro lado, Rúben Amorim é emprestado ao Braga. Tenho dificuldade em engolir, sinceramente. Pode fazer todo o sentido, mas há qualquer coisa de profundamente estúpido neste processo, de alguém que se esqueceu de falar com alguém, de alguém que facilitou. Politicamente, não percebo o que Vieira pretende do Braga. Não sei se há, em tudo isto (em Rúben, nos treinos lá, noutros sinais de proximidade apesar da manifesta hostilidade da Direcção do Braga em relação ao Benfica) um canto de sereia ou, como dizem algumas vozes, apenas interesses pessoais extra-desportivos. Mas não gosto. Desconfio.


SPORTING

Ribas

Parece um anúncio a um tónico capilar: «Um uruguaio de quase dois metros a jogar futebol? Isso não é natural». Tão pouco natural como um paraguaio canhoto de quase dois metros a jogar futebol. Muito menos natural do que um austríaco de quase dois metros a jogar futebol. De repente, veio o Natal e é pinheiros por todo o lado. Toda a gente tem direito ao seu Cardozo. Mas, quer no Sporting quer no Porto, ter um Cardozo vai significar o mesmo problema que ter um Cardozo no Benfica: não é com pinheiros no ataque que se aprende a jogar futebol em Portugal. É uma fase.

Será este que andava a treinar com uma corda atada à cintura?

E se se desse uma corda ao Rubio, depois de meia época com o Domingos, será que ele se enforcava?


Xandão

Sem o ter visto jogar uma única vez, posso fazer um prognóstico? No final da época a dupla titular de centrais do Sporting vai ser Onyewu e Xandão. Vamos passar do Onyolga para o Onyão.


Renato Neto

Rinaudo vai voltar a jogar. Matías está a conseguir fazer mais de três jogos seguidos. Querdizer que o Renato Neto tem seis meses para ganhar músculo antes de ser outra vez emprestado.



Apreciação geral

Ninguém me tira da cabeça que o Sporting só não vendeu João Pereira, Carriço e André Santos porque não apareceu ninguém a dar-lhe mais que um saco de berlindes.

O que fica deste Janeiro sportinguista, além da ideia de que o Domingos já percebeu que provavelmente daqui a um ano já está noutro sítio, é o buraco em que o projecto está metido, consideravelmente aprofundado com a vitória do Braga na Madeira, ontem.

Se o Domingos estivesse em Braga, neste momento, com cinco pontos de vantagem a treze jornadas do fim, estava a pensar: «Já cá mora». Não há nenhuma razão para crer que Leonardo Jardim não tenha razões para pensar o mesmo.

Uma coisa correu bem ao Sporting, pelo menos: o jogo em que percebeu que não tem a mínima hipótese de ficar nos dois primeiros lugares foi logo o primeiro em Janeiro. Se o Sporting tivesse ganho ao Porto teria, provavelmente, gasto mais do que devia, num projecto destinado ao fracasso. O terceiro lugar é o melhor que está ou já esteve ao alcance do Sporting, e neste momento está longe de estar garantido. Ao ponto de se poder dizer que, se não ganhar na Madeira e o Braga ganhar em casa, considerando os quatro decisivos jogos europeus que ainda vai ter até ao princípio de Março, o Sporting passa a ter 80 por cento de probabilidades de ficar em quarto no campeonato, de ficar sem treinador e, possivelmente, sem Luís Duque e Carlos Freitas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ah, fadista!

Não é por acaso que o português gosta do seu fadinho. Aquilo é uma coisa triste que vai cá ao fundo do fundo e um homem fica todo a chorar por dentro.



O Fado do Choramingo, por exemplo. Uma história muito triste de um pai que vai buscar um filho à sarjeta, que lhe dá pão e cama, que faz dele gente outra vez e depois, quando o filho se apanha outra vez sadio, bandido, cospe no prato da sopa e diz ao pai «Toma!». Traidor.

Ou o do outro filho, que o pai vai ver ao hospital, com ele para lá enjeitadinho, e depois trata-o, como a um cavalo ferido, e quando o sacrista se apanha bom outra vez desata a correr e faz-lhe um manguito. «Toma!»



Qual é o espanto dos portugueses andarem a ganhar prémios na América com as telenovelas? Então há lá povo mais agarrado à novela que o português?

Para nós, se não há novela numa história é porque não há verdade. E se vier com uma valente pronúncia do Norte, com os beiços molhados, os olhos humedecidos pelas lágrimas, ou de dor ou de felicidade, e com um cabelo à «Mingos e os Samurais», então, é irresistível.



Como tal, o Domingos tem tudo para ser um grande treinador, num grande clube. Tudo, pelos vistos, menos uma coisa. Estofo.

No ano em que o Braga andou na luta com o Benfica eu tinha um bloguezito que acabou ao fim de algumas semanas porque nessa altura, apesar de andar outra vez entusiasmado com o Benfica, não andava com muita paciência para isto da Net. E escrevi lá que gostaria muito de ver, o Domingos, um dia, a treinar o Porto, isto quando ainda nem se ponderava a hipótese de ele vir a treinar o Sporting. E hoje reafirmo que espero ver o Domingos, um dia, a treinar o Porto.

Porque aquilo que via nele é o que vejo hoje: um tipo com escola de futebol e com algum talento para conduzir uma equipa, com personalidade suficiente para tomar as suas opções e manter-se fiel a elas, mas com uma dificuldade inata em ser grande, e, inversamente, com uma tendência inata para a vitimização.

Quem viu o Domingos a jogar vê o Domingos a treinar. Um tipo muito menos frágil do que parece, um animal competitivo, mas muito mais disposto a deixar-se fragilizar do que aquilo que precisa.

O Domingos nunca foi um grande jogador. Foi um bom jogador, quando protegido por um ambiente confortável. As características de um treinador não têm obrigatoriamente a ver com as suas características como jogador. Há muitos exemplos de avançados que são treinadores super-defensivos e vice-versa. Mas as características pessoais têm tudo a ver. A pessoa que o Domingos era em campo é a pessoa que é no banco.



O máximo que o Domingos teve a coragem de se afastar de Leça da Palmeira, enquanto jogador, foi até Espanha, para clubes de segunda linha, apenas para voltar meia-dúzia de meses depois – e quando voltou, vinha para o Sporting, bastou um telefonema do Papa para mudar o rumo, em plena auto-estrada, para o seu Porto de abrigo.

Quando o Domingos foi para o Sporting, aquilo que mais me interessou foi como o Domingos iria lidar com a pressão pela primeira vez na sua carreira de treinador. Olho para o que escrevi neste blog a 14 de Agosto deste ano, ainda antes do Sporting fazer o primeiro jogo da época, e não encontro uma virgula para mudar. Entre o Porto B, a Académica e o Braga, ambos protegidos pelo guarda-chuva portista, onde é que o Domingos já trabalhou num ambiente estranho?

Pois bem, aqui está ele. E, assim que o estado de graça termina, a que é que assistimos? Ao Domingos a vazar que nem uma gasosa, a atirar-se aos ilustres sportinguistas (cavando uma distância entre a equipa e os outros, note-se, porque isso é muito importante), a atacar com cinismo, ex-jogadores seus (há coisas que se sabem, que se pensam, mas que não se dizem em conferências de imprensa), e a acoitar-se em lugares comuns.



Neste momento, Domingos parece ter entrado na espiral do costume em Alvalade. Pela lógica natural das coisas verdes, daqui para a frente, seria uma questão de tempo até ele sair, como Carvalhal, Paulo Sérgio, Paulo Bento e tantos outros, até Queirós, que me lembre, que a certo ponto tiveram de vir a terreiro para defenderem, eles próprios, a equipa, e pagaram por isso.

Se isso acontecer acontecerá não por causa da derrota em Braga ou dos empates com o Porto e a Académica mas por algo que aconteceu antes disso – aqueles trinta minutos em que jogou com mais um, na Luz, e não conseguiu sequer empatar com o Benfica.

Como eu já aqui disse, quer ele saiba quer não, e quer os adeptos saibam quer não, o Domingos foi contratado para ganhar ao Benfica. Ao não conseguir evitar a derrota naquela situação, e sem poder, sequer, queixar-se do árbitro – ficando, assim, sem o seu tapete preferido debaixo dos pés – Domingos começou a falhar no Sporting. E duvido que venha a conseguir reverter isso. Ele, pelo menos.



Assistimos, nestes dias, ao espantoso espectáculo de ver um portista e portuense inveterado a defender o Sporting de sportinguistas que já o eram quando ele apenas se divertia a marcar-lhe golos – incluindo o tal «médico», que, por acaso, é presidente da Assembleia Geral do clube – algo que estes não tardarão, decerto, a recordar-lhe; assim como a esclarecê-lo que, no Sporting, ao contrário do Porto, não há lei da rolha, cada um pode dizer o que quiser, e não é de certeza um Domingos de fraldas às riscas verdes e brancas que os vai mandar calar. Assim que aparecer o primeiro a recordar a toda a gente que o Domingos «só cá está de passagem», e a sugerir que o sonho dele é treinar o Porto, o futuro do Domingos no Sporting está traçado – se é que não o está já. São as inevitáveis elites do Sporting a fazerem, outra vez, o seu emérito trabalho.



Esta fossa emocional do Sporting vai durar até ao jogo da Madeira, provavelmente, mas vai ser suficiente para assistirmos a duas coisas:



- a irrelevância do presidente do Sporting neste processo, demasiado satisfeito, nos últimos meses, a fazer de vice-presidente das obras que já não é, incapaz de se assumir como líder do clube, reduzido a «newsletters» (!) de apelo a futilidades, à Cavaco Silva, e a uma constante tentativa de se fazer aceite pela Juve Leo, prescindindo, para isso, no processo, de grande parte da sua soberania para os que o rodeiam. Hoje, o que parece é que os Pereiras Cristovãos não mandam só nas claques, nos túneis, nos bilhetes ou na relva – o que parece é que também mandam no presidente. E mesmo que não seja verdade, o simples facto de parecer já é uma tremenda fragilidade de Godinho Lopes, que tende a agravar-se;



- em movimento oposto, o líder de facto do Sporting, Luís Duque, chefe do futebol, vai ter de, para a defender, vincar a clivagem que Domingos tratou de estabelecer entre a equipa e o resto do clube com a tirada do fadista, do médico e do carpinteiro – parece a anedota do português, do inglês e do francês. A imagem de que a equipa, que é totalmente nova, é a única parte saudável do universo Sporting, que é podre desde há muito tempo, vai ser, nas próximas semanas, reforçada, porque não há outra alternativa. É isso ou esperar que ela seja engolida pela máquina trituradora que é a aristocracia sportinguista. Neste processo, Godinho Lopes vai ficar sobre a corda bamba, pois tem de ser o elemento conciliador de duas partes inconciliáveis: o Velho Sporting, que não tem para onde ir, e o Novo Sporting, representado pelo grupo-futebol, e que é a única saída. Por isso, por ser a única saída – 30 milhões de euros depois -, Godinho Lopes não poderá despachar Duque e Freitas como Bettencourt despachou, por exemplo, Costinha. E isso fará de Duque o vencedor, no fim. Porque o projecto, na verdade, é Duque.

É este o verdadeiro pano de fundo sobre o qual se vai desenrolar a actividade política no Sporting até ao início da próxima época. Verão incluído – e no Verão sobretudo.



Domingos? É igual aos outros treinadores todos: depende dos resultados. Mas espero que vá para o Porto, porque não é grande coisa. A pressão e a resposta a ela dizem-nos tudo o que há para saber no futebol.



P.S. – Uma palavra para o campo de girassóis: épico.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Aquilo é nervos

Como já não falo de Benfica, Porto e Sporting há muito tempo, hoje vou picar o ponto.  
O Hulk nunca tinha tido uma lesão muscular em nove anos.
Esta é uma das coisas mais impressionantes de que já ouvi falar no futebol. Além de tudo o resto, valoriza imenso um jogador, porque lhe dá uma fiabilidade sobre a qual se podem construir projectos. Em comparação, lanço a questão: qual teria sido o horizonte de sucesso de Pablo Aimar se não fosse um jogador permanentemente lesionado? Teria parado num Valência e num Benfica ou estaria destinado a jogar nos maiores?
Mas fora isto, vou ser mauzinho com a Criatura, para variar.


Já repararam que antes das grandes competições de atletismo, por exemplo, é frequente ouvirmos falar de febres, doenças súbitas, lesões, e um rol de maleitas exóticas, deste gota a aftas vaginais,  que mais parece um episódio do «Médicos por África»?
Parece tudo super-forçado, histórias da carochinha, um grande choradinho para justificar desaires, mas não é. Não é tanga. É verdade. Eles ficam mesmo doentes. É do stress.
O stress provoca doenças, em toda a gente, porque impede a regeneração celular. Está comprovado cientificamente. A exposição prmanente à tensão afecta os mecanismos de reprodução dos tecidos e orgãos, causa doenças e envelhecimento precoce.
No desporto, provoca lesões, e está demonstrado em estudos académicos que a boa disposição as previne.

Nos futebolistas isso não se nota muito, provavelmente porque são atletas habituados a desempenhar debaixo de pressão desde muito cedo, mas nos atletas individuais, por exemplo, que podiam passar por nós na rua sem os reconhecermos, quando a tensão começa a aumentar o corpo facilmente dá de si.

Pus-me a pensar nisto a propósito do Hulk. Pensei em quantas ocasiões nestes nove anos é que o Hulk terá estado realmente debaixo de um stress a que não esteja habituado.
Ora vejam: começa a jogar pela selecção do Brasil, um sonho que parecia afastar-se, e torna-se, de facto, um jogador global depois da época passada do Porto; vê o Benfica a dar uma luta que nunca tinha dado, realmente, e inclusivamente a ganhar superioridade num confronto directo, dando ideia de ser o favorito ao título; ouve, todas as semanas, propostas milionárias dos principais campeonatos do mundo, incluindo uma notícia da Gazetta dello Sport que diz que o próprio Guardiola o quer, sem desculpas, no Barcelona. Ora, em Janeiro, o que é que acontece ao Hulk? Sente uma picada.
Já nem falo na volta que lhe deve estar a dar à cabeça a sensaçã de que, afinal, é vulnerável.

Pode ser tudo coincidência. Ou não…

(Independentemente disto a simples frase «em nove anos nunca sofreu uma lesão muscular» devia ser obrigatória logo na capa do currículo que o empresário dele anda a distribuir por meia Europa)


Quanto ao Sporting, há uma questão que merece ser levantada neste momento em que até o cirurgião Barroso («na qualidade de presidente da Assembleia Geral», até me parto a rir com estas palhaçadas) já reconheceu que o objectivo do Sporting, desde o início, era chegar à Champions. É que o objectivo do Sporting não era só chegar à Champions. O objectivo do Sporting, no início desta época, era chegar à Champions pelo segundo lugar no campeonato.

O alvo do Sporting, durante o Verão, não era o Porto, então aparentemente intocável, nem o Braga, então aparentemente inútil dada a revolução no plantel e dado o facto de o Sporting já o ter conseguido bater no campeonato anterior e colocado na sua posição natural. O objectivo do Sporting era, afinal, o mesmo de sempre – aquilo a que se resume 80 por cento do critério de sucesso de uma época no Sporting: ficar à frente do Benfica. No segundo lugar que daria apuramento directo para a Champions.

Alguém tem dúvidas de que se só houvesse um clube a ser apurado para Champions no fim desta época o Sporting não teria gasto nem um terço do que gastou?

O alvo do Sporting era o Benfica.
E é por isso, novamente, que o Sporting está em crise. Se a ordem actual do campeonato fosse Porto, Braga, Sporting, Benfica, e acabasse assim, com o Sporting a ganhar a Taça, em Alvalade não haveria o sentimento de crise.
No Verão, depois da débacle na época anterior, o Benfica era a presa mais fraca, e a mais apetecível. O Benfica estava à mercê, e o Sporting fez o que tinha a fazer: avançou. Só não se esperava, como há três anos, este piparote. Esta ressurreição que é especialidade da casa.

À parte disto, o problema do terceiro lugar, para o Sporting, não é apenas ficar atrás do Benfica. É ter de começar a próxima época um mês mais cedo, o que pode ser determinante nas suas hipóteses reais de discutir o título.
O que o Benfica está a fazer esta época é verdadeiramente excepcional, por ter começado a competir muito antes dos outros – mas vamos ver se ainda não mordo a língua lá mais para a frente. Se conseguir ser campeão, e chegando pelo menos aos oitavos-de-final da Champions, depois de ter passado duas pré-eliminatórias da Champions e tendo como adversário interno um Porto vencedor de quatro competições na época anterior o feito desta equipa do Benfica será muito maior do que o de vencer o campeonato em 2009/10. É uma proeza não só a nível nacional como a nível internacional. Uma carreira longa e bem sucedida na Champions é, historicamente, incompatível com um bom campeonato, e este Benfica é (ou pode vir a ser, veremos) a excepção que confirma a regra.
Se tiver de disputar eliminatórias de acesso à Champions o Sporting vai passar pelos mesmos problemas que qualquer outra equipa passa, e comprometer seriamente as suas aspirações internas.


Finalmente, o Enzo Pérez.
Dizem que o Enzo Pérez vale 5 milhões de euros, que foi o que o Benfica pagou por ele. Pois eu, pelo que leio nos jornais de hoje, acho que o Enzo Pérez está na iminência de se tornar no jogador mais valioso da história do Benfica.

Ao dizer ao Enzo Pérez, ao empresário do Enzo Pérez, aos clones do Enzo Pérez, e aos empresários dos clones do Enzo Pérez que por aí andam que está disposto a pagar 5 milhões de euros para fazer valer um princípio, o Benfica está a valorizar o Enzo Pérez em 500 milhões de euros mesmo que ele nunca venha a ser titular do Benfica.

Se contabilizarmos os milhões que o Benfica vai poupar em jogadores que não vão aceitar vir para um clube em que se tem de ser profissional, mais os milhões que vai ganhar com os jogadores que não vão voltar a tentar este número quando não lhes fazem as vontades, mais os milhões que vai ganhar em valorização de jogadores por perceberem que estão num clube profissional, mais os milhões que vai ganhar por ser respeitado por empresários honestos e os que vai poupar por afastar os empresários desonestos, o Enzo Pérez está a revelar-se valiosíssimo.

Digo mais: a única coisa que falta ao Benfica para dar o salto qualitativo, em termos de cultura e, consequentemente, em termos de capacidade competitiva, é conseguir chegar ao plano dos princípios. Quando um líder, ou um conjunto gestor de homens, percebe que há princípios que estão – de facto, e não apenas de boca – acima do economicismo, está a dar o passo decisivo rumo à grandeza. Assim que se dá este passo, o resto vem atrás.


Talvez fosse pedir demasiado que se fizesse do Maxi Pereira um exemplo, mas o Enzo Pérez pôs-se mesmo a jeito.

É claro que se o Enzo Pérez levar a dele avante, esqueçam…