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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Começou a montanha

Historicamente (e digo isto de forma empírica, note-se, não estive a fazer um apanhado do comportamento do Porto nas últimas décadas), os momentos de vulnerabilidade do Porto são identificáveis, e quando esses sinais de vulnerabilidade aparecem são, de uma maneira geral, materializados em maus resultados.


Nas raras ocasiões em que o Porto entra em perda de dinâmica ao longo da época, não é campeão. Julgo que isso pode ser ligado ao método de trabalho.
No Porto há uma mecânica de eficiência elevada, que permite aproveitar melhor os jogadores, e de maneira mais estável, que torna a equipa menos propensa a grandes oscilações de forma e a mantém a um nível elevado relativamente aos seus dois adversários quando começa a montanha. As equipas do Porto estão mais perto da optimização que as de Benfica e Sporting, o que lhes permite (o que lhes tem permitido) manter um ritmo competitivo mais constante, que aproveita as quebras mais acentuadas dos outros. Nessas quebras cava-se uma pequena distância, inicialmente, a pressão aumenta nuns e baixa nos outros, entra-se num ciclo vicioso e, eventualmente, num ou dois resultados em Fevereiro/Março, o Porto distancia-se a é campeão, eventualmente acabando com 10/12 pontos de vantagem que não reflectem a potência da equipa, apenas o ritmo, à maratonista.

Esta tem sido a regra, e é isto que permite ao Porto acumular campeonatos. É uma equipa mecanizada para disputar o campeonato nacional, especificamente, e em condições excepcionais para tentar uma gracinha na Europa.


Ora, o problema das rotinas é que quando alguma coisa sai da regra, normalmente, faltam as soluções. Por isso é que temos a ideia de que quando vemos alguma coisa falhar, no Porto, isso é um sintoma claro de fragilidade.

Se alguém se lembrar de ver o Porto a perder o primeiro lugar no campeonato à passagem da primeira volta que diga aqui alguma coisa. Eu não me lembro. Lembro-me do Porto a passar para a frente, muitas vezes. Não me lembro do Porto a passar para trás.

Quando o Porto está bem, faz uma época em crescendo, Quando não está tão bem, não consegue crescer com a competição.



Não acredito que o Porto faça só vitórias até ao jogo com o Benfica, daqui a sete jornadas – apesar de também não ver um jogo em que, pela lógica, se veja o Porto a perder pontos.

Mas isto da lógica é uma batata, como já aqui escrevi bastas vezes.

Estou convicto de que se o Benfica passar estes próximos seis jogos com apenas um empate – não me admiraria se em Guimarães se em Coimbra – vai receber o Porto com pelo menos dois pontos de vantagem.



Para já com o Rio Ave, atenção. Tenho para mim que a única razão para o Rio Ave não ter enganado o Benfica na Luz foi o timing dos golos, nomeadamente do seu. Se o 0-0 se tem mantido até ao intervalo, pelo menos, e o Rio Ave marcasse o seu golo na segunda parte, não sei se o Benfica ganhava aquele jogo – já sei que «se a minha avó tivesse rodinhas era um carrinho de mão», mas vocês percebem o que eu quero dizer. É uma equipa que joga futebol. Se marcar na altura certa tem capacidade para aguentar.



A não-vitória de Benfica, Porto e Sporting nunca é uma questão lógica ou racional. A diferença de dimensões não permite senão pensar em oportunidade e excepção. O que a torna literalmente imprevisível. Mas…

O Porto abalou, não tenho dúvidas, o Moutinho não joga, o Rio Ave está no seu melhor momento da época, vai haver nervos na bancada (também porque o Benfica joga antes), e se não houver um golo na primeira parte…

Eu só digo isto: atenção. Desta vez, ao contrário de outras nesta temporada em que o Porto jogou em casa a seguir a um mau resultado, acredito que pode haver surpresa.



Quanto ao Benfica, não acredito nas possibilidades do Setúbal. Vejo o Gil a apertar um bocado o Benfica na Luz (normalmente quando não se ganha a uma equipa na primeira volta na segunda também não é fácil, é porque há ali qualquer coisa que não encaixa), vejo o Feirense a marcar e a fazer sofrer, mas o Setúbal é bom freguês.



Agora, o que eu posso, mesmo, ver, é o Braga a passar à frente do Sporting este fim-de-semana. Seria uma daquelas sequências bem «à Sporting» que todos conhecemos tão bem. Não que isso já conte muito para o campeonato, mas pronto…

sábado, 7 de janeiro de 2012

É porque não é para ganhar

Em termos técnicos e tácticos não existiu – não existe, portanto – diferença entre Sporting e Porto. Isso não é abonatório para o Porto. Não se pode dizer que este Sporting tenha tido o mesmo tempo de construção que este Porto. Que a equipa do Sporting consiga equilibrar técnica e tacticamente um jogo com uma equipa que tem o Hulk quer dizer, para mim, que potencialmente esta equipa do Sporting é melhor que a do Porto. Há uma clara delapidação de valores do Porto de um ano para o outro e este jogo prova-o.
O que tornou o Porto superior ao Sporting foi, única e exclusivamente, a maturidade. A experiência. Foi claro que o Porto encarou o jogo de uma forma mais consciente do que o Sporting. Assim como foi claro que, sabendo como devia jogar, não teve capacidade para executar, por défice técnico, por falta de velocidade e por falta de envolvimento colectivo. Isto no primeiro jogo, que durou até aos 60 minutos.


Daí para a frente, com o Izmailov e o Matias no Sporting e o James no Porto, os dois treinadores passaram a ter em campo a equipa que queriam meter desde o princípio mas na qual não tinham confiança. O Izmailov e o Matías não podiam jogar mais de 30 minutos e, quanto ao TOC, não quis confiar as duas alas a dois jogadores muito inexperientes e decidiu apostar na experiência do Cebola.

O Porto pareceu sempre mais perto de marcar, mas isso não surpreende ninguém. São ainda equipas de campeonatos diferentes. Só havia uma maneira do Sporting enganar o Porto: marcando dentro dos últimos 15 minutos.
Nesses últimos 15 minutos o Porto chegou melhor fisicamente. Tinha o Sporting à sua mercê e 15 minutos para ganhar o campeonato. O empate não o matava mas a vitória restituía-lhe a vantagem que perdeu quando empatou em casa com o Benfica e devolvia-lhe inteiramente o favoritismo para o título.

A bola do Izmailov era a definitiva. Estava tudo no sítio: o jogador que marca sempre ao Porto, o momento certo para marcar. Não aconteceu, ponto final.



O empate agrada-me bastante, devo dizer, por uma razão muito simples: não acredito que o Porto consiga passar dois campeonatos seguidos sem perder um jogo, e isso quereria dizer que, além dos empates, ainda lhe falta sofrer a derrota.

Com as oportunidades que teve, é claro que o Porto só não ganha este jogo pelas mesmas razões que não vai ganhar o campeonato: porque não é para ganhar.


E agora, o Benfica tem, em Leiria, o seu próprio jogo do título. Não é pelos três pontos. É porque, amanhã, vai-se ver quanto é que a equipa quer ganhar o campeonato e se está preparada para isso, e se o trabalho de seis meses foi bem feito. Sem desculpas.

Quem chegar estiver à frente no fim do Benfica-Porto de aqui a oito jornadas será o campeão. O Porto já perdeu dois pontos…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Algures na Arábia Saudita

O que eu vou ver com atenção no Sporting-Porto:  

Sintomas da febre de Janeiro

O Porto, pelas minhas contas, tem seis jogadores com as malas à porta ansiosamente à espera de um telefonema do empresário ou de alguém da Estrutura:

- O Álvaro Pereira, que deixou de fazer barulho para ver se tem mais sorte;

- O Otamendi, que não deve perceber bem se é titular ou não;

- O Maicon, que tem de ser vendido rapidamente enquanto está valorizado (porque, com o Danilo, entre laterais-direitos  e centrais o Porto já vai em sete jogadores e o Maicon, sendo o pior dos sete, é o que joga mais a seguir ao Rolando);

- O Fernando, a quem disseram que se fosse ver o jogo para o meio dos pobrezinhos e desse muitas entrevistas a dizer que ficava até ser velhinho era a melhor maneira de ser transferido;

- O Moutinho, que anda mortinho;

- O Hulk, que, apesar de ser o único jogador no mundo que não liga ao dinheiro, segundo o Pinto da Costa, tem um ordenado de 500 mil euros por mês à espera «algures na Arábia Saudita», e um ordenado de 6 milhões de euros por ano não é um ordenado, é «uma cabeça de pescada muita grande», como dizia o Solnado e o meu vizinho de quando eu era pequenino.

E estou só a falar dos titulares. Entre os que só vão aos treinos podemos acrescentar o Guarín, o Fucile, o Sapunaru, o Souza, o Cebola, o Belluschi.

O Sporting, por seu lado, tem o Carriço e tem o João Pereira, sendo que, ao contrário do Palito, do Fernando, do Moutinho ou do Hulk, a perspectiva do Carriço e do Pereira é, como o Falcão, de passarem de cavalo para um burro com um saco de moedas na boca.


Não quero dizer com isto que os jogadores vão tirar o pé – até pode ser o contrário, sentirem que se não mostrarem agora o que valem vão ficar mais seis meses à espera.
O que eu questiono é quantos é que ainda estão cá. Estamos num confronto entre uma equipa que fechou um ciclo entre o Verão e o Natal (o Porto, ganhando tudo e entrando em ruptura) e que tenta, no meio de um turbilhão de dinheiro, manter a embalagem e demonstrar que ainda é a melhor; e uma equipa em plena ascensão, com tudo a ganhar, e no papel daqueles corredores de oitocentos metros que, à entrada da segunda volta, vão em terceiro, se sentem fresquinhos e vêm os dois da frente a curta distância.

O Porto, que ainda tem a melhor equipa portuguesa, na minha opinião, está a correr contra si próprio. O Sporting está a correr com uma presa à vista.


Os extras

Não acredito que o Domingos ponha o Izmailov ou o Jeffren de início. Acho que é mais provável que entrem o Carrillo e o Capel de início e que  os outros dois entrem ao intervalo ou na segunda parte, e que façam estragos. Devem estar os dois doidinhos. O Matias Fernandez a mesma coisa.

Não me admirava que o Sporting acabasse o jogo com uma equipa melhor do que aquela com que o vai começar.

E também me parece que o TOC (coitado do homem, é autenticamente esculhambado neste blog de segunda categoria…) vai sentir a necessidade, outra vez, de provar que é um grande treinador com uma surpresa. Assim de primeira não me espantaria por aí além que o Cebola ou o Iturbe aparecessem mais cedo do que seria de esperar. De início, não sei. Talvez o Cebola em vez do Djalma.


Os nervos

Tenho cem por cento de certeza que o Porto vai estar mais nervoso que o Sporting. Todos os jogadores em campo sabem quem é que precisa mais de ganhar no jogo de amanhã. No fim das contas, o Sporting dificilmente vai passar do terceiro lugar, o Porto pode passar para segundo no campeonato pela primeira vez em quase ano e meio, e o resto é conversa para enganar tolos.

O último jogo de verdadeira pressão que o Sporting teve neste campeonato foi com o Benfica, na Luz. Convenceu-se que não vai ser campeão (basta ler nas entrelinhas do Domingos) e sente-se optimamente assim.

Já o Porto não estava assim tão pressionado no campeonato há dois anos, desde que foi à Luz a cinco pontos de distância e a precisar de ganhar – quando ficou a oito pontos, lembra-se?

Atenção aos jogadores de pavio curto no Porto – o Hulk, por exemplo, que deve andar com a cabeça bem cheinha.
 

Dito tudo isto, o Porto continua a ter melhor equipa que o Sporting, e sabe o que fazer para ganhar em Alvalade. Só não acredito que o consiga fazer. Continuo a pensar que o Porto vai perder o primeiro e, provavelmente, o único jogo neste campeonato.

Surpreende-me, finalmente, a facilidade com que o Domingos se safou na última conferência de imprensa. Até parece que não vai jogar, pela primeira vez na sua carreira de treinador, um clássico contra o Porto, o clube que foi formado para treinar e que acabará por treinar daqui a uns anos. Mas ter boa imprensa, em Portugal, vale quase tanto como saber o que se faz.



Ainda em relação ao Paixão…

Só um atrasado mental é que pensa que o Benfica corrompe o Bruno Paixão para ganhar um jogo da Taça da Liga. É uma prova encarada como um treino; até perdendo o Benfica continuava a ter hipóteses de passar e, mesmo assim, ninguém quer saber; não houve qualquer intenção de poupar jogadores (uma vez que jogaram todos os titulares) e, logo, não fazia sentido comprar o árbitro para facilitar, ao contrário do que aconteceu com o Porto-Beira-Mar do Apito Dourado, que foi disputado quatro dias antes de um jogo decisivo da Champions e em que o Mourinho jogou com a segunda equipa.

O único serviço que o Paixão prestou foi ao Porto, por permitir que, de coisa nenhuma, se fizesse um fantasma para os portistas como o diligente Rui Moreira andarem a espantar à procura de um penaltizito que possa aparecer contra o Benfica.

Aliás, estou praticamente convicto de que o Bruno Paixão é demasiado vaidoso para ser corrompido. Do que ele gosta é de dar nas vistas, e, dada a sua fraca qualidade como árbitro, só pode continuar a dar nas vistas se os grandes clubes e quem nomeia os árbitros pensarem que ninguém o consegue comprar. Só sendo incorruptível, por mera estupidez, é que o Paixão continua a ser árbitro de futebol.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

«Venha à Ilha Mágica!»

Continuando...
Zona «Laranjas e Maçãs»
O Srrraaars vai apanhar com o Moutinho. Uma boa maneira de saber, de facto, qual equipa é que tem a iniciativa de jogo e qual é a que vai jogar mais na expectativa (uma vez que o que os treinadores dizem é sempre a mesma lenga-lenga da treta) é ver qual destes dois é que vai estar mais preocupado a marcar o outro e qual é que se vai tentar libertar mais, porque nenhum dos dois treinadores tem dúvidas de que, se é no meio-campo que este clássico se vai decidir, como é em todos, é nestes dois jogadores que tudo começa.

Se tivesse de escolher um destes dois para a minha equipa escolhia o Witsel. Fora de brincadeiras, se tivesse de escolher um penso que escolhia o Srraars. O Moutinho é mais forte posicionalmente, o Srraars tem mais golo. São dois bons médios.

Srrrrrrrrrrrrrars: 78.
Moutinho: 77.

Zona do Elias

O Elias é o melhor jogador do Sporting. Muita classe. O Sporting só não vai ganhar uma fortuna com ele, por um lado, porque já gastou uma pequena fortuna para o comprar, e depois porque o mercado do Elias sofre do mesmo mal de tantos outros médios de grande categoria que por aí há: a ideia de que há sempre alguém que pode fazer mais ou menos a mesma coisa por metade do preço. Assim, os Elias vão indo parar ao banco em equipas tão banais como um Atlético de Madrid e os Raul Meireles vão parar a um Chelsea. É o problema dos generalistas, e é por isso que os especialistas (no ataque, sobretudo) custam tanto dinheiro. O que é que distingue o Elias, realmente? Nada. Mas em que é que ele é fraco? Em nada. Talvez o jogo aéreo. Para nós, portugueses, o jogo aéreo não é futebol. Por isso é que o Sporting joga tão bem e o Jesus os vai enganando.

O Elias teria lugar em qualquer equipa portuguesa, de caras, e na maior parte das boas equipas europeias.

Quanto ao Fernando, há sempre um factor de injustiça quando se compara um jogador do Porto com os jogadores de Benfica e Sporting: é que os jogadores, no Porto, estão sempre mais perto do seu melhor, enquanto que nos outros dois grandes não é fácil, realmente, ver um jogador bem espremido.

O Fernando está espremido, o Javi Garcia não. Apetece-me dizer que nunca vi o Javi Garcia fazer nada que o Fernando não faça, e que já vi o Fernando construir jogo como ainda não vi o Javi Garcia fazer, e isso implicaria que o Fernando fosse o melhor trinco do campeonato, mas estou convencidíssimo de que o Javi García, que no Benfica é um jogador muito bom, no Porto seria um monstro do meio-campo. Por outro lado, acho que o Fernando no Benfica, não seria nem perto do que o que é no Porto. O Benfica ainda está a uns anos de conseguir tirar o melhor dos jogadores. Falta-lhe know-how. O Porto tem-no. Por isso prefiro dizer que o Fernando é mais útil e que o Javi é melhor jogador. Quando sair do Benfica o Javi vai evoluir mais do que o Fernando quando sair do Porto, se apanhar um bom clube para isso.

Elias: 88.
Fernando: 82.


Zona «Ilha Mágica»

Tesouro, Ilha Mágica, Sevilha, Capel, Maicon… Estão a ver?
Contra uma Académica que só tem a bola de vez em quando o Maicon já se vê um bocado aflito. Contra um Sporting que tem o único verdadeiro extremo-esquerdo do campeonato, dos que vão direito a eles, chegam à linha e atiram a bola para a confusão, o Maicon vai ver uma amarelo aos quinze minutos, encolher-se, desequilibrar a defesa toda do Porto e fazer inclinar o campo com o chumbo que tem nos rins. Se há um jogo em que o Porto, defensivamente, não precisa do Maicon, é este – o Sporting só joga pelo chão, não tem extremos de pé trocado, dos que fintam sempre para dentro e travam para centrar, como o Gaitán ou o Hulk. O Maicon será mais útil no ataque que na defesa, mas este jogo não é para isso. Pela lógica, o Grande Timoneiro trocaria de lateral direito neste jogo, mas se meter o Sapunaru ou o Fucile arrisca-se a fazer ainda pior, pela falta de pedalada.

O Capel vai-se divertir à grande. A jogar em casa, com os índios a puxar por ele, com um defesa central à frente. Já disse aqui que o Capel me surpreendeu, pois eu não esperava que ele pegasse. Pensei que tivesse saudades da comida da mamã e voltasse para Sevilha. Depois, no espaço de uma semana, quando não podia com uma gata pelo rabo, ficou sem concorrência (Yannick, Djaló, Izmailov), ganhou balanço, e no Verão está outra vez em Espanha, não para ir para a segunda divisão mas para um Valência, um Atlético de Madrid ou outro do género.

O Capel é o caso típico do jogador que vale pelas suas características, mais que pela sua classe. Não é um grande jogador, mas é um jogador especial. Lá está, é um especialista. A sua velocidade, com boa técnica, pode decidir jogos. Falta-lhe algum discernimento, visão de jogo, é verdade, mas é um jogador perfeitamente capaz de ser importante numa equipa campeã.

Capel: 78.
Maicon: 67.

Zona do Buraco no Bolso
É uma das grandes incógnitas do clássico: quantas vezes é que o Carrillo – que daqui a quatro ou cinco anos vai andar a aviar defesas-esquerdos como quem vira frangos – vai conseguir sair do bolso do Álvaro Pereira? Porque é lá que ele vai passar a maior parte do jogo, mas duas ou três escapadelas podem ser suficientes. O puto é assim tão bom.

Se há uma coisa de que eu gosto neste Sporting do Choramingos é de ter extremos a sério, em vez de pivôs encostados à linha lateral. O último e único pivô de linha lateral de que eu me lembro que era capaz de levar o jogo para aquele canto e resolvê-lo a partir de lá, foi o Ronaldinho Gaúcho no Barcelona campeão europeu que eliminou o Benfica do Koeman – e tenho a impressão de que a coisa só funcionou porque era o Ronaldinho. O Carrillo é como o Capel, e como o Nani: vai direito a eles e eles não sabem para que lado é que a coisa vai sair. Quando dão por ela ou fazem falta ou já passaram os dois. Chamem-me antiquado mas acho que isso é melhor do que levar o jogo para a linha, parar e andar ali à volta, até vir para trás e fazer tudo igual do outro lado. Se calhar sou demasiado purista.

O Palito é um bom exemplo do que eu disse sobre ser difícil destrinçar entre a forma e a categoria. Qual é o verdadeiro: o Fórmula 1 do ano passado ou o reboque deste ano. É um caso nítido do jogador que estagna na evolução por não sair quando tem de sair. Na Fórmula 1 chega-se a um ponto em que já não se consegue bater mais o recorde do circuito e tem de se mudar de pista. É o Palito. Precisa de passar do Estoril para Spa-Francorchamps.

Mesmo assim, não vai ser envergonhado pelo Carrillo. Bom, talvez uma ou duas vezes… Convém dizer que, internacionalmente, o Carrillo ainda é juvenil.

Álvaro Pereira: 83.
Carrillo: 68.

Zona «Não deixes o tipo tocar na bola»

Hierarquia de classe na Zona Não Deixes o Tipo Tocar na Bola: Volkswagen, Otamendi, Rolando.
Hierarquia de experiência em clássicos na Zona Não Deixes o Tipo Tocar na Bola: Rolando, Otamendi, Volkswagen.
Qual é que vai imperar? A segunda.

Há uma esperança para o Sporting: que o Volkswagen tenha esgotado o stock de azelhices em Coimbra e que se sinta minimamente pressionado para compensar neste jogo. Ter um novo ponta-de-lança a concorrer só lhe vai fazer bem. O melhor Volkswagen vai estar nitidamente acima do campeonato português não tarda nada, e a facilidade de jogar bem e marcar em alguns dos últimos jogos devem-no ter feito sentir que isto aqui em Portugal é papinha Cerelac, mas não é bem assim. Vai ser o jogo mais importante na curta carreira do holandês, e um em que se espera, realmente, que faça golos. Não há grandes pontas-de-lança sem golos nos grandes jogos.

Ainda assim, não me admiraria que ou o Rolando ou o Otamendi marcasse mais golos neste jogo do que ele.

O Rolando está no top da sua carreira e encontrou o seu lugar no Porto. Não estou absolutamente nada convencido de que o venham buscar com a celeridade de que se fala. Acho que é jogador para ficar no Porto mais quatro ou cinco anos. O Otamendi é um caso clínico do Vitor Pereira. Se houvesse mais centrais, mais jogariam. Joga o Maicon, joga o Mangala, joga toda a gente e o Otamendi, que é o melhor dos quatro, dá ideia de ser sempre o último a entrar. Se calhar sou eu que não vejo muitos jogos do Porto.

Otamendi: 82
Rolando: 80.
Van Volfswinkel: 77.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O mistério de Onyolga

É sempre complicado avaliar jogadores. Temos, para isso, sempre, de juntar o que o jogador vale agora, ao que o jogador podia valer, ao que o jogador já valeu, e isso ainda antes à parte de acertar na análise, que é onde tudo se complica. Mesmo aquela avaliação que fiz à equipa do Benfica, se a fizesse hoje, já havia coisas que mudaria. Houve jogadores a crescer, outros a decair, em alguns até mudei ligeiramente de ideias. O Nolito não vale, internacionalmente, o mesmo que valia em Agosto, nem o Artur, nem o Rodrigo, provavelmente nem o Saviola, pela negativa.



É, portanto, muito difícil avaliar os dois onzes de Sporting e Porto dessa forma. Como tal, vou fazer AINDA MAIIIIS!!!!!



Não só vou fazer o disparate de avaliar os jogadores de 1 a 100, sendo 100 um Messi e 1 um Esquessi, como os vou colocar em confronto posicional, não de defesa-direito com defesa-direito mas de defesa-direito com avançado-esquerdo, centrais com ponta-de-lança, e assim sucessivamente. À excepção dos guarda-redes, claro. Mais ainda: cada zona vai ter um nome.



Zona «Abram alas para o Noddy»

É curioso que o ponto fraco do Patrício e do Helton seja o mesmo: os remates de meia-distância. O Patrício também é vulnerável nos cruzamentos. Alguns dos golos que o Sporting sofre de bola parada têm muito da Patrício, mas o patrício tem uma coisa importantíssima num guarda-redes em ascensão: boa imprensa. É bom rapaz, ajuda os pobrezinhos, é um guarda-redes acima da média, uma excelente pessoa, sem dúvida, mas qulaquer cenário que envolva o Patrício a defender a baliza de um grande clube europeu, para já (e se calhar para sempre), é pura ficção ou empresários a venderem o peixe do Milan para acabar por comprar o do Génova, como aconteceu com o Veloso.

O Helton, na minha opinião, já era melhor guarda-redes que o Patrício quando chegou a Portugal e no Porto tornou-se um jogador de nível internacional. Não me escandalizaria ver o Helton a defender a baliza do Brasil, e se jogasse num Real Madrid, provavelmente, defenderia mesmo. Tem uma presença, uma liderança e uma personalidade que o Patrício não tem. O Helton é um dos segredos mais bem guardados do Porto, em todos os grandes títulos houve mão e, sobretudo, cabeça dele, e é o melhor guarda-redes a jogar em Portugal, na minha opinião. O Artur é o segundo, mas ainda tem muita relva para comer para conseguir provar, a alto nível, o que o Helton já provou em cinco anos como titular do Porto.

(Porra, se eu falar tanto de cada posição como falei da de guarda-redes começa o jogo e eu ainda aqui estou… Se calhar é melhor dividir isto em dois dias.)

Em resumo:

Hélton - 86

Rui Patrício – 72.



Zona «Que Filme É Este?»

O Djalma, que só está no Porto por causa da relação qualidade-custo (a qualidade não é por aí além mas o custo foi zero, com o bónus de roubar uma receita ao Carlos Pereira, do Marítimo), tem feito pela vida, mas a sua mais-valia profissional, neste momento, é ser um fetiche do Grande Timoneiro, que não só não põe o Cebola, como não põe o James à esquerda, como não põe o Varela (aliás, é difícil saber onde é que o GT põe quem e quando. Se os treinadores adversários ficarem tão instáveis como os próprios jogadores do Porto é uma estratégia válida.)

O Djalma até pode marcar um golo ao Sporting, basta estar em campo, mas isso não invalida que seja um jogador sem a classe suficiente para jogar no Porto.

Já o João Pereira, vai-se aguentando. Continua o maluco do costume, anda mais calminho em relação a porradas (ou menos exposto, depende da perspectiva) , mas volto a dizer que não é com ele que o Sporting vai a algum lado. Um dia destes vinha uma notícia num jornal a dizer que o Milan estava interessado no João Pereira. Leitura correcta da notícia: porra, temos de vender este artista no máximo até ao Verão, depois do Europeu, a um Saragoça qualquer, senão andamos mais não se quantos anos a apanhar com ele e a dar baldas pela direita. Uma coisa é o jogador estar em forma, como ele está, ou ter garra, como ele tem; outra é ser um jogador de nível internacional.

João Pereira – 70.

Djalma – 60.



Zona «Quantos são?»

A minha tendência aqui era de dar 94 ao Hulk e 93 à soma do Onyewu e do Polga, só para poder dizer: «Os dois não fazem um». Mas não chego a tanto.

Há uma coisa que sei: se o Pereira escolher este jogo para desinventar o Hulk a ponta-de-lança merece tudo o que de mau lhe vai acontecer num futuro relativamente próximo. Um Hulk, mesmo a 70 por cento, a jogar pelo chão, vai escavacar os rins ao Onyolga e, eventualmente, ao próprio Sporting. Aqui está um jogo em que o Hulk pode ser o jogador decisivo pelo qual o Porto pagou 22 milhões de euros, e aqui está uma zona em que o jogo se vai decidir.

Já aqui disse que o Hulk é, para mim, o melhor jogador em Portugal, e reafirmo. Não vai parecer tão bom quando sair, durante os primeiros tempos, mas não tenho dúvidas de que o Hulk, daqui a dois anos, vai estar entre os dez melhores jogadores do mundo – não, não me arece que se possa dizer que já esteja. Uma coisa é o Hulk a jogar no Porto, num campeonato desegunda linha europeia, outra é o Hulk a jogar no Manchester City. Não vou dizer que há muitos Hulks, mas há alguns.

Teria grande curiosidade em ver o que valeria o Porto se o Hulke se magoasse durante dois meses, por exemplo. O seu ascendente na equipa é tal que não conseguimos, sequer, determinar com clareza a importância relativa dos outros – o que valeriam sem o abono de família.

Já Onyolgas, há às pazadas. Há, no entanto, uma coisa que o Onyolga tem a seu favor. Os intangíveis. Há coisas que funcionam. Não se pode dizer que sejam boas. Não se consegue explicar bem o que as faz funcionar. Mas funcionam. Quem é que já não teve aquela televisão, ou aquele rádio, de marca Roscof, que, com frio, com calor, com humidade, com botões estragados, trabalha sempre, e que só deixa de funcionar quando decidimos comprar uma nova?

Outra possível maneira de explicar isto: se um sportinguista tivesse de escolher cinco jogadores, no início do ano, para não jogar, Onyewu e Polga não estariam entre eles? E neste momento, entre os cinco titulares indiscutíveis do Sporting, não estariam lá também. Mas em conjunto, claro. O Onyolga. O Onyewu, sobretudo,é o caso típico de como um jogador de equipa se torna fulcral não pelo que  faz mas pelo que faz os outros fazer. Os americanos têm uma expressão para este tipo de jogadores: chemistry players. Jogadores de química. Quando o que falta a uma equipa é o componente «O», Onyewu é tudo. Quando não é, Onyewu é um corpo a mais.

Como tal, vou fazer ainda pior do que o que disse – ou melhor, depende da importância que derem ao elemento colectivo:

Hulk – 94

Onyolga - 86



Zona «Rennie»

Naquele quadrado daquele lado vai ser uma azia pegada, para mim, benfiquista.

De um lado o James. Bem sei que o roubo do James Rodríguez pelo Porto foi um roubo da treta. O Porto viu o James primeiro, andou uns tempos para o comprar e acabou por só avançar quando o Benfica foi metido ao barulho aos trambolhões, não foi um roubo, foi mais uma simulação de um roubo para dar de comer ao pagode, mas não interessa: faz-me lembrar o Falcão, o Álvaro Pereira e outros, e isso chega para me dar azia.

Do outro, o Insúa. Palavra de honra que sempre que vejo o Insúa a jogar à bola penso: «Andámos nós um ano a saber que o Coentrão ia sair, à procura de um defesa-esquerdo, de dois defesas-esquerdos, a fazer propostas, a prospectar, passou o Natal, a Páscoa, passou o Verão, e no fim disto tudo acabamos com um suplente do Lille e com um espanhol de 35 anos que nem contra os juniores joga.

O Freitas pega no telefone, mete-se num avião, vai a Liverpool, e dois dias depois traz de lá o melhor defesa-esquerdo do campeonato.»

Fico com uma séria dúvida: quanto é que custa o Freitas? Porque, seja lá quanto custe, fica barato, de certeza.

Nem o James nem o Insúa vão ficar por cá muito tempo, nem estão perto do que vão valer. São classe pura, à espera do seu momento.

Refira-se que o TOC (também conhecido por Vítor Pereira) tem sido uma espécie de castrador químico do James. O rapaz bem quer rebentar, mas assim que começa a ganhar balanço ou muda de sítio ou deixa de jogar.

Vejo, no entanto, aqui, alguma vantagem para o Insúa, por uma questão de maturidade – mas não muita.

Valor internacional:

Insúa – 80

James – 74.



Zona «O normal é amigo do vulgar»

«Nunca percas a oportunidade de comprar um médio versátil que faça a bola rolar se já tiveres na tua equipa dois médios versáteis que fazem a bola rolar e só um é que joga.» Atendendo a esta lei fundamental da boa gestão, o Porto gastou 5 (6?) milhões de euros num médio belga versátil que faz a bola rolar.

Não estou a criticar a contratação de um médio que faça a bola rolar – aliás, todo o tipo de jogo do Porto está assente na capacidade dos médios fazerem a bola rolar quando e para onde ela deve rolar. Mas teria de acompanhar os jogos do Porto com a atenção de um adepto ferrenho (a de um normal não chegaria) para me aperceber da mais-valia do Defour em relação ao Guarín ou ao Belluschi – a não ser que a quebra de forma dos dois seja de tal forma gritante que não deixem ao treinador outra alternativa. Do que eu vi nos jogos em que eles jogaram, não me parece. Acho que o Defour joga por uma questão de pormenor, e acho estranho que se gaste 5 milhões numa questão de pormenor.

Tecnicamente, confesso que não sei bem o que dizer dele. Que corre muito? Que não perde muito a bola? Se calhar é isso. Há uma coisa em que é muito bom: em dizer à imprensa do seu país que o Porto é melhor que o Benfica, para justificar o facto do Witsel ser titular de caretas no Benfica e ele só agora ter começado a calçar no Porto.
A melhor referência que já se ouviu do Defour foi que o Ferguson pensou em contratá-lo quando ele tinha 19 anos.

Já o Daniel Carriço, começo a tomá-lo como um sintoma, daqueles que não desaparecem, e que provam que há uma doença. O Sporting toma uma aspirina e está lá o Carriço, porque é preciso vender alguém no Verão. Toma um antibiótico e está lá o Carriço, porque não há «referências» de balneário e o Carriço é capitão desde pequenino. Toma uma injecção de penicilina e está lá o Carriço, porque não há dinheiro para comprar centrais – era preciso que alguém lhe pegasse para haver. Faz quimioterapia e está lá o Carriço, porque, sem o Rinaudo, e na falta de quem jogue de cabeça nos cantos, todos a ajuda é pouca – mesmo um central que raramente ganha uma bola de cabeça.

(Aliás se o Sporting se viu aflito com os cantos do Benfica o Choramingos deve estar com os nervos em franja, a imaginar as cavalgadas sucessivas dos Maicons.)

O Carriço esteve a jogar no Chipre e ou muito me engano ou é lá que vai acabar. Não é que o Carriço seja mau jogador, porque nem é. É porque nem tem características para ser um especialista nem para ser um generalista do nível, por exemplo, do Defour.

Defour: 73

Daniel Carriço: 63



Mais logo há mais.

P.S. - Estou a pensar fazer uma transmissão em directo do Sporting-Porto, assim encontre na Internet um sítio que me deixe ver o jogo sem ir abaixo. Sem stresses, a coisa promete.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A costura está a rebentar

Com muita pena minha, estou completamente apertado de tempo. Gostava de dar uns lamirés sobre o Sporting-Porto, mas vou ter de me limitar ao telégrafo das noites pré-teste.



1 – Acho que o Porto errou ao adiantar o jogo da Taça da Liga. O facto do Domingos ter jogado com a equipa titular em Vila do Conde é uma boa prova de que não há nada como um jogo-treino mais a sério para queimar as frituras de Natal e pôr as pernas a mexer. Parece-me que o Sporting vai chegar com mais pedalada. Provavelmente foi o jogo para a Taça da Liga, nesta fase de grupos, em quatro anos, em que o Sporting pôs mais titulares a jogar, e fê-lo quatro dias antes do seu «jogo do título», como Porto. Isso parece-me significativo.

O Porto optou por treinar em vez de competir, basicamente, depois de dez dias de férias. Demonstra, na minha opinião, insegurança. Não acho normal, no Porto.

Aliás, não acho normal: a equipa que está junta há seis meses cumpre o calendário normalmente; a equipa que está junta há três anos prefere ficar a treinar em vez de competir. Posso estar a ter uma visão enviesada da coisa, mas…



2 – Não dei muita atenção à conferência de imprensa do Jota-Jota, mas na questão das Malvinas esteve bem. Querer mudar a realidade por decreto é a melhor forma de falhar, como está historicamente comprovado. É como fazer auto-estradas a torto e a direito para pessoas que ainda não existem, à espera que as pessoas as usem só porque as auto-estradas estão lá. Para mim é uma coisa que não faz sentido, mas enfim…

A questão das equipas B é igual. Enquanto as pessoas não perceberem que a razão para os futebolistas portugueses terem poucas oportunidades é única e exclusivamente económica, que não tem nada a ver com filosofias, com princípios, com legislações, ninguém vai a lado nenhum. Daqui a dois anos as equipas B vão estar carregadinhas de nigerianos, de argentinos, de brasileiros, por uma única razão: porque economicamente faz sentido. Havemos de voltar a isto.



3 – O Porto ainda não pagou o Sandro, e, segundo a propaganda, «encaixou 5 milhões» com Defour e Mangala quando, na verdade, se limitou a alienar um terço do passe dos jogadores ganhando ridiculamente pouco ou nada com isso, apenas para encaixar algum dinheiro que lhe permita comprar um avançado – o que, provavemente, só conseguirão fazer depois de vender o Guarín, sendo que isso só vai acontecer quando o clube que o comprar os estiver espremido até ao último tostão porque sabe que têm absolutamente de vender. Esperem…. Estão a ouvir?... São as costuras a rebentar.

Cada vez me convenço mais que a economia vai conseguir o que os políticos e os tribunais não tiveram coragem para fazer.

Lembro-me sempre da história do Al Capone, que foi preso por fuga aos impostos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Menino Jesus, a Criatura e outra coisa qualquer

Há uma série de coisas sobre as quais ando com vontade de escrever – o Jorge Jesus (e o Paulo Bento…), o calendário do que falta da época, uma comparação realista entre as equipas de Benfica e Porto (para fazer uma do Sporting teria de ver os jogos do Braga…eh, eh), e outras que por aqui andam, mas sinceramente isso merece-me mais tempo do que o que tenho tido, como se deve poder ver, aliás, pela assiduidade dos posts.



Para já há três coisas que quero dizer sobre aquilo que vou vendo de relance no jornais.



1 – Eu defino a qualidade de um treinador por aquilo que dizem e fazem os jogadores que não jogam. Não há treinadores perfeitos, mas há treinadores tão bons naquilo que fazem que nem os jogadores que não jogam têm coragem para dizer mal deles, e que são tão bons que, quando os suplentes são chamados, jogam tão bem ou melhor que os titulares. Não é preciso dar exemplos, e tenho a certeza que há um nome que, neste momento, já está na vossa cabeça, portanto escuso-me de o dizer.

Quando vejo o Enzo Pérez, como se fosse a coisa mais normal do mundo, a reunir-se com dirigentes de outro clube e a dizer que não quer regressar a Portugal, e o Rodrigo Mora a mesma coisa, e o Miguel Vítor a querer sair, e o Amorim, e o Capdevilla (que não diz nada mas também não precisa porque o agente fala por ele), e até o agente do Nolito a refilar, concluo que o Jesus é o típico treinador de titulares, no pior que isso tem.

Nunca gostei de treinadores de titulares – se calhar porque quando joguei basquete não era titular e sentia que para o treinador havia filhos e enteados (não era porque eu fosse melhor que os titulares, mas era porque, quando só se dá atenção a uma parte do plantel e se despreza os outros, não há espírito de equipa, há espírito de alguma equipa.



2 – O problema do Hulk não são os 100 milhões. Quem fala em 100 milhões, desculpem lá se alguém se ofende, é atrasado mental. Até hoje não houve um único jogador, no Porto, a sair pela cláusula de rescisão – nem o Falcão, que precisou dos milhões da treta do Dois Dedos  Micael para bater os 45 –, e agora ia ser o primeiro logo por 100 milhões? Ridículo.

O problema do Hulk também não é o sair a meio da época, porque o Hulk não vai sair a meio da época – seria mostrar a bandeira branca ao Benfica, na prática, porque se alguma vantagem o Porto tem, neste momento, é o Hulk. Se o Porto o vender vai vendê-lo agora para o libertar no final da época, mesmo que perca algum dinheiro com isso, como o Benfica perderá com o Gaitán se fizer o negócio de que se fala com o Manchester United. De qualquer forma, não acredito que o Porto venda o Hulk antes de Junho.

O problema da Criatura é que já custou 22 milhões de euros e o Porto só tem 85 por cento dela.

Coloquemos uma transferência do Hulk em valores realistas: 50 milhões de euros. Que se lixe, uma vez que há sheiks ao barulho, como o próprio Hulk já confirmou, vamos colocá-lo em valores irrealistas: 60 milhões.

Vamos tirar 5 por cento (que podem ser mais) de comissões. São 3 milhões. Sobram 57.

85 por cento de 57 milhões são 48 milhões. Sobram 26 milhões.

26 milhões foi o que o Porto gastou nos dois laterais que fez questão de roubar ao Benfica no Verão.

26 milhões de lucro com o Hulk, por Incrível que pareça, é pouco. É o que o Benfica está para ganhar com o Gaitán, que ao pé do Hulk, na Europa, é júnior.

Agora,  por puro divertimento, vão baixando o valor da transferência e cheguem a um número pelo qual achem que vale a pena vender o Hulk.

Não se compra um jogador por 22 milhões de euros para ganhar dinheiro mas para ganhar títulos. Ora, quando se vende um jogador que se compra para ganhar títulos o que é que isso quer dizer, para o resto da equipa e para os adeptos?



3 – Só há uma boa razão para o Benfica gastar 300 mil euros a comprar um Djaniny à União de Leiria, e não é o Djaniny: é construir fidelidades.

Acho uma excelente política o Benfica servir de banco aos clubes portugueses, todos eles endividados. Aliás, se eu tivesse de escolher, por exemplo, entre gastar 2,5 milhões de euros com um Kardec qualquer e gastar esses 2,5 milhões a fingir que compro jogadores para, na prática, financiar encapotadamente os clubes que disputam os campeonatos nacionais em Portugal, não duvidem que escolho a segunda. É muito mais importante para o Benfica ter aliados a sério nos clubes portugueses, de Norte a Sul, e sobretudo no Norte, a comprar mais suplentes. A diferença de dimensão entre o Benfica e os clubes pequenos, em Portugal, é tão grande que o que o Benfica gasta em lixo, todos os anos, tirava os clubes todos da I Liga, abaixo do sexto lugar, do vermelho. E não é suposto aproveitar-se esse poder? Ai não que não aproveitava. Venham mais Djaninis para emprestar ao Covilhã e ao Atlético e ao Granada, e venham em força. Grande parte do poder que o Porto reuniu ao longo dos anos resultou desse jogo de fidelidades improváveis, e entre resultados e jogadores comprados e vendidos com lucro vejam quanto ganhou. Porque não há-se o Benfica fazer mais e melhor se é maior e melhor?

Quanto ao resto, um caboverdiano que veio das Distritais dos Açores e que se chama Djaniny não é um jogador da bola, é uma personagem de romance ou é outra coisa qualquer. Eu gosto. Dava uma grande história de Natal. Mas...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Máquina, Momento, Aleatoriedade

Agora que já todos chegámos à conclusão de que o principal adversário do Sporting no campeonato é o Braga, querlo dizer que não vejo, no plantel do Porto, e em relação ao do Benfica, uma superioridade suficiente para ser um factor relevante na decisão do campeonato. Acho que há três factores, de facto, que vão ser decisivos:
- a Máquina;

- o Momento;

- a Aleatoriedade (porque, se lhe chamasse sorte, pareceria conversa da treta. Desta forma, apesar de a palavra significar exactamente a mesma coisa, dá um ar mais científico…).



A Máquina

O mais notável no Porto é que é uma verdadeira máquina de competição. No Porto tudo está pensado de forma a competir. Essa é a verdadeira força do Porto, e tudo o resto gravita em redor disso – a forma de jogar, a forma de escolher jogadores, a forma de tentar controlar resultados, tudo é abordado de uma forma pragmática: «Isto serve para ganhar?»

A propósito da corrupção, de que o Pinto da Costa falou este fim-de-semana – dando início ao verdadeiro campeonato – devo dizer que não gosto que o Benfica seja campeão graças à corrupção de árbitros, mas que não me importo, realmente, que o Benfica ganhe o campeonato ao Porto graças à corrupção de árbitros. É uma questão de saber jogar com as regras do jogo. O mesmo homem que vem dizer que Duarte Gomes é corrupto é o maior corrupto na história do futebol português, e nada e ninguém o impedem de continuar a ser presidente do clube campeão nacional. Como tal, as regras do jogo estão delineadas. Se é com essas regras que as pessoas querem viver, da minha parte, só há uma alternativa: ganhar dentro dessas regras. Não se está a falar de pudores, de ética, do que devia ser, do que era bonito se fosse – está a falar-se do que é. Obviamente, ninguém se importa realmente que se corrompa resultados desportivos em Portugal. Sendo assim, bola para a frente. O Benfica já percebeu, o Sporting está a perceber, e isso evita que só haja uma equipa em campo para ganhar e as outras para bater palmas. Se a chave para ganhar é corromper árbitros, que se corrompa muito, que se corrompa bem e que se corrompa em força. Quando os corruptos tiverem perdido o suficiente para decidirem que tem de deixar de haver corrupção, então arranja-se qualquer coisa. Mas negociando a partir do lugar de cima. Ou então quando já estiver tudo queimado, incluindo os lugares para nos sentarmos. Também serve. As restrições éticas para se ganhar ao Porto, na minha opinião, são zero. Ao Porto. Não me importo nada que o Porto seja roubado vinte vezes em vinte jogos. A corrupção é como o doping (aliás, o doping é corrupção): ou há moral ou comem todos. Se já fui suficientemente claro, sigamos em frente.

A máquina do Porto está em plena carburação. O papa saiu à rua depois de um não-erro irrelevante, e isso é um sinal. A capacidade de criar factos políticos é um dos domínios da propaganda portista, e condiciona tanto ou mais os resultados como a eventual corrupção dos árbitros. Muitas vezes os árbitros erram mais por estarem mentalmente condicionados que por terem algum interesse particular no erro.

Ao pé da máquina portista, que tem uma tarimba de três décadas, a congénere benfiquista passa sempre uma ideia de menoridade, quer em volume de trabalho quer em qualidade. Não demonstra tanta solidez. Dá a ideia de que depende muito de uma ou duas pessoas, talvez porque o presidente é obrigado a falar demais para passar a mensagem – há o Gabriel, de vem em quando aparece o Rui Costa, qualquer tótó na SIC ou na TVI facilmente inflecte ou desvirtua a mensagem, e enfraquece o objectivo inicial. No Porto, por exemplo, a construção do discurso parece mais metódica – há todo um processo de construção da mensagem pelos agentes de base (os próprios jornalistas, devidamente industriados pela estrutura) e o papa só aparece quando é preciso, para rematar ou, quando se justifica, para despoletar. Há um processo funcional, metódico e de resultados experimentados e comprovados.

Ao nível da gestão do mercado, a mesma coisa.

Janeiro será importante para se perceber se o Benfica, na parte de dentro, conseguiu realmente equilibrar as coisas, se conseguiu evoluir, ou se está vulnerável. Não é que o Benfica esteja frágil, porque não está – tem uma linha condutora, tem relativa uniformidade de discurso, o poder está bem definido e bem orientado – mas quando se vai para a guerra nunca é apenas a nossa força que conta, é sobretudo o que vale a nossa força comparada com a força do outro. Porque, por mais fortes que sejamos, se o outro for mais fortes acabamos igualmente mortos.

Na questão do mercado o Porto parece vulnerável. Está com evidentes problemas financeiros, e aí a máquina está condicionada, mas nem por isso vai facilitar, Já toda a gente percebeu o que está em jogo. Como escrevi ontem, este campeonato é o único verdadeiro braço-de-ferro entre Porto e Benfica nos últimos quase vinte anos. Porto e o Benfica só não vão gastar o que não conseguirem inventar, e no fim da época, ou daqui a dois ou três anos, logo se verá o que para pagar.

O mercado de Inverno não é uma boa solução, por natureza, geralmente melhora pouco – mas esse pouco, neste caso, pode ser o suficiente. Vejo o Benfica com pelo menos três jogadores novos em Janeiro, e o Porto com dois (um ponta de lança é certo, dois é possível) além de Danilo. Quando e como os vão pagar não sei. Nem eles.



O Momento

Para o Benfica, o cenário está criado mas o momento já não está montado. O que se vai ver, logo no dia 27 de Dezembro (aquela altura do ano em que que os nossos machos latinos vão a casa e ficam com tantas, mas com tantas saudades da comida da mamã que pensam duas vezes antes de voltar), é se os jogadores do Benfica vêm de férias ou se vêm de férias. Porque uma coisa é vir de férias, outra coisa é vir trabalhar. Quando o trabalho que nos espera é uma luta titânica, de dimensões históricas, que ou acaba em glória ou acaba em tragédia, é relativamente importante vir com a mentalidade certa quando o avião aterra em Lisboa.

Para o Porto, que começou mais tarde, que andou a dar as baldas próprias da ressaca e que entrou para esta temporada sob a influência da novidade e da refocagem (o Porto sabe, hoje, que aquilo por que está a competir não é o mesmo que era em Agosto, e que o local onde está também não é o mesmo que era nessa altura) Janeiro marca mais um início da época que um reinício.

Para o Benfica, que começou a época mais cedo, na merda, e que teve de lutar arduamente apenas para voltar a um ponto competitivo de base que lhe permite, agora, começar realmente a competir, em Janeiro é mais uma segunda época, dentro da época, a que se inicia. É como ter férias depois de alcançar um objectivo e começar do princípio, enquanto o Porto ainda não alcançou objectivo nenhum e vai começar agora. Neste intervalo, o momento que a equipa criou pode sofrer dois caminhos: ou cai, e desaparece lentamente; ou cresce, e se torna vencedor. Parado não fica. O futebol é dinâmico, sempre. Não há imobilidade. Ou se está a descer ou se está a subir. O que permite subentender que o que o Benfica fez até agora não é suficiente para ser campeão.

Tenho poucas dúvidas em considerar o jogo com a União de Leiria um dos três mais importantes do Benfica neste segundo campeonato, e não dou absolutamente nada por seguro que o Benfica vá ganhar à Marinha Grande.



A Aleatoriedade

Quando falo em aleatoriedade, mais do que no pontapé que vai ao poste, falo dos factores externos à equipa e inerentes ao próprio jogo, e não me refiro a arbitragens.

Refiro-me, por exemplo, a lesões. Vamos imaginar que o Hulk se lesiona. O Porto não ficaria afastado do campeonato, porque as coisas não funcionam assim, mas seria a mesma coisa ter ou não ter o Hulk?

Refiro-me aos adversários. O facto de um adversário chegar em forma ou fora de forma ao jogo não depende de Benfica ou Porto, mas pode, coincidindo com um momento mais fraco de um deles, ditar um resultado mais ou menos propício.

Refiro-me a oscilações de forma. Imaginemos que Saviola (só para dar o exemplo que eu quero mesmo, mesmo muito que aconteça, uma vez que preferia ser campeão contra o Hulk do que sem o Hulk, para calar muita arara que para aí anda…) deixa, de um momento para o outro, de passar a bola um metro atrás e começa a acertar, quer no companheiro quer na baliza. Ou que o James, contra todas as tentativas de massificação do Grande Timoneiro, vê cair sobre si a luz, sem trabalhar nem mais nem menos do que antes, e dá o salto que ameaçou dar no princípio da época e que foi tolhido a meio pelo brilhantismo táctico-administrativo do seu treinador? Estaríamos, aqui, a falar de uma subida qualitativa de qualquer uma das equipas que desequilibraria a luta para um dos lados.

Refiro-me ao sorteio e à conjugação de jogos. Tenho poucas dúvidas de que o apuramento do Porto, na Liga Europa, frente ao City, condicionaria fortemente a sua prestação na recta final do campeonato. E quanto ao Benfica, se eliminar o Zenit e lhe sair, nos quartos-de-final, por exemplo, um Nápoles, um Lyon, um Leverkussen (uma hipótese em 5 mil, bem sei, mas ainda assim uma hipótese), já para não falar de um APOEL de Nicósia, que alternativa teria senão, a partir desse momento, encarar uma presença nas meias-finais da Champions League, algo que nunca conseguiu, como um objectivo tão importante como ser campeão? E se o Porto, nessa altura, tiver só o campeonato para disputar? Decisivo, certamente.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ansaldi ou sem ser em Saldi

Chamo a atenção para um facto que pode não ser imediatamente apreensível a toda a gente, dada a quantidade de contra-informação que rodeia as três equipas grandes: é a primeira vez em 19 anos que Benfica e Porto entram no ano civil em luta directa e com hipóteses REAIS de ganhar o campeonato um ao outro.
Isto pode parecer mentira, porque se cria a ideia de que a competitividade está ao mesmo nível da rivalidade, mas é verdade. Nos anos em que o Benfica foi campeão (1994, 2005 e 2010) o Porto ficou fora da corrida, de facto, relativamente cedo. Os segundos classificados seriam Sporting (duas vezes) e Braga. Quando o Porto foi campeão o Benfica ou nem sequer em segundo acabou ou, quando acabou (lembro-me do Souness, por exemplo, ou do Koeman) estava já longe pelo Natal.

Depois de 1993 (jogavam o Futre, o Paulo Sousa e o Rui Costa no Benfica, vejam lá bem!), nem Benfica nem Porto disputaram um verdadeiro mano-a-mano ao pôr-do-sol, depois do Ano Novo. Vai acontecer este ano.

Por isso eu declaro: quer o papa quer o Vieira estão a fazer bluff. Não vai acontecer contenção no mercado de inverno. Vai haver investimento e do forte. O Benfica não vai ficar pelo defesa-esquerdo, seja Ansaldi não seja em Saldi. Até pode ser acima da tabela de preços. Vai comprar mais. E o Porto não se vai limitar a vender. Vai vender, sim – o Guarín, pelo menos, vai à vida, e provavelmente mais um ou dois – mas também vai comprar, e também não vai ser pouco.

A crise?

Não brinquem comigo. Os clubes portugueses não estão em crise – os clubes portugueses nunca deixaram de estar em crise. Têm dívidas colossais, e nunca foi isso que os impediu de gastar forte e feio. Pelo contrário: se há algo que move os três grandes clubes portugueses é o medo de ficar para trás por não se gastar o suficiente.

Acredito que o Sporting não vá seguir o mesmo caminho dos outros dois pela simples razão de ainda não estar na época certa, mas se chegar ao Natal de 2012 nas condições em que chega ao de 2011 nem sequer vai pensar duas vezes.

Isto leva-nos à necessidade de nos prepararmos para um dos meses de Janeiro mais quentes na história do futebol português. Vai ser só para os corações fortes.

Aproveitem bem o Natal para descansar, portanto.



Pessoalmente devo dizer que a derrota do Sporting não me agradaria. Agradava-me mais que o Sporting chegasse ao jogo do Porto com a possibilidade de ficar apenas a 1 ponto, ou mesmo a 3. Há uma diferença importante entre seis e sete pontos de distância. Seis são dois maus resultados que o outro tem de ter, eventualmente três; sete são três, eventualmente quatro. Na cabeça dos jogadores faz diferença. Se não fizer é porque são estúpidos.

Em dezassete jogos, quando quer Benfica quer Porto fizeram três empates cada um em treze jornadas (sendo um deles entre si), a necessidade de ter de se esperar mesmo um mau resultado por parte dos adversários é importante, e seria puramente fictício, nessa perspectiva, dar qualquer tipo de hipótese ao Sporting de ser campeão. Se podia ser? Podia. Se pode ser mesmo? Não. Aliás devo dizer que o empate é igualmente mortífero para as hipóteses do Sporting.  Só não parece tão mau, e dá para ir disfarçando nas conferências de imprensa, mas na prática é.

Por outro lado, qualquer hipótese que queira ter de ir pelo menos à Liga dos Campeões, e de salvar o campeonato, para o Sporting, implica ganhar ao Porto e ganhar em Braga.

Acho que vai conseguir uma dessas vitórias. No primeiro jogo.

Aliás, estou convencido de que o Sporting vai fazer um grande jogo frente ao Porto. Um jogo que vale uma época.



Porto (IRPR = 0.196)

A arbitragem pode ser um factor de acréscimo ou de diminuição de pressão, e eu levo-a em conta, quando há decisões erradas suficientemente importantes, mesmo que não fale delas. Neste caso falo da decisão do facebook do Duarte Gomes, só para dizer que não houve influência do árbitro, nesse lance, no resultado, porque na minha opinião não há penálti. Há dois jogadores em corrida que chocam porque o que conduzia a bola a adiantou e perdeu o seu controlo. Há tanto falta do defesa como do atacante (ou seja, nenhuma) porque a bola já não era de nenhum dos dois, e o contacto é provocado por ambos, simplesmente o defesa começou a travar mais cedo e o atacante continuou a correr para tentar sacar a falta. A decisão do Duarte Gomes em campo foi certa, a do facebook, depois de apanhar com o sermão do papa e sem ninguém para o proteger, foi errada.

No jogo do Sporting aconteceu uma coisa muito parecida que, na prática, é igual: ao minuto 50, na joga em que o Volkswagen aparece na área e acaba por chutar ao lado, continua a correr e acaba por tropeçar no guarda-redes antes da bola sair pela linha. Ou seja, com a bola em jogo, mas fora do alcance de toda a gente, há contacto na área, Alguém protestou penálti? Não. Porquê? Porque não faz sentido. A bola está em jogo, não é de ninguém e ninguém ganha vantagem pelo contacto, como tal não se marca falta. Simples. Há muitas jogadas como estas. A do Insúa é outra. Há o choque quando a bola já não está ao alcance de nenhum dos dois. E praticamente nunca se marca falta. Quando se marca é que está errado.

O Porto jogou uma hora contra dez e a pressão que sofreu foi autoinflingida, por ineficácia. Não vou menosprezar o facto de ter chegado aos últimos 15 minutos a empatar, mas não devo esquecer que o Porto tinha tudo a seu favor para nem sequer chegar a permitir que isso não acontecesse – a jogar em casa, com o Marítimo, que vinha sem quatro titulares, incluindo todo o meio-campo defensivo, e ficou com dez à meia-hora.



Sporting (IRPR = 0.175)

O falhanço do Volkswagen aos 2 minutos do jogo completou, oficialmente, a trilogia «Golos Feitos e Perdidos Mais Estúpidos do Universo», depois do Élio, do Beira-Mar, e do Cardozo, na Madeira. Não só o Sporting não voltaria a ter uma oportunidade assim no jogo como não voltará a ter uma oportunidade assim até ao fim do campeonato. Os jogadores não sentiram a pressão, mas qualquer observador minimamente atento percebe que quem perde oportunidades assim acaba a chorar sete vezes em dez quando os jogos são complicados, como era o caso.

A Académica marca primeiro, já com meia-hora de jogo, e se chega ao intervalo sem sofrer  o empate o Sporting, nessa altura a sete pontos do primeiro lugar, tem um problema bicudo para resolver.

Chegou.

A questão principal, para quem joga para ser campeão, é que raramente um empate serve. Quando se está a sete pontos do primeiro, não serve mesmo.

Também convém dizer que, na minha opinião, o Sporting fez o melhor jogo dos três grandes, tendo em conta o adversário e a prestação colectiva – mas isto é um índice de resultados, não de exibições.



Benfica (IRPR = 0.171)

O facto de ter sofrido o golo primeiro é um factor de pressão, mas o decorrer do jogo, e o desenrolar do próprio marcador, retirou rapidamente esse peso de cima da equipa. Em dez minutos, com uma grande ajuda do adversário, o Benfica já estava a ganhar. A debilidade defensiva da equipa do Rio Ave, aliás, foi o melhor jogador do Benfica. Luisão e Gaitán não jogaram de início por opção, não por impedimento.

Disse, antes do jogo, que este tinha o potencial para ser uma grande armadilha para o Benfica, e até aos 25 minutos quem tivesse lido isso acabaria por concluir o mesmo, mas depois a bomba desarmadilhou-se sozinha. Pressão até houve, mas foi pouca.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Porto elimina o City

Havia sorteios muito piores para o Porto do que o Manchester City.
O óbvio é que um Porto em défice vai enfrentar a melhor equipa inglesa do momento.

O que não é óbvio?

Antes de mais, nem é garantido que a melhor equipa inglesa deste momento seja a melhor equipa inglesa em Fevereiro nem é garantido que o Porto de Fevereiro esteja tão em baixo como o Porto actual – apesar do meu palpite ser que enquanto o City vai estar abaixo do que está o Porto mantém como está ou piora, porque não há nenhuma razão objectiva para ficar melhor. Mas nem sequer é por isso que o sorteio não foi tão mau como parece.

Para as equipas inglesas de primeira linha a Liga Europa, como bem disse Alex Ferguson, é «um castigo». O City vai respeitar o Porto – aliás, haveria poucos adversários que o City respeitasse mais que o Porto – o que o City não vai respeitar é a própria competição.
Em Inglaterra a Liga Europa é a competição própria dos Stoke City, Fulham, este ano até o Birmingham, da II Divisão, e outros. Vê-se, por exemplo, a atenção que lhe deu o Tottenham, que está a fazer um excelente campeonato, poderia facilmente estar nesta fase e a tratou com a mesma displicência que está guardada para a Taça da Liga.
O City (sobretudo em Fevereiro, em pleno Inverno inglês, no momento fulcral da decisão do título da Premier League) vai-se estar a marimbar para a Liga Europa. Não quer dizer que jogue só com suplentes, mas se o jogo da primeira mão lhe correr mal não me admirava nada que fosse isso o aconteceria na segunda.

Podem dizer-me que mesmo a segunda equipa do City é fortíssima. Não concordo. A primeira equipa do City é uma boa equipa, mas mesmo essa só o é, realmente, a nível interno, e jogar internamente ou na Europa não é a mesma coisa. Teoricamente, o Manchester City teria passado facilmente à fase seguinte da Champions. Na prática, uma equipa competitiva italiana e com rotinas europeias eliminou-o. O City andou dois anos a ganhar experiência interna, a adquirir rotinas para lutar pelo título, e só agora mostra capacidade para andar na luta, muito por culpa das más épocas de United e Chelsea. Na Europa, onde mais do que jogar bem é importante saber como jogar cada jogo, é uma equipa imatura – ao contrário do Porto.
A segunda equipa do City, sem ser banal, é uma equipa vulgar com dois ou três bons jogadores e sem ritmo nem sede competitiva. A do City e a de toda a gente.
A história do «aproveitar  as oportunidades» é lirismo. O futebolista é um animal de competição. Se pass a vida no banco é um animal voluntária ou involuntariamente domesticado.

Ao contrário do City, que está totalmente concentrado no campeonato, o Porto estará motivado para a eliminatória, e jogará com a melhor equipa. Os seus jogadores sentirão que têm a última oportunidade de brilhar na Europa – perder seria um autêntico desastre para o Porto. É uma eliminatória muito mais importante para portugueses que para ingleses, e o Porto, sabendo que tem a seguir Sporting ou Legia de Varsóvia, sente, legitimamente, que tem o caminho aberto para os quartos-de-final e, provavelmente, até às meias-finais, se eliminar o City, dados os adversários que restam. Não vai ser fácil ao Porto, futebolisticamente falando, defrontar o City, mas em termos motivacionais sim.



Aliás, um Porto normal chega à final desta Liga Europa. Resta saber a que nível de normalidade consegue levar o Porto o actual treinador.



Há ainda a considerar o factor campeonato. O Porto tem seis jornadas para jogar até acabar a eliminatória com o City. Se, por acaso, se cavar uma diferença de três ou quatro pontos para o Benfica até essa altura, é muito natural que o Porto passe a dar mais importância à Liga Europa do que a que eventualmente daria. E, passando esta eliminatória, a vitória na Liga passa a ser um cenário altamente concretizável, e capaz de fazer dispersar as atenções da equipa.



Seja como for, penso que o Porto vai passar a eliminatória com o Manchester City, e que provavelmente estaremos aqui, no fim da época, a falar sobre como foi importante, para o insucesso do Porto no campeonato, a eliminação da Champions League  e a carreira longa na Liga Europa.



Escusado será dizer que, na minha opinião, o Sporting não passa dos oitavos-de-final da Liga Europa deste ano.



Aliás, se eu tivesse de apostar, neste momento, seria assim:

Benfica – vitória no campeonato

Sporting – vitória na Taça de Portugal

Porto – vitória na Taça da Liga e meias-finais da Liga Europa (a Hipertaça Cândido de Oliveira, para mim, é um torneio de pré-época).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

«Agora pára, se fazes favor»

Como terão percebido já comecei a funcionar numa lógica inversa. O raciocínio, para mim, já parte de outra base. Não é «o Benfica vai ser campeão porque ganhou na Madeira». É «o Benfica vai ganhar na Madeira porque vai ser campeão».
Wishful thinking, dir-se-á. Pior do que isso: pleno convencimento.

Estava a ver o jogo com o Marítimo, um olho no burro e outro no cigano (o burro era o tipo que eu estava a ler e o cigano era o Jesus) e entrei nos últimos dez minutos a pensar: «Eh pá, está mesmo complicado. Mas que volta é que isto vai dar para o Benfica ganhar?» Porque quem não ganha na Madeira muito dificilmente é campeão. E lá deu a volta.

É por estas e por outras que já não me desconvenço. Quais? Esta, por exemplo: dos outros quatro primeiros classificados o Benfica já jogou fora com três – Porto, Braga e Marítimo – juntando-se a estes o sempre traiçoeiro Nacional e, em casa, o Sporting.

Nada que se compare com Porto ou Sporting. E está à frente do campeonato.

É claro que, se baquear nos jogos contra os Setúbais (o se aqui é meramente académico, dada a minha lógica inversa, bem entendido), nem o Benfica nem ninguém é campeão. Mas se alguma coisa é lógico, neste momento, é que o Benfica seja campeão. Vai perder um jogo algures (tal como o Porto e o Sporting, aliás) e empatar mais três ou quatro (provavelmente um deles em Alvalade) e será campeão.

Lamento retirar-vos a emoção, mas quem anda por aqui arrisca-se a ser totalmente afogado pelo puro e traumático racionalismo da Religião Nacional.



Em relação ao jogo, penso que é justo dizer que estamos, de facto, a assistir ao pleno processo de desaceleração física de uma equipa que começou a competir um mês antes das outras. Nota-se isso em muitos pormenores. Quando Aimar falha aquela jogada em frente ao guarda-redes, por exemplo, o défice não é de técnica, é de frescura.

A incapacidade de fazer mudanças de velocidade, a dificuldade em recuperar defensivamente contra uma equipa a jogar com dez, alguns falhanços, o jogo completamente perro são claros indícios de fadiga, tanto física como mental. E não deixo de considerar as lesões de Luisão e Gaitán, dois dos mais usados, como uma vertente dessa fadiga. Quando dois jogadores têm lesões musculares em lances perfeitamente normais isso é, claramente, o corpo a dar de si, a dizer: «Agora pára, se fazes favor».

Aliás, comparem o volume de golos marcados de um mês para o outro e verão bem a diferença de frescura na hora de rematar. Os golos falam enormidades. Uma equipa que não está fresca, de músculos e de cabeça, não consegue marcar muitos golos.



Se ganhar ao Rio Ave, contudo, o Benfica passará praticamente incólume por Dezembro – não considerando a eliminação da Taça, que por esta altura já deve saber muito bem a muita gente que (muito justamente) andava com a azia ainda há uma semana.

O jogo do Rio Ave, contra toda a lógica, é bastante problemático para o Benfica. Um jogo propício para facilitar e dar 45 minutos de avanço, confiando no golito que há-de aparecer, mas sem pernas para carregar em força na segunda parte, e frente a uma equipa bem treinada, em claro crescendo, e a jogar em velocidade no contra-ataque.

Além disso, os jogadores também sabem ler tabelas classificativas e ver calendários, e não há nenhum que possa dizer, honestamente, que o pior já não passou. O Rio Ave vai marcar na Luz, e o momento e que marcar será relevante para o resultado final. A forma como os jogadores do Benfica encararem o último jogo antes das férias será determinante.



Deixo para os próximos dias a minha análise táctica deste Benfica e, a talho de foice, o prazo de validade do Jesus. Está decidido.



Em relação ao Porto, tudo normal. Não vale a pena falar do falhanço na última jogada. Basta ver, e sentir a angústia que fica em toda a gente, muito mal disfarçada pelo Grande Timoneiro (atenção que o Grande Timoneiro não é o Pinto da Costa, é o mesmo o Pereira – private joke…), que, a pedido da «estrutura», recebeu uma palavra de apoio pública da Criatura, mais falsa que Judas. «Uma excelente pessoa», disse ele. Já estão apelar ao coração. Querem estabelecer um mínimo laço afectivo dos adeptos com o treinador. Pelas reacções dos adeptos, a começar pelos acompanhadores da equipa nos jornais, que são uma espécie de vox populi, vão longe…

O Porto vai ganhar facilmente ao Marítimo – foi, aliás, o grande beneficiado pela arbitragem de Jorge de Sousa no Funchal – e, em Alvalade, perder a liderança do campeonato. Fazendo o seu resultado mau de quatro em quatro jornadas, como sucederá até ao fim da época. Não esperem mais do que isso. O Porto não acabará o campeonato abaixo do segundo lugar.



Já quanto ao Sporting, penso que está a começar a ter problemas. O balão esvaziou, claramente, na Luz; foi relegado para o papel secundário que pretendia ter no começo da Liga e o calendário favorável acabou. Vai ter problemas em Coimbra, com uma Académica que está alguns pontos abaixo do que realmente vale, vai ter problemas para ganhar ao Marítimo para a Taça, em casa, e vamos ver como vem do Natal, com dois jogos decisivos, frente a Porto e Braga.

Mas esta equipa do Sporting é uma equipa com muita piada, futebolisticamente falando. É, aliás, das coisas mais curiosas que aconteceu no futebol português nos últimos anos. Falaremos disso depois.



Benfica (IRPR = 0.441)

Um jogo realmente difícil, em termos de pressão, para o Benfica, só aliviada pela expulsão (justíssima) de um jogador do Marítimo na segunda parte. Se tivesse ganho a jogar contra 11 este teria de ser considerado uma das quatro melhores prestações sob pressão de uma equipa sem Luisão, sem Gaitán, sem espaço para sequer empatar depois da vitória do Porto na véspera, num campo dificílimo, perante a quinta melhor equipa portuguesa da actualidade. Este é um daqueles jogos que cheira a título. Um daqueles de que se diz, quando se perde um campeonato, que «ficaram dois pontos na Madeira.» Não ficaram.



Porto (IRPR = 0.261)

Não é possível menosprezar o facto do Porto ter sofrido o golo inicial a poucos minutos do intervalo, frente a uma equipa muito defensiva – mas também não é possível ignorar a natureza do falhanço do Beira-Mar na última jogada, em que o Porto falhou, claramente, e só não perdeu por demérito alheio. Nesse falhanço, nesse contexto (sem dar azo a recuperações) foi-se a pressão quase toda…



Sporting (IRPR= 0.122)

Contra o último classificado, em casa, com uma semana de descanso, a maior pressão para o Sporting parece ter vindo da casa cheia. E pôs-se mesmo a jeito.

P.S. - Correu bem, muito obrigado. Se a professora me dá menos de 15 ofereço-lhe um cachecol lacoste no Natal.