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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Futebol quântico

Há um segredo por revelar e que joga a favor do Benfica nestes últimos 30 dias de competição. É possível que eu possa estar a dar azar ao falar disto, mas, considerando que já lixei o campeonato ao Benfica ao dizer que não íamos perder com o Porto em casa, espero que isto permite reverter o feitiço (porque só se eu conseguir reverter o feitiço é que temos a mínima hipótese de ainda ganhar isto, obviamente).

O segredo é este: entrámos no plano do irracional.

Basta olhar para os sinais. Começando por Olhão, para não irmos mais longe. Saviola falha um golo feito no último remate do jogo e o Benfica fica com o campeonato pendurado por um cabelo. Dois dias depois, em Paços de Ferreira, o Porto desperdiça cerca de 10 golos em frente ao guarda-redes e, a 8 minutos do fim, com o título no bolso, sofre um golo de canto com o jogador do Paços a marcar de cabeça no centro da área, sem um único jogador do Porto saltar. Juro pela saúde dos meus filhos que, desde que vejo futebol, nunca vi o Porto sofrer um golo destes numa situação destas. Nunca. Jamais. Em tempo algum. Ponto final, parágrafo. Eu, se fosse do Porto, depois daquele jogo, teria sentido o mesmo que um japonês ao ver chegar a tsunami.

Mas calma. Não é tudo.

No sábado, o Porto vê os seus dois rivais chegarem aos 78 minutos com o resultado que lhe interessava. O Benfica ficaria fora do campeonato. E o Benfica estava morto. O Elderson faz um penálti de apanhados. Com o Cardozo no banco e três tipos à volta da bola sem saber o que lhe fazer até ao próprio Cardozo mandar, do banco, que fosse o Witsel a marcar (leiam no Jogo, está muito bem sacada a notícia). Golo. Três minutos depois o Braga empata outra vez. Tudo perfeito, outra vez. E, de repente, na última jogada, o Gaitán e o Chuta-Chuta sacam um coelho da cartola. Duas vezes, no espaço de uma semana, o Porto vê fugir, por minutos (por segundos!), em jogadas insólitas, um campeonato que já esteve a perder por 5 pontos e a liderar por 3. Quero aqui remeter para o vídeo já indicado, mas avançando 30 segundos, por favor – quando já chegou a segunda vaga e a água subiu mais cinco metros...

Mas calma, não é tudo.

No meio disto há o Chelsea. Do David Luiz, do Ramires e do Villas-Boas. Um Chelsea de segunda categoria que, salvando-se até de um dos penáltis mais escandalosos que alguma vez não se marcaram nuns quartos-de-final da Champions, ganha por 1-0.

Para o Benfica, obviamente, perder não bastava – também tinha de ficar sem o seu terceiro central no segundo jogo do título da época, para juntar à ausência do defesa-esquerdo titular.

Leram aquele comentário que eu fiz sobre o Jesus ter a sorte de passar a ter mais dois jogadores de futebol na equipa para o jogo com o Braga em vez de duas tentativas de defesa? Era um exagero propositado, obviamente, mas não escrevi aquilo por acaso. É que, no ponto em que estamos, isto já não tem nada a ver com jogadores.

É preciso ter assistido à vitória do Benfica no campeonato dos 6-3 em Alvalade para perceber que, a partir de certo ponto, os jogadores, os treinadores, os dirigentes, os adeptos e os árbitros já não têm nada a ver com isto.

Entra-se no campo do futebol quântico. Porque é que a bola vai para ali quando teria exactamente as mesmas probabilidades de ir para o lado contrário? Ninguém sabe. Podia, exactamente da mesma maneira, não ir. Mas vai. Podia ser o Hulk a chutá-la ou o júnior que lá vai treinar às segundas-feiras. Não interessa. A puta da bola vai porque quer ir.

Ora, quando entramos no plano do transcendente em que actualmente nos situamos, entramos no campo de colheita do Benfica. Quando as coisas começam a acontecer ao contrário do projecto, ao contrário da razão, ao contrário da lógica, ao contrário do método e dos princípios básicos do trabalho a longo prazo, quando se entra no plano do insondável, o Benfica pode não ficar em vantagem em relação a qualquer clube do mundo, incluindo o Porto, mas em desvantagem não fica de certeza.

Estamos no campo da mística. E no que toca ao Benfica, pode não valer nada no resto, mas no campo do sobrenatural dá cartas seja a quem for.



Eis o ponto da situação: na quarta-feira o Benfica joga em Londres e tem de ganhar ao Chelsea do Abramovich para ser apurado para a meias-finais da Champions. Vai jogar com um central agarrado ao joelho e outro adaptado, e nada disso terá importância absolutamente nenhuma. Para o Jesus vai ser um bicho de sete cabeças, porque aquilo na cabeça dele não joga, mas o treinador que o Benfica precisava de ter em Londres não era o Jesus – era o Toni. O Toni nunca foi nem metade do treinador que o Jesus é, mas conseguiu ser campeão no Benfica, mais do que uma vez, por uma razão extraordinariamente simples: porque tinha sensibilidade para entender a natureza mística do Benfica. Como o Mário Wilson, por exemplo. Com o Toni ou o Mário Wilson, em Londres, os jogadores do Benfica teriam a surpresa das suas vidas. Estariam à espera de ver um treinador sorumbático, acabrunhado, derrotado antes do jogo começar, e de repente ia-lhes aparecer um Toni vermelhusco, sem ter nada de relevante tacticamente ou estrategicamente para dizer, mas de que iria transparecer uma ideia absurda: «Temos de ganhar em Londres, ao Chelsea, sem centrais, quatro dias depois de jogar com o Braga e quatro dias antes de ir a Alvalade, onde temos de ganhar para seros campeões? Fantástico. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

A sério: ninguém tem noção de como o Benfica está perto de eliminar o Chelsea. A começar pelos jogadores.

O que vai acontecer é o seguinte: o jesus vai entrar com a equipa tão arranjadinha quanto possível, e com o Cardozo, o Witsel, o Aimar, a tropa toda, e com o Javi a central, claro. Porque é o que faz sentido, em termos futebolísticos. O Benfica vai ser eliminado e, no final, toda a gente vai chegar à conclusão que não foi por causa de quem jogou que o Benfica perdeu, e que nem sequer foi por causa de ter perdido na Luz: foi por não ter acreditado que podia ganhar e não ter sido convicto nas oportunidades que teve.

Teoricamente, o Benfica perdeu a sua oportunidade na Luz. Foi superior, podia ter ganho e perdeu, em casa, contra uma equipa, em princípio, superior e mais experiente em todos os aspectos. Hipóteses de apuramento? 5 por cento. Na prática, vai ser este pressuposto que vai eliminar o Benfica. Porque… o que é que o Benfica tem a perder? Precisamente.

Se eu fosse o Toni, em Stamford Bridge, conhecendo o Benfica, faria isto: primeiro dizia-lhes «temo-los mesmo onde os queríamos». Depois, já no avião, antes de levantar voo, dizia-lhes: «Amanhã jogam Artur, Maxi, Javi, Emerson e Capdevilla; Witsel, Aimar e Gaitán; Saviola, Nélson e Rodrigo. E o Chuta-Chuta e o Nolito entram na segunda parte para acabar o serviço. É para correr até cair para o lado ou até marcarmos o quarto golo, o que quer que aconteça primeiro.» Para que eles não tivessem dúvida do tipo de missão que teriam em Londres. E colocaria o Chelsea perante o último tipo de problemas que está preparado para encontrar: uma equipa kamikaze. Perante o estado de fragilidade psíquica em que o Chelsea se encontra (nem à Champions provavelmente vai para o ano, atenção), o jogo seria lançado numa base absolutamente errática. Perfeito para os malucos do Benfica, péssimo para a equipa na posição superior.

Ia ser um festival.

O Benfica ou passava ou fazia um escarcéu que até à China chegava. Daqui a dez anos ainda se ia falar deste jogo. 3-2, 4-3, 5-2, 2-5, não sei, mas que ia ficar para a história ia.



E depois disto, claro, o que verdadeiramente interessa. «Temos de ir ganhar ao Sporting, a Alvalade, sem centrais, a quatro jornadas do fim, frente a um Sporting que tem a hipótese de nos roubar o título? Perfeito. Temo-los mesmo onde os queríamos.»

(passem para o minuto 8.30 do vídeo…)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Ética

O Veiga é um dos grandes «ses» na história do futebol português, e garanto que vai ser um tema à ribalta dentro de dois/três anos, porque tem tudo a ver com o que será o grande tema do Benfica nos próximos tempos.



O Benfica teria conseguido dar a volta por cima se o Veiga tivesse ficado como director-desportivo durante cinco anos?

O Benfica teria sobrevivido se…?

QUE Benfica teria existiria se..?



Há uma questão que é importante, e que não deve ser confundida: o facto de se declarar guerra não quer dizer que a única forma de fazer a guerra seja à bruta e sem plano, a pensar apenas no próximo jogo, ou no próximo campeonato.

Todos os países de sucesso no mundo, todas as empresas de sucesso, têm um departamento de estratégia. Ninguém vai para a caça de fisga. Ninguém vai para uma batalha sem saber o que está para lá do campo de batalha. Ninguém vai para a guerra sem pensar no dia a seguir à guerra, e no que fica depois dela. Se a tua vida depois da guerra depende da terra que tem de ser cultivada, vais envenenar a terra (que será tua) para vencer essa guerra? Qual é o propósito?

O caso do Veiga é muito complexo. Não se entende com simplismos. Foi um acto de grande atrevimento por parte do Vieira, talvez a jogada mais ousada em toda a história do futebol português (se calhar mesmo a mais desesperada). Nunca como então o futebol português esteve à beira da guerra total, e as repercussões da guerra total são sempre imprevisíveis. A guerra, dizia alguém, sabe-se sempre como começa, mas nunca se sabe como vai acabar.

Na minha opinião, o atrevimento de Vieira, enquanto atitude, foi muito positivo. Foi o verdadeiro grito de revolta do Benfica. O que faltou, em todos os momentos dessa revolta, foi pensamento a longo prazo, plano, limites de actuação, capacidade de mobilização – enfim, numa palavra, estratégia.

O que estava ali em causa era o «ganhar agora, abrir brechas na estrutura deles, e esperar que caiam». Não se pode dizer que não tenha havido resultados: o Benfica foi campeão. Mas o que é aconteceu? Dois anos depois, estava mais fraco do que antes do Veiga entrar. Porquê? Porque havia vontade, havia força, mas não havia plano.

Isso deveria servir de lição a toda a gente. O sucesso não atrai mais sucesso se as condições do sucesso forem meramente conjunturais em vez de estruturais.

O que se passa no Benfica desta época é, noutra dimensão, parecido. O Benfica pode ganhar este campeonato, mas o que o levaria a ganhar este campeonato seria estruturalmente suficiente para manter o nível competitivo nos próximos anos? Em termos meramente desportivos, assumo que não me parece, e também assumo que não gosto de ver equipas a inverterem a ordem natural do trabalho, ou seja, a esperar que a qualidade melhore o trabalho em vez de esperar que o trabalho melhore a qualidade. Esta última é, eticamente, a regra de ouro.

A grande batalha que espera o Benfica, nos próximos anos, é uma batalha ética – num sentido muito lato deste conceito.

Não é apenas ética no sentido da moral, do agir bem e pelo bem. É ética enquanto forma de vida. A ética do trabalho. Dentro de um ou dois anos, quando o Benfica tiver recuperado a estabilidade financeira e já não se encontrar motivo para o Porto continuar a ser superior, a questão vai dar aí. «Porque é que ainda não ganhamos?», perguntar-se-á. Porque eles dão mais importância ao trabalho, acabará por se concluir. É uma forma de encarar a vida. É falso que «no Porto é que se trabalha» - é uma ideia feita na primeira metade do século XIX, no auge do liberalismo portuense, amplamente desmentida posteriormente pelos factos económicos do país, apesar de se continuar a alimentar o mito. Mas é verdade – e daí o mito não morrer, por ter um fundo de verdade – que no Porto se dá mais importância ao trabalho como factor do sucesso (o que é muito diferente de se dizer que se trabalha mais). No Porto não se trabalha mais que em Lisboa, mas há uma ética em relação ao trabalho que é diferente, mais convicta. Aceita-se melhor o valor do trabalho. E isso reflecte-se no seu clube mais representativo, que tem uma grande ligação cultural à cidade.

Para conseguir traduzir a sua superioridade económica e ideológica em relação ao Porto em bons resultados desportivos, de forma continuada, o Benfica terá ainda de fazer essa revolução, que é uma revolução cultural. Não se assustem, não terá de haver uma Grande Purga, como na China de Mao, mas irá doer, sobretudo porque há, desde há cerca de 30 anos, desde a primeira eleição de João Santos, uma cultura burguesa (num sentido pejorativo) instalada no Benfica. Nessa nova cultura o valor acrescentado passou a ser comprado, e não trabalhado. Essa foi a semente do pecado no Benfica. A sua ética de trabalho foi sucessivamente sendo coberta por soluções fáceis, umas por cima das outras, erros tentando tapar outros erros, sucessivamente mais caros, e com isso essa ética operária que fez do Benfica um caso único a nível europeu ficou enterrada tão fundo que, hoje, milhões de benfiquistas passaram uma vida inteira sem a conhecer. Eu próprio, aos 38 anos, só sei que ela existiu porque tive o privilégio de ainda sentir os seus resquícios, já nos anos 80. Foi o suficiente, contudo, para perceber a diferença do que se seguiu. Mas também demorei uns bons dez anos a percebê-la. Antes disso, quis matar várias pessoas, entre Pintos e Silvanos. E ainda me ferve a barriga. (Ainda hoje, se dissesse que não desejo a morte a ninguém, estaria a mentir, mas chiiiiu...)

Porque é que eu me revolto e, ao mesmo tempo, me assusto quando vejo benfiquistas a recorrerem sucessivamente às arbitragens para apaziguar frustrações, e a contaminar os mais novos? Não é por o Benfica não ter sofrido com a total degeneração do sistema pelo Porto – porque sofreu. É, sim, porque essa explicação, mesmo explicando alguma coisa, não só não soluciona coisa nenhuma como se encontra no extremo exactamente oposto à verdadeira solução. Há duas hipóteses: ou uma pessoa se queixa, ou uma pessoa trabalha. É tão simples como isto. E é fácil reconhecer um perdedor: é o que se está a queixar. E se ainda não perdeu vai perder, mais tarde ou mais cedo. Pôr de lado a questão dos árbitros – quer chegue ao ponto de os controlar ou não – é um passo crucial (eu diria mesmo que poderia ser o próximo grande passo civilizacional no futebol português) na reafirmação do Benfica. E o clube que o conseguir vai ganhar vantagem sobre todos os outros. Benfica e Sporting têm maiores possibilidades de o conseguirem, porque o Porto está demasiado vinculado ao sistema e muito dificilmente o largará. Essa é o verdadeiro campo de luta pel liderança futura do futebol português. O primero a chegar à posição mais elevada terá vantagem.

Mas essa é uma mentalidade que não vai ser fácil erradicar. Só temo que, enquanto benfiquista, tenhamos ainda de vir a sofrer bastante até que esses chorões mais radicais percebam, finalmente, que lamúrias não pagam dívidas, por mais que doa o dói-dói.

Voltando ao ponto da estratégia, quando eu digo que devemos saber jogar com as regras que estão em campo não estou a dizer que devemos jogar sem regras. Jogar com as regras não é jogar sem noção dos limites, sem noção dos objectivos, de até onde se pode ir, do que se faz e porquê.

Ganhar controlo sobre a arbitragem? Se é isso que está em causa, se é isso que é preciso fazer, sim. Claro que sim. Mas para quê? E em que condições? Para fazer o mesmo que o Porto, usando o controlo sobre a arbitragem para destruir a concorrência em vez de salvar o futebol? Isso seria desastroso para o Benfica, porque atiraria o futebol português para a miséria, e o Benfica vive do futebol português. Mesmo na guerra, há ética. Usar tudo o que se tem para ganhar a guerra? Sim. Sem pensar no pós-guerra? Não. Benfica, Porto e Sporting são potências nucleares em Portugal. Se enveredarem na guerra total, essa guerra será exterminadora do futebol tal como o conhecemos. E o seu apodrecimento durará muitos anos, connosco a sentir o cheiro. O meu filho já gosta mais do Barcelona que do Benfica. Porque não? Faz ele muito bem. Sou eu que lhe vou dizer que tem de ser dos nossos, sabendo que os nossos vivem enterrados em merda até ao pescoço, e que ela chega de todos os lados? Meu rico filho. Espere que se dedique à escalada.

Daqui a dois ou três anos o Veiga será, finalmente, útil ao Benfica porque exemplificará a diferença entre o querer ganhar e o saber ganhar, em termos éticos. O como ganhar. Será muito útil quando os benfiquistas, tendo todas as condições reunidas para ganhar, tiverem de decidir o que querem para o seu clube.

A minha questão actual, no Benfica, é apenas esta: há plano?

Atenção: «ganhar» não é um plano. É o mesmo que dizer que o Benfica jogou bem porque marcou um golo no último minuto ou que jogou mal porque nesse remate a bola foi à barra, mesmo tendo jogado o jogo exactamente da mesma forma até ao golo. Isso não é nada. Isso são pategos a falar na net. Os pategos não fazem planos, limitam-se a cumpri-los. «A nossa estratégia passa por ganhar o jogo», dizem os grunhos da bola. É o cúmulo da grunhice. Uma estratégia é um caminho, não o destino. Não começa no fim, começa no princípio.

No Benfica, antes da acção, tem de haver estratégia. Ganhar, sim, mas isso não é estratégia, é objectivo. Estratégia é: ganhar como, até quando antes de reformular o plano, dentro que parâmetros, consumindo que recursos, defendendo que prioridades, para atingir que tipo de cenário após a vitória, procurando o quê depois de ela ser alcançada?

Se houver isso no Benfica, não há nenhum problema. Mesmo perdendo, há tino. Há bússola. Perde-se mas não se fica perdido. Winston Churchill definiu o sucesso como «a capacidade de passar de um fracasso para o fracasso seguinte sem perder o entusiasmo.»

domingo, 25 de março de 2012

«Ganhar o campeonato» ou «não perder o campeonato»?

Ora bem, como deve ter reparado foi um fim-de-semana de absentismo – ao que a frustração. Obviamente, também ajuda.

O funeral de sexta-feira pôs o pessoal aos berros, como é óbvio, e levantaram-se algumas questões pertinentes, às quais vou tentar fazer o contraditório, (de forma necessariamente sucinta, como é claro, pois cada uma, por si só, daria um longo post).



1 – A não-descida dos clubes

Antes de mais, não concordo totalmente com a leitura de que o Olhanense só tenha destruído, mas pronto, até dou de barato, porque não é assim tão relevante.

Primeiro ponto: uma equipa mais fraca, aqui, em Espanha, na Turquia, na América e no Azerbeijão, a jogar contra uma equipa em que o ordenado de um jogador do adversário chegaria para lhe pagar a temporada inteira, vai sempre tentar arranjar subterfúgios para nivelar o campo.

No desporto americano as hipóteses são menores, mas também há: há equipas que apostam na agressividade, em sistemas de jogo revolucionários, em esquemas estranhos.

No futebol, uma vez que o empate é premiado e o anti-jogo é permitido, é o anti-jogo que se pratica. Essa é uma questão mais do jogo em si que do formato de competição, e só pode ser resolvida de duas formas: ou coerciva, aplicando novas regras, ou progressiva, pela educação. Na primeira pode-se, por exemplo, implementar o tempo jogado em vez do tempo corrido, eliminar o empate, e muitos outros esquemas que o International Board (ainda) não permite. Na segunda, espera-se que as pessoas percebam que o anti-jogo lhes tira dinheiro ao fim do mês porque leva as pessoas a não irem ao futebol. Não há é muita gente que esteja disposta a perceber e a explicar isto aos jogadores e aos treinadores – aos verdadeiros profissionais do futebol.

Segundo ponto: como é que o jogo de sexta-feira justifica o sistema actual? Não percebo. Algumas questões: O Olhanense, já sem precisar dos pontos, competiu ou não competiu ferozmente? O Olhanense teria jogado de outra forma se estivesse a lutar para não descer? A propósito de quê? Então sem, sem ter nada a perder, jogou a defender, para fazer o ponto, o que é que teria feito de diferente se jogasse para o ponto precisando dele? Não teria jogado tão ou mais na retranca, considerando que, pelos vistos, é assim que o Sérgio Conceição achou que conseguiria não perder com o Benfica?

O Olhanense, provavelmente com um prémio chorudo do Porto por baixo da mesa – como o Nacional contra o Porto na semana passada, por certo… –, jogou para o empate. E então? Provavelmente continuaria a jogar para o empate se não houvesse descidas. Um campeonato fechado não acabaria com estas situações, como é evidente. Nem eu disse que acabaria. Elas são sistémicas. Mas um campeonato fechado, com o tempo, criaria um clima de jogo pela positiva, e não pela negativa, quanto mais não fosse porque, num campeonato fechado, só há uma direcção para onde olhar: para cima. Agora, os medíocres sempre existiram e sempre existirão. Simplesmente teriam menos espaço para prosperar, porque passaria a ser a ambição a dar o tom, e não o fado do desgraçadinho que ouvimos a 90 por cento dos clubes logo em Agosto. Fechar o campeonato não transformaria o futebol português num paraíso do ataque, da positividade e do fair-play, mas concerteza tiraria muita razão de existir à negatividade que se vê, sobretudo, nos jogos entre equipas equilibradas – esses sim, uma verdadeira bosta de jogo, na maior parte das vezes, porque se passa a maior parte do tempo a jogar para o pontinho. O meu argumento a favor de um campeonato fechado não está no Olhanense-Benfica, que tem sempre muitas gente a assistir – está no Olhanense – Rio Ave, que tem 500 pessoas, e todas elas aborrecidas ou que só lá vão para chamar nomes ao árbitro.



2 – A extensão dos plantéis

Uma questão interessantíssima e muito propensa aos mitos e aos chavões.

Chavão: «Temos dois jogadores para cada lugar.»

Facto: Não é verdade. Nenhuma equipa do mundo tem dois jogadores de valor igual para cada posição, e isso seria completamente estúpido, porque seria um desastre económico e desportivo. A última vez que me lembro de isso acontecer foi quando o maluco do Berlusconi tinha, no Milão do fim dos anos 90, onze jogadores para o campeonato e outros onze para a Liga, ganhando em ambos, e mesmo esse só durou dois anos.

Em todas as equipas há os bons e há os melhores, e quem joga são os melhores.

O que nos leva a segundo chavão: «Temos alternativa à altura dos titulares.»

Facto: falso, em 99 por cento dos casos. É raríssimo um suplente ser tão bom como o titular. Aliás, em muitos casos, o suplente directo, chamemos-lhe assim, nem sequer substitui o titular do seu lugar. Temos assistido a vários casos este ano, por exemplo, no Benfica e Porto em que é uma espécie de suplente de segunda linha com mais ritmo ou mais qualidade que o suplente directo do lugar, mas de terceira linha, que substitui o titular. Veja-se os casos da lateral-direita ou dos extremos  no Benfica e no Porto.

Chavão: «Temos um plantel suficientemente profundo para encarar com optimismo todas as competições.»

Facto: um plantel pode ter 17 jogadores de campo do mesmo nível médio-alto e 3 acima da média, mas se, nos jogos decisivos, um, dois ou mesmo os três jogadoresd acima da m+edia não jogarem, as suas hipóteses de sucesso são praticamente nulas, por mais jogadores médio que o treinador tenha para meter no onze. No Barcelona, toda a gente sabe jogar bem, mas se o Barcelona jogar as meias-finais da Liga dos Campeões sem o Messi, o iniesta e/ou o Xavi as suas hipóteses de ser campeão europeu desceriam de 80 por cento para 15.

Tudo isto deveria levar a uma maneira diferente de construir os plantéis, mas a verdade é que ter 20 jogadores de campo parece continuar a ser uma regra sagrada para todos os treinadores. Lá mais para o Verão, certamente, iremos falar muito disto.

Deixo só uma questão no ar: entre o que se paga de ordenado ao Capdevilla, ao Jardel e ao Miguel Vítor não se conseguiria pagar a um defesa que fosse melhor do que qualquer um dos três e que fizesse mais minutos que os três juntos, capaz de pôr o Emerson no lugar que merece – o banco? Pois…



3 - Uma «equipa-campeã»

A questão não é ganhar ou não ganhar o jogo. Arrisco mesmo a dizer que a questão não é ser campeão ou não ser campeão. Pode-se empatar um jogo como o de Olhão por duas razões: ou por se fazer as coisas bem feitas e não ter a sorte do jogo (o que pode sempre acontecer) ou por não se saber como ganhá-lo. Da mesma forma, pode-se ser campeão empatando um jogo como o de Olhão por não se saber como o ganhar – não se pode é esperar que a chuva caia sempre no nabal enquanto o sol está na eira. Acontece uma vez ou outra. Depois passa. Não me parece que comparar o Benfica ao Real Madrid seja relevante. O Real Madrid do ano passado, por exemplo, já sabia como ganhar, apenas ainda não tinha a qualidade suficiente para o conseguir. Mas já era uma equipa que, se não tivesse apanhado aquele Barça, teria sido campeã facilmente. Tinha a ciência para isso. No entanto, não o foi. Diferença este ano, nem sequer é o que o Real Madrid está a fazer, mas o que o Barcelona está a fazer. E o Real será campeão.



4 – E em relação a isto…

Agora, que o Porto acabou de empatar, convém dizer que isto não altera a minha leitura do jogo de sábado, nem em relação à capacidade da equipa do Benfica nem em relação às suas possibilidades de ser campeão (tristemente, confesso) – pelo contrário, só confirma a minha leitura de que qualquer semelhança entre este Porto, sofrendo o empate a 10 minutos de se sagrar virtualmente campeão, e o Porto-campeão dos últimos anos, é pura coincidência ao nível da corda camisola. Displicência, falta de agressividade, falta de jogo colectivo (tudo isto em termos relativos, entenda-se), uma sombra de uma equipa campeã.

Quanto ao título, não confundamos fé com racionalidade. Acreditar, nenhum benfiquista deixa de acreditar, por mais funda que a crença esteja. Mesmo se o Porto tivesse ganho continuaríamos a acreditar que o Porto podia empatar mais um jogo em casa, perder em Braga, perder com o Sporting, e por aí fora. Mas as hipóteses do Benfica, racionalmente, continuam a ser débeis. Ser campeão implica ganhar os 6 jogos que faltam. O eventual deslize que o Benfica podia cometer em Alvalade cometeu-o em Olhão. Vai ter de ir ganhar a Alvalade, ganhar ao Braga, ganhar os outros jogos todos e esperar, obrigatoriamente, que o Porto ou não ganhe em Braga ou não ganhe ao Sporting em casa.

Mas querem mesmo saber? Vou cometer um pecado. Este título, a acontecer, já perdeu muito do sabor que teria. Porque o facto do Benfica ser campeão não altera o que tenho visto a equipa fazer nestas semanas em que deveria ter mostrado o verdadeiro estofo de campeã. O que quero dizer é que não vejo mais, nesta equipa, além de alguma subida de qualidade e de experiência, do que o que já vi no primeiro ano de Jesus: um campeão ocasional.

Quase diria que o prazer que me daria ganhar este campeonato seria mais pelo que poderia significar em termos futuros, na desagregação do Porto, do que pelo campeonato em si, que é o mais renhido de que me lembro.

E eu gostava de poder escrever isto tudo ao contrário, acreditem.



5 – O verdadeiro benfiquista

Ser benfiquista não é apoiar quem lá está porque lá está. É preciso começar a enumerar algumas dezenas dos que lá estiveram, entre presidentes, treinadores e jogadores, e que não valiam a ponta de um corno? É suposto que eles ainda lá estivessem só porque lá estiveram em determinada altura?

Solidariedade não é dizer ámen. Dizer ámen contra a nossa consciência é NÃO SER benfiquista. Já disse e repito que ainda hoje lá tenho o título da Operação Coração guardado em casa, com muito orgulho.

Apoiei o Jesus quando ele manteve o Roberto até às últimas consequências. Era o que estava certo, na minha consciência.

Apoiei o Vieira quando ele manteve o Jesus a meio da temporada passada. Era o que estava certo, na minha consciência.

Provavelmente até o vou apoiar quando ele decidir manter o Jesus no final desta época, dadas as alternativas e a conjectura. Se isso estiver de acordo com a minha consicência.

O Vieira está a fazer um trabalho muito bom no Benfica. Quer conquistar-me definitivamente? Esqueça os árbitros, eleve a ética de trabalho no interior do clube, e, quando eu sentir que o Benfica fez tudo o que podia para ganhar e só não ganhou porque foi roubado, serei o primeiro a atirar um paralelepípedo à porta da FPF. Antes disso não.

O Jesus quer ganhar-me? Aprenda a ser melhor, caia em si, cresça com homem e como profissional, aprenda que o facto de ser iliterado não faz dele melhor que os outros, deixe-se de merdas, e eu vou para o Estádio da Luz pedir-lhe a chiclete. Se não o fizer, que vá corrido e o quanto antes, de preferência já hoje.

Os jogadores querem que eu os apoie incondicionalmente, mesmo irracionalmente? Dêem-me, dentro de campo, razões para pensar que não poderia desejar ser representado, como benfiquista, por outros que não eles. Joguem sem ser no limite da ambição e puta que os pariu, seja Emerson, seja Maxi, seja Luisão, seja Aimar.

Isto não faz de mim um  verdadeiro benfiquista? Pois se assim é, viva o Sporting e que se lixem os verdadeiros benfiquistas.

Se isto fosse lá pelo apoio incondicional e acrítico o Benfica era campeão da Europa todos os anos. Mas não vai.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A lição fundamental

Não quero saber do fora-de-jogo. Não quero mesmo. Mesmo.

Vou ser mais claro: metam o fora-de-jogo no cu. Mas mesmo todos. Quem acha que o Benfica perdeu por causa do fora-de-jogo que meta a opinião no cu. Podem meter o vosso comentário aqui em baixo, é serventia da casa, mas não se esqueçam de a meter, juntamente com o fora-de-jogo, no cu. Não se sintam insultados os que já falaram do fora-de-jogo, porque ainda não li comentários nenhuns ao jogo, e vocês sabem que não digo por mal. Mas metam mesmo o fora-de-jogo no cu.



Do que eu quero saber é disto: fundamentos.



FUNDAMENTOS.



Por exemplo?

Por exemplo a jogada em que o Gaitán tenta virar-se para a baliza, perde a bola, sem cobertura, o James arranca e o Porto corre 70 metros sem oposição para marcar o golo. O Gaitán pode ter três pés, mas sem alguém que lhe ensine o que NÃO SE PODE FAZER num jogo de futebol, será sempre um jogador de segunda.



Com 2-1 o Benfica tem o jogo ganho. É o Benfica que o perde. Porquê? Porque, numa situação em que tem o campeonato no bolso, a jogar em casa, contra uma equipa ajoelhada, não tem a capacidade, simples, de fazer o mais essencial do futebol de qualquer equipa grande, que é segurar a vantagem com bola num jogo equilibrado, com ritmo e jogando pelo seguro. Não a tem. Ao fim de dois anos e meio com Jesus, não a tem. E não a terá.

Como acontece quase sempre, num jogo concentram-se os problemas acumulados. Em qualquer actividade, a pressão detecta todas as fragilidades do material. Pequenas rupturas rasgam completamente e tornam-se grandes falhas, pelas quais uma estrutura acaba por ruir, e quanto maior a estrutura mais facilmente cai. E quais são essas pequenas frechas? A falta de fundamentos sólidos.

Hoje ficaram à vista as fragilidades de Jesus, que levou um banho táctico e só não perdeu o jogo antes do intervalo porque o Porto é uma equipa a jogar a 70 por cento do seu potencial e não soube acabar o serviço depois do 1-0. Bastou ao Porto fazer o que outras equipas já fizeram e meter uma linha de três jogadores subida a meio-campo para aniquilar o jogo do Benfica, que nunca teve meio-campo.

Soluções? Poucas, e más. Pontapé para a frente e fé no ressalto. Só a relativa mediocridade da equipa do Porto, repito, a impediu de acabar com o jogo na primeira parte.

E já não falo, sequer, do inacreditável bloqueio após a expulsão. Com Matic no banco põe Gaitán a defesa-esquerdo. Gaitán?! O jogador com menos instinto defensivo da equipa? O jogador mais irresponsável, que perde outra bola, perfeitamente controlada, que dá o livre do golo, quando não havia outra forma de pensar senão em guardá-la para, pelo menos, não perder o campeonato naqueles 5 minutos? A que propósito? Por ser canhoto?!!! Matic no meio-campo. Javi a central. Miguel Vitor a defesa-esquerdo. Quem é que não vê isto? Quem? Jesus.

Também já não vou à escolha da equipa. Não tenho conhecimentos tácticos para tanto. Mas que se lixe, vou mesmo: o Benfica começa a perder o meio-campo, e o jogo, na escolha do 11. Só isso.

Viu-se a fragilidade de Emerson. Meu Deus, e que fragilidade. Vejam-no, por exemplo, a defender no segundo golo do Porto.

Viu-se a inexistência de verdadeiras opções no meio-campo.

Viu-se a ausência de extremos reais e de uma corrente de jogo capaz de os municiarem solução de vantagem.



Mas viu-se, sobretudo, e repito, a falta de capacidade colectiva de compreender o jogo, de aplicar o que o jogo precisava a cada altura. Viu-se, resumidamente, sabem o quê? Falta de classe.

Classe.

A capacidade de fazer o que é preciso, quando é preciso. Ou pelo menos de o tentar.

É que nem sequer se viu um indício de que os jogadores, em campo, tivessem a consciência do que precisavam de fazer, quanto menos tentarem-no. Fizeram o jogo ao deus-dará, como fazem sempre, porque nunca houve, nestes dois anos e meio, para já não ir mais longe, um treinador que percebesse que, no meio do que é preciso fazer para se ir ganhando jogo a jogo, é preciso educar uma equipa para melhorar nos fundamentos.

Educar, aqui, é a palavra-chave. Não é martelar, é educar. Construir. Edificar. E para isso é preciso olhar pelo menos cinco centímetros à frente da semana que vem.



O Benfica não pode despedir Jorge Jesus. Não deve fazê-lo. Nem agora nem no fim da época. Mas deve arranjar maneira de uma equipa qualquer do estrangeiro lhe fazer uma proposta que ele não possa recusar, e tem de ter, senão já pelo menos nos próximos três meses, alguém potencialmente melhor do que ele para meter à frente da equipa.

Entre tudo o que é preciso fazer para recuperar os fundamentos do jogo – desde os critérios prioritários nas contratações à metodologia de preparação – a questão da equipa técnica não é a menos relevante. O Benfica tem de encontrar um treinador que consiga fazer a equipa evoluir. Tão simples como isto. Porque Jesus atingiu o seu limite de conhecimentos, e a equipa que ele montou não dá mais do que isto.

Quem aqui vem, sabe que não estou a ser um abutre. Façam-me essa justiça, se fizerem favor. Eu não sou dos que quer correr com o treinador ao primeiro fracasso. Mas neste caso não é um castigo a ninguém. É, apenas, um acto de gestão inevitável, e necessário, para a evolução da equipa. Não se pode fazer um clube refém de um homem que atingiu o seu limite técnico. Vocês sabem que eu dizia isto quando o Benfica estava à frente, quando andava toda a gente embriagada. Eu, embriagado andei, é a natureza do benfiquista, mas mesmo embriagado explanei, não uma, mas várias vezes, o que pensava em relação a Jesus.

Hoje, sinto-me autorizado a dizer que tinha razão. Que tenho razão. E convém recordar o que me dá razão antes que uma vitória frente ao Zenit apague a memória desta noite. Vão reler os textos que têm o link, e dar-me-ão razão. Está lá tudo.

É pegar nas coisas boas que o Jesus trouxe, arranjar maneira de as preservar no interior da estrutura quando ele sair, e procurar alguém que traga mais valor. Tão simples e tão pouco dramático como isto.



Mantenho o que disse: o Porto, ganhando quatro pontos na Luz, deu a volta ao campeonato, e tem 90 por cento de hipóteses reais de o ganhar. Ou seja, é quase impossível não o ganhar. Estranhamente, apesar de tudo, não consigo deixar de pensar que os 10 por cento do Benfica podem valer 100, mas admito que, neste momento, seja já mais uma profissão de fé que propriamente uma crença. No fundo o que eu quero dizer é que continuo a acreditar, mas por nenhuma razão racional, apenas porque acredito.

Sem dramas. Há uma época para acabar e o baile continua.

Agora, para quem não tiver decidido exorcizar-me, fica um aviso: aqui na Religião Nacional, hoje, dia 2 de Março de 2012, começa a época de 2012/13.

O Jesus, o Orelhas, esse pessoal todo, incluindo vocês, pode continuar na frequência 2011/12. Eu, que mando aqui, acabei de entrar na frequência 2012/13.

Fugir para a frente? Fugir à realidade?

Talvez sim.

Eu prefiro chamar-lhe espírito construtivo.

É nas derrotas que se revela a nossa capacidade de vir a vencer. Acredito nisso com todas as moléculas do meu corpo. É quando perco que mais vontade tenho de ganhar, e que maior motivação tenho para encontrar outras formas de ganhar. Não conheço a derrota. Sei que ela existe, já a senti a passar por mim, mas nunca a vi.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O factor imprevisível

Por mais ou menos nervoso miudinho, por mais ou menos voltas que se queira dar, não há volta nenhuma: na minha opinião (a de hoje como a de Dezembro), quem chegar à frente ao fim do ciclo que acaba com o Benfica-Porto tem 90 por cento do campeonato ganho. Considerando que nestes dois meses as equipas deram, como diria um concorrente de um concurso televisivo, uma volta de 360 graus, e que se encontram exactamente no mesmo ponto em que se encontravam nessa altura, o jogo desta sexta-feira vale 90 por cento do título. Quem sair dele à frente será o campeão (com 90 por cento de certeza…). E, para que fique igualmente claro, um 1-1 dá vantagem ao Benfica (uma vantagem de um ponto), o 2-2 dá vantagem ao Porto (uma vantagem de alguns golos), o 3-3 dá uma vantagem de um ponto ao Porto.

Portanto, são 90 minutos para decidir um campeonato. Cá estaremos no fim para falar.



Falo em Dezembro porque, no dia 19 desse mês, apontei três factores mais importantes que o plantel para a decisão do campeonato: Máquina, Momento e Aleatoriedade.

Antes de amanhã, deixar aqui a minha antevisão do jogo propriamente dito, achei curioso recuperar estes três factores.



A Máquina



Há dois dados insofismáveis nestes dois meses:

1 - Nunca a máquina de propaganda do Porto esteve tão calada, mesmo depois do fim-de-semana horribilis (Feirense-Benfica e Gil-Porto);

2 – O Benfica continua sem assinar o contrato com a Olivedesportos.

No primeiro caso, tenho a sensação de que assim continuará até haver a certeza de que o campeonato está realmente em jogo, e que provavelmente só gastarão as balas a partir da semana que antecede o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

No segundo caso tenho a sensação que a decisão «no próximo mês» que o Vieira anda a prometer há seis meses só vai aparecer… a partir da jornada que tem o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

Ao nível do mercado e da gestão do plantel, o Porto (no curto prazo, em termos meramente desportivos, e sem ir ao plano económico, entenda-se) goleou. Contratou dois titulares – três, se se contabilizar Danilo – despachou vários suplentes (suplentes na cabeça de Vítor Pereira, entenda-se também, mas ainda assim suplentes), e os titulares que comprou elevaram claramente o nível da equipa, Lucho pela qualidade pura e o Manko pela utilidade específica.

O Benfica? Bom, vejamos:

- perdeu o seu potencial melhor extremo-direito (Enzo Pérez);

- perdeu Rúben Amorim, polivalente de grande utilidade, sobretudo nesta altura do campeonato, como se viu em Guimarães;

- contratou um suplente sem ritmo de jogo e com escassas hipóteses de ser um reforço útil esta época (Djaló) e um não-suplente (André Almeida) pelo que se depreende da utilização de Witsel a defesa-direito (o mesmo Witsel que, em Guimarães, só jogou meia-hora por apresentar sinais de cansaço)

- não conseguiu encontrar uma alternativa ao evidente ponto-fraco da sua defesa, o lateral-esquerdo, que é pura e simplesmente sofrível, por mais boa vontade e «e pluribus unum » que se tenha;

- tão importante como tudo isto, não conseguiu recuperar Saviola. Aliás, a não-utilização de Saviola em Coimbra corresponde, definitivamente, à sua certidão de óbito como jogador do Benfica.

O plantel do Benfica perdeu, claramente, valor, não compensado pela subida de outros jogadores. Nélson Oliveira só por muito boa vontade pode ser contabilizado como factor numa corrida pelo título.

A crise apanhou, claramente, o Benfica na pior altura – e ainda não apanhou o Porto porque a única alternativa do Porto era fazer o que fez: fugir para a frente. Veremos, quando se chegar lá à frente, quanto é que vai custar.



O Momento



Tal como eu tinha dito em Dezembro, para o Benfica, Janeiro foi a continuação de uma época já longa, e para o Porto o recomeço de uma época dentro da época.

E se é verdade que o momento curto é de quebra do Benfica, com uma derrota e um empate, não nos dizemos iludir pelas aparências o momento menos curto do Porto está muito longe de ser melhor. O renascimento portista, a nova época depois de quatro meses de experiências, testes e rotatividades, resultou em cinco pontos perdidos e uma eliminatória da Liga Europa concluída com uma goleada em Inglaterra.

O Benfica parece estar a descer e o Porto a subir, mas basta uma vitória do Benfica no jogo de amanhã para que imediatamente a análise do curto prazo passar para uma análise do menos curto prazo.

Para já mantenho o que escrevi há alguns dias: mesmo com dois maus resultados seguidos, o caminho do Benfica mantém uma normalidade para campeão que o do Porto não tem, e que só uma vitória do Porto na Luz aniquilaria. Perder em Barcelos não é o mesmo que perder em Guimarães ou empatar em Coimbra. Ainda não me dei ao trabalho de ver quantas vezes, nos últimos 20 anos, é que um campeão o foi mesmo perdendo e empatando com as duas equipas que subiram de divisão na época anterior, mas seria um exercício interessante (para quem tivesse tempo), porque no final de cada campeonato há um padrão de normalidade que, penso, se mantém historicamente.

E, neste ponto, tenho de fazer uma correcção ao que escrevi há uns dias, quando disse que o Porto, ao contrário do Benfica após o jogo com a Académica, ainda não tinha feito dois maus resultados consecutivos no campeonato. Não é verdade. Na 4. e 5.ª jornada o Porto empatou, sucessivamente, com Feirense e Benfica.

 
A Aleatoriedade



O Guimarães-Benfica é um caso clássico de conjugação de factores negativos sobre uma equipa: a eliminatória europeia, o campo, a forma do adversário, as lesões, a marcha do marcador, tudo apontava para um descalabro do Benfica.

Da mesma forma, em Barcelos, a ausência de Hulk e Fernando, a envolvente histórica do jogo (o Porto à beira de um recorde), a arbitragem, no mínimo, destemida, um adversário igualmente na melhor forma da época, conjugaram-se para a primeira derrota do Porto no campeonato em dois anos.

Se alguma coisa boa estes dois maus resultados trouxeram para o Benfica foi que, de certeza absoluta, ninguém sequer se lembra que na terça-feira há um jogo decisivo para a Liga dos Campeões, na Luz, com o Zenit. O estado de espírito com que o Benfica entra para este jogo com o Porto é de alerta máximo, o que poderia não ser o caso se chegasse com três ou quatro pontos de avanço. A ideia de uma almofada para usar antes de se jogar com o Zenit seria perigosamente aliciante para os jogadores do Benfica, e potencialmente mortífero, pois, em caso de derrota, deixaria o Porto a apenas um mau resultado de distância. Pelo contrário, se o Benfica ganhar ao Porto, o Porto passa a precisar que o Benfica faça dois maus resultados para lhe passar à frente.

O Benfica tem o privilégio de sentir que o jogo para a Liga dos Campeões é totalmente irrelevante. Se passar essa eliminatória, é duvidoso que possa voltar a ter esse privilégio, porque não passa a estar demasiado em jogo como não há outro jogo no campeonato tão transcendente como este, que se sobreponha a um apuramento para as meias-finais da Ligados Campeões.

Por outro lado, o Porto vai ter a vantagem de não haver mais desconcentrações europeias até ao final da época. Mas lá mais para a frente, não agora. E agora é que a porca torce o rabo. Dentro desta perspectiva de «aqui e agora», não deve ser menosprezado, no contexto da aleatoriedade que marca todas estas coisas, o facto de o Porto, potencialmente ter de jogar sem o seu melhor jogador neste momento, James Rodríguez – ou, pelo menos, de jogar cerca de 60 minutos sem ele. Os outros casos, pela proximidade, não parecem tão sérios – com as eventuais excepções de Moutinho, com uma viagem chata e 45 minutos nas pernas, e Maxi Pereira. Mas Maxi é um jogador a diesel, até vinha a correr do Uruguai se fosse preciso, sempre à mesma velocidade. Só quando parar é que é um problema. Até lá, continua a correr.

Noutro plano, é igualmente interessante conjugar o seguinte:

- o Benfica recupera, de uma semana para a outra, o seu jogador-chave (Javi García, pelo que fica evidente nos resultados alcançados quando eles não jogou), o líder da sua defesa (Luisão) e o seu atacante em melhor forma (Rodrigo), além de não perder o seu ponta-de-lança titular (Cardozo,e aqui  máquina funcionou muito bem, tal como no caso de Rodrigo).

- o Porto, além de perder o seu jogador em melhor forma, perde também o seu outro desequilibrador actual (Varela) e joga sem Danilo, com quem, claramente, contava para agora.

Neste aspecto, o tal momento a muito curto prazo parece pender para o lado do Benfica.

Seja para que lado for, parece-me que esta particularidade (os jogos da selecção dois dias antes do clássico) é uma daquelas que, daqui a alguns anos, ainda será falada como tendo sido um factor determinante no desfecho do clássico e do próprio campeonato, pela sua peculiaridade e imprevisibilidade. Numa corrida tão equilibrada, pode estar, realmente, apenas aqui a chave.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A posição elevada

Quem é que tem a posição elevada?

A História da guerra – e a própria História do Homem, se se quiser passar a questão da «posição» de um ponto de vista do terreno para a ética, para a política, para a superioridade moral, para o simples conceito do que é justo ou não justo – resume-se a isto.

A posição elevada é, por si só, a base da guerra. Porque se gasta mais energia a subir que a descer. Ficaríamos todos (incluindo eu, que sou apenas um curioso) abismados com a importância que deter, originalmente, a posição elevada teve no curso da Humanidade.

Qualquer militar nos poderia dizer a importância que a posição elevada tem em qualquer contexto de combate. Há e houve sempre generais dispostos a sacrificar a própria sobrevivência dos seus exércitos para assegurar a «posição elevada» - porque sabem que, sem ela, a derrota é praticamente certa.

Também poderíamos passar da «posição elevada» em termos de tecnologia, passando-a para o contexto do armamento, da tecnologia (quem é que tem a «melhor tecnologia»?). Mas não é preciso. Para este caso, usando a «posição elevada» no sentido figurativo, tal como aqui ela será utilizada, podemos ficar pela ideia do outeiro, da colina, do alto da montanha em que o sitiado adquire, pelo mero posicionamento, a vantagem estratégica. A «posição elevada» não é, por si só, inexoravelmente decisiva. Pode ser derrotada. Mas, historicamente, não é, e, quando é, é à custa de baixas e recursos vastos.

Como é que se adquire a posição elevada? Há quem acorde mais cedo. Há quem conheça melhor o caminho. Há quem o estude. Há quem seja mais rápido a chegar lá. Há quem marche mais leve.

Há, grosso modo, uma regra: a forma de lá chegar nunca é muito complexa, conseguir executá-la é que custa.



Falando de futebol de um ponto de vista técnico e táctico, sem entrar em gestões de plantel ou noutras complexidades, a coisa é assim:

Uma boa equipa é a equipa que faz coisas complicadas devagar.

Uma grande equipa é a equipa que consegue fazer bem os fundamentos do jogo.

As melhores equipas são as que conseguem fazer bem e depressa os fundamentos do jogo.

É só isto.

Só.

E reparem que não falei, sequer, em equipas de futebol. É assim em todos – TODOS – os desportos, dos All Blacks, no râguebi, ao Barcelona, no futebol; dos New England Patriots, no futebol americano, à vela, seja lá quem for que esteja dentro do barco. E acrescento que também é assim – é sobretudo assim – nos desportos individuais. Nos Jogos Olímpicos do próximo Verão vejam quanto tempo um judoca perde e o esforço que emprega para conseguir fazer a melhor pega no quimono do oponente. Porquê? Porque na pega, no fundamento mais básico do judo, está metade da vitória. Perguntem a qualquer bom atleta individual o que é que ele mais treina e ele vos dirá: os fundamentos, sempre, mesmo depois de já saber tudo, sobretudo depois de já saber tudo.

Concedo que, por vezes, me torno um pouco repetitivo neste blog. Mas há coisas que eu não sei, há coisas que eu sei e há coisas que eu sei e que sei que são mais importantes que as outras.

Não sei ler um jogo tacticamente como, por exemplo, o Freitas Lobo (sei apenas o suficiente para perceber quando ele tem razão, que é a maior parte das vezes, e quando está a dizer futilidades). Mas sei que o fundamento da táctica é a superioridade numérica, o 2x1, no ataque e na defesa, e que, usando isso bem, até se pode jogar sem ponta-de-lança, como faz o Barcelona, que se continua a conseguir marcar sempre pelo menos dois golos por jogo.

Não consigo ver se um jogador é tecnicamente superior à mediania, como quem já jogou futebol consegue, facilmente, por exemplo. Mas sei que a verdadeira técnica está na capacidade de passar, receber e rematar a bola – os fundamentos do jogo colectivo. Porque só ainda vi três jogadores capazes de pegar na bola a meio-campo, fintar toda a gente e marcar golo sozinho: um está a treinar na Arábia e está todo lixado pelas drogas; o outro passou metade da carreira agarrado ao joelho e teve um enfarte antes da final do campeonato do Mundo; o terceiro era autista em miúdo, vai chegar a velho cheio de saúde, só é o melhor do Mundo porque joga na equipa que mais bem passa a bola na história do futebol e nunca vai ser campeão mundial.

Todos os outros jogadores dos últimos 30 anos são meros jogadores de equipa, uns melhores do que outros.

Quando vejo o Jesus, por exemplo, a arrotar postas de pescada técnico-tácticas, chamo-lhe nomes. De estúpido para baixo.

Aqui há uns anos, no tempo do Heynckes, estava a ver um aquecimento do Benfica antes de um jogo europeu e o exercício consistia em duas filas frente a frente e a passar a bola de primeira, a uma distância de dez metros. Juro-vos (porque nunca mais me esqueci) que não se fizeram mais de quatro passes seguidos. O adjunto que estava a orientar, ao perceber a vergonha que aquilo era, mandou mudar o exercício, para uma coisa aparentemente mais complexa, uma espécie de meinho, que também serviu para aquecer mas, acima de tudo, serviu para fingir que os jogadores só estavam a falhar passes porque aquilo era difícil e não sabiam mais. É para isso que a maior parte dos esquemas complicados serve – para disfarçar insuficiências, não para as colmatar. Quanto menos uma equipa tem de inventar para dar a volta ao que não sabe fazer, melhor essa equipa é. Depois de ver aquela patética demonstração de azelhice, pensei: «Caramba, estes tipos nunca tiveram hipótese.»



Desde o ano em que o Eriksson saiu do Benfica pela primeira vez, em 1984, o Benfica ganhou seis campeonatos. Eu lembro-me de todos. Em todos foi a equipa que fez o melhor campeonato. Em nenhum deles era a melhor equipa. Em todos, como clube, fez o melhor que sabia; e em todos, não percebeu muito bem como acabou por ganhar. Em todos foi mais a outra equipa que o perdeu que o Benfica que o ganhou.

Há duas formas dos benfiquistas olharem para esta realidade: ou com optimismo, pensando no actual campeonato; ou com pessimismo, pensando nos próximos dez.



Querem saber por que razão é que o Porto é constantemente melhor que o Benfica?

Também aqui há dois caminhos.

Neguem, continuem a procurar atalhos e a esconder-se atrás dos árbitros em vez de aceitar aquilo que é a verdade sobre a corrupção na história do Porto (um evento posterior à sua superiorização, seu cristalizador, e não provocador dela), e continuarão a alimentar fracassos. Porque não há atalhos para o sucesso – sendo que o sucesso aqui não é ganhar um campeonato de quatro em quatro anos, é perder um campeonato de quatro em quatro anos.

Compreendam que o Porto começou a ser melhor quando recuou aos fundamentos, em termos de filosofia de jogo, e estarão aptos a fazer do Benfica um dos melhores clubes do mundo em vez de uma montanha-russa – ou de um circo, como disse o primeiro treinador campeão europeu pelo Porto, que dois anos antes tinha descido o Belenenses à II Divisão.

(Para que fique clara a minha posição em relação às arbitragens e aos adeptos que partem e acabam todos os seus raciocínios no árbitro, ela é a seguinte:

- Procurar causas no árbitro pontualmente, e utilizá-lo, inclusivamente, para aliviar um pouco a pressão ou a frustração, é benéfico, não tem problema nenhum – é a natureza humana, se a culpa não é do árbitro, é do azar ou é de Deus. Normal. Enquanto o pau vai e vem folgam as costas.

- Fazer escola da teoria da arbitragem, procurar nela, em geral, a raiz de qualquer problema, e não a reduzir a um jogo ou outro, é cancerígeno. Mina o corpo de um clube a partir de dentro, da sua cultura de vitória e de triunfo, que acaba por enfraquecer. E os adeptos que não conseguem ir além do elemento da arbitragem para explicar insucessos são agentes cancerígenos. Podem não fazer por mal (o cancro também tem direito à existência, se quisermos chegar a tanto…), mas são. E acabam por destruir um organismo naturalmente nobre como é um grande clube como o Benfica.)



No Porto o primeiro impulso é sempre o passe, e sabemos que alguma coisa não está bem quando os jogadores começam à procura de soluções individuais. No Benfica, alegramo-nos quando vemos os jogadores fazerem uma triangulação bem feita. Não só porque é raro, sequer, tentarem-na, como também porque sabemos que aquilo sim, é que é futebol bem jogado, e não meter os cornos no chão e arrancar para a baliza, como tem sido escola na Luz, debaixo dos ulos do pagode.

No Porto, os jogadores que chegam começam pelos fundamentos, entram na equipa só quando os dominam e a própria equipa cresce à medida que, com o passar da época, os vai conseguindo executar mais depressa e com menos falhas. Também sabemos que a coisa está mal quando, como este ano, a equipa não melhora claramente com o passar dos treinos e dos jogos.

Há falhas? Claro que sim. Então o Porto não perde? Claro que perde, sobretudo quando apanha equipas com o mesmo domínio dos fundamentos e mais velocidade, ou quando algum factor aleatório (erros individuais crassos, de jogadores ou treinadores, por exemplo) o leva a isso. Mas a base está lá e o recuo nunca é profundo.

No Benfica os jogadores chegam, entram em campo e jogam. Dão o que têm (às vezes é muito), vê-se o que têm para dar à equipa e, se se tiver sorte com a química, com o momento, com a circunstância, pode ser que saia um título. Mas quando a circunstância desaparece as condições do sucesso também desaparecem. A mínima quebra de talento é letal. Porque faltam os fundamentos. Os fundamentos são a verdadeira maquinaria de uma equipa de futebol de sucesso, e fazer deles escola é o segredo para a durabilidade, senão do sucesso pelo menos para as condições dele.

Toda a gente gostava de ter um Ferrari, mas quem quer um carro a sério sabe que tem de escolher um Mercedes.



O caminho para ser melhor do que o Porto não é fazer diferente do Porto. É fazer o mesmo que o Porto, no que respeita à filosofia de se seguir os fundamentos do jogo, mas fazer mais e melhor no fundamentalização, indo mais fundo, sendo mais apto no que respeita à velocidade e à conjugação dos fundamentos – os que o Porto faz e os que não é capaz de fazer. Não há segredo. Não vale a pena ir pelos atalhos. Não se poupa tempo. Não se chega a lado nenhum. O que há é trabalho. Primeiro a entender o jogo – o que é bem feito e o que é mal feito. Depois a planear – tendo em vista o objectivo final, e não apenas alguns objectivos intermédios. Finalmente, a executar – com atenção ao pormenor.

Não é preciso suspender a actividade desportiva durante dois anos e meter toda a gente num mosteiro budista em meditação até atingir a iluminação. Pode-se começar pelas coisas simples e partir daí.

Fazer a bola correr em vez do jogador, por exemplo.

Centrar da linha de fundo para dar vantagem ao avançado e não ao defesa.

Centrar de primeira, já agora, pela mesma razão.

Cortar nas costas em vez de cortar pela frente.

Jogar a dois toques, para que ter a bola seja uma vantagem e não um peso.

Não ir à queima, ao corte da bola, na defesa, para que um erro individual não coloque a equipa em inferioridade numérica e não a comprometa.

Não fintar e jogar pelo seguro em transição atacante, para não criar vulnerabilidades defensivas.

Não marcar cantos curtos a não ser que haja a certeza de conseguir meter a bola na área.

Rematar de primeira, para não dar tempo ao guarda-redes para antecipar o remate.

Não fazer faltas desnecessárias.

Há 50 fundamentos por executar em cada jogo. 500. 5000. Saber quando e como executar cada um deles é trabalho para uma carreira, e a maior parte dos futebolistas nunca chega a aprender. Para quê perder tempo com artifícios que só servem para maquilhar a falta de trabalho real? (Para manter o emprego, talvez – confiando na eterna capacidade de negação da realidade por parte do adepto.)



Porque é que toda a gente sente, lá no fundo, que o Porto chega a este jogo com o Benfica na posição elevada, apesar de, na verdade não o estar? (Pois se o campeonato acabasse hoje o Benfica era campeão, não nos esqueçamos.)

Não é por estar ou não estar em primeiro, ou por ter mais ou menos três golos – essa é uma questão académica e (pelo menos até final do jogo, em que a relação definitiva do confronto directo pode ser estabelecida) fútil.

Também não é por ter recuperado 5 pontos em duas jornadas. Esse tipo de psicologias baratas também não se aplica (e aqui contra mim falo, porque muitas vezes lhes dou importância excessiva) neste tipo de clássicos. Vão ver os resultados do Benfica nas jornadas anteriores a ter ido ganhar por 6-3 a Alvalade ou de ter ido levar 5 às Antas e ficamos conservados em relação a esse aspecto.

É porque, no fundo, todos sabemos que, pela forma como trabalha (não mais, mas melhor), por dominar melhor os fundamentos, o Porto se encontra mais perto de chegar primeiro à posição elevada.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Uns na montanha, outros no deserto

Porto – IRPR, 0.181

É claro que, nas condições actuais, um benfiquista dificilmente poderia desejar mais que ver o Porto empatar em casa com o último classificado, mas não estou completamente seguro que não tenha sido melhor para o Benfica o Porto ter acabado por ganhar – sobretudo como ganhou.

O mais importante para o Benfica, neste momento, é encarar os próximos três jogos como os três jogos realmente decisivos – que são – do campeonato. Entrar para o primeiro desses jogos, em Guimarães, com uma súbita almofada de 7 pontos de avanço, depois de um jogo complicadíssimo para a Champions, seria um convite a um sentimento de comodidade que o Benfica não pode, de todo, deixar assentar.

Mesmo 7 pontos, perante este ciclo, são perfeitamente enganadores, porque em qualquer um dos próximos 3 jogos o Benfica pode perder.

Coloquemos o cenário do Benfica entrar com 7 pontos de avanço em Guimarães. Facilita e empata o jogo. 5 pontos. A confiança abala, os jogadores deixam de se sentir protegidos pelos deuses, experimentam a derrota, a Académica saca um bom jogo e, com alguma sorte, ganha. 2 pontos. O Benfica treme como varas verdes. Qualquer equipa tremeria, sentindo-se vulnerável precisamente na aproximação do jogo do título. Na Luz, um Porto tranquilo e confiante, mais experiente e ciente de que pode ganhar ali, como já ganhou, vence. É o fim do campeonato para o Benfica, ponto final.

Não era com o Leiria a empatar nas Antas que o Benfica asseguraria fosse o que fosse: é com pelo menos 4 pontos entre Guimarães e Coimbra e sem perder com o Porto. O Leiria serviu só para irritar. E fez perfeitamente o seu papel. Que o Porto tenha feito um resultado melhor que o Benfica, e roubasse algum do protagonismo excessivo que o jogo com o Nacional lhe estava a dar, foi só um bónus. Para continuar a dar a ideia do «taco a taco» que, neste momento, coloca uma pressão útil a quem vai com 5 pontos de avanço. Esta goleada faz lembrar aquela do 5-0 com o Nacional, na jornada 8, em que o Porto não jogou nada mas começou toda a gente a dizer que  «agora é que é». Nos 4 jogos seguintes, o Porto ganhou mais um, perdeu com o APOEL, perdeu com a Académica e empatou com o Olhanense.

Vai ser mais importante para o campeonato o Manchester City do que o Leiria, e nem sequer joga cá.


Sporting – IRPR, 0.000

Não esperava que o Sporting ganhasse, mas perder 2-0 com o Marítimo…

Seria perfeitamente expectável que não recuperasse do jogo de quarta-feira a ponto de estar preparado de enfrentar o Marítimo nos Barreiros. Não só houve grande concentração para o jogo com o Nacional, e grande exigência no jogo, como o próprio ambiente da Choupana puxa muito pelo físico, por causa da altitude.

Ficar na Madeira não era bem uma opção, pois era a única opção, mas seria sempre mau, porque a Madeira (como os Açores) é um sítio esquisito para se estar, tem um clima diferente do Continente, e não só. Quem já lá esteve sabe que aquela terra não é bem terra para quem não está habituado. Respira-se de maneira diferente

Em condições normais, o Sporting dificilmente ganharia nos Barreiros. Nestas condições, quase impossível. E com o Domingos a explicar, através da escolha da equipa, que ficava satisfeito com o empate e que lhe interessa muito mais o jogo da próxima 5.ª feira, o que é que podia acontecer?
 

A Juve Leo já decidiu quem é o elo mais fraco, pelo que se viu no aeroporto. Quem é que vai salvar o Domingos? O calendário, outra vez.

Se o campeonato fosse a Volta a Portugal em bicicleta o Sporting estaria agora a reentrar no Alentejo. Não é capaz de ganhar a nenhum dos outros quatro primeiros do campeonato, mas o próximo com quem vai jogar é o Benfica, daqui a oito jornadas.

Mas desta vez não vai cá haver 35 vitórias consecutivas, por duas razões: porque neste momento as equipas pequenas já sabem quantos pontos é que têm de fazer e têm menos jornadas para os fazer; e porque o Sporting tem aí a sua verdadeira competição da época, não a Taça de Portugal (para a qual não se vai «virar», como disse o Jesus em autêntico estado de borrifanço para eles, porque é só um jogo e o último da época) mas a Liga Europa, onde vai defrontar Légia e Porto ou Manchester City para chegar aos quartos-de-final. É nisso que os jogadores se vão concentrar e isso vai custar mais pontos ao Sporting.

E se não dou já por encerrado o capítulo Champions do Sporting é porque o Braga também pode chegar lá e porque ainda tem de ir jogar à Luz e a Alvalade, eventualmente deixando aí 6 pontos (embora não seja linear). O que será um facto é que o Braga-Porto será um jogo decisivo, e isso é muito bom para o Benfica, porque na última época foi um não-factor e agora é um dos poucos jogos, até ao fim do campeonato, em que o Porto pode realmente deixar pontos, desde que o Braga jogue a sério.

Para já, tenho algumas dúvidas de que o Sporting passe pelos próximos três jogos (Paços e Rio Ave em casa e Setúbal fora) com nove pontos.

No fim desta história, o que é que é que mais trágico no Sporting? Não é passar três meses à espera de um piquenique no Jamor. É aquela estranha sensação de que o mais provável é nesse dia estar a chover…



Liga Bwin – actualização

Não é que o Rio Ave ganhou mesmo em Olhão? Além disso, ainda não houve um empate nesta jornada. Altamente improvável, estatisticamente, que ela acabe assim. Posto isto, uma vez que só não pus o Rio Ave a ganhar porque pensei que o Gil ia ganhar à Académica, e achava duas vitórias fora dos pequenos demasiado para uma jornada só, vou utilizar a minha prerrogativa sacerdotal para alterar a aposta no Académica-Gil.

Passa a 10 euros, no empate, a 3.00.

Para ver se ainda ganho qualquer coisita de jeito esta semana…

Até agora, esta semana, 8.15 euros positivos.

E que tal os 4 golos no jogo do Porto? Grande fezada, hã?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Jogar o football (III)

O Futebol Clube do Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.  

Podia começar de muitas maneiras diferentes, mas achei melhor começar já por aqui, não só para aquecer o sangue ao pessoal neste dia mais frio do ano como para poder também falar em distanciamento analítico. O distanciamento analítico é o grande problema dos cientistas sociais. Sendo um observador inserido no sistema que observa, o cientista social tem de se distanciar do objecto que está a analisar, sob pena das conclusões serem adulteradas pelos seus preconceitos.

No caso português, sendo um terço dos adeptos do futebol portistas e os outros dois terços anti-portistas, é difícil conseguir o distanciamento analítico suficiente para concluir, sem preconceitos, que o Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.

Os que poderiam desempatar – os que não são portugueses – sofrem do mal oposto: estão demasiado afastados para nos ver.
 

Mas o Porto é o melhor clube europeu dos últimos 35 anos.
 

Em 1977, o Porto, principal clube da segunda maior cidade do país mais pobre e isolado da Europa Ocidental, com dez milhões de habitantes, em grande parte iliterados, em que nem televisão quase havia, saído de uma revolução política, estava há 18 anos sem ganhar um campeonato e nos onze anteriores só por duas vezes tinha conseguido ser segundo. Tinha 5 títulos nacionais no seu palmarés.

Tirando partido de todas as (poucas) condições que tinha ao seu dispor, incluindo um sistema formatado no compadrio e no caciquismo secularmente português e típico do sul da Europa, que tratou de conquistar através da modernização e profissionalização da corrupção (não foi o clube que inventou a corrupção, apenas se tornou melhor a fazê-la do que os outros), o Porto evoluiu em todas as vertentes – científica, económica, política e cultural.

Em 2011 o Porto, esse mesmo clube dessa mesma cidade desse mesmo país que continua a ser o mais pobre e periférico da Europa Ocidental, tinha ganho, entre muitos outros troféus relevantes, vinte campeonatos e duas Taças dos Campeões Europeus, e ascendido ao lugar incontestável de líder do futebol português em todas as suas componentes contemporâneas, ou seja, que não dependam de factores históricos.

Se (e é um grande se, concordo) excluirmos da equação a questão ética – que, de facto, só interessa aos portugueses, e que só nós, verdadeiramente, conhecemos – nenhum outro clube europeu fez tanto nestes anos como o Porto.

Mostrem-me outro que, perante condições semelhantes, tenha feito tanto como o Porto (tenho a certeza de que vontade não vos vai faltar e eu, por acaso, até agradecia se conseguissem…) e eu admito que o Porto não é um clube único no contexto europeu de 1977 para cá.


Não é que os outros não tenham tido os seus momentos, mas falar do futebol português depois do 25 de Abril é falar do Porto – e que isso, em termos de regime político, seja interpretado como se quiser.
 

Porque é que não damos o valor suficiente a estas façanhas portistas? À parte da questão do «um terço/dois terços» que referi logo no início, e da questão da corrupção que ficou aqui pelo meio, por uma razão ainda mais espantosa: porque não nos parece nada de sensacional. Estamos habituados.

É que, para se tornar no melhor clube europeu dos últimos 35 anos, o Porto tomou o lugar de um dos três melhores clubes europeus dos 20 anos anteriores a isso. O Benfica.
 

Entre 1955 e 1977, o Benfica, clube das classes mais baixas de um país completamente isolado do resto da Europa, ainda mais pobre que agora, que andara a saltar de estádio em estádio até chegar, enfim, em 1954, à Luz, com um futebol sem qualquer tipo de expressão internacional à excepção de uma esporádica Taça Latina, tinha ganho 15 campeonatos em 22 e disputado cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, ganhando duas. Se não tivesse havido um Real Madrid na década de 50, eu diria o mesmo que disse do Porto: mostrem-me quem fez mais e eu admito o erro de avaliação.
 

A impossibilidade de distanciarmos a nossa análise de um ambiente que nos envolve leva-nos a não compreender perfeitamente a dimensão dos dois maiores clubes portugueses e do próprio futebol português. Menosprezamo-los. Já aqui disse e repito-o: é um privilégio, para o Benfica (e para o Sporting) ter como objectivo superar o melhor clube europeu dos últimos 35 anos, porque, se o conseguir, ficará, automaticamente, muito perto de atingir a elite futebolística internacional – assim consigam superá-lo por se tornarem melhores do que ele e não apenas porque ele se auto-destruiu.
 

O que me interessa, realmente, é que tudo isto assenta em romantismo. Numa palavra, na mística. A mística é uma palavra que pretende definir um sentimento de elevação que se torna superior à rude matéria, uma propriedade espiritual, uma exaltação acima das ciências exactas que faz com que uma entidade seja maior do que ela própria. Isto foi o Benfica. Isto foi o Porto. E não há nada mais romântico e heróico do que isto.

O Benfica encontrou a sua mística no socialismo das classes baixas, em Lisboa e não só; o Porto encontrou a mística na sua ligação à terra, como bandeira de uma cidade com características muito próprias, mas nas conquistas de ambos há um distinto cheiro a portugalidade, a sebastianismo, ao pequeno país que vai por mares nunca dantes navegados, enfrentando Adamastores e tornando-se maior do que o seu destino, fazendo o seu caminho de fé, agradecendo a Fátima pelas graças impossíveis.

A palavra método tem origem grega, e significa caminho. O método de Benfica e Porto teve muitas semelhanças e a maior é a do apelo à mística.



A grande questão é esta: «Como é que um futebol de raízes místicas, de um país ultra-conservador, representado por três entidades que, encontrando soluções diferentes, apelam todas ao mesmo método romântico para atingir o sucesso, se vai adaptar à fria globalização do futebol, em que imperam outras místicas



2004 foi o primeiro ano do resto da vida do futebol português, o ano em que este se viu atingido pela modernidade, e não há, sequer, nenhuma dúvida sobre isso. No mesmo ano o Porto sagra-se campeão europeu, Mourinho revela-se ao mundo e Cristiano Ronaldo também, ao serviço de uma selecção que, a jogar em casa, em estádios de primeiro mundo, atinge a final do Campeonato da Europa – que acaba numa verdadeira tragédia grega, o melhor desfecho possível para um romance que dura 60 anos, ao estilo Doutor Jivago.

O Porto, mais uma vez, na vanguarda isolada do nosso futebol, protagonizou essa transição melhor do que ninguém. Em Maio sagrava-se campeão europeu fazendo um subito e ineperado regresso à mística, com um treinador de Setúbal, nado e criado no folclórico futebol português, filho de guarda-redes, e com uma equipa de jogadores made in Portugal, dos lateralíssimos Paulo Ferreira e Nuno Valente aos alusados Deco e Derlei, com os dois últimos representantes da geração-garrafão (como eu gosto de chamar aos anos do João Pinto…), Vítor Baía e o recuperado Jorge Costa; em Outubro passara à dimensão europeia, investindo como nunca antes tinha investido em promissores internacionais brasileiros como Diego e Luís Fabiano, à patrão, numa aposta clara de tentativa de aproveitamento do balanço financeiro dessa super-conquista para subir a um nível inalcançável pelos dois outros grandes portugueses. Em 2004, após a conquista do titulo europeu, o Porto, olhando para o lado e não vendo mais por onde crescer, tentou globalizar-se.

É desse movimento de expansão internacional, e dos lucros da fase pós-Mourinho, que resulta a possibilidade da sucessiva contratação de jogadores de classe extra, como Lucho González, Hulk, Falcão ou James Rodríguez entre vários outros, que têm permitido ao Porto, já sem a mesma mística mas com mais acesso ao dinheiro, manter a supremacia interna, com cinco campeonatos em sete anos.



Hoje, oito anos passados, olho para um Porto que fez mais de 300 milhões de euros só em vendas de jogadores; que fez, no Verão, a sua melhor venda de sempre; que está no ponto mais alto da sua história, e vejo-o sem dinheiro para pagar transferências banais, sem crédito sequer para fazer um empréstimo obrigacionista a três anos e a vender quinhões de jogadores três meses depois de chegarem e sem lucro. Economicamente, o Porto é um fracasso, não porque esteja muito pior do que os outros mas porque nenhum dos outros teve, sequer, o potencial aproximado de receitas que o Porto teve nos últimos dez anos. Se o Porto não consegue passar a fronteira nestas condições, como passará? (E não me digam que ganhar uma Liga Europa é passar a fronteira porque para isso basta olhar para o quadro das meias-finais.)

É este clube, optimizado e ainda assim praticamente (mais do que tecnicamente) falido, que chega ao fim da primeira década de globalização do futebol português, metido em sarilhos, enrolado em off-shores para contratar suplentes, empenhado em comissões para se conseguir agarrar ao bastião romântico de ir ganhando ao Benfica nos Álvaros Pereiras e nos Danilos do além-mar, custe o que custar. Estou bastante seguro de que não chega, até por uma razão muito importante: na guerra (e em Portugal o que há é uma competição permanente entre três nações) o factor decisivo nunca é o poder absoluto, mas o poder relativo. Os nossos recursos são importantes, porque sem recursos não se faz a guerra, mas aquilo que nos permite ganhá-la é a relação dos nossos com os recursos dos outros. Podemos ter pouco, mas se tivermos mais que os outros estaremos muito mais perto de ganhar a guerra. E, hoje, este Porto civilizacionalmente no topo não tem mais recursos que um Benfica que só ganhou três campeonatos em vinte anos.



Não é minha intenção aqui dizer quem de entre os três grandes se vai sair melhor na realidade do futebol global pós-Bosman. Ler o passado, mal ou bem, todos conseguem. Ver o futuro é mais complicado.

Há factores aleatórios, pontuais ou conjunturais que se misturam, do simples factor humano – nunca sabemos onde e quando vai surgir o próximo Pedroto, o próximo Mourinho, o próximo Eusébio, e eles vão surgir de certeza – ao macro-social – em que tipo de país se vai transformar Portugal nos próximos 20 anos, se mais periférico em termos europeus, se atlântico, se ibérico, se mais rico se mais pobre, e tudo isso influencia os clubes de futebol.

Olho para os três grandes, vejo o Benfica a fazer pontes aéreas entre Lisboa e Buenos Aires e a empreender joint-ventures com as canteras de Real Madrid e de Barcelona, vejo o Sporting a ser obrigado a falar, pela primeira vez, em investidores estrangeiros para conseguir, sequer, sobreviver (ainda vai ser o Futre a arranjar um dos chineses da moda, vão ver) e, além de confirmar que o nosso futebol, de facto, saiu do quintal, tudo me parece ainda extremamente artesanal, levado a cabo por artistas curiosos, pequenos grupos de amadores metidos em camisas-de-forças de hábitos retrógrados, tentando aplicar à lógica macro-económica contas de merceeiro de província, estruturas demasiado pequenas e demasiado frágeis para resistir à exposição à pressão internacional, demasiado dependentes de fulano ou cicrano, em que se continua a falar de um presidente como patrão, como cacique, cuja ausência determinaria a falência da própria estrutura. Pergunto: conseguiria o Benfica, ou o Porto, resistir a uma eleição presidencial em que fosse eleito outro presidente? Ou as famosas estruturas profissionais viriam por aí abaixo como um baralho de cartas?



Considerando que, como já disse, falar do futebol português pós-25 de Abril é falar do Porto, sou forçado a colocar o Porto no seu lugar: à frente do comboio.



Até ao último Verão, confesso, não calculei que a causa da decadência do Porto fosse económica. Talvez por propensão pessoal para valorizar as questões culturais, presumi que o Porto viesse a decair porque os dois factores óptimos de evolução que lhe permitiram tornar-se no melhor clube europeu dos últimos 35 anos – um contexto sócio-político propício coincidindo com as pessoas certas no poder (Pedroto e Pinto da Costa) e um desafio suficientemente grande para provocar o crescimento interno (o Benfica) – estariam esgotados. Quando o Benfica venceu o campeonato de 2010, no contexto em que o venceu, tornou-se difícil conceber que o grande objectivo histórico do Porto – pôr-se acima do Benfica em tudo – pudesse ir mais longe do que tinha ido até aí. O Porto parecia ter atingido o seu limite civilizacional.

A época de 2010/2011 aparece na contra-corrente. A reacção fortíssima do Porto resultou naquela que, tudo considerado, dificilmente não será vista como a melhor época de sempre do clube, e prova que o Porto continua a ser quem mais bem trabalha em Portugal.

Se eu tivesse de apostar, diria que a época passada foi uma espécie de canto do cisne do Porto – um último momento de esplendor, que não se repetirá, e após o qual a decadência será, ainda que lenta, inevitável. Mas isso é, de facto, subjectivo. Diria que é provável que seja, mas não inexorável.

Só nestes últimos meses é que dei por mim a considerar a hipótese real de o Porto vir a ser minado pela economia – mas, depois de a considerar, percebi que fazia sentido. Afinal, é sempre pela economia que começam as revoluções – até a Revolução Francesa se inicia por causa de um imposto… É pela barriga vazia, pela falta de recursos, pelo excesso de consumo, pelo endividamento, por tudo aquilo que o dinheiro ou a falta dele provoca, que chegam as crises e que os sistemas ruem. A primeira parte que falha é sempre a do dinheiro.



Ao olhar para o estado actual do Porto, enquanto último representante da mística à antiga portuguesa, e para o contexto, não consigo deixar de pensar que ele será o primeiro mártir da globalização do futebol em Portugal.