Mostrar mensagens com a etiqueta Pinto da Costa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pinto da Costa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Casa é bonita…

Vejo cinco minutos de telejornal e dou de caras com o grande momento anual de Pinto da Costa: o almoço na Assembleia da República.

Se se perguntar ao transeunte casual se acha aquilo minimamente relevante, provavelmente ele responderia que não, que provavelmente nem deveria aparecer no noticiário.

Mas aparece. E é relevante. Aliás, como disse, é o dia mais relevante do ano para o Pinto da Costa, para o Porto e para o sistema corrupto que envolve não só o futebol português como a nossa sociedade.

O simbolismo não é irrelevante. Símbolo quer dizer, literalmente, «o que está no lugar de algo que não está lá». Qualquer bom antropólogo poderá, em cinco minutos, esclarecer qualquer pessoa, da importância do símbolo na vida humana. Tudo o que é cultural e simbólico. O nosso conjunto de valores, tudo o que nos torna gente, é símbolo. O símbolo é a forma mais profunda de comunicação – é a forma de comunicarmos sem sequer percebermos que estamos a comunicar.

Como é que se estabelecem doutrinas? Com símbolos, suficientemente claros, perceptíveis e universais. As doutrinas impõem-se simbolicamente, tornam-se ideologias, adquirem os instrumentos do poder (os meios de comunicação, a opinião públicas, as instituições politicas) e, de repente, vemo-nos a defender inconscientemente, sem sequer pensar nisso, teorias subjectivas como se fossem verdades incontestáveis. Porquê? Porque fomos educados a pensar nelas como verdades incontestáveis. É assim que funciona o verdadeiro «sistema de opressão das massas». Pela educação, e pelo tempo, sendo que a educação é proporcionada sempre pela elite (que tem o se conjunto de valores) e o tempo joga a favor de quem tem os meios de sustentação da sociedade – a propriedade, se quisermos.

Porque é que partimos do princípio que uma sociedade democrática é uma sociedade mais justa, quando todos os dias nos aparecem à frente exemplos gritantes de injustiça até nas sociedades mais «democráticas» do mundo, e quando sabemos perfeitamente que nunca existiu um sistema realmente democrático na História?

Porque é que defendemos um sistema económico que nos tira poder económico?

Porque é que consideramos alguns grupos que defendem a sua identidade terroristas e outros heróis da liberdade?

Porque é que somos nacionalistas se as nações nunca serviram senão para dividir a espécie humana?

Fazemo-lo porque estamos formatados para isso.

E o que é que esta conversa marxista e gramsciana tem a ver com o Pinto da Costa? Tem tudo, porque o que se passou na Assembleia da República foi (mais) um momento de consagração do regime vigente.

A leitura restrita do evento? O presidente do Futebol Clube do Porto foi almoçar à AR a convite dos deputados portistas, como vai todos os anos.

A leitura lata, e simbólica? O homem que reverteu um «sistema injusto» a seu favor, o tribuno «do Norte» que lutou contra a pérfida capital do reino, o artista que conseguiu fugir à Justiça mesmo quando estava cercado de provas esmagadoras, é convidado pelos representantes do povo a entrar na própria «Casa da Democracia» e a sentar ao centro, no lugar de honra entre a facção de rebeldes que, dentro dessa casa, mostram que não têm problema nenhum em definir as suas prioridades: primeiro o clube, depois o país, e a ética logo se verá.

A seu lado, quem? A própria Assunção Esteves.

Um dia destes, antes do homem morrer (depois já não faz sentido, porque bater a mortos não é «à Benfica»), ainda hei-de ir ao fundo do baú, fazer um acervo de todas as imagens em que aparece Pinto da Costa em cerimónias, festanças e segredinhos com todos – TODOS! – os principais políticos de Portugal do pós-25 de Abril, devidamente legendadas, e a começar pelos Dragões de Ouro.

O título será «O Homem do Regime», e a última imagem será a de Pinto da Costa ao lado de Assunção Esteves, juíza do Supremo, presidente da Assembleia da República, magistrada de elite, uma espécie de manequim platinado topo de gama que esse mesmo regime, corrupto , marialva e injusto, põe na vitrine para mostrar como não é nem corrupto, nem marialva nem injusto, detentora do segundo cargo político da Nação logo a seguir ao Presidente da  República.

No fim do repasto, o discurso, claro. Não o do lado de dentro da sala, claro, mas o que realmente importa, o que é feito à porta, para os microfones e as câmaras.

«O número de estúpidos não diminuiu», afirma o grande homem. Ou seja, nós, os espertos, estamos cercados, mas continuamos a ganhar-lhes. Continuamos a ser melhores e a enganá-los.

Tem razão, é verdade, o número de estúpidos não diminuiu.

E é por essa razão que os espertos continuam a tomar conta do regime.

Mas há uma coisa que convém guardar, quer pelos espertos que estão de poleiro quer pelo pessoal mais novo, que corre o risco de olhar para estas coisas e de se enganar, por pensar que nasceu num país sem solução: é que são sempre os estúpidos que fazem as revoluções.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O síndrome de David e Golias

Estamos a cerca de 15 dias daquela altura do ano que os benfiquistas e sportinguistas só se lembram que existe na semana anterior: a altura em que a festa do campeonato entra pelas casas dos portugueses. Houve alturas em que as televisões tratavam esse acontecimento como o fenómeno regional que é, mas, entretanto, quer pelo trabalho de sapa propagandístico do Porto quer pelo crescente paradigma do politicamente correcto a que a comunicação social tem aderido, a coisa tem sido tratada como um evento  mais ou menos nacional.

O que quer dizer que está a chegar a altura do ano em que os benfiquistas, sobretudo, começam a ter a tendência para fazer disparates. Como é um povo muito dado às coisas básicas, não lhe dói assim tanto perder até ver, com os próprios olhos, o que perdeu. Também tem a ver com a falta de familiaridade com as vitórias. Só damos realmente falta do que estamos habituados a ter.

A mini-espera que fizeram à equipa, completamente idiota, é um indício. Com o benfiquista nem sequer se trata de tentar não ver só a árvore para conseguir ver a floresta: o benfiquista é tão apaixonado que sente que leva com a árvore no focinho. Qual floresta…

Talvez seja o momento ideal, então, para deixar uma breve mensagem aos benfiquistas, contra a poluição: não se deixem impressionar, nem se deixem enganar.

Não se deixem impressionar porque não é a festa nem o foguetório que interessa. O Porto ganhou um campeonato, é verdade, mas ganhou um campeonato não só que devia ter ganho, dada a época passada, como que foi o Benfica a perder. Em termos de expectativas o Benfica não só fez uma boa época como fez uma época superior ao Porto. O Porto esteve abaixo das expectativas, o Benfica esteve acima das expectativas. É claro que as expectativas eram bem diferentes, mas já aprendi que, no longo prazo, mais importante do que o que fazemos é o que fazemos em relação ao que se espera de nós. (É a mesma lógica que leva a que se diga que os bancos portugueses estão a atravessar uma fase difícil quando continuam a ter lucros de centenas de milhões de euros. Quando se espera ganhar 100 e se ganha 50, na verdade está-se a perder 50, porque a contas não são feitas para acabar aqui e agora mas para se fazerem num processo contínuo)

Digamos apenas assim, para tornar as coisas mais claras: se Porto e Benfica tiverem, na próxima época, o mesmo comportamento perante as expectativas iniciais que tiveram este ano, o Benfica é campeão de caras.

Esta é a verdade racional.

Em relação ao foguetório, vai ser o do costume. O que acaba por fazer mais mossa, na prática, e o dos Ruis Santos cá do relambório. Vamos ouvir falar em «hegemonia», em «sucesso», em «fracasso», em «hegemonia», nos «que trabalham e nos que trabalham mal e não aprendem», vamos ouvir muitas parvoíces.

O que é preciso é compreender o seguinte: se a época do Benfica (ou do Sporting, ou do Porto) não for um fracasso, e não apenas um falhanço, se não for extremamente importante, os Ruis Santos cá do relambório, que vivem (e bem) à conta disso, não são minimamente importantes.

Que tipo de vida teria esta gente se uma derrota perfeitamente normal do Benfica (que é o que é, afinal) fosse encarada como uma coisa perfeitamente normal? Uma vida perfeitamente banal.

É preciso não ignorar que esta gente é a gente que faz a análise a partir do resultado final. Em teoria, deveriam ser capazes de compreender o jogo de uma forma continuada, integrada, de saber separar o desempenho do resultado (que nem sempre são convergentes), mas não são. Os Ruis Santos cá do relambório são o tipo de gente que tem uma crónica escrita aos 89 minutos de jogo e, se a bola bate na cabeça de um tipo e entrar na baliza, mudam mais de metade e, sobretudo, o teor da crónica. O que eles dizem vale tão pouco quando se ganha como quando se perde: mesmo muito pouco.

Para os benfiquistas é altura de fecharem os olhinhos, abrirem a boca, engolirem o sapo, fazerem de conta que é lagosta e dizerem: «Muito obrigado.» (Desde que não se esqueçam que estão a engolir um sapo, senão não vão a lado nenhum.)

 O que se vai dizer e o que se vai fazer não muda em absolutamente nada nem a verdade dos factos nem o que é preciso fazer para melhorar. É nesta altura que o Benfica, nos últimos 30 anos, tem perdido a maior parte dos campeonatos – não os da festa mas os do ano seguinte.



Que não se deixem enganar porque os verdadeiros objectivos do Benfica, para o próximo ano, não vão ser «tentar ganhar tudo», nem «melhorar», nem «continuar o projecto», nem sequer «ser campeão».

O único objectivo real do Benfica para a próxima temporada é ficar a frente do Porto no campeonato.

Isto faz pele de galinha à maior parte dos benfiquistas. É um sapo ainda mais difícil de engolir que o outro. Cheira, parece e sabe a sportinguização. Não só a submissão como a conformação. Dá a ideia de que o Benfica é inferior ao Porto, e daí a passar à ideia de que se está a pensar à pequeno é um pulinho.

Os dirigentes do Benfica não têm a coragem (nem a inteligência, na minha opinião) para dizer isto. Têm medo de ficar para a história do clube como medíocres, como uns cocós, digamos assim.

É um erro. Porque é uma ilusão, e sai cara.

Já aqui escrevi isto há uns meses, salvo erro mesmo antes do jogo nas Antas.

O Benfica devia assumir, oficialmente mesmo, o statu quo. O quem é quem. A clarificação e o pragmatismo beneficiariam em muito o Benfica. Na verdade, mudariam todo o contexto.

É só por esta posição inferior em relação ao Porto nunca ter assumida, contra toda a lógica, que o Porto continua a tirar proveito da estratégia de superação, chamemos-lhe assim. Também lhe podemos chamar de estratégia de vitimização, mas eu prefiro chamar-lhe de síndrome de David e Golias.

O síndrome de David e Golias funciona bem em Portugal porque, culturalmente, não tivemos outra opção, historicamente, senão acomodarmo-nos a ela. Portugal nunca pode deixar de ser um David, e mesmo quando foi Império continuou a ser David. A lógica do «vamos lutar conta tudo e contra todos e acabaremos por vencer» que continuamos a ouvir, todas as semanas, como um mantra, é a nossa zona de conforto nacional, e isso explica-se pelas condições históricas. A grande treta psicológica do futebol português baseia-se nisso, no país dos pobrezinhos, nos «sem-abrigo que vão tentar fazer vida de rico por um dia», como relambeu o presidente do Gil, num assomo de sincretismo, há uns dias.

Nestes 30 anos o Pinto da Costa teve o cuidado de manter sempre o Porto na posição de David. É a única razão para ser idolatrado como estratega. Os analistas não sabem mais. Vêem um tipo a meter-se na posição de desgraçadinho e clamam: «Génio! Está a jogar com a psicologia invertida. Vai ser contra tudo e contra todos.» Não é génio nenhum, é apenas um zarolho em terra de cegos. Cá no burgo, a psicologia invertida tornou-se na idiossincrasia, na psicologia normal.

É claro que, sendo terra de cegos, a psicologia da treta funciona, e esse é que é o ponto mais prático.

Ao não assumir a sua inferioridade m relação ao Porto, por orgulho (o que não deixa de ser reconfortante, note-se), mas também por falta de inteligência táctica, o Benfica continua a permitir que o Porto mantenha a posição de David, mesmo perante a realidade bizarra do David, em Portugal, ser a equipa que ganha tudo. É por causa desse erro táctico, e dessa inversão da lógica, que andamos à volta com isto dos árbitros, por exemplo. É só por o Benfica não assumir o seu estatuto secundário, na prática, no futebol português, que não se faz a pergunta mais básica, estúpida e elementar em relação às arbitragens e que é a seguinte: «Se os árbitros são tão importantes para os resultados como vocês dizem, e tão corruptíveis, o facto de vocês ganharem 20 campeonatos em 30 não quer dizer, inevitavelmente, que os corruptores e os beneficiados são vocês?»

Numa lógica de corrupção institucionalizada o sucesso continuado do Porto é a única prova necessária do crime, e isso é evidente para qualquer totó com um dedo de cérebro, desde que se disponha a usar esse dedo de cérebro – o que não acontece quando se prefere rejeitar a lógica e as evidências.

Ao negar a realidade o Benfica está a permitir a perpetuação da condição básica do sucesso do Porto. Está a permitir-lhe colocar-se na situação de David, que não tem nada a perder e só pode ganhar, quando, como é óbvio, o único clube com alguma coisa a perder, o único clube que ganha, o verdadeiro Golias, é o Porto.

O grande truque de ilusionismo de Pinto da Costa, em 30 anos, é ter conseguido pôr toda a gente a acreditar que o Porto é o David quando é o Golias. Aí sim, tem sido mestre.

Quando a premissa básica do sucesso do Porto for invertida – quando o síndrome de David e Golias lhe for retirado – e quando essa ideia passar para a opinião pública, através de um trabalho inteligente de comunicação, a dinâmica de vitória do Porto esboroa-se em três tempos.

Mas, para isso, tem mesmo de se ser inteligente. E isso passa por dizer: «O Porto é o melhor, e o nosso objectivo é ser melhor que eles, só isso.»

Apenas com isso a pressão sobre os jogadores, a «estrutura» e os próprios adeptos do Porto aumentaria brutalmente. É algo com que eles não estão preparados para lidar de forma sistemática e continuada. É essa a mecânica do desafio e a resposta. Um dia a força do desafio torna-se maior que a resistência da resposta, o sitiado cede, e começa a sua decadência.

Mas para isso tem de haver o desafio. Não vai lá com cobardias, nem com paneleirices. Não chega fingir que não se quer e ir pela calada, escondendo a mão. Os reis não se matam às escondidas, senão não chegam a morrer. É preciso ter honra, audácia e grandeza. É preciso ir para o meio da rua e gritar lá para cima, de maneira a que toda a gente ouça: «O que tu tens é meu!»

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Técnico Oficial de Contas

A notícia do TOC merece um comentário, porque é uma jogada estratégica notável.

Primeiro ponto: o Pinto da Costa tem toda a razão. Bom, não toda. Engana-se quando diz que a notícia é plantada para semear a desestabilização na equipa. Não é só na equipa: é no próprio clube.

É evidente que obedece a propósitos desestabilizadores, é evidente que há uma disposição, da Bola, de servir um interesse externo, e é evidente que o interesse externo que a Bola está a servir é o Benfica. Ninguém pode ter a mínima dúvida disso, e esta certeza deixa-me muitíssimo satisfeito, porque a qualidade do trabalho deveria ser altamente gratificante para qualquer benfiquista



O mais brilhante deste plano é o facto de se limitar a aproveitar a energia negativa que já existe no movimento para o virar contra o perpetrador. É uma espécie de aikido político-futebolístico.

Qual é o nervo desta notícia?

Não é o TOC.

É o erro grave de Pinto da Costa ao escolhê-lo no princípio da época.

A parte mais óbvia do plano, que ajuda ao seu brilhantismo, é, aí sim, o timing, que demonstra audácia, ambição e paciência para esperar e tomar a iniciativa certa no momento certo. Ou seja, classe.



Descontruamos.

O Pinto da Costa está agarrado ao TOC. Já toda a gente percebeu que o TOC é barrete, que conseguiu, numa época, escavacar o trabalho de dois anos e passar o Porto de um nível em que estava claramente acima do Benfica para outro em que já não se percebe bem a diferença, em campo, entre quem tem, de facto a melhor equipa. (Eu acho que o Porto continua a ter a melhor equipa, e que uma vitória no campeonato seria justa, pelo mero valor, mas já não assim tanto, e muito menos nada que se possa assemelhar com o que aconteceu no ano passado. Mas esta é outra conversa.)

O facto é que o Pinto da Costa pegou no barrete, enfiou-o e está agarrado a ele. Todos os pressupostos que a Bola apresentou para o despedimento do TOC estão correctos. É um líder débil, um técnico sofrível, uma personalidade disruptora da harmonia de um clube que prima pelos ámens ao Papa. Vítor Pereira tira mais do que o que dá ao clube, e tira-lhe, sobretudo, enquanto estiver sentado na cadeira de sonho, a possibilidade de um treinador a sério lá se sentar. O único bom acto de gestão de Pinto da Costa seria demiti-lo no dia imediatamente a seguir ao final oficial da época.

O que Pinto da Costa está (estava, antes da notícia) a tentar fazer, era o seguinte:

- manter o assunto debaixo dos lençóis, bem escondido, mantendo também a estabilidade da equipa e do clube nestas ultimas semanas de campeonato, evitando colocar sob cada jogo a pressão acrescida de, além do jogo e do campeonato em si, se estar a discutir o futuro de um homem de quem ninguém gosta no Porto;

- levar o próprio Vítor Pereira (que já sabe do seu destino, não o duvido) a renunciar ao cargo, quer ganhe quer perca o título. Se perder, será mais fácil dizer que coloca o seu lugar à disposição porque não conseguiu atingir os objectivos e não quer pesar na decisão do presidente em planificar uma nova época de sucessos. O presidente aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo. Tudo tanga, obviamente, porque a coisa está mais do que combinada. Se ganhar será mais difícil. Terá de dizer que se demite porque sente que não reúne o consenso entre os adeptos e não que ser um elemento para dividir os portistas, deixando maior margem de manobra ao presidente que aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo.

Este é o plano.

Depois da publicação da notícia, o que se passa é que o ónus da decisão, que Pinto da Costa estava a tentar deixar para Vitor Pereira, passa a estar sobre as suas costas. E, se despedir Vitor Pereira, Pinto da Costa terá de fazer uma ginástica muito maior para não dar o braço a torcer e admitir que errou. Terá de ser ele a justificar porque razão não mantém o técnico para uma segunda época, como faz com todos.

Na prática, a decisão de despedir o TOC será sempre a mais correcta, mas deixa de ser à borla. Pinto da Costa vai pagar, com parte do seu prestígio, o erro que cometeu – algo que se estava a tentar evitar, porque a imagem do chefe infalível é um dos pilares do sistema de crenças portista.



Não é a conta desta desfeita que o Benfica irá ganhar este campeonato, entenda-se. Tratando-se de um bom plano, não é propriamente o Projecto Manhattan. Mas poderá ser bastante influente no próximo.

Se Pinto da Costa confirmar a notícia, com actos, no fim da época, dá parte de fraco, mesmo sendo um líder competente na decisão. Isso, e o facto de Vítor Pereira (o verdadeiro responsável pelo sucesso do ano passado, recorde-se, segundo Pinto da Costa) sair ao fim de apenas um ano, implica que o próximo técnico não estará tão seguro como é costume no Porto, nomeadamente quando chegar a altura das derrotas. Isso, por si só, criará desestabilização. Pode mesmo acontecer que a próxima escolha seja tão infeliz como foi esta, e aí sim, já sem a almofada deste ano (os excelentes resultados anteriores), com a credibilidade de Pinto da Costa afectada e com as prováveis alterações de fundo no plantel (Hulk não fica, até porque seria pior se ficasse do que se saisse), o Porto pode ter um problema grave.

Esta notícia é, assim, em potência, uma excelente semente de figueira plantada no meio do Olival.

Se Pinto da Costa optar por manter a credibilidade total, e não despedir o TOC, ninguém tem dúvidas de que o Porto que iniciará e disputará a próxima época vai ser mais fraco, em todos os aspectos, que o deste ano – e que já só ganhará o título mesmo à justa.

Ninguém, no Porto, está preparado para dar o mínimo mérito ao TOC em caso de triunfo. O que vier será artificial, plantado na opinião pública pelos paineleiros Serrões ou Aguiares, a mando do chefe, mas sem terreno para medrar. O povo portista não se deixa enganar com essas larachas. Vítor Pereira começaria o campeonato de tal forma fragilizado que um mero ciclo de maus resultados nos dois primeiros meses, como o que teve este ano, seriam praticamente definitivos para as hipóteses de sucesso da equipa no final da temporada. Alguém de bom senso sequer imagina que Vítor Pereira possa vir a ser o treinador do Porto em 2012/13? Claro que não. É o treinador mais frágil das últimas décadas, e o Benfica que vai ter pela frente será o mais forte do mesmo período. Seria a receita para o desastre escrita desde o início.

E isto leva-me a crer que a verdadeira intenção do Benfica nem sequer é usar esta fragilidade estrutural do Porto para ganhar o campeonato deste ano – isso seria só um bónus. A intenção real é tentar forçar Pinto da Costa a aguentar a mão, a aparecer nos treinos (como é da praxe quando a coisa dá raia), a bradar por «desestabilização» e malfeitorias, e a fazê-lo de tal forma convictamente que a única decisão coerente no final da época seja manter o TOC como treinador. Esse é que é o objectivo.

Não creio que vá acontecer, acho mesmo que o TOC vai demitir-se seja quais forem os resultados nos próximos cinco jogos, mas, com a notícia da Bola, deixámos de estar num cenário de vitória ou derrota para Pinto da Costa e para o Benfica. Mantendo ou despedindo o TOC, Pinto da Costa já perdeu – a questão é se vai perder mais ou perder menos (e isto devido a um erro próprio, daí o brilhantismo táctico da notícia). Pela mesma lógica, o Benfica já ganhou – pode é ganhar mais ou ganhar menos. (Alturas houve em que o Pinto da Costa fazia exactamente o mesmo ao Benfica, pondo-o a jogar contra os seus próprios erros de maneira cruel. Chama-se a isto virar o feitiço contra o feiticeiro, com toda a propriedade).

Jackpot, para o Benfica, obviamente, seria ganhar este campeonato e ver Pinto da Costa a manter o TOC, por pura teimosia. Não é impossível, mas quase.

Para limpar o rasto e não ser acusada de parcialidade – pelo menos total –, a Bola ainda se dá ao desplante de noticiar, hoje, uma não-notícia, ou seja, uma notícia que já toda a gente sabe: que o Jesus pode não ficar se não ganhar o campeonato. Que é o mesmo que não dizer nada. O típico engenho político.
O Pinto da Costa tenta levantar a lebre do Benfica estar a falar com outros treinadores, mas até aí se vê a sua posição de fraqueza: isso não choca nenhum benfiquista, porque todos os benfiquistas estão mais que preparados para que Jesus saia, quer ganhe quer não ganhe o campeonato.São três anos. Qual é o choque. O último treinador a ficar quatro anos seguidos no Benfica deve ter sido para aí o Cosme Damião... Nem os jogadores tão pouco seriam apanhados propriamente de surpresa. Para mais, tudo isto acontece numa semana em que o Benfica ganha ao Braga, joga em Londres e vai a Alvalade, o que atira para segundo plano tudo o que possa dizer respeito ao Jesus. Há demasiado futebol para se dar atenção a folclores. Algo que não acontece com o Porto, que tem uma semana inteira de páginas de jornal para encher com assuntos secundários.
Depois do jogo em Alvalade, há dois cenários possíveis para a discussão sobre o Jesus (que vai aparecer): ou o Benfica não perde o campeonato em Alvalade e fica à beira do título (o Porto vai à Madeira e recebe o Sporting) com quatro jogos relativamente fáceis para jogar; ou o Benfica perde o campeonato em Alvalade, o que praticamente sentencia o futuro de Jesus como técnico, e torna irrelevante qualquer tentativa de desestabilização, por meramente inócua.
De facto, tudo isto é simplesmente brilhante. Não se vê um ponto fraco. Eu, pelo menos, não vejo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Choramingos ao retardador

Se a minha Grila Falante sabe que estou aqui em vez de estar a fazer o que devia vai azucrinar-me o juízo, mas não resisto.
Vai ter de ser telegráfico.

Não gostei nada de ver o Witsel e o Gaitán a darem entrevistas de fim de época a meio da época, antes de duas eliminatórias dificílimas para a Taça, mas tenho de aceitar. Ou é isso ou é enfiá-los num buraco, como fazem no Porto, e não os deixar abrir a boca a não ser quando já lhes fizeram o upload da cassete. O Witsel, por exemplo, vai aprender a estar calado, mas para aprender a estar calado, primeiro, tem de ter falado demais. Como foi o caso. Evidentemente, o Record esfregou as mãozinhas e aproveitou para dar mais um bocado de ar ao balão.
Prefiro ver os jogadores a darem entrevistas depois de terem ganho alguma coisa – de promessas falhadas estamos todos fartos, há muitos anos – mas, por outro lado, também é por causa destes disparates que as pessoas acabam por estabelecer empatia com os jogadores e com os clubes.
Se o Porto tivesse sido um clube mais aberto nos últimos anos teria maior popularidade, embora, se calhar, não ganhasse tanto. É uma questão de opção, de filosofia de vida. Não há uma opção completamente certa nem uma completamente errada.
Mas há uma coisa que eu sei: os realmente grandes são os que conseguem conciliar a prestação desportiva à abertura de espírito e ter poder de encaixe. Basta ver como são os grandes campeões de qualquer desporto mundial. Como dizem os Américas, «you gotta talk the talk, and you gotta walk the walk».

«Sei que alguns adeptos querem matar-me pela forma como jogo, mas não posso mudá-la», diz o Gaitán na capa da Bola. Pois não, campeão. Então deixa-te chegar ao Real Madrid, por exemplo, e abancar por cada bola que deres ao adversário dentro do teu meio-campo e vais ver como ganhas logo facilidade em mudar a forma de jogar. Deves pensar que o pessoal cá em Portugal começou a ver bola quando tu chegaste.

O Pinto da Costa veio dizer que nem os animais gostam de estar enjaulados. Vocês até podem pensar que eu sou «buééé» inteligente por conseguir prever o que ele vai dizer, e quando, até quase ao pormenor, mas na verdade não sou – ele é que, ao fim de trinta anos, é completamente previsível. Só se deixa enganar quem quer.

O Choramingos descobriu hoje que foi roubado num jogo em que jogou trinta minutos comum homem a mais sem razão nenhuma para isso. Diz que não percebe como é que o árbitro não marcou penálti numa jogada de canto em que estão vinte jogadores dentro da área.
Isto explica porque é que, ao fim de cinco meses no Sporting, o Domingos ainda não conseguiu ensinar os seus jogadores a não sofrerem golos de canto. É porque ele não percebe.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

«Por favor, não matem o TOC!»

Probabilidades do Benfica acabar a época com nenhuma derrota: 0 %.
Probabilidades de uma derrota com o Manchester United comprometer minimamente a época do Benfica: 1 %.
Boas razões para eu não me importar minimamente com uma derrota do Benfica, hoje, em Manchester (desde que não tragamos um cabaz no avião…): 99.

Apesar disso, não joga o Rooney.
Ainda assim, prefiro mais ser do Otelul Galati desde pequenino que acreditar muito num bom resultado do Benfica em Inglaterra. Era giro, mas não é que seja preciso. É melhor guardar a primeira vitória em Manchester para outras núpcias.

*

Os terroristas ameaçam rebentar qualquer coisa em Donetsk. Se alguém tiver aí por perto um ucraniano das obras com contactos à rede terrorista, peçam-lhe para ligar para lá e ele que lhes transmita esta mensagem:
«Por amor de Deus, o tipo baixinho com pulôver azul à Técnico Oficial de Contas e nariz comprido não é para matar. Repito: não é para matar!

Alvos preferenciais:
- ser mutante disfarçado de jogador de futebol. Fácil de reconhecer, apesar de já não ter o cabelo oxigenado: é o que manda nos outros e no TOC.
- velho bem vestido com olhos de carneiro mal morto. Pode acontecer que se desenvolva  um cheiro pútrido à sua volta. Leva a filha, brasileira. Também é fácil de reconhecer. É o que atrai as moscas mesmo com 15 graus abaixo de zero.

*

Ao intervalo cá estarei.

sábado, 19 de novembro de 2011

O processo

Não me admirará que, nas próximas semanas – sobretudo se o Porto for eliminado na Liga dos Campeões – o braço armado da Direcção do Porto venha a assumir um comportamento, relativamente a Vítor Pereira, semelhante ao que teve com Co Adriaanse.

Não digo isto por saber o que pensa a claque sobre o Vítor Pereira – deve pensar muito bem, certamente… – mas porque sei como funciona Pinto da Costa.

Neste momento, para fazer o que sabe que devia fazer, Pinto da Costa precisa de um bom pretexto. A única forma de despedir Vítor Pereira sem dar parte de fraco, sem ser obrigado a reconhecer o erro e sem destruir o mito (falso) de que «o Porto não despede treinadores por causa de resultados», é se a claque (supostamente) tornar a vida do treinador tão difícil que, «para o próprio bem dele», Vítor Pereira ache melhor sair.

Como é que a coisa de processa? É assim: a claque, com o beneplácito papal, começa a atazanar, seriamente, a vida do treinador; as notícias dos problemas do treinador com a claque saem nos jornais e ganham, graças aos agentes da máquina oficiosa de propaganda, um dramatismo que, na verdade, não têm; Pinto da Costa transmite publicamente a sua total confiança no treinador, e dessa forma ganha mais algum tempo; se o Porto for eliminado da Champions, é o próprio treinador quem apresenta a demissão, dizendo que «se os jogadores são praticamente os mesmos, se os dirigentes são os mesmos, se a estrutura é a mesma» então o problema deve ser ele, e que, como portista de coração, sente que não pode ser um problema.

Pinto da Costa aceita a demissão (sem indemnizações, obviamente, mas com outras compensações obscuras, como é timbre da casa) e, nas férias do Natal, contrata outro treinador – provavelmente um português, provavelmente Pedro Emanuel, talvez Jorge Costa, alguém da alma portista, para tentar salvar a nova época que começa em Janeiro e tendo o campeonato, apenas, para apostar tudo. Depois, no Verão, com o tempo que não teve no defeso que passou, vai buscar um treinador mais a sério (Jardim? Ou um estrangeiro, para matar traumas?). Será que Villas-Boas ainda regressa à casa de partida durante o Verão? Não se surpeendam se isso já estiver a ser pensado. Seria uma boa explicação para o Dragão de Ouro, e o Abramovich já percebeu, por esta hora, que havia uma razão para um ser o treinador e o outro o adjunto.

É claro que é Pinto da Costa quem convence o Grande Timoneiro a demitir-se com promessas de ajudas futuras na carreira, «porque és um dos nossos, Vítor, e foste mais de 50 por cento do sucesso da época passada».

O maior problema do Porto é se ganha mesmo em Donetsk e se se apura para a fase seguinte da Champions.

Sim, é claro que uma vitória em Donetsk podia ser um momento de reviravolta na época. Mas a dinâmica que o Porto leva, neste momento, é de uma morbidez que se pode considerar irreversível. Ganha dois ou três jogos sem convencer e perde outro, miseravelmente. Não consegue arrancar, mesmo quando ganha (mesmo quando ganha por cinco!), e quando perde parece muito mais próximo da verdade, em termos exibicionais.

É preciso dizer que o despedimento de Vítor Pereira será mais do que justo. Em cinco meses o Grande Timoneiro conseguiu destruir completamente a defesa da equipa e banalizar o seu meio-campo, perdido entre os seus sonhos de perfeição da «pressão alta» e a mediocridade de um Moutinho a jogar metade do que jogava na época passada. Quanto ao ataque, não teve de fazer nada, a Direcção tratou disso ao não saber vender Falcão a horas e ao fazer de Hulk o primeiro jogador a estar acima da equipa em vinte anos graças ao seu suposto anti-benfiquismo.

É evidente que o Porto vai ganhar mais jogos do que os que vai perder até ao fim do ano. Até pode ser campeão – afinal, só tem perdido fora do campeonato. Não sabemos. Mas há uma coisa que sabemos: esta semana não vai chegar aparecer nos treinos, como é da praxe. O Papa vai ter de andar de avião e dar a cara em Donetsk. Porque, se não for, é mesmo porque está a ficar velho.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Águias e falcões

Segue-se uma lista dos presidentes fortes que Pinto da Costa teve de enfrentar desde que tomou de assalto o poder no Porto a Américo de Sá (e corrijam-me se estiver enganado):

João Rocha – Foi o último presidente do Sporting a enfrentar, olho por olho dente por dente, Pinto da Costa. Note-se que, na altura (finais de 70, inícios de 80), Sporting e Porto tinham as melhores equipas portuguesas. O Benfica, apesar de continuar a ser o Benfica, estava já no início da sua decadência, em contraciclo com o Porto pedrotiano. As duas primeiras épocas de Eriksson, que apanharam os outros de surpresa pela extrema qualidade do sueco, foram uma espécie de canto do cisne de uma época dourada. O grande adversário do Porto era, então, o Sporting. A guerra do Futre, do Oliveira, do Jaime Pacheco e de outros foi toda com o João Rocha, que perdia mas não se encolhia e jogava com as mesmas armas.
Nessa altura, Pinto da Costa tinha em Fernando Martins, presidente do Benfica, um aliado – e ainda hoje a equipa vai sempre para o hotel dele.

Depois de João Rocha o Sporting entrou numa espiral de degradação do poder, em que Sousa Cintra, um empresário de sucesso e um idiota enquanto político, foi o mais estável até aparecer José Roquette y sus muchachos.

Nesse interregno entre Rocha e Roquette (sensivelmente dez anos) o Sporting foi um não-factor, quer desportiva quer politicamente, incapaz de fazer mal a alguém a não ser a ele próprio devido à mediocridade dos seus dirigentes. O próprio Sousa Cintra, no único ano em que teve hipótese de ganhar o campeonato, espetou uma garrafa de água das pedras na própria jugular ao trocar um treinador de futebol (Bobby Robson) por um tipo de bigode (Carlos Queirós).

Nesta fase, o grande adversário de Pinto da Costa foi Gaspar Ramos, o homem do futebol de Jorge de Brito (o verdadeiro chefe do Benfica, mesmo quando João Santos era, formalmente, o presidente). Os anos que se seguiram à conquista da Taça dos Campeões pelo Porto, em 1987, e o fim do mandato de Jorge de Brito, em 1994, após o Verão Quente de Paulo Sousa e Pacheco, foram de uma intensidade de conflito como não voltou a haver no futebol português – nem actualmente. Foram os anos da verdadeira bipolarização, em que personagens como Lourenço Pinto, Adriano Pinto e muitos outros sugiram em todo o seu esplendor.
A guerra acabou com a vitória de Pinto da Costa, que encontraria, depois, um novo aliado em Manuel Damásio como presidente do Benfica – outro presidente fraquíssimo, um presidente de jet-set, com o substrato de uma noz podre, como nunca tinha havido na história do Benfica e que ia contra toda a sua identidade, operária e popular.

O que se deve notar, em relação a este período, é que foi aqui que o Sporting começou a subalternizar-se, assumindo que o seu principal adversário era o Benfica (os presidentes precisavam de popularidade e o povo sportinguista sempre preferiu ganhar ao Benfica que ao Porto) e não o Porto, então claramente já o grande dominador do futebol português e quase sempre campeão.

José Roquette – No primeiro discurso como presidente do Sporting, e ante a debilidade da posição benfiquista, Roquette define a nova prioridade: «É preciso fazer o 25 de Abril do futebol.» O ditador, claro, era Pinto da Costa. Quando Roquette entrou a matar, Damásio era um (discreto mas bom) amigo de Pinto da Costa.  Quando saiu a morrer, depois de perceber que o futebol era uma economia fechada, o presidente do Benfica era João Vale e Azevedo.

João Vale e Azevedo – Que ninguém duvide que Vale e Azevedo foi um presidente forte. A demagogia, o populismo e, sobretudo, a situação de desespero a que os benfiquistas tinham chegado ante o vazio de liderança, dera-lhe uma força que nunca nenhum presidente do Benfica tinha tido. Com Vale e Azevedo o Benfica estreou o absolutismo – um sacrilégio na sua história, intrinsecamente democrática (um sacrilégio que ainda não acabou e está longe de acabar, diga-se de passagem) – mas que tenha chegado a tanto sintetiza bem o estado de decadência que atingiu.
Vale e Azevedo usou Pinto da Costa para chegar ao poder (atacando-o) e, mérito lhe seja feito, nunca se rogou ao ataque depois de eleito. A ofensiva à Olivedesportos foi o golpe mais directo que já foi feito ao sistema. Uma vez que a Olivedesportos era a Dona Branca do futebol português nessa altura, Pinto da Costa não teve dificuldade em encontrar aliados, e o mais importante foi… José Roquette, que, fazendo uma espécie de PREC à maneira dos ricos, decidiu que, não podendo ganhar-lhes, devia juntar-se a eles e aproveitar a oportunidade de atirar o Benfica para o fundo de um poço em que nunca tinha estado em cem anos.
Foi nesta altura que começaram os jantares de Roquette na casa de Pinto da Costa, pela noite fora, delineando «estratégias empresariais comuns», trocas de jogadores, etc.

Os sucedâneos de Roquette – até ao Bettencourt foi tudo da mesma cepa, e o Godinho não é diferente, mas o Godinho, na bola, não manda nada e nem deve saber qual é a cabine – foram mais do mesmo, com a breve excepção de Dias da Cunha, um lunático que teve a lata de dizer a palavra que fica para a história – sistema – e que pagou por isso.

Luís Filipe Vieira – Esta é a guerra em curso, e não será preciso contextualizar muito. Convém, no entanto, dizer, a bem da tese que irei referir, que o Sporting esteve sempre, no mandato de Vieira, ao lado de Pinto da Costa, satisfeito com a oportunidade de ficar em segundo, apurar-se para a Liga dos Campeões e não falir, à custa do Benfica e de uma subalternização evidente ao Porto.
O culminar desta política de agachamento foi o comportamento do Sporting no caso do Apito Dourado, submetendo-se a uma posição de circunstância, situacionista, débil, aguardando, como um bom oportunista, pela carcaça que ficasse a jazer no solo. Saiu-lhe o plano ao contrário: no momento em que ia comer o cadáver deu um piparote (como tantas vezes já aconteceu nesta história de má vizinhança), encontrou Jesus e meteu o abutre na gaiola.


Os trinta (?) anos de presidência de Pinto da Costa ficam marcados, politicamente, pelas lutas de poder contra estes quatro presidentes. Os outros foram figuras perfeitamente secundárias.

E agora aqui está uma coisa que nunca aconteceu nestes trinta anos: uma aliança Benfica-Sporting, bem organizada, para eliminar o sistema de poder de Pinto da Costa.

Sempre que houve a possibilidade de isso acontecer, Pinto da Costa encontrou maneira de separar as forças. Quando Roquette chegou, por exemplo, esboçou-se, com a Liga de Clubes, a possibilidade de lhe retirar o poder sobre os árbitros. Rapidamente Pinto da Costa enleou Damásio contra Roquette e, depois, Roquette contra Vale e Azevedo.

A grande prioridade política de Pinto da Costa sempre foi dividir para reinar. Aproveitou, para isso, a rivalidade atávica entre Benfica e Sporting, mais da parte dos segundos que dos primeiros, que lhe facilitou bastante a vida. Sobretudo em relação ao Sporting, foi-lhe fácil comprar a lealdade com a promessa de supremacia sobre o Benfica.
Muito do poder que Pinto da Costa construiu foi à custa do poder que ia ficando isolado, e foi sempre para ele que ficou a parte de leão, muito pouco restou para o parceiro.

O actual momento pode ser histórico porque Luís Duque, acima de todos, é ambicioso, e sabe que o seu lugar na história, de facto, só pode ser conquistado à custa de Pinto da Costa. Não está disposto apenas a ficar com as sobras. Quer ser o primeiro a comer, e com isso está a forçar o Sporting a afastar-se do Porto e a procurar o único aliado real que lhe resta: o Benfica.
A contratação de Domingos é um claro ataque ao Porto. É entrar em casa do inimigo e roubar-lhe património, de maneira que ele nem se consegue defender – seria impossível a Domingos recusar o Sporting.

Duque é um homem inteligente e pode ser, quer para o Sporting quer para o Benfica, no actual contexto de guerra total com o Porto, um homem providencial. Uma aliança entre Benfica e Sporting, neste ponto da história, de fortalecimento dos dois clubes de Lisboa e estagnação (no alto, por enquanto) do Porto, poderia constituir o momento mais importante dos últimos trinta anos. E seria inédita.

Quer Duque quer Vieira sabem que só há uma maneira de tirar o Porto do poleiro: levantando toda a merda que o pôs lá e que, por agora, ainda vai estando acamada. A acontecer, vai ser sujo, vai ser feio e vai ser longo.

É neste macrocenário que devem ser avaliadas, actualmente, todas as movimentações de Benfica e Sporting. É tempo de cedências e de interesses convergente. É tempo de política. De alta e de baixa política. E não é tempo de ter vergonha. Se Pinto da Costa se tornou papa foi porque nunca se preocupou com esse pormenor. Haverá tempo para o pudor e para limpar o campo de batalha depois de se ganhar a guerra.

Arrisco a dizer que quem acha que se mata um porco sem fazer sangue deve sentar-se à mesa e esperar pelo chouriço.