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domingo, 29 de abril de 2012

Carta aberta a Jorge Jesus

Caro Jorge,



O teu comboio está na estação e o teu tempo acabou.

Eu sei que estás indeciso, mas confia em mim: as coisas não vão correr como pensas.

Como és um optimista, e como és um vencedor, convenceste-te de que, como só não ganhaste o campeonato este ano por teres tido de jogar a Liga dos Campeões desde a pré-época, e como isso não vai acontecer para o ano, e como o Porto vai ficar sem o Hulk, é praticamente impossível não seres outra vez campeão com o Benfica na próxima época.

Isso até pode parecer tudo certo, e não te posso repreender por pensares assim, mas não é isso que vai acontecer.

O que vai acontecer é o seguinte: a equipa que pensas que vais ter para a próxima época não é a que vais encontrar em Julho. Não vais perder só o Gaitán. Da maneira que as coisas estão, ficas sem o Gaitán, o Cardozo e o Witsel. Mas isso nem é o pior. Para isso até já estás tu preparado, e até tens soluções à vista. Os jogadores não vão ser um problema, e aí acho que tens razão.

O problema é que vais perder os jogadores.

Quando chegares para a pré-época vais perceber que a tua ligação aos jogadores já não vai funcionar. Vai correr mal, porque eles não vão querer correr por ti. Vão estar cansados dos mesmos exercícios, das mesmas caras, das mesmas palavras, dos mesmos métodos, da mesma lenga-lenga e sobretudo vão estar cansados de já não terem nada de novo para aprender contigo. Não os podemos levar a mal. Tu sabes bem que, no futebol, o metabolismo é acelerado. Vivem-se quatro anos no espaço de dez meses. Como tu dizes, e bem, o futebol é o momento, e não há amanhã. Pois tu, no Benfica, já chegaste ao depois de amanhã.

No fundo, tu sabes que é assim.

Se fosses dirigente, não terias dúvidas em injectar sangue novo, por mais competente que fosse o teu treinador. E, como treinador, sabes perfeitamente que as coisas vão ser muito mais complicadas do que o teu optimismo te quer fazer crer.

Tu, que sabes muito de bola, sabes que o que iria acontecer se ficasses seria isto: começarias a época sem crédito, porque nem tu nem o presidente já conseguem iludir ninguém – nem os teus colegas treinadores, que já te toparam, e às tuas tácticas; aos primeiros maus resultados, os adeptos, que já estão fartos de ti, iriam contestar-te; irias perder os jogadores porque também eles já não acreditam que tu os podes guiar ao sucesso – o título já foi há muito tempo; para piorar tudo isto, lá no fundo, sabes que o Porto não vai propriamente entregar o campeonato – vai meter dois ou três jogadores novos, perde umas semanitas a integrá-los e a partir de Janeiro está outra vez fino, ao contrário da tua equipa, que, como todas as tuas equipas, no Inverno começa a pedalar para trás. E ainda te arriscas a ver o Sporting passar-te por cima da cabeça. Pensa no que aconteceu ao Paulo Bento e ao Jesualdo.

Vá lá, Jorge, admite, em Portugal três anos num clube é uma carreira, e tu já não vais para miúdo.

Tu sabes que deves aceder ao que o Vieira te pediu e aceitar o convite do Villarreal, ou do Sevilha, ou seja lá o que for. Levas um milhãozito, para não ficares a perder, é justo, vais à tua vida e prestas o teu último serviço ao Benfica, que é abrir o espaço para contratar o Paulo Bento antes de começar o Europeu.

Dito isto, quero dizer-te que fico bem contigo. Foste importante. Trouxeste uma mentalidade vencedora para a equipa e, mesmo não concordando com muitas coisas que fizeste, concordei com a maior parte. O que quer dizer que fizeste muito. Ajudaste a recolocar o Benfica num nível médio-alto depois de muitos anos na mediocridade real.

Só há uma coisa que tenho dificuldade em engolir: nunca abriste o peito na luta contra o Porto. Tiveste sempre a tua carreira à frente do clube. Não te posso recriminar, porque, no fundo, achas que ainda vais ser campeão europeu pelo Porto, mas fico ressentido com isso. Nunca te entregaste completamente ao Benfica. Sim, eu sei, a culpa é minha, mas mesmo assim não te perdoo isso, porque acho que, se fosse menos egoísta, tinhas tido mais sucesso.

Mas também tenho de te dizer, porque a honestidade me obriga, que já não tens mãos para este barco. Contigo já não vamos a mais lado nenhum, e nós, no Benfica, não nos damos bem com segundos lugares e com quartos-de-final.

O teu comboio vai partir, Jorge. Está na hora. Não o percas.

Um abraço.

Assinado: o gajo chato do blogue.

sábado, 14 de abril de 2012

2012/13 alternativo

E se o presidente do Benfica pensasse assim:



- Jesus está esgotado. Já não vai conseguir acrescentar nada e, como tem um estilo de grande desgaste para os plantéis, o mais provável era voltar a gerir mal a equipa. Para quê, então, investir numa equipa liderada por alguém que a vai acabar por consumir, mais do que aproveitá-la, que continua a pensar que o elemento fundamental dessa equipa é ele próprio e que age de acordo com esse convencimento?

Jesus poderá ter um efeito nocivo para uma equipa potencialmente melhor, em todos os aspectos, do que a deste ano. Em vez de potenciar o rendimento dos jogadores, será um anti-corpo, pois toda a gente está em condições de evoluir menos ele – o elemento fundamental, recorde-se. Jesus pode mesmo fazer diminuir uma equipa que está numa etapa de crescimento, se não conseguir acompanhá-la – algo que, dada a sua aparente dificuldade em aprender ou em mudar de métodos, é o mais provável.

O problema do Benfica não é os jogadores, é o estilo. Com estes ou com outros jogadores, melhores, ou mesmo com estes jogadores, melhores, e outros, a equipa voltará a falhar porque o tipo de jogo (unidimensional) que o treinador criou e continua a alimentar é um tipo de jogo inapto para criar soluções, quer ofensivas quer defensivas, nos momentos das decisões. Torna-se irrelevante, neste caso, se os jogadores são melhores ou não, porque o uso que se lhes dá continuará a ser desapropriado. É como passar de uma espingarda para uma metralhadora num combate contra um tanque, quando o que é preciso é um único míssil anti-tanque – uma arma especializada, para a qual o treinador não tem maõzinhas.



- Gastar dinheiro, neste clima de desconfiança, e perante a actual conjectura, seria uma loucura. Vale mais prolongar as negociações televisivas, fazer um ano de transição económica, à espera de um mercado melhor, investir menos na equipa, guardar munições para outras batalhas, até porque é impossível que os adversários também se reforcem como gostariam, pelas mesmas razões. Se o Benfica arrisca e perde pode comprometer as suas finanças durante anos.



- O concorrente (o Porto) encontra-se numa fase de transição, de que a contratação de um novo treinador será o passo mais importante. O que faz com que esta seja a altura certa para jogar na antecipação, aproveitar a vantagem enquanto ela existe, e avançar para a contratação de um novo técnico, o melhor que esteja disponível. O mercado de treinadores com qualidade suficiente para treinar Benfica e Porto é limitado, e assegurar o melhor disponível é não só uma vantagem estratégica como um golpe nos planos do adversário. O segredo para se ser o melhor é ter os melhores, e os melhores treinadores são poucos. O Porto, neste momento, está agarrado a um pepino, mas rapidamente deixa de estar, a não ser que o benfica jogue na antecipação.



- A espinha dorsal da equipa já mostrou que chega para ficar em segundo mas não tem qualidade suficiente para ser melhor que a do Porto. Nesse caso, esta é a altura para, juntamente com a troca de treinador, deixar sair Aimar, vender Javi Garcia e Cardozo (e Gaitán, claro), manter Luisão e Maxi, remodelar o estilo de jogo – algo que não pode ser feito enquanto Aimar e Cardozo estiverem no plantel, por exemplo – e aproveitar a evolução dos outros jogadores, que terão tudo a ganhar se passarem a jogar num registo diferente, mais colectivo, mais inteligente, menos impetuoso, mais competitivo, e tentar subir de bitola, arriscando mais em vez de jogar na continuidade.
Com férias completas, com um estágio de pré-época inteiro para trabalhar, sem um inicio de época com pré-eliminatórias decisivas na Champions, que não deixam espaço para trabalhar a equipa mas quase apenas para preparar os jogos, com o adversário em reestruturação, perdendo Hulk, Álvaro Pereira, Rolando e mais que venham, esta é a altura certa para apostar na evolução, e não apenas de esperar que ela acabe por aparecer. O futebol é acção, não é expectativa, e tem de se provocar a mudança. Sem iniciativa, nada acontece.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Duas formas da banalidade

O Benfica devia ter entrado com a táctica que usa na Luz contra as equipas pequenas. O Sporting jogou como se estivesse a jogar na Luz, mas com a vantagem de estar em casa. Se o Benfica tivesse entrado a perceber que ia defrontar um autocarro teria ganho vantagem.

Já o Sporting, ganhou o jogo mas não ganhou mais nada, pelo contrário. O que o Sporting tinha a ganhar hoje não era o jogo, nem os três pontos: era o mesmo que o Benfica tem a ganhar quando joga com o Porto – uma atitude de predador. E fez exactamente o contrário. O Sporting ganha um jogo mas, não chegando ao extremo de dizer que perdeu uma equipa (porque seria um claro exagero), perdeu uma grande oportunidade de lançar a próxima época com um sentimento de superioridade sobre o Benfica. Algo que lhe vai ser muito necessário, pois o seu objectivo será, novamente, ficar à frente do Benfica.

A forma como cada jogada perfeitamente banal era aplaudida pelo banco do Sporting, como fosse o banco do Rio Ave a ganhar ao Benfica na Luz, chegou a ser constrangedora. A festa imensa no final do jogo também, sobretudo no olhar embevecido do Sá Pinto, como que a dizer: «Ganhei ao Benfica. Hoje posso dizer que cumpri o meu destino como treinador do Sporting.» Fazer de um Sporting-Benfica, no quinto lugar do campeonato, o jogo da época, é de facto revelador, e só augura novos cataclismos vermelhos no caminho do Sporting nos próximos anos. Claro que o que vão dizer na imprensa não é isto, é que este jogo foi só mais um, porque, no fundo, têm noção da mediocridade. Só não estão dispostos a prescindir dela.

Quanto à sua importância na conta corrente dos dérbis, até nem é mau que o Sporting tenha ganho. Equilibra os números para quando for preciso jogar os jogos a sério. O da primeira volta, por exemplo, foi bem mais importante do que este. O Sporting começou a morrer nesse dia. Hoje, o Benfica só acabou de morrer, a ferida já estava a sangrar há muitas semanas.


A porrada que o Javi deu no Volkswagen aos 25 minutos deveria ter sido dada aos 5. Anjinhos.



Acho que já percebi porque é que o Maxi Pereira começou a fazer aquela finta marada de metar para dentro sempre que tem a bola: esqueceu-se de como se centra. Escusava era de ter voltado a começar neste jogo.



Segundo os critérios do Soares Dias houve três penáltis na primeira parte, um deles a favor do Benfica no primeiro minuto. Em nenhum dos três o jogador caíu por causa do contacto. A razão por que marcou só um é um mistério de Fafe. Aliás, faltas iguais àquela houve dezenas durante o jogo, e ele só marcou metade. Ter calhado uma delas ser um penálti é, obviamente, pura coincidência.



Mas agora a sério…



O Benfica entrou mal preparado e completamente desconcentrado para um jogo em que teria de mostrar fibra de campeão. Não sabia como jogar, não soube executar, mostrou novamente todo o seu défice colectivo e mostrou que não tem estaleca suficiente para chegar e ganhar quando é preciso – faltou-lhe classe. Deu a ideia de ter entrado convencido de que já não havia nada a ganhar depois da vitória do Porto em Braga.

É um ponto final conclusivo que, tal como no jogo com o Porto, na Luz, pode ser encarado de duas maneiras pelos adeptos: ou fazem de conta que perderam por causa do árbitro, e voltam a perder para o ano e para outros anos a seguir; ou assumem que perderam porque não têm equipa suficiente para ganhar um campeonato de forma categórica.

Tenho a sensação de que sei o que o Jesus e o Vieira vão dizer, mas a opinião pública só pode ser manipulada se se deixar manipular.

O Benfica passou por situações muito distintas neste campeonato: sendo a equipa mais mediática (e não, atenção, a mais eficiente), fez figura de campeão durante metade da época, não por ser a melhor equipa mas porque a melhor equipa estava a perder o campeonato por si própria; quando teve oportunidade para mostrar que tinha estofo para ser campeã não a aproveitou e foi ela a perder o campeonato.



Neste momento, em que tudo vai parecer mau (porque o animal-homem é mesmo assim) convém dizer duas coisas muito breves:

- se o Benfica acabar em segundo lugar terá feito uma época acima das expectativas (realistas) iniciais, e em termos de qualidade competitiva, no cômputo geral (e na minha opinião), fez a melhor das três épocas do Jesus. Melhor que a primeira, onde só foi campeão porque a concorrência era menor, e muito melhor que a segunda;

- o que levou o Benfica a sucessivos fracassos nos últimos 30 anos não foi ter perdido campeonatos: foi, por um lado, não ter compreendido as razões das derrotas, e, por outro, não ter construído sobre elas, atirando-se a mudar o que estava mal e o que estava bem, sem método nem critério.



O ponto da situação do Benfica, não só a partir de agora mas desde a derrota em casa com o Porto, é o seguinte: se acabar o campeonato no segundo lugar está em óptima situação para começar o próximo como principal favorito (real, não teórico) à conquista do título. No fundo, o melhor que realisticamente se poderia esperar depois de uma época avassaladora por parte do Porto. Tudo depende do trabalho que se fizer no Verão – e o que o Porto possa fazer na resposta nem sequer é assim tão importante, porque a iniciativa está do lado do Benfica. Basta começar a dar ao pedal com força, acreditar e não facilitar – incluindo, obviamente, com os Soares Dias deste país.

Se ter ficado em segundo neste campeonato será, a longo prazo, melhor do que o ter ganho, veremos. É algo que só se pode dizer ao fim de muito tempo. No fim de dez anos há sempre campeonatos que se ganham e campeonatos que se perdem. O que fica, e o que faz a diferença nesse grande plano, é como eles são ganhos.

Volto a dizer o que já disse aqui várias vezes: ganhar sem o mérito suficiente é uma tentação perigosa, pela qual o Benfica pagou bastante caro ao longo dos últimos anos.



P. S. 1 – O Benfica não conseguiu fazer um único remate à baliza na sequência de um canto ou de um livre, e não chutou de longe. Como é que queriam marcar golos ao Rui Patrício?

P.S. 2 – Quando vejo o Jesus a gesticular para os jogadores, aos berros, a descobrir, naquele preciso momento do jogo, a chave para a vitória numa simples troca de posicionamento de dois jogadores ou no adiantamento dos médios em dois metros, fico sempre com uma angústia cá dentro de mim, em forma de dúvida: o que seria desta equipa do Benfica se em vez de passar a semana a treinar tácticas treinasse futebol?

sábado, 31 de março de 2012

Gaitán-Robben, Cardozo-Aguero, Aimar-Özil...

Em nenhum momento em que tem a bola nos pés nenhum jogador do Benfica tem uma ideia de como a jogada deve acabar. Ou melhor, têm uma ideia: sabem onde está a baliza. Tudo o resto é fruto do acaso. Os jogadores do Benfica são muito melhores do que o que parecem.

O Gaitán tem muito mais futebol dentro dele do que aquilo. O Rodrigo também. O Witsel também. Não têm é treinadores para isso. Os jogadores do ataque do Benfica só têm uma dimensão: a sua. A dimensão colectiva que possam ter dentro deles, com o tempo, com Jorge Jesus, pura e simplesmente desaparece. Porque o que o Jesus pede aos seus jogadores de ataque é precisamente isso: que sejam imprevisíveis, que usem a liberdade para criar soluções. O Rodrigo, ao fim de seis meses, é um jogador muito mais individualista do que era no princípio.

O resultado disto, na prática, é que facilmente o ataque do Benfica se torna também unidimensional: jogador com bola olha para a bola, olha para a frente e começa a correr. Há escassas hipóteses do colectivo do Benfica resolver um jogo, no ataque, porque, quando o jogador procura a solução colectiva, ou ainda não está lá ou já passou. Porque o outro jogador, obviamente, está na sua própria dimensão do jogo, que raramente coincide com a dos outros.

Tudo o que não seja óbvio, simples ou sorte não está ao alcance de uma equipa assim.



Este é o estilo de ataque do Jorge Jesus. Mas é curioso que só é assim desde que chegou ao Benfica. Antes disso, mesmo no Braga, quer o ataque quer a defesa eram mecanizados ao pormenor. Não havia liberdade para ninguém. Fazia o que os americanos chamam de micro-management, controlava todos os movimentos de todos os jogadores até ao pormenor. Nunca cheguei a perceber se o Jesus mudou o chip só porque estava no Benfica, se foi por perceber que, contra as defesas muito cerradas que o Benfica tem de enfrentar, só poderia resultar assim, se foi por sentir que finalmente tinha matéria humana para jogar «à Barcelona» (ao Barcelona do tempo dele, não do actual, entenda-se). Mas a verdade é que mudou mesmo.



Este estilo de jogo não é necessariamente errado. Quando é executado por grandes jogadores, como é que se defende um ataque imprevisível, rápido e tecnicista? É praticamente impossível. Aí sim, entramos no plano teórico do «basta marcar mais um que eles», porque as probabilidades são as de ganhar quase sempre por 3-2, 4-2, 3-1…

É o que acontece com esta equipa do Benfica em 70 por cento dos jogos, com as equipas com menos categoria, de baixa rotação e com menos capacidade de aguentar a pressão. Com as outras, não, por uma razão simples: os jogadores do Benfica não são suficientemente bons e não se conhecem suficientemente bem para arranjarem soluções em conjunto.

O Barcelona de Cruyff que ganhou cinco campeonatos seguidos e a Taça dos Campeões, e onde o Jesus foi fazer estágio, tinha-os. Stoichkov e Romário, por exemplo. Mesmo assim, note-se, sempre no fio da navalha. Dois ou três desses campeonatos foram ganhos graças a falhanços dos concorrentes directos (o Real e o Corunha uma, com um penálti falhado no último minuto do último jogo do campeonato, a jogar no Riazor) e na segunda final da Taça dos Campeões, que marcou o fim da era-Cruyff, com o Milão, levou 4-0! (Repare-se, contudo, que a disciplina táctica dessa equipa do Barcelona não é comparável com a deste Benfica. Era muitíssimo superior, assim como a capacidade de passar a bola.)

Este tipo de futebol de alto risco é um futebol que rebenta com os nervos, mas que apaixona, é ousado, corajoso e é à equipa grande. O tipo de futebol do Porto, por exemplo, sempre foi ao contrário, defensivo, seguro, e por mais que ganhe não apaixona ninguém. Passa incógnito. O que é que se sabe na Europa sobre o Porto? Que ganha. Mas só os treinadores é que gostam de os ver a jogar. Para os adeptos o Porto é igual aos outros, não se distingue.



Para conseguir fazer nos outros 30 por cento de jogos o que faz nos mais fáceis, e com o Jesus, só há uma hipótese: ter melhores jogadores. E já não vou para Ronaldos, Messis ou Iniestas. Ter um Aguero em vez do Cardozo. Ter um Robben em vez de um Gaitán. Ter um Mata em vez de um Bruno César. Ter um Özil em vez de um Aimar. Ter um Yaya Touré em vez de um Javi García. Ter um Coentrão em vez de um Emerson. Por este último exemplo, apenas, se pode ver a que distância real se encontra (na minha opinião, claro) o Benfica de Jesus da equipa que ele (o Jesus) pensa que tem.



Mais um ano de entente Vieira/Jesus, na melhor das hipóteses, vai dar nisto: o Benfica perde dois titulares, compra três ou quatro, melhora o onze inicial, os jogadores conhecem-se um pouco melhor, alguns deles amadurecem (Rodrigo, a Charrua, o Witsel…), o Benfica começa a época na data normal, chega a Fevereiro mais fresco, passa da tal fasquia dos 70 por cento para a dos 75 ou 80, se tiver sorte alguns deles são os decisivos, o Porto perde o Hulk e fica com o TOC mais um ano, e dá um campeonato. Mais nada. E isto é na melhor das hipóteses, porque ninguém garante que o Porto sem Hulk será mais fraco, como equipa, que o Porto com o abono de família Hulk.



Quanto ao jogo, qual foi a novidade? Uma equipa com 60 minutos de jogo no pulmão, a desperdiçar posse de bola como se tivesse 120 e como se do outro lado estivesse uma equipa a treinar. Jogo relativamente seguro a defender e totalmente errático a atacar, incapacidade de segurar uma vantagem caída do céu aos trambolhões numa jogada idiota do defesa do Braga, uma equipa do Braga a jogar como o Feirense e inferior em todos os sentidos menos nos pormenores da organização e do colectivismo, jogada individual genial de Gaitán no minuto 92, já fora de tudo, com Bruno César a marcar o golo da sua carreira num momento de classe, fazendo o que tinha de ser feito de maneira precisa. O Benfica ganha da única forma que consegue ganhar um jogo com este grau de pressão: com uma coincidência de momentos individuais brilhantes. Que, por extrema felicidade (estrelinha de campeão?) chega no último suspiro. É Gaitán quem ganha este jogo, não nos iludamos. Os outros empataram-no – ele, em cinco segundos, ganhou-o. No limite. À messias. Como o povo gosta. Mas para termos uma equipa de nível europeu temos de o trocar por um Robben.

Fácil, não?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A costura está a rebentar

Com muita pena minha, estou completamente apertado de tempo. Gostava de dar uns lamirés sobre o Sporting-Porto, mas vou ter de me limitar ao telégrafo das noites pré-teste.



1 – Acho que o Porto errou ao adiantar o jogo da Taça da Liga. O facto do Domingos ter jogado com a equipa titular em Vila do Conde é uma boa prova de que não há nada como um jogo-treino mais a sério para queimar as frituras de Natal e pôr as pernas a mexer. Parece-me que o Sporting vai chegar com mais pedalada. Provavelmente foi o jogo para a Taça da Liga, nesta fase de grupos, em quatro anos, em que o Sporting pôs mais titulares a jogar, e fê-lo quatro dias antes do seu «jogo do título», como Porto. Isso parece-me significativo.

O Porto optou por treinar em vez de competir, basicamente, depois de dez dias de férias. Demonstra, na minha opinião, insegurança. Não acho normal, no Porto.

Aliás, não acho normal: a equipa que está junta há seis meses cumpre o calendário normalmente; a equipa que está junta há três anos prefere ficar a treinar em vez de competir. Posso estar a ter uma visão enviesada da coisa, mas…



2 – Não dei muita atenção à conferência de imprensa do Jota-Jota, mas na questão das Malvinas esteve bem. Querer mudar a realidade por decreto é a melhor forma de falhar, como está historicamente comprovado. É como fazer auto-estradas a torto e a direito para pessoas que ainda não existem, à espera que as pessoas as usem só porque as auto-estradas estão lá. Para mim é uma coisa que não faz sentido, mas enfim…

A questão das equipas B é igual. Enquanto as pessoas não perceberem que a razão para os futebolistas portugueses terem poucas oportunidades é única e exclusivamente económica, que não tem nada a ver com filosofias, com princípios, com legislações, ninguém vai a lado nenhum. Daqui a dois anos as equipas B vão estar carregadinhas de nigerianos, de argentinos, de brasileiros, por uma única razão: porque economicamente faz sentido. Havemos de voltar a isto.



3 – O Porto ainda não pagou o Sandro, e, segundo a propaganda, «encaixou 5 milhões» com Defour e Mangala quando, na verdade, se limitou a alienar um terço do passe dos jogadores ganhando ridiculamente pouco ou nada com isso, apenas para encaixar algum dinheiro que lhe permita comprar um avançado – o que, provavemente, só conseguirão fazer depois de vender o Guarín, sendo que isso só vai acontecer quando o clube que o comprar os estiver espremido até ao último tostão porque sabe que têm absolutamente de vender. Esperem…. Estão a ouvir?... São as costuras a rebentar.

Cada vez me convenço mais que a economia vai conseguir o que os políticos e os tribunais não tiveram coragem para fazer.

Lembro-me sempre da história do Al Capone, que foi preso por fuga aos impostos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Jesus e Peter

Pegando no Jesus onde o deixei ontem, estabilidade não é qualidade. Estabilidade só é qualidade quando já existe qualidade para estabilizar. E o Benfica ainda não tem qualidade suficiente para poder dizer: «Vamos estabilizar aqui.»

O Benfica precisa de crescer mais, de ficar muito melhor antes de se poder dar ao luxo de dizer que está satisfeito e que precisa de estabilizar.



O Jesus oferece ao Benfica (e continuaria a oferecer caso continuasse para o ano que vem) uma hipótese real de lutar por títulos. É isso, aliás, que faz dele o melhor treinador que passou pelo clube desde Eriksson. É um competidor e, mesmo com uma equipa inferior, não entrega os pontos. Com Jesus, o Benfica continuará a andar na luta e, com mais ou menos este ou aquele jogador, com mais ou menos zaragata, arrisca-se a ganhar um campeonato, ou uma Taça, ou a ir a uma eliminatória avançada da Champions.



Mas há uma condição fundamental que é preciso perceber nos momentos de decidir: no futebol e na vida não há neutralidade. Não existe a «estabilidade». Quando um sistema está «estável», na verdade, está a decair, porque outros sistemas que o rodeiam estão a progredir. No futebol ou se está a melhorar ou se está a piorar, mesmo que não se queira sair do mesmo sítio.



Dito isto, chegamos ao fulcro da questão: o que o Jesus tem para dar ao Benfica é suficiente que justifique perder a oportunidade de apostar num treinador novo, que traga alguma coisa que o Benfica não tem tido?



Quando me refiro ao que o Benfica não tem tido refiro-me, pessoalmente, à filosofia colectiva, que ainda deixa muito a desejar, e ao rendimento dos jogadores, que não é satisfatório. A jogar como joga, (pensando, geralmente, primeiro na solução individual e depois na solução conjunta), e a aproveitar o que aproveita do potencial dos jogadores que consegue contratar (penso que falei aqui em 80 por cento, mas se calhar estou a ser ligeiramente benevolente…), o Benfica não tem condições de lutar pela subida à elite europeia.

Não é um treinador novo que muda isto sozinho, mas ajuda a mudar. As organizações são as pessoas. O segredo das boas organizações é conseguir aproveitar e guardar (de forma cumulativa, cultural) o que há de melhor nas pessoas que por elas passam. Se o Benfica tivesse tido essa capacidade, de aprender, considerando a quantidade incrível de sabedoria e qualidade que por lá passou nos últimos vinte anos, hoje estaria entre essa elite. Pensem só: Eriksson, Artur Jorge, Manuel José, Mourinho, e tantos treinadores e jogadores de grande nível, perdidos no vácuo de liderança.



O Princípio de Peter



O princípio de Peter diz-nos que todas as pessoas progridem profissionalmente, por mérito, e naturalmente, até chegarem a um patamar em que a exigência supera a sua competência. Isso só é revelado quando essa pessoa é colocada perante um desafio para a qual não está preparada. É um processo natural, em que não há erro da parte de ninguém, nem de quem progride nem de quem lhe permite progredir, apenas selecção natural. Eu estou convencido de que o Jorge anda desde Maio de 2010 a bailar sobre o seu limite de Peter e ainda não vi nada, este ano, que me faça pensar o contrário.

E digo mais: a culpa não é dele, nem é de ninguém.



Na época passada o barco de um Benfica campeão revelou-se demasiado pesado para as mãos dele, e, à melhoria que está a haver este ano, atribuo-a a uma série de mudanças internas e externas que elenquei logo nos dois primeiros posts deste blog e entre as quais não coloco o Jesus entre os mais relevantes. O Jesus de hoje é o mesmo de há um e de há dois anos, também já o disse. Mudou o que o rodeia. Com isso, acrescente-se, o Jesus está a caminho de ser campeão, e isso atesta a sua qualidade. (É só para não pensarem que tenho alguma coisa contra o homem, porque não tenho. Simpatizo com o Jesus – desde que esteja na minha equipa, claro...)



Não acredito que o Jesus tenha alguma coisa para acrescentar ao que já trouxe ao Benfica. Nem me parece que tenha grande capacidade (nem tempo, nem oportunidade) para aprender o suficiente que o torne assim tão melhor do que o que é. O que ele sabe, já usou e está a usar. Teve batalhas suficientes para isso, em número e intensidade, e a que se avizinha, a maior de todas, será, certamente, definitiva. Vai exigir ao Jesus tudo o que ele tem.

(Acrescento que a forma como se está a revelar o estado de espírito de alguns jogadores suplentes, num momento em que estão tão perto de conseguir uma época brilhante em termos colectivos, não abona muito a favor do que o Jesus tem…)

Um cenário que envolva a continuidade do Jesus será sempre na perspectiva que referi ontem, de tentar melhorar só através do clube, tentando manter constante a parte técnica. É racional, reafirmo-o. Em termos de gestão, é do que os economistas gostam – uma opção conservadora, ponderada, desapaixonada, sem excessos. Até acho que é a opção que a maioria dos adeptos do Benfica prefere, porque a maioria tem bem fresca a memória dos muitos anos de confusão que antecederam a chegada do Jesus à Luz, sem resultados decentes. Manter um treinador que vai ganhando é uma tentação muito forte – e não digo que seja a opção errada, insisto.

Mas não seria a minha solução.



É uma questão de consumo. O famoso desgaste, se quiserem.

Nós queremos que o futebol seja paixão, mais do que fidelidade. Somos fiéis aos clubes e isso já nos chega. O que queremos do clube é que nos alimente a paixão, é que nos dê muitas amantes, transcendência. Podemos aguentar uns meses de abstinência, se sentirmos que são preliminares, se nos parecer que a promessa de grandes prazeres no final é suficientemente promissora. Mas se virmos que o que ali está é uma equipa frígida, que não desenvolve nem tem hipóteses de desenvolver, não estamos dispostos a esperar nem mais uma semana: queremos outra.

O Jesus anda há seis meses a prometer um final em grande. Sobreviveu (miraculosamente, diga-se) aos desastres da última época, graças ao orgasmo brutal da primeira época. Isso quer dizer que os benfiquistas estão mais preparados para sofrer na expectativa – o que é bom, porque quanto melhor e maior for a expectativa maior é a recompensa. Mas não exageremos.

Nem os adeptos do Porto, que tiveram nos últimos vinte anos os melhores momentos das suas vidas, e prazeres com os quais não podiam suspeitar, têm uma capacidade de suportar mais que algumas semanas quando percebem que a boneca é de borracha.

Não é só em Portugal que isto funciona assim. Quando a novidade acaba toda a gente quer mudar. Até os jogadores. Sobretudo os jogadores. Para nós, que vemos o futebol de fora e de forma mais prolongada no tempo, o convívio cansa. Para um futebolista, que tem uma esperança média de alta competição de dez anos, para quem o ritmo é rapidíssimo, voraz, que tem de viver tudo depressa e em máxima intensidade, um treinador como o Jesus torna-se insuportável, sobretudo a partir do momento em que já só tem coisas para repetir, quando já não ensina o suficiente.

No contexto europeu, como o nosso, em que o papel do treinador é extrapolado – ao contrário do americano, por exemplo, em que os jogadores têm muito mais responsabilidade, muito mais crédito e um ónus muito maior nos resultados da equipa – é isso que faz com que seja raro um treinador ficar muito tempo à frente de uma equipa. É contra-natura.

O Jesus está quase consumido, e é assim que tem de ser. Nem ele espera que seja de outra maneira. A sua própria maneira de trabalhar é de desgaste rápido. Está-lhe entranhado. Isto é a selva, não é a pradaria. Como ele diz, «o futebol é o agora».

Se o Benfica e os benfiquistas caírem na ilusão de que o Jesus é homem para lhes dar aquilo de que precisam durante mais dois ou três anos vão cair num duplo equívoco e ter um duplo problema: não só não vão ter as vitórias que esperam, porque não vai haver dinâmica de vitória, como, a meio do caminho, se vêem nas mãos com o problema de terem um treinador que já não serve, de terem deixado passar o tempo certo para mudar e de não só ter deixado passar de prazo a dinâmica que havia, apodrecendo o que havia sido ganho, como ter comprometido decisivamente a dinâmica do ciclo seguinte, ao não tratar o treinador seguinte como uma primeira escolha mas como um bocado de estuque para tapar um buraco.



Mais do que ser uma questão de saber acabar é de saber evoluir. Passar de um bom para um melhor. Nos jogadores, nos treinadores, nos dirigentes.

Para isso é que uma estrutura realmente serve. Serve para aprender o que um Jesus tem para ensinar, consumir o Jesus (não tenham pena, o Jesus é bem pago para ser consumido), e experimentar um Jesus melhor – arriscando, atente-se, mesmo que haja a hipótese de falhar. Não se pode ceder à tentação de tentar preservar o que se ganhou. É o contrário. Os momentos de mudança são os momentos de maior crescimento, e quando se ganha ainda melhor – a confiança esta em alta, a energia também, há o sentido de objectivo alcançado e uma vontade implícita de começar qualquer coisa de novo.

Uma estrutura deve estar preparada para ganhar mas também para falhar, para ser um air-bag do falhanço, para absorver o erro e o ensinamento e para voltar a arriscar. Um Eriksson, um Mourinho, não surgem de apostas conservadoras, surgem de apostas pensadas mas arriscadas. Ser líder implica inovar, e inovar implica tentar seguir não pelo caminho mais provável mas pelo caminho mais promissor, ter golpe de asa. O Benfica não deve procurar um contra-ponto ao Jesus – alguém calminho, bonzinho, muito altruísta, um Peseiro qualquer que por aí ande e que nos deixe descansar –, deve procurar alguém melhor que o Jesus. Mesmo que isso signifique que seja pior do que o Jesus, em termos de temperamento.

Haveremos de chegar ao ponto, lá para Maio, em que estaremos a falar do célebre perfil. E nessa altura avançaremos mais sobre isto.



Não é importante, nesta análise, se o Benfica ganha ou não este ano – até estou convencido de que ganha, como já afirmei muitas vezes. É importante é saber interpretar o momento. Aliás, gerir de forma inteligente a «situação Jesus», tendo em conta o factor motivacional extra que daí resultaria, até poderia ser um bom trunfo lá para Março/Abril…

Missão Improvável

(Vou ter de dividir a minha perspectiva do prazo de validade do Jesus em duas partes, porque, a meio, percebi que é enorme e que nem sequer tenho tempo para acabar agora. Mas hoje à tarde fui ver a Missão Impossível IV, e se o Tom Cruise pode fazer quatro filmes sem mudar de corpo eu também posso passar um texto de um dia para o outro…

Aliás, juntando as duas postas de Natal, mais estas duas, também temos aqui uma espécie de Missão impossível em quatro partes: tentar decifrar o mistério de Jesus.)



Primeiro ponto que quero deixar perfeitamente claro logo no início desta conversa sobre o prazo de validade do Jorge Jesus no Benfica: não é uma questão cultural.

Como já sei que a argumentação vai dar aí, porque os opinion makers da treta dos nossos jornais nem sequer se dão ao trabalho de trabalhar cinco minutos à procura de fundamentar as suas afirmações, simplesmente abrem a goela e «lá vai Ferguson» digo já que não há, repito, NÃO HÁ, uma questão de «mentalidades».

Invariavelmente, quando se fala em longevidade de treinadores, vamos todos dar ao sempre mesmo. Pois bem, se temos de ir aí dar, eu coloco um desafio: indiquem-me outro Ferguson no futebol profissional? Eu respondo: não há. A razão porque vamos dar sempre ao Ferguson é porque só há um.



Neste momento estarão a dizer: «Já te apanhei: e o Wenger?»



É uma opinião válida, mas o Wenger é outra questão. No Arsenal há a noção clara que o sucesso «é» o Wenger. Que o Wenger é a única e a grande mais-valia do clube.

No United tenho poucas dúvidas de que os próprios donos do clube prefeririam que o Ferguson já tivesse pendurado as botas para ir buscar o Mourinho, ou outra figura do género, alguém que ficasse três ou quatro anos, que trouxesse ideias novas ao clube, e que não fosse o que o Ferguson é: uma instituição. Com o Ferguson no lugar, os donos do clube estão praticamente de mãos atadas. O Ferguson é indespedível. Para quem está de fora é engraçado, é romântico. Para quem é dono, ter alguém no clube que manda mais que ele é complicado, e arrisco mesmo dizer que facilmente se torna contraprodutivo. Foi por muito pouco que o Ferguson não se tornou obsoleto, quando o Mourinho esteve no Chelsea. O fosso que se criou entre as duas equipas, de um momento para o outro, mostrou claramente que o Ferguson está ultrapassado em relação aos melhores. Se o Abramovich não se tivesse fartado do Mourinho (lá está, ter alguém que manda mais que o presidente é sempre complicado…) o United não tocava na chincha durante mais um ou dois anos e o Ferguson já se teria reformado.



Já para o Arsenal, perder 8-2 com o United não é tão mau como seria perder o Wenger. Perder seis ou sete ou oito campeonatos não é tão mau como perder o Wenger. Por isso ele não sai, e só sai se quiser. Porque eles sabem que sem Wenger não andam nos quatro primeiros: vão parar à terceira linha. Chega a ser injusto dizer que o Wenger é uma tentativa do Arsenal de criar o seu próprio Ferguson, porque, mesmo que ao princípio a intenção fosse essa, o Wenger é muito melhor que o Ferguson. Com metade ou um terço do dinheiro do Ferguson, com dez anos de atraso, com a construção de um estádio novo, de raiz, pelo meio, o Wenger fez uma  equipa do nada, com jogadores de segunda linha, a maior parte criada lá desde os juniores, anda sempre lá em cima e até ganhou campeonatos e jogou finais da Champions League. Se eu tivesse de escolher um treinador do campeonato inglês a quem entregar um projecto de futebol escolhia o Wenger à frente do Ferguson vinte vezes em vinte. São opiniões, e não consensuais, admito.



Voltando ao desafio, quantos Fergusons é que há nos clubes de topo do futebol europeu? Nos clubes campeões europeus, por exemplo. Quantos Fergusons houve? Quantos treinadores com mais de cinco anos de clube é que já ganharam a Champions desde 1991, para não ir mais longe? A resposta é 1. Em 1997, Ottmar Hitzfeld ganhou a Champions League com o Borussia Dortmund no seu sexto ano no clube. E saiu nesse mesmo Verão, para o Bayern de Munique.

E dos restantes treze só houve dois que estiveram mais de seis anos no clube com o qual ganharam a Champions (arrisco mesmo a dizer que só lá estiveram tanto tempo porque, pelo meio, ganharam a Champions e deixaram a promessa de a ganhar outra vez): Cruyff, no Barcelona, entre 1988 e 1996, e Ancelotti, no Milan, entre 2001 e 2009. Todos os outros saíram antes de começar a sétima época. E todos eles ganharam coisas importantes, atente-se bem. Não foi por falta de sucesso que não ficaram mais tempo.



Mais uma questão que coloca em causa algumas ideias feitas: quantos treinadores na Premier League inglesa, apontada como símbolo da «longevidade dos treinadores», é que estão no lugar há mais de três anos? A resposta é 6. 6 em 20, sendo que acima de seis anos só há três.



O Jesus treina uma equipa que joga para ser campeã e em que a pressão de ganhar é permanente. Uma época no Benfica equivale a cinco épocas no modesto Stoke City, que ainda há dois anos andava na segunda divisão, e que não chocará ninguém se para lá voltar noutros dois.



Podíamos continuar com exemplos válidos para desfazer alguns mitos. Quantos clubes do top-20 (incluindo o Porto) é que mantiveram, nos últimos vinte anos, treinadores por mais de três épocas? Quantos treinadores campeões das cinco maiores ligas é que estiveram no clube durante mais de três épocas? E por aí fora. Em qualquer cenário encontraremos alguns casos de longevidade, mas eles não são a regra. E isso é transversal, do Norte ao Sul da Europa.



Trago esta questão para cima da mesa porque há um mito que deve ser destruído para se poder falar como deve de ser do futuro do Benfica com ou sem Jesus. Vou chamá-lo «mito do escocês», e diz-nos que, no que respeita a treinadores, longevidade resulta em qualidade.

Deve ser destruído porque não é verdade.

Não só a manutenção de um treinador no cargo durante muito tempo não traz, forçosamente, qualidade à equipa como, na maior parte das vezes, provoca uma degeneração dessa mesma equipa. De uma forma geral, nunca uma equipa volta a ser tão boa como nos primeiros três, no máximo quatro anos, com um treinador. As excepções que existem confirmam a regra, e basta ver a história para confirmar essa regra.

É verdade que estabilizam, mas não estabilizam sequer no seu nível mais alto, antes num nível médio-alto, que lhes permite ir ganhando, eventualmente voltar a fazer um brilharete, mas já se o fulgor inicial.



Quando se fala na falta de alternativa a Jesus eu prefiro pensar no factor habituação. Habituámo-nos ao Jesus, e temos dificuldade em pensa noutro registo. Não é nada que não se altere num par de meses. Quando o Jesus sair (e eu não estou a defender que ele deve sair já, atenção) vai-se respirar uma lufada de ar fresco no clube e o novo treinador terá, também, o seu estado de graça. Todos têm.



Não considero o factor longevidade relevante, e não considero que a falta de alternativa seja um problema real. Acho mais pertinente colocara questão a outro nível, com duas variantes:

- o que o Jesus ainda tem para dar ao Benfica depois do fim desta época;

- e o que o Benfica poderá estar a perder por manter o Jesus daqui para a frente.



Antes de ir por aí, e até antes de colocar sobre a mesa os argumentos sobre as vantagens e as desvantagens daí decorrentes, adianto que não vejo o Jesus a treinar o Benfica na próxima época. Talvez seja por falta de hábito. Afinal, desde que me lembro de ser do Benfica, nunca vi um treinador a começar uma quarta época.



Diria mesmo mais: se o Jesus ficasse uma quarta época no Benfica a mudança de paradigma directivo seria de tal forma fracturante com o passado que não me admiraria que o Jesus ficasse outros quatro.



A própria ideia de pensar em termos de «este tipo não é o melhor treinador do mundo, nem é o melhor treinador que podíamos ter, mas é um treinador suficiente desde que o próprio clube seja capaz de fazer a diferença em relação aos outros, por isso vamos ficar com ele e fazer do cargo de treinador não uma coisa fundamental mas uma coisa estrutural» seria de tal forma revolucionária, no Benfica, que não estou certo que não seja mesmo essa «acomodação técnica» conjugada a um «aperfeiçoamento estrutural» a maior vantagem de manter o Jesus. Não seria pelo Jesus, seria pelo que a manutenção significaria.



Pessoalmente, isto provoca-me sentimentos ambíguos. Gosto da exaltação e da inovação, mas por outro lado, sempre achei, racionalmente, que, quando se tem o poder em termos absolutos que o Benfica tem (em dinheiro, energia, dimensão pura), ter uma abordagem ao jogo igual à dos rivais directos, em que se coloca tanto peso sobre a figura do treinador, era uma fragilidade. Conseguir manter um poder corrente, estável, ter uma estrutura vitoriosa, preparada para ganhar independentemente do treinador, e sem ficar totalmente dependente dessa figura que aparece no princípio de uma época e que dois meses depois pode estar despedido, sempre me pareceu o mais inteligente. Ao jogar com as regras dos outros o Benfica é como um exército poderoso a lutar com técnicas de guerrilha. Perde a sua vantagem relativa. Manter um Jesus qualquer durante cinco, seis, sete, oito anos seria, eventualmente, a melhor forma de relativizar a importância do treinador, desde que tudo o resto funcionasse bem e permitisse chegar às vitórias. Seria, no fundo, não deixar o Benfica à mercê da incompetência do primeiro Quique que aparecesse.

Se é para manter o Jesus, então ele que fique mesmo até 2015.



Mas isso já é melhor ficar para amanhã.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O Jorge

Ontem escrevi sobre o que pode fazer do Jesus um bom treinador para o Benfica. Hoje vou escrever sobre o que pode prejudicar o Jesus.


O que vou escrever hoje pode parecer incoerente com o que escrevi ontem. Mas é porque, no fundo, é a parte má daquilo que faz a parte boa do Jesus. Nem tudo é completamente preto, nem tudo é completamente branco. Uma moeda tem sempre duas faces e não deixa de ser uma moeda por causa disso.

Há médicos que fumam e morrem de cancro nos pulmões. Há verdadeiros génios que sofrem de alcoolismo (que é uma doença) e que se autodestroem. Uma pessoa inteligente não está a salvo de fazer coisas estúpidas, bem pelo contrário. Um artista vulgar não está impedido de fazer uma obra de arte eterna.

O que valoriza o Jorge Jesus, como qualquer pessoa, é a capacidade de fazer as suas características penderem para o positivo e não para o negativo. É ser mais Jesus que Jorge. Por exemplo, se é verdade que o Jesus tem colhões também é verdade que…



1 – …o Jorge é «o melhor condutor do mundo»

Talvez o pessoal mais novo não se lembre desta frase, mas quando se começou a fazer as campanhas para prevenir a condução sob os efeitos do álcool havia um anúncio que dizia isto. Era um tipo completamente bezano que era «o melhor condutor do mundo» e que se espetava na segunda curva.

O Jorge embebeda-se facilmente consigo próprio.

Quando o Jorge diz que os treinadores portugueses são os melhores do mundo o que ele quer dizer, realmente, é isto: «Eu sou o melhor treinador português a seguir ao Mourinho, e mesmo ao Mourinho, se fosse preciso, com os jogadores que ele tem, enganava-o. Se os treinadores portugueses são os melhores do mundo e eu sou o melhor treinador português então eu sou o melhor treinador do mundo.»

O Jorge vai a Barcelona e vê o Cruyff a treinar porque acha que o Cruyff é o maior. Aprende, convence-se de que agora é que sabe tudo o que já está inventado e, no fim, pensa: «Anjinho do caraças. A jogar assim dava-te uma volta que até te esquecias.»

Isto, em si, não tem nada de mal. Quando se tem colhões a sério tem-se muito poucas dúvidas de si próprio, e daí a pensar-se que se é o melhor condutor do mundo é um pulinho. O problema é que entre pensar-se que se é o melhor condutor do mundo e começar-se a fazer do próprio umbigo o Poço da Morte da Feira Popular é outro pulinho.

A época passada é o exemplo claro de como o Jorge entra facilmente numa espiral egocêntrica. Não percebeu as condições especiais em que tinha ganho o título na primeira época. Não percebeu os seus próprios erros (mesmo que os tivesse percebido jamais os reconheceria em público, porque o Jorge não dá parte de fraco, mas o problema não foi esse, foi mesmo não os ter reconhecido). Pensou que era o melhor condutor do mundo porque, assim que lhe puseram um Ferrari nas mãos (um Ferrari com pneus carecas, problemas no carburador e o depósito quase vazio, entenda-se, para não haver exageros…), chegou em primeiro à meta. De repente já não só era o principal candidato ao título, mesmo perdendo quatro jogadores nucleares do onze, como podia ganhar a Champions. Correu bem…

Não tenho dúvidas de que o Jorge aprendeu uma lição, mas não nos enganemos: o Jorge é um veterano de guerra, acha que ninguém tem nada para lhe ensinar, que ele é que tem para aprender e é quando e como quer, e não é fácil (para não dizer que é impossível) para uma pessoa com estas características mudar a sua forma de ser e de estar. Aprender, ele até aprendeu, mas não mudou. Sabe mais um bocadinho, mas no fundo é a mesma pessoa, e vai continuar a cometer os mesmos erros – não aquele especificamente, porque é esperto, mas os mesmos, se me faço entender.

Esta época a coisa começou mais sóbria, mas já se percebeu que o melhor condutor do mundo vem a caminho, juntamente com a sua equipa «quase perfeita». No ano passado foi apanhado na curva pelo Adjunto. Este ano, se não houver quem lhe atire um balde de água fria sobre a bela cabeleira, ou se não levar um beliscão do Zenit, por exemplo, nada nos diz que o Adjunto do Adjunto não o volte a enganar.

Aqueles pequenos momentos das conferências de imprensa em que o Jorge faz o sorriso de pato-bravo e diz qualquer coisa do género «eles pensavam que me vinham aqui enganar naquela situação mas eu já estava à espera e enganei-os» são reveladores. Na maior parte das vezes toda a gente sabia o mesmo que o Jorge, mas o Jorge pensa que ele é que descobriu a pólvora. E depois age como tal.

Como quando diz: «É um jogador que eu já conheço desde os infantis, e tal…» O Jorge conhece os jogadores como à palma das suas mãos, mas às vezes (e mesmo considerando que nunca se sabe bem se um jogador se vai adaptar ao clube ou não) mete com cada argolada que até dói, sobretudo ao tesoureiro.

Refira-se que não me impressiona como o Jorge fala (até é bem benfiquista…), só tenho algum medo de como o Jorge pensa.



2 – O Jorge é cá da terra

Quem fez o Jorge, como treinador, foi este Vietname que é o futebol português, e ainda está por se saber se o Jorge algum dia conseguirá ganhar alguma batalha fora da selva.

Ontem escrevi que o Jesus pensa em grande, mas isso é no sentido de ele acreditar que não há Golias que lhe ganhe. O Jorge, até ver, é um bom David, é verdade, mas não sabemos se algum dia conseguirá ser mais do que isso.

Digo isto porque o Jorge é esperto, mas não me parece especialmente inteligente. É um tipo óptimo para a guerrilha, para a milícia, mas é altamente duvidoso que consiga passar a general numa guerra maior. Falta-lhe mundo mas, sobretudo, falta-lhe capacidade de perspectiva. Visão de longo alcance. O Jorge é bom para ganhar aqui e agora, como eu escrevi ontem, mas como é que a coisa corre se não o conseguir?

O estilo que o Jorge adopta em Portugal é o mesmo do Mourinho, e o mesmo do Villas-Boas: atrevidos, com bocas foleiras, pernas à cobói, pastilha elástica de boca aberta, conversas de saloon. É o estilo messias-marialva que o pagode tanto admira e que pensa que é a única forma de se ser treinador de futebol, uma espécie de Rei do Gado, de chicote na mão, tipo Cajuda, Manuel José, Jaime Pacheco, e outros artistas da mesma cepa que, no fundo, só conseguem treinar em países de terceiro mundo porque assim que vão parar a um ambiente mais sofisticado – basta chegar a um Ossassuna ou a um Maiorca – têm de amochar e perdem a aura que lhes dão por cá.

 Mas, quando saíram de Portugal, Mourinho e Villas-Boas, que são inteligentes, adaptaram-se. Mudaram o chip. Um com melhores resultados do que o outro, é certo, mas dentro do mesmo tom. Teria Jesus a inteligência suficiente para se adaptar a um futebol e a uma realidade completamente diferente da que conhece há trinta anos?

Por exemplo: em Portugal (no Benfica e em qualquer outro clube) o Jorge é dez vezes melhor treinador que o Koeman, por várias razões que têm mais a ver com o país que com o treinador em si. Mas, na Europa, se considerássemos que ambos tinham a mesma idade, a quem é que daríamos a hipótese de chegar mais longe? Qual é o que tem as características e o estilo mais compatível com o futebol de elite, que se joga pelos futebolistas de elite, na Inglaterra, Alemanha, Espanha? Como diria o outro, «n’um sei não»…

É possível ser-se um grande treinador se não se conseguir ir além do horizonte curto? Saber como ganhar agora é bom, é óptimo - mas é curto. E depois acaba. E quando acaba o que é que sobra?

No fundo, a questão que se coloca é esta: o que é que o Benfica quer ser?

O Benfica quer ser o maior clube português? Nesse caso não precisa de mais que do Jesus, pelo menos para já. Se lhe der as armas, e se não lhe entregar os mapas todos para a mão, só alguns, e não o obrigar a pensar muito, o Jesus ganha a guerra.

O Benfica quer ser um clube de elite? Se for assim, será possível estar entre a elite – e não apenas aparecer lá uma vez por década – com um treinador de trazer por casa?

O Jesus tem dificuldade, no início de cada época, em ver para lá de Dezembro. Como é que conseguiria ver para lá dos Pirinéus sem perder o oxigénio?

O Jorge gasta as pedras todas com o primeiro Golias que lhe aparece à frente, e manda-o abaixo. Depois, quando lhe aparece o irmão do Golias, atira-lhe com a funda e fica a olhar para ele, sem saber o que fazer, à espera de ser esmagado, ou à procura de um buraco onde se enfiar.



3 – O Jorge não sabe treinar. (iôô…)

Pois. Choque e espanto. O Jorge não sabe treinar.

Deixei a bomboca para o fim.

Nunca vi um treino do Jorge. Vi do Trapattoni, do Heynckes, do Eriksson, do Toni, de muita gente, porque gosto de ver treinos, mas ir ao Seixal ver um treino, sinceramente, é coisa que não me passa pela cabeça, e quando não é lá também não tenho tempo. Mas não preciso de ver nenhum treino do Jesus para saber que os treinos dele não são tão bons com ele pensa que são.

A vantagem de se ter um treinador numa equipa durante dois anos e meio a caminho de três, praticamente com todos os mesmos jogadores nucleares, é que podemos ter a certeza de que o que a equipa mostra em campo é a materialização do trabalho feito ao longo dos meses – não é uma coisa aleatória, não depende da forma, é o resultado de um método de trabalho.

E o que eu vejo na equipa do Benfica é um trabalho muito saturado numa única vertente – a táctica – e sem resultados nas outras – na parte técnica, física e de jogo colectivo ofensivo.

Vamos por partes:

- o Jorge dá uma importância extrema à componente táctica do jogo. É a parte que ele acredita que decide os jogos equilibrados e é a parte que ele, como treinador, pensa que consegue controlar melhor. Quando um treinador não confia por aí além nos jogadores – e o Jesus confia pouco nos jogadores – defende-se com a táctica, para lhes reduzir a margem de erro.

O Benfica não é uma equipa fraca, tacticamente, mas a questão não é essa. A questão é que, para a importância que o treinador dá à táctica, tinha de ser muito melhor. Ao fim de dois anos e meio de trabalho táctico aturado o Benfica teria de estar muito mais evoluído do que o que está. Continua a ser uma equipa muito vulnerável ao erro, cujo sucesso depende muito mais da qualidade inata dos jogadores e da sua evolução particular e natural do que de aprenderem algo que não aprenderiam por si próprios. Quem fala tanto em táctica teria de ter uma equipa com uma cultura táctica muito superior à que tem. E já não falo de questões mais específicas, como a do claro subaproveitamento do Witsel, que é, potencialmente, o melhor jogador do Benfica, e que, quando sobe no terreno, metade das vezes acaba preso na linha lateral a dar o rabo, salvo seja, a dois defesas e a tentar sacar uma falta. (O Witsel é de tal forma superior, fisicamente e tecnicamente, à maior parte dos jogadores de meio-campo que é confrangedor vê-lo a passar um jogo inteiro a fazer o papel de tampão e a passar a bola para o lado, e garantoque até ao fim da época não vai fazer mais do que isso, porque «tacticamente» seria arriscado.)

Tacticamente o Benfica faz as mesmas coisas hoje que as que fazia ao fim de dois meses com o Jesus, apenas interpretado por jogadores diferentes. Não é uma equipa tacticamente pobre, repito, mas está estagnada.

- tecnicamente, os erros que os jogadores cometem são, igualmente, os mesmos. E não falo só de pontapés na bola. Os pontapés na bola dependem mais da condição física que de outra coisa, e quando não se sabe também não é aos 20 anos que se aprende – aos 20 anos o que cresce é o corpo, e daí tornar-se mais fácil, por se ter mais força, fazer coisas difíceis com uma bola que é pesada, em velocidade e com oposição.

Falo dos fundamentos técnicos de movimentação, de marcação, de fazer a superioridade numérica, de ir à linha para centrar, de saber fazer o dois-contra-um, de jogar a dois toques (receber/passar), de saber quando jogar a um toque, de meter a bola num jogador e não no outro, enfim, do bê-á-bá do futebol.

Tenho a certeza de que o Jorge ou não treina o suficiente, porque não quer, ou não sabe como treinar convenientemente a componente técnica do jogo.

Os grandes treinadores são os treinadores que sabem continuar a ensinar os fundamentos do jogo a jogadores altamente profissionais. Acreditem que quanto mais alto se sobe na qualidade e na exigência das equipas mais atenção os treinadores dão aos detalhes, porque o que faz a diferença nos grandes jogos, nas finais, são os fundamentos. O Barcelona anda há dois anos a massacrar o real Madrid do Mourinho porque sabe fazer diagonais. Na NBA, o Phil Jackson, o treinador com mais vitórias na história, continuava a ensinar o passe-e-corte ao Kobe Bryant quando ele se esquecia mesmo já depois de, em conjunto, ganharem 14 campeonatos. O Kareem Abdul-Jabbar, o melhor poste de sempre, foi contratado só para ensinar um poste promissor, o Andrew Binum, a mexer os pés e a posicionar-se em relação ao cesto e ao adversário. São só alguns exemplos.

Tenho a certeza de que a maior parte do tempo que o Guardiola passa a falar é a relembrar aos seus jogadores os fundamentos do jogo colectivo (bem gostava de ver um treino do Guardiola…) e a reduzir o uso das suas grandes capacidades técnicas às coisas simples que fazem o colectivo funcionar. Oiçam o Cruyff a falar e vejam bem se ele não reduz sempre as grandes questões do jogo às coisas fundamentais.

Com o Jorge, e a propósito da nota artística, tenho sempre a sensação de que ele passa a vida a tentar ensinar como fazer piruetas a jogadores que ainda não aprenderam a patinar. No Benfica os jogadores fazem quase tudo no tempo errado, ou de forma errada, e depois, colectivamente, a equipa ressente-se.

Isso também tem reflexos em termos físicos. O Benfica não se ressente fisicamente por correr muito, mas por falhar demais. Gasta demasiadas energias a cometer erros e a tentar corrigir esses erros. É um dado curioso, que não é muito conhecido: gastamos mais energia quando falhamos um murro do que quando acertamos um murro. Um pugilista que não consegue acertar no adversário arrisca-se seriamente a perder, mesmo perante um adversário inferior.

Não confio em treinadores que não sabem ensinar fundamentos. Servem até certo ponto, enquanto os jogadores ainda sentem que estão a aprender alguma coisa, mas depois disso não vão a lado nenhum, e são os próprios jogadores que se fartam deles e lhes perdem o respeito.

Neste ponto, os meus leitores, chocados e prontos a enfiar-me dois murros em cheio para não desperdiçarem energia, interrogam-se (e com razão): «Fo..-se., olha lá ó intelectual de vão de escada, então mas o homem é assim tão mau e já ganhou um campeonato, e dizes que ainda vai ganhar outro, e que é um treinador bom para o Benfica? Tás bêbedo ou quê?»

Mas eu explico (ou tento explicar…)

O Jorge é um especialista, um sobrevivente, e não é um mau treinador. Pelo contrário, é um treinador acima da média. As suas características, de que falei ontem, tornam-no útil num determinado contexto. O Jorge é suficientemente bom para permitir aos bons jogadores serem bons jogadores. Num clube como o Benfica, que lhe pode dar bons jogadores, com fundamentos de base relativamente desenvolvidos, é-lhe mais fácil aplicar as suas potencialidades. O Jorge consegue pegar num Di Maria subaproveitado, ou num Coentrão, ou num David Luiz, e aproveitá-los relativamente bem. O que o Jorge não consegue é ensinar a um Di Maria o que o Di Maria não sabe fazer – ou pelo menos, não consegue ensinar o suficiente. Os erros que o David Luiz e o Di Maria faziam ao fim de um mês de competição, na época do título, eram praticamente os mesmos erros que faziam sete meses depois, e em Junho, quando o Gaitán sair, cá estarei para dizer exactamente a mesma coisa em relação a ele.

O Javi Garcia, o Maxi Pereira, o Aimar, o Saviola, o Cardozo, fazem hoje o mesmo, para o mal e para o bem, que faziam em Dezembro de 2009.

Não sei ao certo se o Jorge alguma vez treinou equipas de formação, se foi adjunto ou se começou logo como treinador principal, mas desconfio que, se não começou, passou muito pouco tempo até chegar lá, à cadeira da pressão, onde desenvolveu a sua grande qualidade: a capacidade de inventar vitórias com o que tinha à frente.

Arrisco dizer que se pusessem o Jorge a treinar os juvenis do Belenenses, ao fim de seis meses ou ele se demitia ou era despedido por falta de aptidões técnicas e pedagógicas para o cargo.

O que sobra disto é a seguinte questão:

- Mas afinal o Jorge chega ou não chega?

Ao que eu respondo:

- Chegar, chega, mas depende muito do que o que os outros fazem, porque a equipa do Jorge só vai até certo ponto, e daí para a frente não é capaz. Enquanto os outros estiverem abaixo disso, chega. Se lhe passarem à frente nunca mais os vemos, porque o Jorge não tem pedalada.



Se repararem, não pequei: não disse mal de Jesus no dia de Natal. Só do Jorge. Deixo para o próximo post a questão do prazo de validade de ambos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Sagrado Coração de Jesus

Há alguma altura melhor que o Natal para escrever sobre Jesus? (Por acaso até há, a Páscoa. Mas vamos fazer de conta que não.)

Há alguma altura melhor que o Natal para escrever sobre Jesus?
Não!


Pois então aqui fica uma posta de bacalhau que vai durar até segunda-feira.
Vou dividi-la em duas partes, em sintonia com a natureza dualista do próprio (de Jesus, entenda-se, não do bacalhau).

À primeira vou chamá-la «Sagrado Coração de Jesus». Espero que ninguém se ofenda, mas se toda a civilização ocidental já fez trocadilhos com o nome de Jesus eu também tenho direito.

À segunda vou chamar «O Jorge». Calculei que o nome Jesus já foi tantas vezes usado em vão que o simples facto de o deixar de fora seria suficientemente criativo.
Uma parte é sobre as coisas boas do JJ, a outra é sobre as coisas más. Deduzam vocês qual é qual…

Como é um facto comprovado que a última imagem é a que fica, começo pelas coisas boas.

O Sagrado Coração de Jesus

1 - Jesus tem colhões.

Calma, não chamem já o bispo para me exorcizar. Provavelmente nunca lhes deu para pensarem nisto, mas Jesus, que é humano, tem colhões – mas os colhões do nosso Jesus são maiores do que os do ser humano vulgar, e isso, num treinador do Benfica, é uma grande qualidade. Quando eu digo que o Jesus tem colhões (e vou continuar a dizer, em vez de dizer «tomates», até todas as almas virginais que me possam estar a ler se encontrem devidamente escandalizadas e/ou corrompidas…) não digo forçosamente que seja um treinador sem medo do adversário.

Podemos sempre ir buscar o célebre jogo dos 5-0 nas Antas, que vai acompanhar o Jesus ao longo de toda a sua carreira, para falar da igualmente célebre invenção do David Luis a defesa-esquerdo, para exemplificar como o Jesus pode, de repente, ter um ataque de pânico. Na prática o Jesus estava cágado com o Hulk.

Devo dizer que tenho uma leitura algo particular dessa situação. Penso que o Jesus, como todos os treinadores normais, sabem, antes de cada jogo, exactamente quais são as hipóteses da sua equipa porque a conhecem, sabem como está, conhecem os seus pontos fracos e da mesma maneira sabem tudo isso em relação ao adversário. E o Jesus percebeu exactamente o que se estava a desenhar ali. O Jesus sabia que ia perder, e o que estava a tentar fazer era a minimizar os estragos.

Diz-se que inventou. Ora, eu não espero outra coisa de um treinador de elite. Um treinador de uma equipa de elite, que joga num contexto em que as diferenças são mínimas, em que tão depressa uma equipa está à beira de ganhar como, por questões de pormenor, pode passar dois ou três jogos sem vencer, tem de inventar. É para isso que lhe pagam. Nenhuma equipa ambiciosa quer um burocrata como treinador. Tem de haver um golpe de asa, um extra que o treinador acrescente à equipa.

Ora, o que eu quero dizer quando digo que o Jesus tem colhões é que não só Jesus pensa pela sua própria cabeça como, quando toma uma decisão, fica com ela até ao fim, mesmo que tenha toda a gente a morder-lhe as canelas. Isso vê-se nas questões de jogo mas também na gestão de plantel. No Capdevilla, por exemplo, No Sidnei. No Nuno Gomes, que é o caso mais claro. No Mantorras. Até nos jogadores que ele próprio escolheu. Se vê que não servem, bate com a porta e fecha a loja (porque os vai buscar logo de início é da outra parte, do Jorge…).

Provavelmente, com o jogo dos 5-0, Jesus aprendeu uma lição importante – mas aprendeu-a à sua própria custa, e tenho a certeza de que não está arrependido, porque é a agir, pela própria cabeça, e a errar, que realmente se aprende.

Num Benfica, mais importante do que ser um génio criativo, é ter a capacidade para tomar decisões e impor disciplina, ter segurança em si próprio e no seu trabalho (mesmo que não seja o melhor). Quando se começa a pensar pela cabeça dos outros, são tantas as cabeças que, no fim, fica tudo à deriva. Mais importante do que saber muito, ter talento ou ter sorte é ter personalidade. Numa palavra, ter colhões. Quem não os tem pode até ter oportunidades, mas acaba a treinar Granadas e afins.



(Espero que não se chateiem por eu falar muitas vezes do jogo dos 5-0 mas, para mim, esse é o jogo mais importante na história do Benfica. Vou falar dele durante os próximos trinta anos e, se eu fosse presidente do Benfica, a primeira coisa que fazia no início de cada época, logo no dia das pesagens e dos chichis, era juntar toda a gente que fizesse parte da equipa, do roupeiro ao director-desportivo, como eles gostam de dizer, metê-los na sala do vídeo, apagar a Luz, tirar o som, e meter o filme do jogo, em silêncio e às escuras, até ao fim. Deixo um espaço em branco para vocês poderem acrescentar o que acham que eu diria, ou o que vocês diriam, quando o filme acabasse. É um bom exercício mental.)



2 – Jesus é terreno

Eu devia dizer «Jesus é do terreno», mas assim, em título, fica melhor só «Jesus é terreno».

O Jesus é mesmo um homem do terreno, e isso não só faz a sua matriz enquanto treinador como faz dele um treinador valioso. Não é um treinador de revista, como um Quique Flores, nem uma cavalinho de cortesia, como o Villas-Boas, nem um tipo armado em doutor, como o Queirós, nem um treinador a pensar na sua imagem daqui a vinte anos, como o Koeman. É um treinador do agora, do ganhar já. Jesus é um pragmático, e a história é feita pelos pragmáticos, não pelos historiadores.

Se disserem ao Jesus que o árbitro é corrupto ele pergunta: «Quanto é que custa?»

Se disserem ao Jesus que há umas pastilhas óptimas para as pernas ele quer saber onde é que se vende.

Se disserem ao Jesus que vai chover muito ele pergunta para que lado é que o campo inclina.

O Jesus sabe que o futebol é o agora, que não existe amanhã se não se der tudo o que há para se ganhar hoje.

Fala-se muito da má gestão do Jesus na segunda época. O Jesus está-se cagando para a gestão. A gestão do Jesus na segunda época foi igual à da primeira época e será igual à da terceira época. Na primeira época o Jesus meteu o pé no acelerador e carregou a fundo. Enquanto o carro tinha força andou e deixou os outros todos para trás. Quando acabou a gasosa já não andava, e se o campeonato durasse mais três ou quatro jornadas não era campeão.

Na segunda época fez exactamente a mesma coisa, mas nem o seu carro era o mesmo nem o outro que ia à frente o era.

Na terceira época é igual. Tem mais dois ou três jogadores para rodar em relação ao ano passado mas a filosofia é a mesma: pé a fundo e logo se vê até onde é que anda.

E é assim mesmo que tem de ser.

O Jesus anda há trinta anos no banco. Já pegou em toda a porcaria e não acredita em projectos nem em longos-prazos. Como dizia um grande economista, «a longo prazo estaremos todos mortos».

Da mesma forma, o Jesus não engole tangas dos jogadores. Quando os vê a fazerem cara de desgraçadinhos manda-os à merda e ficam mesmo em campo se for preciso, sejam Gaitáns ou Amorins. Agora já se vai vendo mais o Jesus a fazer festinhas aos jogadores, e penso que isso tem a ver com a noção que ele adquiriu, no Benfica, do que é trabalhar com jogadores que pensam que são estrelas, ao contrário do que acontece nos clubes pequenos. Lá vai dando uns elogios a mais, alguns disparates, mas basicamente o Jesus continua a não estar para aturar vedetas. Se ele disse, antes de chegar, que com ele os jogadores iam jogar o dobro é porque percebia, claramente, como toda a gente percebia, que quem mandava na equipa eram os jogadores, e que não trabalhavam o suficiente para o que ganhavam nem para o que podiam render. Até aposto que a grande diferença entre o Jesus e o Quique, no balneário, é que logo de início o Jesus deve ter mandado duas ou três bojardas para os pôr no sítio, do género «se eu ganhasse o que tu ganhas tinham de me vir tirar à força do campo para eu parar de trabalhar», ou simplesmente um «ó vedeta do c…, traz lá o cone para ver se serves para alguma coisa».

O Jesus andou demasiados anos a apanhar com coxos e com carregadores de piano para não perder o respeito à mediocridade e à má atitude profissional. Quando se diz que ele rentabiliza jogadores não é bem assim – entre os que ele rentabiliza e os que ele não rentabiliza, provavelmente, são mais os que ele não rentabiliza. Por cada David Luiz que ele faz há um Éder Luis, um Airton e um Kardec que ele manda para o lixo – é claro que o que um David Luiz dá a ganhar paga os outros três e ainda dá lucro, mas em termos de volume, na verdade, continua a ser três estragados para um aproveitado. O Jesus rentabiliza os que percebem como ele pensa, e os que percebem o que é o futebol. Se um jogador está preparado para se tornar um profissional de futebol, como o Coentrão ou o Di Maria, o Jesus põe-no a jogar e permite-lhe que se rentabilize. Se um jogador quer ser só futebolista de trazer por casa, tipo Sidnei, vai para o banco, custe 700 mil ou 7 milhões.

Eu gosto muito quando os jogadores de uma equipa que não trabalha não gostam do novo treinador. É um óptimo sinal. Ainda hoje se percebe que os jogadores não vão muito à bola do Jesus. Excelente. Eu desconfio é quando vejo uma equipa a perder, a jogar mal e a dizer que o treinador é óptimo «porque fala muito connosco e nos entende».

O futebol é um jogo de esforço e sacrifício, de sobrevivência e de risco. Como o atletismo, a natação, e qualquer outro desporto de alta competição. O primeiro objectivo é manter a cabeça à tona de água e ir dando aos braços, quanto mais depressa melhor, o que aguentar mais tempo ganha. Nos 100 metros os velocistas só respiram no fim. Primeiro correm até não sentir as pernas, depois logo pensam em respirar e em descansar.

Na questão táctica é a mesma coisa. Ao contrário do que pensa, o Jesus não é um portento táctico, é apenas um esperto táctico, que encontra pequenas soluções para grandes problemas, e para problemas práticos. Ele anda há trinta anos a tentar encontrar pequenas soluções, a fazer de David contra Golias. Grandes soluções não é o jogo dele. Para o Jesus vai ser sempre mais fácil montar a equipa contra o Manchester United do que contra o Nacional da Madeira.

Jesus é um treinador de um momento só: o momento de aplicar a força e ganhar. É um treinador unidimensional, mas nessa dimensão é um talento nato. Dêem ao Jesus uma máquina de futebol feita para ganhar e ele fá-la ganhar. Não lhe dêem mais nada, porque para isso ele não tem jeito nenhum. Se puserem o Jesus a pensar em estruturas, em contratações, em planos a longo prazo, em coisas complicadas, dá merda, e merda da grossa. Se o Jesus teve um problema na segunda época do Benfica foi porem-lhe nas mãos o comando de um cruzeiro, da âncora aos salva-vidas, quando o Jesus só sabe pilotar (e provavelmente nasceu para só pilotar cacilheiros – pode ser o melhor piloto de cacilheiros do mundo, mas é só um piloto). A primeira época correu muito acima do que todos esperavam, assumiu-se que a culpa era do Rui Costa, meteu-se o Rui Costa no banco e, de repente, o Jesus, que era iluminado e estava praticamente ao nível do Mourinho, passou a mandar em tudo e mais alguma coisa. O que Jesus dizia era sagrado. Se era para comprar jogadores quem é que decidia? O Jesus. Para marcar as datas dos jogos quem é que decidia? O Jesus. Para comprar o papel higiénico quem é que decidia se era de folha simples ou dupla face? O Jesus. O que é que deu? Merda. E o Vieira a ter de regressar da reforma a que pensava que tinha direito para voltar a pôr o cruzeiro a andar.

Quando o Jesus for para o Porto – e se o Pinto da Costa não morrer nos próximos cinco anos o Jesus vai mesmo para o Porto, provavelmente quando regressar do estrangeiro, podem escrever, sobretudo se não sair a bem do Benfica (o que é sempre uma possibilidade) – vai ser um treinador perigosíssimo, porque vai ser só treinador de futebol, não vai ter direito a mexer em nada além do que é o seu trabalho, e vão-lhe dizer: «Toma, tens aqui um cacilheiro de ponta, até voa. Agora ganha.» O Jesus vai ganhar, e não vai ser pouco. Só não vai ganhar tanto como o Adjunto porque aquilo nunca mais acontece.



3 – Jesus não dá a outra face

É algo que acaba por ficar esquecido, no meio do ruído, das conversas técnico-tácticas, mas o Jesus ataca. É agressivo. Com os anos, a treinar sucessivamente equipas portuguesas de segunda linha, aprendeu a montar defensivamente as suas equipas ao ponto de consegui ter sucesso com ela – e é tão bom treinador que até passou, por muito tempo, por treinador defensivo, quando não o é – mas a verdade é que o Jesus é um treinador de ataque, e isso é fundamental numa equipa grande, porque o que faz a diferença entre uma equipa grande e uma equipa que não precisa de ganhar para sobreviver é precisamente a audácia.

Eu lembro-me de quando o Jesus apareceu na I Divisão. Aliás, só me lembro porque, na altura, o Jesus fez algum furor. Era um desconhecido, treinava o Felgueiras e foi um dos primeiros treinadores em Portugal, senão mesmo o primeiro, a jogar com três centrais e dois alas ofensivos. Isto num Felgueiras acabado de subir, note-se. Ganhou alguns jogos e foi uma das figuras da época. O seu cartão-de-visita era apresentado pelo próprio com grande convicção: tinha feito um estágio no Barcelona do Cruyff – sim, a equipa que reinventou o Barcelona que agora está a reinventar o futebol. Nunca saberemos se é uma daquelas tangas à Jesus, se ele chegou a falar com o Cruyff ou se só o deixaram ver os treinos e tomar notas, mas em Barcelona terá aprendido uma lição que, ainda há pouco tempo, repetiu. Poucos terão prestado atenção, mas eu prestei, porque eu gosto de entrar dentro da cabeça do Jesus (é uma personagem interessantíssima, repare-se) e tenho acompanhado sempre a sua carreira desde essa época do Felgueiras. «Para mim o que define uma grande equipa é defender com poucos», disse o Jesus, numa conferência de imprensa, de passagem. Aquele Barcelona defendia com três mais um médio – um dos três defesas era o Koeman e o médio era o Guardiola, vejam lá bem como as coisas são.

Em Portugal, com jogadores banais, a maneira que o Jesus encontrou de defender com poucos e ter mais para atacar foi apostar no fora-de-jogo. É por isso que o fora-de-jogo é sagrado para o Jesus, e é por isso que ele só mexe na defesa se lhe encostarem uma pistola às têmporas. Se há quatro que joguem bem no fora-de-jogo não joga mais ninguém, nem que seja o Rio Ferdinand ou o Capdevilla. O Maxi joga até cair para o lado, e se o defesa-esquerdo que vier não aprender o fora-de-jogo também não joga.

Quando chegou ao Benfica a primeira coisa que o Jesus, tendo melhores jogadores que no Braga,  fez em relação ao Quique (que é paneleiro, aproveito para dizer) foi tirar um trinco e meter um atacante. Pôs quatro a jogar em linha, o Javi Garcia só a defender no meio-campo e o resto era tudo cavalaria ligeira, a correr muito, a correr depressa, a correr até cair para o lado, a perder bolas por todo o lado e a inventar desaustinadamente. E a meter golos uns atrás dos outros, acrescente-se. Foi essa a verdadeira faísca do Benfica de Jesus: o espírito ofensivo. Uma equipa a jogar à clube grande, e não a aproveitar os seus recursos para defender melhor que os outros, como fazia com o Quique, com o Koeman e com o Trapattoni. Jogar à grande, por si só, faz toda a diferença, e o Jesus pensa em grande. Pode não pensar bem, mas pensa em grande.

O Jesus é atrevido.

Da mesma maneira que pensa pela sua própria cabeça não se deixa intimidar com facilidade, e deixa sempre espaço, no seu plano, para a audácia. Sei, à partida, que o Jesus, mesmo nas Antas, mesmo em Manchester, mesmo quando jogar com o Barcelona, vai pensar em marcar golos, de preferência mais um que os outros, se as coisas correrem bem, mas pelo menos sempre um.

E também não se deixa levar pela imprensa. Ele sabe da poda. Tem sempre o pé atrás em relação às perguntas que lhe fazem. Mesmo quando são inocentes, se ele desconfia que é armadilha lá vem bojarda. E não tem vergonha de fazer má figura.



Estas são as três qualidades que vejo no Jesus, não descendo muito ao pormenor. E que fazem com que o considere um bom treinador para o Benfica. Até quando, direi daqui a dois posts. Porque o próximo é para falar sobre o Jorge.