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sexta-feira, 16 de março de 2012

Heavy Metalist

O sorteio da UEFA foi óptimo para o Benfica, sobretudo na parte em que saiu o Metalist ao Sporting. Se fosse pedido à la carte não teria saído tão bem. Ter o Sporting numa viagem à Ucrânia, saindo de lá na 5.ª feira à noite, com todas as probabilidades de ter de fazer um jogo pleno de esforço e concentração para passar e tendo todas as hipóteses para isso, para depois jogar em Alvalade na 2.ª feira seguinte, sobretudo quando o Benfica joga na 4.ª feira, num pulinho a Londres, é um bónus, na luta pelo título nacional, que nenhum benfiquista esperaria receber.

Se isso será decisivo no Sporting-Benfica. Muito dificilmente. Aliás, quando se fala nestes factores aleatórios deve-se ter sempre em conta que, tendo importância, não terão mais de 10 ou 15 por cento de importância relativa no jogo. Há outros factores que contam muito mais – desde logo da qualidade das equipas às próprias incidências do jogo. Contam muito mais que o eventual cansaço físico e psicológico. Mas esses 10/15 por cento que o cansaço conta nesta equação não são, dentro de uma luta tão equilibrada como a que estamos a assistir, minimamente desprezáveis. Ou seja, não deverá ser pelo cansaço do Sporting que o Benfica irá ganhar a Alvalade, mas pode ser.



Como já está mais que visto por quem vem regularmente ao site, a minha abordagem à Champions é tão pragmática quanto possível. Eu preferia que o Benfica já não estivesse na Liga dos Campeões. Entre ter mais 5 ou 10 por cento de hipóteses de ganhar o campeonato e passar uma eliminatória da Champions (mesmo com o dinheiro e o prestígio consequentes), esta época, sempre escolhi a primeira.

Eu teria preferido que o Benfica tivesse jogado com o Real Madrid nos oitavos-de-final e que a eliminatória tivesse ficado resolvida na 1.ª mão. Tivesse isso acontecido (sempre os ses…) e, provavelmente, hoje o Benfica estaria com o campeonato quase ganho. Como já se tornou evidente, o Benfica não tem, sequer, um plantel suficientemente apto sequer para competir a fundo no campeonato, muito menos tendo de enfrentar equipas com 200 milhões de euros de orçamento às quartas-feiras.



O voluntarismo irracional dos adeptos de futebol é um traço característico, e toca a todos. Toda a gente coloca a crença acima da razão. Senão também não valia a pena existir futebol, toda a gente jogava xadrez, onde não há cartas escondidas nem elementos aleatórios. É claro que só deve haver 5 pessoas no mundo que prefiram jogar xadrez a jogar futebol. Ou 4. Isto falando de pessoas sem handicaps físicos e emocionais graves, claro…

É, por isso, sempre enternecedor ver um benfiquista a admitir que as hipóteses de passagem da eliminatória são de 50/50.

Os factos racionais?

Nenhum jogador de campo do Benfica que tenha jogado frente ao Paços de Ferreira teria lugar, de caras, no onze do Chelsea, e só dois ou três é que teriam lugar na rotação – Luisão, Javi García, Witsel. Garay pode-se incluir neste lote. Os dois que teriam lugar no onze, de facto, já lá estão: David Luiz e Ramires. Este facto, apenas, é suficiente para aquilatar a diferença real de qualidade meramente futebolística entre as duas equipas.

Qualquer das cinco melhores equipas inglesas da actualidade, considerando o Tottenham como a quinta, é superior (e em alguns casos claramente superior) à melhor equipa portuguesa, que é o Porto, e, pela lógica, ainda melhor que a segunda, que é o Benfica. Tomar a eliminatória entre o City e o Sporting como exemplo é claramente errado. O City auto-eliminou, como fica evidente para quem queira ver com olhos de ver – nos 45 minutos em que decidiu que estava a jogar uma eliminatória da UEFA e não apenas a assinar um papel na alfândega o City ganhou 3-0, e chegou a ser constrangedor ver o Sporting a aproveitar cada paragem do jogo para fazer o mesmo papel que o Feirense vai fazer a Alvalade. É muito mais representativa a eliminatória entre o City e o Porto do que esta.



Em termos futebolísticos, Benfica e Chelsea continuam a estar, com ou sem Villas-Boas, com ou sem chicotadas, com ou sem crises, em universos conjecturais diferentes. E nada disto é segredo para ninguém. Diria mesmo que 90 por cento dos adeptos chegariam à mesma conclusão.

Repare-se que não estou a falar do facto de o Benfica vir a dar luta, mas de passar a eliminatória. Luta dá-se sempre, ter hipóteses reais de passagem é outra coisa.



Há três factores que jogam a favor do Benfica num cenário de eventual apuramento.

Jogar em casa a primeira mão é um deles. Receber uma equipa favorita em casa na primeira mão é bom porque estende a eliminatória. O Chelsea tem qualidade mas não tem personalidade – acho que nenhuma equipa inglesa actualmente a tem – para vir jogar à Luz ao ataque sabendo que tem um segundo jogo em casa. E, ao prescindir de entrar logo ao ataque, guardando-o mais para a segunda mão, dá espaço à equipa favorita para tentar equilibrar as forças, equilibrando a abordagem positiva ao jogo. Foi o que aconteceu com o Nápoles. Ao não assumir claramente a sua superioridade em Itália, o Chelsea abriu a porta a uma equipa inferior, e por pouco não foi mesmo à vida.

Outro é a facilidade histórica que o Benfica tem em enfrentar equipas inglesas. Mesmo com alguns resultados muito negativos pelo meio – lembro-me sobretudo dos jogos com o Liverpool, o grande carrasco benfiquista na década de 80 – não há, no conflito de estilos entre o futebol do Benfica e o inglês, uma clivagem tão grande como a que existe com o futebol inglês ou o italiano. Ao contrário do Porto, que tem um estilo muito mecânico e não bate bem com os ingleses, que vivem muito da correria e de um ritmo elevado, o estilo do Benfica, historicamente, tem aquilo a que os britânicos chamam flair, e que pode ser traduzido, grosso modo, como imprevisibilidade. Para o mau, dá em inconstância e elevada falibilidade; para o bom provoca situações incontroláveis pelos sistemas rígidos. Muitas equipas britânicas já sofreram na pele essa capacidade do Benfica em jogar out of the box, digamos assim.Isto não dá uma vantagem ao Benfica, mas equilibra mais as coisas.

Finalmente, penso poder dizer que o Chelsea se dá mal com equipas carismáticas. E isto quer a nível interno quer a nível externo. Não estou, note-se, a falar necessariamente de história. Não é a antiguidade do Benfica nem a sua dimensão histórica superior que colocarão problemas ao Chelsea. É a sua personalidade.

O forte do Benfica não é a ciência, é a mística. O carisma. O forte do Chelsea não é o carisma, é a ciência. O Chelsea, como clube internacional, é um clube emocionalmente amputado. Falta-lhe alma. É, no fundo, um clube pequeno num corpo grande – ao contrário de um City, de grande índole popular, de um Tottenham, de um Arsenal, mesmo de um Everton e alguns outros. O Chelsea é um clube tecnocrático. O Benfica é um clube democrático. Tal como o Nápoles. O Benfica, o Nápoles, o Valência, só para falar em alguns que esta época colocaram grandes dificuldades ao Chelsea apesar do claro desnível qualititativo, têm esse carisma que Abramovich não pode comprar. Não há, neles, nada de artificial. No Benfica, pelo contrário, o que há é uma lacuna de artificialidade, de técnica, de ciência que enquadre a alma. O Benfica, exactamente ao contrário do Chelsea, tem uma alma maior do que o seu corpo. Alguém que tente explicar a um benfiquista que o Benfica deveria abordar a eliminatória de forma cautelosa, pela lógica. Isso, no Benfica, não existe. Até eu, que sou um cabeça de ovo, sinto que, lá no fundo, se quisermos mesmo, e mesmo contra o que seria mais útil, ATÉ OS COMEMOS!!!

Só por isso, mesmo sabendo que ao Benfica não restarão mais de 25 por cento de hipóteses de chegar às meias-finais da Champions, será muito interessante assistir a esta eliminatória.



Quanto ao resto, fico satisfeito. Acho fraquinho andar na Champions e querer jogar com o ZENIT, com o APOEL, com o Marselha e ganhar a final a um Mónaco qualquer. Qual é a diferença entre estar na Champions e estar na Liga Europa se, depois, não se joga contra os realmente grandes? Já para não dizer que ser eliminado por um Chelsea é claramente diferente de ser eliminado por um Marselha ou por um APOEL.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A câmara criogénica

Quando faltavam 7 minutos para acabar o jogo e estava 2-1, já convencido de que ia acabar assim, pois ambas as equipas estavam satisfeitas, pensei: «Excelente resultado.»

Quando o Benfica fez o 2-2, saltei, claro – pois emocionalmente o único resultado realmente bom para um benfiquista é uma vitória, sempre e em qualquer situação, é para isso que estamos treinados como adeptos… – mas quando me sentei torci o nariz.

Quando o Zenit fez o 3-2, depois de engolir o travo amargo, pensei: «Excelente resultado.» Como é evidente, pois se o 2-1 era excelente, o 3-2 é ainda melhor.



Posso dizer-vos exactamente o dia em que comecei a desconfiar dos empates fora, com golos, nas competições europeias: foi no dia em que o Benfica foi eliminar o Arsenal, a Highbury, por 3-1, depois de empatar a 1 em casa (jogo na Luz antiga a que assisti ao vivo).

E também vos posso dizer quando é que confirmei a sensação que tive nesse dia: quando, em 1994, o Benfica foi empatar 4-4 a Leverkussen depois de ter empatado a 1 em casa.



Quando a primeira mão é fora de casa, prefiro perder 2-1 a empatar 1-1, e prefiro perder 3-2 a empatar 2-2. E explico porquê.

O mais importante para uma equipa numa eliminatória europeia é entrar em cada jogo a saber ao que vai, e não há nada mais contra-natura para uma equipa do que entrar num jogo em casa a defender um resultado. Quando se está a falar de equipas de primeiro nível isso não é problemático, porque essas equipas (os Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Milan, etc) só o são porque, historicamente, conseguiram esbater o factor casa/fora e jogam praticamente sempre da mesma maneira. Mas em equipas como o Benfica ou o Zenit, para quem o factor casa é quase sempre decisivo nas competições europeias, a ordem natural das coisas, que manda atacar em casa e defender fora, impõe-se. Ir contra isso mexe-lhes com o ADN.

Para o Benfica, entrar para a segunda mão sem saber se (e sobretudo como) deveria defender ou atacar, e onde é que começava e acabava um bom resultado, poderia ser mortífero – ainda me lembro de uma eliminatória em que o Benfica foi ganhar ao PAOK, à Grécia, por 2-1, e na segunda mão, cá (o treinador do Benfica era o Heynckes e jogava o Sabry no PAOK), teve de ir a prolongamento para os eliminar.

Uma eliminatória não é dois jogos, é um, e estamos no intervalo. Uma equipa que entra para a segunda parte sem ideias claras, contra outra que sabe perfeitamente e que vai mentalizada para o que tem de fazer (e qualidade para o fazer, esclareça-se) fica imediatamente numa situação de inferioridade, a começar pela iniciativa, que é um factor preponderante numa eliminatória tão equilibrada como esta



O 3-2 resolve uma série de problemas ao Benfica e ao Jesus.

Os jogadores sabem, com duas semanas de antecedência, que têm de jogar para ganhar na Luz. Ou seja, aquilo a que estão habituados e treinados para fazer. E sabem que sofrer um golo não é determinante, o que é igualmente importante, porque o Zenit vai marcar na Luz - tal como o Gil Vicente,o Feirense, o Guimarães, a Académica, o Nacional, todos menos o Sporting... - e convém, nessa altura, não entrar em parafuso.

O Jesus sabe com quem é que tem de jogar, porque também sabe que Zenit vai ter na Luz: o mesmo Zenit do Dragão, a defender muito e a jogar para o empate.



Por tudo isto, reafirmo: não é perfeito, porque perfeito seria ganhar 3-0 e poder meter os suplentes todos a jogar na 2.ª mão, mas é um resultado excelente.

Algum benfiquista lúcido, nas condições em que o jogo é jogado, rejeitaria uma derrota por 3-2 antes da partida? Claro que não.

Já sei que alguns de vocês vão dizer que sim, mas tudo bem, temos todos a mesma doença, só a vivemos de maneira diferente.

Se sabe a pouco ou sabe a muito é irrelevante: ficar à distância de uma vitória por 1-0 ou 2-1, na Luz, com o Zenit, para passar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões é praticamente tudo o que, realisticamente, o Benfica poderia desejar. Nem a passagem teria a mesma graça se bastasse um empate. Com empates em casa em jogos decisivos não há realmente grandes noites europeias.



Quanto ao jogo em si, assisti a uma exibição espantosa do Benfica. Não sou, ao contrário do que se possa pensar, um utópico. Sei o que espero do meu Benfica, mas sei também, perfeitamente, que não é razoável esperá-lo já, nem tão cedo. Mas hoje fiquei espantado. E afogado. Durante a segunda parte olhei para o relógio a pensar que ia a meio e ainda só tinham passado 7 minutos.

O adversário, o cenário, o campo e o contexto foram de uma exigência brutal, e a equipa respondeu perfeitamente à altura. Ouso dizer (penso estar a repetir-me em relação ao que já referi na fase de grupos, mas ainda assim digo-o) que, com este jogo em São Petersburgo, a equipa do Benfica mostrou que está mentalmente preparada para jogar na Europa. Falta-lhe qualidade, evidentemente, não é com a maior parte destes jogadores que se pode chegar muito longe contra adversários melhores, mas o enquadramento mental está lá. Se o mantiver e se rechear o corpo da equipa com mais talento, o Benfica terá subido, definitivamente, para um patamar europeu onde já não se encontrava há décadas.



O Benfica fez tudo bem. Defendeu como devia, atacou como devia, jogou o jogo como se impunha que jogasse. Alcançou o primeiro objectivo aos 20 minutos, marcando o seu golo, e o segundo objectivo depois do 2-1 do adversário, segurando o jogo e não deixando fugir a eliminatória quando teria sido relativamente fácil abrir uma desvantagem de mais um ou dois golos, a vinte minutos do fim.

Não vale a pena dramatizar os golos do Zenit. Tal como eu tinha dito, aqueles são os golos de uma equipa habituada a atacar em casa. Há muito trabalho para chegar até lá e para ter a bola jogável em situação criativa, mas, depois, a parte inventiva sai naturalmente – como a do Benfica vai sair na 2.ª mão. Aquele segundo golo o Zenit marca-o ao Benfica, ao Lokomotiv de Moscovo, ao Rio Ave lá do sítio ou ao Barcelona. É uma jogada que o Zenit só faz em casa – porque aí está habituado a jogar no meio-campo adversário, porque os seus jogadores se conhecem e passam a maior parte do tempo a atacar, porque é um esticão que sai do ritmo normal do jogo, etc, etc. O terceiro a mesma coisa.

Foi o factor casa (e não o frio, note-se, como eu também tinha dito há uns tempos) que derrotou o Benfica, não a equipa do Zenit pelo seu valor superior.



Grande jogo do Maxi, um jogador a diesel feito para este tipo de terrenos em que não tem de apanhar com mudanças de velocidade. Falhou no terceiro golo? E então? Submetidos àquele tipo de esforço durante 90 minutos, todos os jogadores falham.

Espantoso jogo defensivo de Aimar. Não se preocupem muito com a ausência no segundo jogo. Não vai ser por aí. Muito pior seria ter ficado sem Garay, Luisão ou Artur. E assim sabemos que joga os 90 minutos com o Porto.

Meio-campo, de resto, em grande nível, incluindo Matic, cuja capacidade de passar a bola depressa e à distância desmontou, à nascença, várias situações de pressão do Zenit a meio-campo.

O Emerson, mais uma vez, foi o elo mais fraco. No segundo golo, não fecha o meio. No terceiro, perde a bola na saída para o ataque. Poder-se-ia dizer que era azar, como foi a do Maxi, se não tivesse acontecido umas 6 ou 7 vezes. Acabou por compensar com um dos seus pontos mais fortes: a resistência física, que lhe permitiu aparecer em velocidade na área contrária fazer o centro para o segundo golo do Benfica aos 85 minutos de jogo. O Emerson vai acabar a época como o segundo ou terceiro jogador de campo mais utilizado pelo Jesus, e isso é uma coisa duplamente notável. É fraquinho? É. Mas só nos pés, porque no pulmão vale por um corredor.

«Cardozo para os livres e para encostar se ela aparecer em frente à baliza»… Ah, espera, isto foi o que escrevi na antevisão, quando se soube o 11…

Gostei de ver o Nolito com pressa para recomeçar o jogo a poucos minutos do fim. É mentalidade de clube grande. Vê-se que lhe está no sangue. É mais importante do que parece. É um jogador à Benfica. Poderíamos dizer o mesmo do Gaitán, por exemplo, mesmo sendo bem melhor jogador?



Uma palavra para o Rodrigo: não vai ser o único a ficar encostado ou pendurado pelo rabinho no jogo com o Vitória. Às vezes até parece que já vi o jogo antes, digam lá se não é?



O que eu mais desejava neste momento? Que, depois da câmara frigorífica que foi o Estádio Petrovski houvesse uma câmara criogénica dentro do avião, no regresso, para onde os jogadores entrassem, que lhes permitisse apagar, quer dos músculos quer do sistema nervoso tudo o que aconteceu nos últimos dois dias.

Como se nada tivesse acontecido e a única coisa que existisse fosse o jogo de segunda-feira contra o Vitória de Guimarães, que é muito mais importante e vai ser muito mais desprezado que este da Rússia na época do Benfica.

Bah…



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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Bichinhos de contas

Benfica
As tais contas do Jesus eram as contas lógicas: quem pontuasse nos jogos com o Unáite ganhava uma vantagem no minicampeonato dos outsiders que lhe permitiria gerir os outros jogos mais à vontade. Por isso é que pensou que, com o empate em casa, o apuramento estava cinquenta por cento conseguido. Implica isto dizer que o Benfica esteve, na minha opinião e na do Jesus, a cinco minutos de ser eliminado na Champions League – e, curiosamente, quando conseguiu, por fim, ganhar um jogo fora (contra uma equipa que não passaria às eliminatórias da Liga Europa, diga-se de passagem…).

Com o golo do empate do Unáite (o JJ tem razão, dizer assim dá muito mais jeito), e considerando que o Galati não vai fazer nenhum ponto (que é o mais certo) e que o Unáite ganha  ao Benfica em Inglaterra (que é ainda mais certo, porque se não ganhar pode muito bem ir à vida), o minicampeonato Benfica-Basileia vai decidir quem passa.

Façamos contas para o momento da entrada na última jornada do grupo, em que o Basileia recebe o Unáite e o Benfica recebe os romenos na Luz.

Hipótese 1: Benfica e Basileia empatam os dois jogos

M United – 11 pontos
Basileia – 9 pontos
Benfica – 6 pontos

Basileia e Unáite só precisam de empatar para passarem os dois. Péssimo cenário.
Se o Basileia perdesse e o Benfica ganhasse o primeiro critério de desempate válido seria o número de golos fora de casa marcado nos dois jogos entre as duas equipas, depois a diferença de golos em todos os jogos e depois o número de golos marcados.

Hipótese 2: Benfica e Basileia ganham um jogo cada

M United – 11 pontos
Basileia – 10 pontos
Benfica – 7 pontos

Tudo igual, com uma excepção: o Unáite até pode perder, que se apura à mesma.


Hipótese 3: o Benfica ganha um jogo e empata outro

M United – 11 pontos
Basileia – 8 pontos
Benfica – 8 pontos

Neste cenário, basta-lhe ganhar ao Otelul para ser apurado, desde que o Basileia não ganhe ao Unáite. Se o Basileia ganhar ao Unáite entram em jogo os resultados nos confrontos directos entre os três clubes: pontos, diferença de golos, golos marcados e golos marcados fora, por sta ordem. Considerando que o Basileia empatou a três golos em Inglaterra, má ideia.


Resumindo, qualquer cenário que não seja o Benfica fazer quatro pontos com o Basileia significa, muito provavelmente, a eliminação. Depois do empate de Old Trafford, ao Benfica não chega «empatar» o campeonato com o Basileia. Tem de o ganhar. Pode dar-se ao luxo de perder em Manchester, mas não tem qualquer margem para erro: não pode perder e tem, pelo menos, de ganhar um jogo ao Basileia.
Se eu tivesse de apostar agora, friamente – se eu fosse um apostador sem interesses pessoais clubísticos? Apostaria em M. United e Basileia, porque o Basileia conseguiu o melhor resultado do grupo, e o único que estaria, realmente, fora de qualquer previsão.
 

Dito isto, para mim, sinceramente, é quase igual ao litro.
Não posso dizer que me seja indiferente o que o Benfica faz na Europa (ontem sofri como qualquer benfiquista) mas encaro esta temporada europeia com relativa descontracção.
A única coisa que o Benfica tem a ganhar na Europa, este ano, é experiência e dinheiro. Não creio que haja boas hipóteses de, apurando-se para a fase seguinte, passar sequer dos oitavos-de-final. Se o conseguisse seria uma enorme surpresa para mim, e provavelmente estragaria completamente a época. É possível que prolongar a época em mais dois jogos europeus não influencie a prestação no campeonato, mas prolongá-la por mais quatro ou, no caso de apuramento para a Liga Europa, seis ou oito, influenciaria de certeza. Significaria pontos perdidos no campeonato. Para todos os clubes do mundo significa, até para os super-ricos que fazem duas equipas por temporada, quanto mais para o Benfica.
Entre ter mais alguma vantagem no campeonato e prescindir da Europa e ter mais um par de semanas na Europa e perder a vantagem no campeonato, prefiro prescindir da Europa.

É pensar pequeno? É.
É pensar prático? Também é.
É ser realista? Não tenho dúvidas que é.
«Ah, mas o Benfica é feito de pensar grande, não de pensar pequeno», dizem-me. Talvez. Eu prefiro acreditar que é melhor pensar bem que pensar grande. Levámos muita chapada nos últimos vinte anos à custa dessas megalomanias. Pensar grande? Fantástico. Sou completamente a favor. Mas só depois de pensarmos bem, se faz favor.

Antes de o Benfica ser grande passou muitos e muitos anos a ser, apenas, bom. E foi só por ser, primeiro, bom, que depois se tornou grande.
Prefiro ver o Benfica a ganhar na Europa graças ao crescimento da sua equipa do que porque teve um bom sorteio, ou porque teve sorte num jogo. Isso, para mim, não significa nada.

Não gosto de jogar finais. Gosto de as ganhar. Talvez porque as minhas maiores desilusões com o Benfica tenham sido a final da Taça UEFA, em 1982, com o Anderlecht (jogo a que assisti, na Luz, com oito anos, ainda sem o Terceiro Anel do estádio antigo fechado), e a final da Taça dos Campeões com o PSV. Aos que ainda não experimentaram a sensação, acreditem: ir a uma final pode contar para o currículo, mas não vale a pena se a perdermos. Dói demais.
Quando, um dia, chegarmos a jogá-la, que seja para a ganharmos. Nem que demore mais vinte anos.

O cenário ideal? O Benfica passa à fase seguinte da Champions com 11 pontos, enfrenta uma equipa superior (Real Madrid, Barcelona, Bayern, etc) que torne a eliminação rápida e indolor, ganha a sua experiência, «vende», entre prémios e bilheteiras, o seu «Fábio Coentrão» e, a partir de meados de Março, concentra-se exclusivamente no seu objectivo, que é o campeonato.
Tudo o resto, desde a eventual repescagem para a Liga Europa à eventual passagem aos quartos-de-final da Liga dos Campeões, é um desperdício potencialmente fatal de energia.
E, de preferência, o Porto passa em primeiro do grupo, passa os oitavos e, para ser mesmo bom, ainda chega às meias-finais e anda distraído com quimeras até ao fim de Abril.

Para já, os que se afiguram como primeiros e que podem calhar ao Benfica são: Bayern, Inter, Real Madrid, Chelsea, Marselha, Barcelona. Desde que não saia o Marselha, óptimo.

Porto

O Benfica acabou por ganhar em três campos nesta jornada. Na Roménia, em Manchester (esteve a «perder» até aos 89 minutos) e em São Petersburgo.
O apuramento do Porto, na minha opinião, não está em causa. O Porto fará, no mínimo, dez pontos (três actuais mais seis contra o APOEL mais um, pelo menos, em casa, com o Zenit), e, provavelmente, entre doze e treze, pois deverá ganhar ao Zenit em casa.

O apuramento não está em causa, mas as «mini-férias depois dos jogos com os cipriotas, sim. Com esta derrota, o Porto precisa de jogar até ao fim, até à sexta jornada, em que recebe um Zenit que jogará, provavelmente, o seu apuramento nesse jogo. Ou seja, a primeira fase europeia do Porto vai durar mais um mês, no Inverno, incluindo uma deslocação à Ucrânia que se torna, agora, muito mais importante.

Sorte para o Porto: nesse mês «extra» só há duas jornadas de campeonato.
Azar para o Porto: uma delas é com o Braga.
Sorte para o Porto: o jogo com o Braga é nas Antas.

Outro factor a considerar: para ter melhores hipóteses de passar aos quartos-de-final da Champions, o Porto tem de ficar em primeiro, caso contrário arrisca-se a apanhar Real, Barça, Bayern, Chelsea, Inter ou Unáite.
Para o Porto, fechar a época nos oitavos-de-final da Champions depois de ganhar a Liga Europa não é porreiro, pá.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Championite

Aí está a Champions outra vez.
Benfica

O segundo ciclo de competição do Benfica nesta época, iniciado após a vitória com o Nacional, na Madeira, e a paragem para o jogo da selecção, está a ser, senão o melhor, pelo menos um dos melhores períodos de competição da equipa desde a entrada de Jorge Jesus para treinador.
Todos os resultados conseguidos desde o jogo com o Guimarães, em casa, estiveram no limite óptimo da equipa. Vitória (2-1), Unáite (1-1), Académica (4-1), Porto (1-1) – esta equipa do Benfica não consegue fazer melhor do que isto, mas se jogasse sempre com esta eficácia ao nível dos resultados teria a sua melhor época dos últimos trinta anos.
Já estão a ver onde é que eu quero chegar, certo?

Dos cinquenta jogos a sério que o Benfica tem numa temporada, 5 fazem-nos sonhar a todos, 40 dão para os dois lados, conforme sejamos pessimistas ou optimistas, e 5 levam-nos a desejar o despedimento sumário de toda a gente, a começa pelo treinador.
Preparem os vossos fígados, porque o jogo com o Otelul tem tudo para pertencer a esta última categoria. Como já escrevi há uns tempos, duvido muito que o Benfica consiga dois grandes resultados no conjunto Porto-Otelul, e o que me levava a pensar assim nessa altura é o que me leva a pensar assim agora:

- o jogo no Porto foi física e animicamente exaustivo, e o calendário nem sequer permitiu um dia de descanso antes da viagem, sempre chata, para a Roménia. As pernas não vão responder da mesma maneira e, a partir de certa altura, vamos assistir àquele espectáculo enervante que é estarmos nós em casa a gritar «Ó pá, mexe-te, porra (com C maiúsculo)!» e os jogadores de mãos nas ilhargas, sem gasolina sequer para respirarem de costas direitas. Já vimos isso muitas vezes. O corpo é que manda;

- ciente disto, e da importância que pode vir a ter o jogo com o Paços de Ferreira em casa (Porto joga em Coimbra, Sporting em Guimarães, Braga noutro sítio qualquer – para mim o Braga não conta para o totobola, desculpem lá), o Jesus e a equipa vão considerar o empate um bom resultado. E sabem de uma coisa? Eu, pragmaticamente, estou de acordo.
Pensando profissionalmente, e não com a treta do «todos os jogos são para ganhar», nem todos os jogos são ganháveis, e saber jogar com os resultados é uma parte fundamental de quem anda no futebol profissionalmente.
Um empate na Roménia, num contexto de uma competição interna muito exigente, contra uma equipa que faz a sua estreia em casa para a Champions , que joga, segundo as informações que nos chegam, no limite do colectivismo e da pressão defensiva, que está motivadíssimo e que só perdeu na Suiça, pelo que eu vi, por gritante inexperiência (um handicap que será muito atenuado pelo factor casa), é, a longo prazo, um bom resultado. O que é fundamental é não perder, e montar uma equipa com esse objectivo.
Com um empate na Roménia o Benfica consegue levar a discussão do apuramento para o próximo ciclo competitivo, onde tem os dois jogos com o Basileia após a interrupção para os jogos da Selecção, e com a vantagem de jogar o primeiro em casa, em que a vitória é obrigatória. Além disso, prevejo um jogo muito mais acessível para o Benfica na Suiça que na Roménia, quer pelo valor das equipas quer pelo ambiente que vai encontrar. E é natural que os próprios jogadores encarem os jogos com o Basileia como decisivos depois dos resultados da primeira jornada.
O Jesus é menino para fazer estas contas, e não me surpreenderia se jogasse em Bucareste com a equipa opcional. Qualquer coisa como: Artur, Ruben Amorim, Luisão, Garay, Emerson, Javi, Matic, Bruno César, Saviola, Cardozo e Rodrigo (ou Nolito em vez de Cardozo ou Rodrigo).
Podemos esperar bons jogos dos centrais, dos dois médios defensivos, de Saviola e de Bruno César, que vai ter muito que correr e chutar, como ele gosta. O Benfica vai marcar golos, e eu apostaria no Chuta-Chuta para fazer um neste jogo.

- finalmente, como já escrevi no domingo, o resultado nas Antas tirou, definitivamente, a Champions do lugar prioritário na cabeça de toda a gente, de jogadores a adeptos. E ainda bem, digo eu. Não queremos milhões, queremos campeões. (Olha, bom slogan…)

Porto

O Porto vai passar um mau bocado na Rússia e desta vez o coloquial frio não será, nem de longe, a maior preocupação – até porque ainda não está frio nenhum em São Petersburgo.
Este é um jogo muito importante para o Porto. Se não virmos uma reacção imediata por parte dos jogadores é porque, provavelmente, não voltaremos a assistir a mais nenhuma exibição do gabarito das que assistimos na época passada. É porque o Porto já não tem essa energia dentro de si.
Sei como é que o Porto vai encarar o jogo: vai tentar recuar e reagrupar, levar o jogo para um terreno mental confortável durante 50 ou 60 minutos e, depois de domar o Zenit, arriscará, muito pouco, atacar. Esse recuo estratégico é o comportamento típico do Porto em momentos de dificuldade. Como dizia um professor meu, no ano passado, «um Ranger só recua para ganhar balanço». É o espírito. Mas que vai recuar, vai.

O problema é que o Zenit vai ser o pior adversário possível para o actual momento do Porto. Uma equipa viciada em ganhar em casa, com o apuramento preso por um fio, que encarará este jogo como a única hipótese de recuperar os pontos que perdeu, incrivelmente, no Chipre. Se ganhar ao Porto, o Zenit fará o que mais ninguém no grupo conseguirá fazer, e reabre a possibilidade de decidir o apuramento nos dois jogos com o Shaktar. Se perder ou, até, empatar, o Zenit está eliminado. Estamos a falar de uma equipa que gasta vinte milhões de euros num defesa-central. Estamos a falar da Rússia (sim, estou a falar de corrupção dos árbitros). E estamos a falar, objectivamente, de uma equipa muito boa, a caminho de ganhar o campeonato do seu país, e que está encostada à parede, para quem o apuramento na Champions é um objectivo claro.

Fisicamente, a equipa do Porto não está bem – grande parte das simulações no clássico, além da tentativa de arrancar vermelhos, resultaram na necessidade de abrandar o jogo, e se faltou instinto assassino foi, também, porque faltou força e confiança nas pernas.
Fucile, Álvaro Pereira, Kléber, Hulk têm problemas e não jogariam contra o Zenit e/ou contra a Académica se o treinador tivesse alternativas ao mesmo nível. São dois jogos de exigência elevada.

Uma derrota do Porto não passaria, necessariamente, em branco. Mesmo com a derrota do Zenit no Chipre, perder na Rússia levaria a decisão para dois jogos difíceis, com o Shaktar fora e com Zenit nas Antas, onde a probabilidade de um empate não é assim tão pouca. Por outro lado, com um empate na quarta-feira o Porto assegura o apuramento, pois, com seis pontos com o APOEL, faz os dez, que são sempre suficientes.


Estou, sinceramente, mais curioso em ver o jogo do Porto que o do Benfica, e acredito que uma parte importante do que será o campeonato português dependerá do resultado na Rússia. A possibilidade do Porto fechar o apuramento tão cedo ser-lhe-ia muito útil. Por outro lado, uma derrota retirar-lhe-ia quase toda a vantagem que ganhou com a calendarização, no sorteio.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Champions,dia 1

O QUE PARECEU

Benfica
Às vezes é fácil parecer que se sabe mais do que o que realmente se sabe apenas por utilizar o senso comum. O jogo com o Manchester United não me surpreendeu minimamente, considerando o que escrevi na minha antevisão. Até o Nani ficou no banco.
Tornou-se óbvio, a partir do momento em que se soube a constituição das equipas, que o Manchester já estava jogar com o Chelsea e que um ponto na Luz lhe chegava.

O Jesus esteve bem ao pôr o Amorim. Não levo a mal o Jesus por inventar. Os treinadores são pagos para aguentar o barco e para inventar um bocadinho. Não foi genial, entenda-se, nem maestral, mas foi esperto e oportuno.

Tornou-se desde logo evidente que ambas as equipas estavam de acordo que o empate estava bem, obrigado, e que uma vitória sim senhor, se desse, mas com os defesas suficientes cá atrás para não haver confusões. Importante era não perder.

Houve apenas duas coisas que me surpreenderam:  que o Man. United ter jogado com 10, uma vez que o Rooney veio fazer turismo; e que o Cardozo tenha marcado um golo de pé direito que deu um empate potencialmente decisivo na carreira Liga dos Campeões. Quando o Cardozo marca um golo de pé direito depois de matar a bola no peito e driblar um defesa tudo passa a ser possível e, por um momento, cheguei a pensar que, se o Benfica não sofresse o golo até ao intervalo, até podia enganar os ingleses. 15 segundos de dimensão superior de um jogador de dimensão superior, Ryan Giggs, resolveram esse assunto. Foi naquele momento como podia ter sido noutro qualquer.

Em relação ao Manchester pouco a dizer. Se tivesse precisado de ganhar o jogo tê-lo-ia, certamente, ganho. Os poucos momentos em que decidiu andar foram suficientes para distinguir a classe das duas equipas. Se fosse preciso chegar ao 2-2 ou ao 3-3, chegava. Jogou a meio-gás, o Benfica jogou quase a cem por cento, deu empate.

O Benfica, uma equipa adolescente na grande Europa, mostrou uma coisa muito interessante: jogou ao ritmo certo para o jogo, e só por isso se aguentou fisicamente durante os 90 minutos. Saber jogar na Europa é, sobretudo, saber escolher os momentos, saber escolher a estratégia e cingir-se a ela, esperando pelas oportunidades e aproveitando-as quando elas aparecem. O que há para fazer na Liga dos Campeões é muito simples, pouca coisa, mas tem de ser bem feita. É um pouco como nas fases finais dos Mundiais e Europeus. Ser capaz de fazer o básico e mais um bocadinho geralmente chega, jogar simples, não fugir ao plano. Por isso é que os alemães ganham tantas vezes.
O Benfica fez pouco mas, desse pouco, o que sabe fazer, fez relativamente bem. O que não sabe fazer, claro, não conseguiu fazer. Tratar da bola, fazer pressão alta de forma harmoniosa, defender colectivamente, atacar colectivamente, são coisas que esta equipa do Benfica faz mal e pouco (comparando com as mais fortes, claro), por isso é que é uma equipa de segundo plano europeu e vai continuar a ser durante mais alguns anos.
A experiência que a Europa dá e que a Europa requer é, sobretudo, a experiência suficiente para controlar o jogo – controlar os ímpetos, controlar as emoções, distinguir as boas das más oportunidades, fazer o gesto certo no momento necessário. Ou seja, a ter classe.

Se fosse inteligente o Jesus fazia do Gaitán o melhor jogador do campeonato português esta época. Bastava-lhe pedir ao tipo que faz os filmes que fizesse um resumo de cinco minutos do Ji Sung-Park a fechar o flanco, a acompanhar o lateral, a fechar ao meio, a vir atrás, a jogar pela certa, a fazer todas as coisas que qualquer jogador mediano da II divisão que não sabe dar dois pontapés seguidos tem de saber para poder jogar ao fim-de-semana sem fornicar completamente o trabalho da equipa.
Depois, entregava o filme ao Gaitán, e dizia-lhe assim: «Olha Nico, este chinês nem camisolas vende, mas esta camisola que ele tem é para ti. Para conseguires jogar no United, um dia, só tens de aprender a fazer o que aqui está.»

Se não acontecer nada de extraordinário (como perder com o 14.º classificado da liga romena e com o 10.º classificado da liga suíça, mesmo considerando que as equipas se transformam de uma competição para outra) o Benfica praticamente garantiu, com este empate, o apuramento para as eliminatórias. O United já cedeu o seu empate e, depois disto, não vai querer acabar em segundo no grupo, pelo que forçará mais nos próximos encontros. Em condições normais, fora do campeonato a três para o segundo lugar do grupo, o Benfica arranca com um ponto de vantagem.
Fica, no entanto, a segunda parte do desafio ao Benfica europeu: vencer fora de casa. Algo que não consegue, pura e simplesmente, fazer, sendo que a capacidade de vencer jogos fora, na Europa, distingue as equipas regulares das equipas com ambições.

Se não perder o próximo jogo, com o Otelul, o Benfica passa, até porque me parece que teve sorte com o resultado do jogo na Suiça. Os romenos pareceram-me melhor equipa, embora muito tenrinha, e vão ganhar ao Basileia em casa. Já o Basileia, não o vejo a ganhar um dos dois jogos ao Benfica. Não perdendo na Roménia Benfica fará entre 9 e 11 pontos, e chega, desde que o United faça a sua parte.


Porto
Com o resultado do Zenit em Chipre,o Porto garantiu metade do apuramento ao bater o que passou a ser o seu concorrente directo.

O jogo podia ter dado para os dois lados, a verdade é essa, apesar do Porto ser superior.

O Zenit foi ao Chipre jogar pela certa, não diria para o empate mas para a vitória se possível, e lixou-se. A única forma de recuperar os pontos perdidos é fazendo o que, provavelmente, nenhuma equipa vai fazer: ganhar ao Porto.
Neste cenário, o próximo jogo do Porto, na Rússia, é uma final antecipada, em que um empate do Porto praticamente lhe garante o apuramento, pois fica, depois, com dois jogos com o APOEL para fazer seis pontos, o que daria 10, com mais um jogo em casa com o Zenit e outro fora em Donetsk. Pontuando na Rússia, o Porto pode ligara velocidade de cruzeiro.

O QUE FOI

Porto (IRPR = 0.438) – O desenrolar do jogo foi, inicialmente, desfavorável ao Porto (penálti falhado, penálti não assinalado, frango de Helton, desvantagem inicial), e, à excepção do Barcelona, o Shaktar foi o adversário mais forte da época, numa situação de vitória quase obrigatória e algumas baixas relevantes (Rolando, Guarín). No cômputo geral, assistimos à melhor prestação do Porto esta época, superando a da vitória em Guimarães para o campeonato.

Benfica (IRPR = 0.435) – A elevadíssima qualidade do adversário e o facto de se tratar de uma jornada inicial na Liga dos Campeões foram os únicos factores pressionantes sobre o Benfica, que, por outro lado, jogou sem a obrigação de ganhar, ante um adversário muito desfalcado (por opção e por imposição das lesões), tendo a vantagem de marcar primeiro. Um jogo difícil, obviamente, mas não o mais difícil. As duas prestações frente ao Twente não foram tão mediáticas, mas superaram, em eficácia, esta com o United.

De referir que o empate, neste caso, é contabilizado como um resultado positivo, pois considero que é um resultado que, no momento em que o jogo é jogado, é visto como servindo os objectivos

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Champions a longo prazo


Algumas considerações prévias ao sorteio da Champions de hoje:

1.

Quadro muito forte de equipas. No Pote 4 há duas equipas muito fortes (Dortmund e Nápoles), três que, com um bom sorteio, podem chegar aos oitavos-de-final (Plzen, Genk e Zagreb), e duas que, em casa, vão roubar pontos (Otelul e Trabzonspor). No Pote 3 há cinco candidatos claros aos oitavos: Zenit, Ajax, Leverkussen, Olympiakos e Man. City. No Pote 2 não há nenhuma equipa claramente inferior ao Benfica. No Pote 1 o Porto é o mais fraco das 8 (se pensarmos que, com o Arsenal, a chapa 5 é algo de vulgar…).

De 21 candidatos, dezasseis equipas para entrar nos oitavos-de-final da Champions League:

De caras, independentemente do sorteio (8) : Man. United, Barcelona, Chelsea, Bayern Munique, Real Madrid, Porto, Inter, Milan.

Com um sorteio minimamente favorável (7): Arsenal, Valência, Villarreal, Zenit, Manchester City, Borussia Dortmund, Nápoles.

Para um a quatro lugares disponíveis (6): Benfica, Shaktar, Marselha, Ajax, Leverkussen, Olympiakos.



2.

Para o Benfica – mais do que para o Porto, que depende menos do calendário – boa parte das hipóteses de ser campeão nacional passam pelo sorteio desta tarde. Por um lado, a qualidade doa adversários ditará muito do que o Benfica fará na prova, sendo que, aqui, uma caminha longa na Champions significa, quase inevitavelmente, a perda de pontos no campeonato. Por outro, o momento em que defrontará os jogos decisivos (em casa contra o Pote 1 e em casa e fora com o Pote 3) é importante, porque isso significará poupança de jogadores ou desconcentração competitiva a nível interno (em que jogos?).



3.

O apuramento do Benfica para esta Champions pode ter, na minha opinião, maior relevância na próxima época que propriamente nesta. Continuo a acreditar que o Benfica tem grandes hipóteses de ser campeão mas, se, racionalmente, a diferença do Porto se traduzir no bicampeonato (e agora, com ambas as equipas em igualdade de calendário, ainda maior será a vantagem do Porto), este apuramento do Benfica significa um ou dois jogadores a mais no princípio da próxima época – Witsel e Garay custaram 11,5 milhões de euros, o mesmo que o Benfica fará na Champions este ano – e isto numa altura em que, na pior hipótese, o Benfica, acabando em terceiro este ano, apenas terá de passar as pré-eliminatórias para chegar à Champions outra vez, podendo mesmo garantir o apuramento directo se acabar em segundo. Numa época em que se prevê uma diminuição do fosso entre Porto e Benfica, isso – e uma grande improbabilidade estatística de, no ambiente actual, o Porto conseguir um terceiro título consecutivo – daria ao Benfica grandes hipóteses de ser campeão em 2013 (quando começaram a entrar as receitas do novo acordo televisivo). Para mais, a equipa do Benfica, mesmo saindo um ou outro jogador, chegaria à nova época com um ano de verdadeira experiência europeia em cima, o que é importantíssimo em termos de crescimento colectivo. Além disto, há sempre a hipótese de o Benfica aparecer para a nova época com um novo treinador, com todas as boas possibilidades que isso envolve depois de um ciclo de três anos (como se viu com Jesualdo e Villas-Boas).

Por esta razão, estrategicamente, este apuramento para a Champions League foi, na minha opinião, o mais importante de todos, independentemente dos resultados esta época – e considerando que, dado o nível da equipa e a oposição, passar aos oitavos-de-final já seria um sucesso. Quer na competição para cima (Porto) quer para baixo (Sporting), e tendo em conta o momento de consolidação económica-desportiva do clube, nunca terá sido tão importante para o Benfica chegar a uma Champions.

É que enquanto o Porto joga para se manter a um nível de onde já não vai passar, lutando contra a inércia, o Benfica está em dinâmica ascendente. Ir à Champions não significa, nitidamente, o mesmo para ambas as equipas. Já para não falar do que significaria uma não-passagem do Porto aos oitavos-de-final.