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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O deus das pequenas coisas

Pablo Aimar é apenas humano. É limitado – e começa por ser limitado pelo próprio corpo.



O corpo de Aimar trai-o de duas maneiras.

Antes de mais, a razão para Aimar falhar tanto tecnicamente (aqui, tanto é em relação ao que ele tenta, e não ao que os outros fazem, pois ele consegue fazer mais que os outros) é porque o seu corpo não consegue acompanhar o seu pensamento. Aimar pensa muito bem, vê as jogadas que têm de ser feitas, consegue algumas, e as que falha são ou porque os colegas não atingem (e daí a diferença de ter tido Saviola, com quem se entende perfeitamente, no primeiro ano), ou porque, tecnicamente, o resto do corpo não está à altura do que ele tenta fazer. Acredito que isso é estrutural. A Aimar falta-lhe força, potência, e com isso perde tecnicamente.

Por outro lado, o corpo de Aimar traiu-o porque o impediu de jogar tanto como devia, de forma consecutiva, para atingir o seu melhor. O que Aimar perdeu no Valência, devido às lesões, na fase em que a sua carreira deveria estar a caminho do auge, não pôde voltar a ser recuperado. No seu melhor, em Valência, Aimar foi um dos melhores jogadores na Europa. E depois vieram as lesões. O Aimar de hoje, que é o melhor que o Benfica já teve, é apenas uma parte do Aimar de Valência. E mais do que isto, por razões óbvias, não vai dar.

Para que conste, o próprio Aimar de Valência, no seu melhor, só durou uns meses.

Aimar foi, desde cedo, um projecto traído pelo próprio corpo – um handicap natural que nunca lhe foi possível superar.



Aprendi a aceitar Aimar como um barómetro do Benfica, porque Aimar, como Luisão, é o melhor que o Benfica consegue ter como espinha dorsal de um projecto.

Não é, potencialmente, na minha opinião, o melhor jogador do Benfica. Witsel e Rodrigo, por exemplo, podem atingir níveis que Aimar não conseguiu atingir. Estruturalmente são mais sólidos, têm armas que Aimar nunca pôde ter. Mas Witsel e Rodrigo, sobre os quais se poderia construir uma grande equipa europeia, já cá não estarão quando estiverem na idade de conduzir a equipa em que jogarem aos grandes títulos. Entre os 27 e os 32 anos, Witsel e Rodrigo estarão a ganhar o triplo do que Aimar ganha hoje, numa das melhores equipas inglesas, italiana ou espanhola. Pelo contrário, entre os 28 e os 32 anos Aimar jogou no Benfica.

A espinha dorsal real do Benfica dos últimos 4 anos é composta por Luisão – suplente da selecção brasileira, mais pela rotina e pela presença colectiva que pela qualidade indiscutível, uma vez que é difícil distinguir Luisão de pelo menos 8 ou 9 outros defesas-centrais brasileiros – Javi Garcia – não-convocado na selecção espanhola – Pablo Aimar – contratado ao Saragoça, não-convocado para a selecção argentina e ausente em cerca de metade do tempo de jogo da equipa por questões físicas – e Cardozo – não-convocado para a selecção paraguaia no Campeonato do Mundo de 2010 aos 26 anos.

Se daqui tirarmos Javi Garcia – talvez… – e juntarmos Maxi Pereira, defesa-médio da selecção do Uruguai, temos o núcleo duro do Benfica, um grupo de jogadores cuja permanência de cinco ou mais anos de casa coincidirá com o seu apogeu de carreira, e que é, em última análise, o veículo da cultura da equipa para elementos que por ela transitam – Coentrão, Gaitán, Witsel, etc. – sem ficarem mais de dois ou três anos, saindo antes dos 25 a caminho de equipas maiores.

Se tomarmos a dimensão de uma equipa pelo melhor jogador que uma equipa tem a possibilidade de ter, Aimar está para o Benfica como Messi para o Barcelona, Ronaldo para o Real Madrid ou Rooney para o Manchester United. De alguma forma, as equipas acabam por se identificar com o seu melhor jogador, pois esse é um jogador-tipo. O Barça é Messi (e Xavi, e Iniesta, pois são todos iguais), o Real é Ronaldo, o United é Rooney, o Bayern é Ribéry, o Arsenal era Fabrégas (agora não se percebe bem o que é), o Liverpool era Gerard, o Benfica vai-se tornando Aimar. Não há grandes equipas sem um jogador-tipo materializado em campo.

Pablo Aimar é o 10 a que o Benfica tem direito.

Com Aimar, o Benfica nunca chegará ao patamar que o próprio Aimar não conseguiu atingir. Se conseguir gerir o seu handicap, se tiver sorte com os momentos de forma, com as lesões, com a sorte, se as coisas derem certo em vez de faltar uma passada, se a finta sair bem em vez da bola sair ligeiramente adiantada, como tantas vezes acontece, se a execução conseguir acompanhar minimamente a intenção, se o timing for bom, o Benfica pode ser melhor que o Porto, em Portugal, ocasionalmente, e fazer uma graça na Europa – mas ficando sempre numa segunda linha.



E se Aimar é a estrela a que o Benfica tem direito, o Benfica também é o gigante a que Aimar tem direito. Aimar tem classe para jogar numa equipa do top-8 europeu, por exemplo, mas nunca com o protagonismo que tem no Benfica, e raramente como titular. Podia jogar no campeonato inglês, mas jamais aguentaria a carga física ao ponto de jogar quatro ou cinco jogos seguidos como titular, como no campeonato português. Poderia ser tão ou mais importante do que é no Benfica em muitos outros clubes, mas em nenhum maior que o Benfica.

Para Aimar, o Benfica é o verdadeiro topo da sua carreira, porque aqui tudo se conjuga.

Sobretudo, uma parte que é menosprezada quando se considera a importância real do jogador na equipa.



Aimar é invulgarmente ciente da realidade para um jogador de futebol.

Lembro-me como se fosse hoje de ver o autocarro com os jogadores do Benfica a navegar lentamente sobre o mar de gente no Marquês de Pombal e de reparar em Pablo Aimar, na parte de trás, de braços cruzados no parapeito, a observar, serenamente, aquela alienação colectiva, com um sorriso, sem sentir sequer a necessidade de fazer palhaçadas, de exteriorizar sentimentos ou de corresponder à euforia que se vivia. Naquela situação-limite, Aimar tirava prazer em observar. E quase que se percebia que preferia estar em casa, sossegado, à espera do próximo treino, do que a fazer a festa pelo título.

Nssa altura percebi que Aimar é imune à estupidez natural do futebol. O Aimar que ouço hoje, o Aimar que reage hoje, em campo, é o mesmo Aimar do primeiro ano e do segundo ano.

Para Aimar, o futebol é o futebol, a equipa é a equipa, como ele próprio referiu na entrevista à Champions Magazine, e o folclore que rodeia o jogo é outra coisa.

O próprio visual, a forma de se apresentar, a ausência de preocupações estéticas, são típicos de quem se concentra absolutamente no jogo em si, prescindindo dos fenómenos paralelos, e de quem está na idade do prazer pelo jogo e não da perseguição do dinheiro.

Às vezes tenho a impressão de que Aimar só podia ser argentino. Parece que dentro de cada  argentino há sempre um ícone, um eremita ou um génio.

Numa equipa destinada a ser constituída por jovens jogadores em ascensão, que vêm de clubes menores para a um gigante mediático em que a pressão é constante, como o Benfica, um elemento plenamente consciente do que é importante e do que é secundário no futebol e na carreira de futebolista tem um valor inestimável.



Devo dizer que admiro muito mais Pablo Aimar pela personalidade que pela capacidade futebolística, e estou convencidíssimo de que, se hoje Aimar é o líder do Benfica em campo, é-o mais pelo que é fora dele do que pelo que joga. Nem sequer acho que Aimar seja, tecnicamente, e pelo que já disse, um jogador excepcional. Melhor que muitos, sim, mas não um sobredotado. Um verdadeiro bom jogador, sem artifícios, um jogador que vale pelo que é.

Tal como acontece com Luisão, o valor que Aimar tem para o Benfica, culturalmente, é muito superior ao seu valor de mercado enquanto futebolista fora do Benfica. Só no Benfica Aimar justificaria um salário de 130 mil euros por mês, como parece que recebe. E justifica-o.

Justifica-o a jogar quatro, dois ou um jogo por mês, com 32 ou com 35 anos. Não há dinheiro mais bem gasto. Num clube completamente vulnerável aos excessos, disposto a abdicar de tudo por paixões súbitas, irracional até ao limite, como não conheço outro, alguém que compreenda e ensine o lado real do jogo – como Aimar ensina, não só a colegas como a adeptos – tem sempre lugar. Mesmo depois de deixar de jogar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ser campeão é só isto?

No intervalo do jogo do Benfica aconteceu-me uma coisa muito chata: perdi a paciência.
Receio que vocês também vão perder a paciência comigo nas próximas semanas, porque não vai ser bonito.

Se daqui a dois meses houver, entre as dezenas de benfiquistas que cá vêm, mais de dois ou três a aturar-me, é capaz de ser muito. O eventual portista e sportinguista, por seu lado, vai divertir-se. Porque eu vou tratar mal aquela gente.


Posso começar? A primeira parte do Benfica, como mais de metade do tempo de jogo da equipa do Benfica durante toda esta temporada, não é digna nem do Benfica, nem de uma equipa que pretende ser campeã seja no que for. É só isto a que temos direito?

Não é aceitável aceitar-se tão pouco.

O Benfica será campeão este ano, reafirmo-o, mas não devia ser. Não sei se alguém devia ser, mas não é aceitável que uma equipa que joga tão pouco, que trabalha tão mal, que se exige a si própria tão pouco, seja consagrada campeã. O Benfica não tem estofo de campeão.

Devo dizer que falo da primeira parte porque nem sequer vi a segunda. Estão a ver? Perdi a paciência. Fui ver futebol americano e só soube do resultado no fim do jogo.

Eh pá, sinceramente, eu acho que vocês deviam passar uns dias sem cá vir, porque vai haver sangue.


Hoje o Benfica safou-se por entre os pingos da chuva. O Porto também? Caguei. O Porto não é um clube, é uma organização mafiosa legalizada através do futebol. Quando o capo di tutti capi morrer aquela merda vem por ali abaixo mais depressa que o tempo que leva a dizer cosa nostra. O Porto, daqui a vinte anos, vai andar a fazer piores figuras que o Sporting. Não quero saber do Porto para nada. Este Porto é como qualquer outra infecção – incha, desincha e depois passa, e o que vier a seguir estará muito mais próximo daquilo que o Porto realmente é.

O que eu quero saber é que uma equipa que vale uns 200 milhões de euros, com o mesmo treinador há três anos, numa situação privilegiada para fazer uma das melhores épocas da história do clube, entra para um jogo com o Gil Vicente, em Janeiro, e em vez de fazer desses 90 minutos uma exibição de potência e vontade faz um jogo-treino, e só não entrega o campeonato porque cada vez mais me convenço de que o campeonato está destinado. Esta gritante falta de profissionalismo só é possível porque os jogadores do Benfica sentem que não precisam de fazer mais. Como os que ganharam o campeonato de 2005 sentiram, como os que ganharam o de 2010 sentiram, e foi por isso que depois de ganharem esses campeonatos foi a merda que se viu.

Mas têm de fazer mais, e se mais ninguém diz, se anda tudo a bater punhetas aos meninos, digo eu. Vou fazer de Manuel Alegre e a mim ninguém me cala.


Quero muito acreditar que uma vitória neste campeonato, e noutros, seja uma forma de chegar a ter uma equipa como deve de ser, mas honestamente não tenho assim tanta certeza. Os antecedentes dizem-nos exactamente o contrário. Noutras ocasiões como esta o sucesso serviu, precisamente, para anestesiar o realismo.

Andamos a apanhar com Mestres da Treta a falar em «circulação da bola muita forte» quando não se consegue fazer mais de três passes seguidos da linha do meio-campo para a frente; com jogadores de futebol de salão que se vêm quando conseguem fazer meia-finta e o pagode, habituado a coxos, lhes bate palmas; com vedetas de banco a receber mais de 100 mil euros por mês para treinar; a ganhar jogos com ajudas dos árbitros, pelo peso da camisola, ou em golpes de sorte, como hoje no golo do Rodrigo. «Ah, mas o menino, se não tivesse chutado, a bola não entrava. E chutou com muita força…» Bardamerda. Se a bola não tivesse batido na cabeça do outro gajo agora andava aqui tudo aziado a dizer mal do Jesus, do Rodrigo, do Nolito, do Cardozo, daquela gente toda. «Ah, mas a sorte faz parte do jogo». O caraças. Para esta equipa do Benfica o jogo é que faz parte da sorte.

Isto é que é um «pico de forma»? Que maravilha… Espero nunca vir a ver o fundo de forma.


Não sou muito diferente dos outros benfiquistas: eu também tenho a tendência natural para dourar a pílula, e para querer ver o que não existe, e para, na evidência da pobreza franciscana a que estamos tragicamente limitados, fazer das coisas o que elas não são. E quando as coisas correm tão bem como estão a correr este ano em termos de resultados mais fácil se torna rendermo-nos à ilusão. Como não temos uma grande equipa fingimos que a temos e repetimo-lo até nos convencermos disso. Mas não temos. Temos uma equipa, em termos colectivos, pouco mais que vulgar.

Também não vou dizer que hoje, na estrada para Damasco, vi a luz e fiquei curado da benfiquite. Mas vacinado por uns meses penso que fiquei. E isso não é muito bom quando se está rodeado de doentes.


Por isso, sigam o meu conselho: se não se querem enervar, e se não querem acabar a chamar-me nomes (o que eu desde já agradeço), dêem-me alguma distância. Estou com azia e não vai mesmo ser nada bonito.


Vou falar menos do Benfica e quando falar não vai ser fácil encontrar aqui elogios. E vou falar menos porque não quero falar mal.

Por outro lado, há uma coisa que posso garantir: quando houver elogios, podem levá-los a sério.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Futebol Total

Não sou do Sporting, não faço reciclagem (porque não participo em esquemas de manipulação da opinião pública para conseguir mão-de-obra barata, devo dizer) e já vou para maduro. Acho que a única coisa em que sou verde é no futebol americano.


A minha equipa, os Green Bay Packers (e olhem que eu dou por mim a sofrer a sério com aqueles gajos), foi eliminada no passado fim-de-semana do play-off da NFL. Eram os campeões em título. A vitória dos Packers foi, aliás, ao que me lembro, a minha única alegria desportiva real na última época. Depois dos 5-0 nas Antas decidi fazer um período sabático, mandar o Benfica à merda durante uns meses e esperar pela nova época. Enquanto o Benfica se arrastava, a fazer de conta que ia a lugar algum, os Packers iam ganhando, e acabei por ver mais jogos de futebol americano entre Novembro e Janeiro do que do nosso futebol. Fiquei a gostar ainda mais dos Packers por me terem salvo da miséria para a qual o Benfica me atirou.

Os Packers são uma espécie de Benfica do futebol americano, o verdadeiro clube do povo, um clube impossível, por isso não me importo que sejam verdes. Lá mais para a frente eu começo a catequizar o futebol americano aqui na Religião, porque vale muto a pena, mas agora não temos tempo.

Os Packers chegaram ao play-off como favoritos nas apostas para vencerem outra vez o título. Apenas tiveram uma derrota em toda a época antes disso, e estiveram perto de acabar 16-0. Mas eu nunca acreditei realmente que os Packers pudessem ser campeões outra vez. Primeiro, por uma razão estatística: já há uns vinte anos que nenhuma equipa consegue ganhar o bicampeonato na NFL. Mas sobretudo por uma razão bem prática: apesar de terem o ataque mais devastador da liga, os Packers chegaram ao play-off com a pior defesa da competição, o que é espantoso.


O segredo menos bem guardado no desporto profissional, que todos os atletas, treinadores e dirigentes que jamais ganharam alguma coisa sabem, é que os ataques ganham jogos, mas são as defesas que ganham campeonatos. Nenhuma equipa que não defenda bem tem qualquer hipótese de ser campeã seja do que for, e geralmente a que defende melhor – não mais, mas melhor – é que a que acaba por ganhar.

E se a defesa é sempre decisiva é por uma razão muito simples: é porque é mais fácil defender do que atacar. É histórico, e é universal, em todas as actividades humanas, em todos os tempos, no futebol, na guerra, na arte, na economia. O instinto da sobrevivência, da preservação, é sempre mais forte, no homem, que o do risco. Os lirismos fazem-nos acreditar no oposto, que somos uma espécie criadora, inovadora, audaciosa, mas é treta. Somos, como todas as espécies, uma espécie defensiva, que só se arrisca quando a sua própria preservação está em risco. O homem é, por essência, um sobrevivente.

No futebol é a mesma coisa. Não perder é sempre o passo mais importante, ganhar é só depois. Quem não defende perde. Qualquer Beira-Mar é capaz de se organizar defensivamente. Não envolve grande criatividade. O acto criador, pelo contrário, envolve muito mais energia, sobretudo porque requer fazer coisas diferentes, e ser capaz (ter tecnologia) para as fazer. Temos sempre mais propensão e preparação para nos defendermos do que para tomarmos a ofensiva. Qualquer pessoa que tenha militado nas forças armadas vos dirá o mesmo (eu não militei, esclareço). O instinto protector é o instinto básico do ser humano.


Diz-se que o ataque se alimenta da defesa. Isto tem muito a ver com a pressão. O futebol é um jogo de erros, e quando a pressão aumenta os erros também se tornam mais frequentes, e falha-se mesmo no que normalmente não se falha. É uma reacção fisiológica. O jogador retrai-se, com o medo, e não executa nem pensa tão bem pela mesma razão que os pêlos se arrepiam com o frio – por reflexo. Há quem resista mais, há quem resista menos. Por isso é que há jogadores com mais classe que outros – porque, sob pressão, tomam mais boas decisões.

Nos jogos de grande pressão, os erros acumulam-se, e a equipa que defende bem erra menos. Ao errar menos, descontrai-se, sente-se segura. Ao descontrair-se, executa melhor. Ao executar melhor, e sentindo que tem superioridade no seu último reduto, ganha confiança e ataca melhor. No sentido oposto, uma equipa que não defenda bem desmonta-se com facilidade sob pressão, e se se dá caso de estes dois movimentos opostos coincidirem no mesmo jogo está criada a tempestade perfeita. A vitória do Porto, na Luz, para a Taça, na época passada, por exemplo.


A equipa que melhor defende, no mundo, é a melhor equipa do mundo. O Barcelona. Por uma razão muito simples: não é só porque descobriu a pólvora, é mais porque a descobriu e a guardou. A bola, claro.

Na Idade Média os reis europeus fizeram mais ou menos a mesma coisa: ao conseguirem o monopólio da pólvora (da pólvora a sério), a única arma contra os castelos dos senhores feudais, impedindo que outros a usassem, consolidaram o seu poder, e assim se iniciou a construção dos Estados modernos como hoje os conhecemos.

É a lógica mais simples e mais genial na história do futebol, precisamente pela simplicidade. «Ninguém marca golos se não tiver a bola.» Pode parecer contraditório dizer que o Barcelona passa mais de metade do tempo útil de jogo a defender, mas é verdade. Quando anda a trocar a bola durante três minutos seguidos o Barcelona não está a atacar, está a defender com bola, porque o objectivo ali não é marcar golo mas sim evitá-lo. O Barcelona tem dois tempos defensivos:

- os três segundos imediatamente a seguir a terem perdido a bola, quando geralmente a recuperam, por duas razões: porque a perderam de forma correcta, num local do campo afastado da sua baliza e com os seus jogadores posicionados de uma maneira que tanto serve para atacar como para começar logo a defender; e porque tem um conjunto de jogadores rápidos sobre a bola, que pensam muito depressa, e que sabem para onde a bola vai antes dos próprios avançados, porque percebem o jogo

- os três minutos a seguir a terem-na recuperado, quando a trocam sem procurar a baliza, apenas a aproximando o suficiente da grande-área contrária a ponto de, em sete ou oito segundos criarem superioridade numérica e uma desmarcação em direcção à baliza.

O Barcelona não e a equipa que melhor ataca no mundo – é a equipa que melhor defende. E arrisco-me a dizer que também é a equipa que mais defende. Chegámos ao cúmulo de ver o Barcelona a ter 74 por cento de posse de bola em pleno Santiago Bernabéu, contra o Real Madrid. Ninguém passa tanto tempo como o Barcelona a evitar o golo. Que ela nos consiga iludir de que ganha campeonatos a atacar só a torna ainda mais genial.

O Barcelona está vinte anos adiantado em relação aos outros precisamente porque a única forma de contornar o seu poder é usar pólvora contra pólvora. Naquelas poucas ocasiões em que passam a barreira fulcral dos três primeiros segundos têm de conseguir fazer ao Messi do Barcelona o mesmo que o Xavi e o Iniesta fazem aos messis dos outros: pô-lo a ver a bola.

Isso vai tornar-se claro assim que o actual Real Madrid, uma das equipas mais completas, caras e bem treinadas de todos os tempos tiver falhado. Pode demorar mais um ano ou dois – uma vez que Real vai mesmo ser campeão este ano, alimentando a ilusão de ter sido o Real a ganhar o campeonato, e não o Barcelona a perdê-lo, como de facto vai acontecer – mas assim que Mourinho sair a coisa torna-se clara e evidente.

Quando aparecer uma equipa a conseguir fazer de Barcelona melhor que o Barcelona – digo «quando», e não «se», porque vai acontecer – o jogo vai tornar-se tão aborrecido que talvez cheguemos ao ponto de instituir regras tais como as que foram instituídas na NBA, para impedir o anti-jogo, como o cronómetro de ataque ou a linha de transposição de bola.


O que é que aconteceu aos Packers? Bom , os Packers, cuja capacidade ofensiva era considerada, pelos analistas, a melhor de todos os tempos, foram eliminados porque, no primeiro jogo do play-off, quando a pressão subiu e a intensidade e a estratégia defensiva dos adversários melhoraram, não conseguiram fazer mais do que um touchdown (e graças a um erro do árbitro) quando o normal era conseguirem entre 5 e 7 por jogo. Enquanto isso, os New York Giants, alimentando-se da defesa, marcaram os pontos do costume (não muitos, mas os suficientes), em casa dos Packers, e ganharam.


Como é evidente, isto tem tudo a ver com o Benfica – Gil Vicente de hoje, em que o Benfica deve ganhar por 3 ou 4-1. No final, os analistas vão voltar a enaltecer que com este ataque, o Benfica é praticamente campeão, e os adeptos, que gostam é de bolas à baliza e correrias, vão acreditar (eu também gosto, note-se). «O carrossel ofensivo argentino latino-americano vai dar ou outro título ao Benfica», dir-se-á

O meu receio é que, daqui até ao jogo com o Porto, e sobretudo no próprio jogo com o Porto, os jogadores acreditem que isso é verdade. Porque não é.

A minha esperança é o Jesus.
Esse mesmo Jesus que, nos tempos do Felgueiras, entrou à leão, com toda a escola que o Cruyff estava a implantar em Espanha, a dizer que a forma de ganhar era marcar mais golos que o adversário.

Esse mesmo que Jesus que passou de treinador atrevido a treinador campeão (porque levar o Braga, o Belenenses ou o Benfica ao melhor que podem atingir é ser-se campeão) quando percebeu, com o decorrer da sua carreira, que o segredo para se conseguir acabar o jogo com mais golos que o adversário, sobretudo contra adversários da estirpe de um Porto, não é marcar muitos – é sofrer poucos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Já podem guardar o Lenzo

Acho que vale a pena não só pôr o Enzo no sítio, como titulava a mui orgulhosa Bola de hoje, como pôr a novela do Enzo no sítio.

Nesta altura o que é preciso é perspectiva, e o Jesus esteve muitíssimo bem ao dizer que o seu papel é recuperar o jogador.

Já chega de dramatizações e de choraminguices. Guardem lá o lenço.



A questão do Enzo Pérez é muito simples, e é esta:



Ponto 1 - O Enzo assinou pelo Benfica sem saber o que é o Benfica, e a culpa não é dele, pois todos os jogadores estrangeiros que assinam pelo Benfica não sabem realmente o que estão a fazer. Só percebem algum tempo depois de chegarem e não é graças à Direcção, que faz um mau trabalho nesse aspecto. Não basta o Rui Costa levar os rapazes a ver o museu. Era preciso mais. Gente preparada para isso. Acompanhamento próximo e qualificado. Um investimento de 5, 6 ou 7 milhões de euros em que a matéria adquirida é uma pessoa, e cujo sucesso depende de factores subjectivos e psicológicos, merece um tratamento altamente profissional e especializado. Uma pessoa não é um animal de carga, não é pôr a canga e mandar puxar. Se algum de nós assinasse por um Boca Juniors poderia realmente dizer que sabia o que estava a fazer?



Ponto 2 – O Enzo Pérez fez uma coisa excepcional, que foi bater com a porta, por puro vedetismo, porque pensa que é uma estrela. A tendência imediata é para punir essa pretensão dele. No fundo, todos queremos que toda a gente seja mais ou menos igual, e as pessoas e as situações excepcionais fazem-nos sempre confusão, a que respondemos, instintivamente, de forma conservadora, punindo, castigando.

O Enzo Pérez excedeu-se. Agiu de uma forma que não se coaduna com uma disciplina colectiva. É um facto. Mas eu gosto de jogadores diferentes. Eu gosto de excepções. Todos os grandes jogadores são, de uma forma ou de outra, excepcionais. Não se deve asfixiar a excepcionalidade. Deve-se alimentá-la. O Enzo Pérez pode nunca vir a ser um jogador excepcional, mas o simples facto de pensar que é é uma hipótese de grandeza que não deve ser estrangulada à nascença, antes explorada. Alguém pensa que o ego não é importante num profissional de futebol?



Ponto 3 – O Benfica fez o que tinha a fazer, até agora. Estabeleceu um limite. Deu-lhe uma palmada. Ele baixou as orelhas e cheirou a mão. Também fez o que tinha a fazer. Agora – ou depois da multa – é hora de lhe dar o doce.

Isso dos assobios, com todo o respeito, até pode acontecer, mas é treta.

Se as pessoas que trabalham no Benfica (incluindo o Enzo Pérez) fizerem bem o seu trabalho, daqui a um mês o Enzo Pérez está a jogar, daqui a dois é titular, daqui a três é a «arma secreta que estava lá dentro», torna-se no jogador decisivo da equipa, joga que se farta, e os que hoje dizem que «estes tipos não sabem o que é o Benfica» passam a dizer que «o Enzo aprendeu o que é o Benfica, ganhou humildade e passou a sentir a camisola».

Tretas.

Se isso acontecer não será porque o jogador sente camisola nenhuma mas exactamente pelas mesmas razões que o levaram a rejeitar o clube alguns meses antes: por orgulho. É assim mesmo que as coisas são.

Daqui a três meses o Enzo pode estar a ser glorificado pelo Terceiro Anel que actualmente o quer crucificar. Isso é o futebol. Há centenas de Enzos por esse mundo fora.

E é bom que todos os benfiquistas se consciencializem que, no futebol moderno, não há qualidade sem egos, e que é dos egos que nascem as estrelas. Um clube que não aprenda a lidar com as estrelas não tem futuro enquanto grande clube.

Sejam estrelas de pacotilha, como o Enzo Pérez, ou estrelas de primeira luminosidade, como o Cristiano Ronaldo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Aquilo é nervos

Como já não falo de Benfica, Porto e Sporting há muito tempo, hoje vou picar o ponto.  
O Hulk nunca tinha tido uma lesão muscular em nove anos.
Esta é uma das coisas mais impressionantes de que já ouvi falar no futebol. Além de tudo o resto, valoriza imenso um jogador, porque lhe dá uma fiabilidade sobre a qual se podem construir projectos. Em comparação, lanço a questão: qual teria sido o horizonte de sucesso de Pablo Aimar se não fosse um jogador permanentemente lesionado? Teria parado num Valência e num Benfica ou estaria destinado a jogar nos maiores?
Mas fora isto, vou ser mauzinho com a Criatura, para variar.


Já repararam que antes das grandes competições de atletismo, por exemplo, é frequente ouvirmos falar de febres, doenças súbitas, lesões, e um rol de maleitas exóticas, deste gota a aftas vaginais,  que mais parece um episódio do «Médicos por África»?
Parece tudo super-forçado, histórias da carochinha, um grande choradinho para justificar desaires, mas não é. Não é tanga. É verdade. Eles ficam mesmo doentes. É do stress.
O stress provoca doenças, em toda a gente, porque impede a regeneração celular. Está comprovado cientificamente. A exposição prmanente à tensão afecta os mecanismos de reprodução dos tecidos e orgãos, causa doenças e envelhecimento precoce.
No desporto, provoca lesões, e está demonstrado em estudos académicos que a boa disposição as previne.

Nos futebolistas isso não se nota muito, provavelmente porque são atletas habituados a desempenhar debaixo de pressão desde muito cedo, mas nos atletas individuais, por exemplo, que podiam passar por nós na rua sem os reconhecermos, quando a tensão começa a aumentar o corpo facilmente dá de si.

Pus-me a pensar nisto a propósito do Hulk. Pensei em quantas ocasiões nestes nove anos é que o Hulk terá estado realmente debaixo de um stress a que não esteja habituado.
Ora vejam: começa a jogar pela selecção do Brasil, um sonho que parecia afastar-se, e torna-se, de facto, um jogador global depois da época passada do Porto; vê o Benfica a dar uma luta que nunca tinha dado, realmente, e inclusivamente a ganhar superioridade num confronto directo, dando ideia de ser o favorito ao título; ouve, todas as semanas, propostas milionárias dos principais campeonatos do mundo, incluindo uma notícia da Gazetta dello Sport que diz que o próprio Guardiola o quer, sem desculpas, no Barcelona. Ora, em Janeiro, o que é que acontece ao Hulk? Sente uma picada.
Já nem falo na volta que lhe deve estar a dar à cabeça a sensaçã de que, afinal, é vulnerável.

Pode ser tudo coincidência. Ou não…

(Independentemente disto a simples frase «em nove anos nunca sofreu uma lesão muscular» devia ser obrigatória logo na capa do currículo que o empresário dele anda a distribuir por meia Europa)


Quanto ao Sporting, há uma questão que merece ser levantada neste momento em que até o cirurgião Barroso («na qualidade de presidente da Assembleia Geral», até me parto a rir com estas palhaçadas) já reconheceu que o objectivo do Sporting, desde o início, era chegar à Champions. É que o objectivo do Sporting não era só chegar à Champions. O objectivo do Sporting, no início desta época, era chegar à Champions pelo segundo lugar no campeonato.

O alvo do Sporting, durante o Verão, não era o Porto, então aparentemente intocável, nem o Braga, então aparentemente inútil dada a revolução no plantel e dado o facto de o Sporting já o ter conseguido bater no campeonato anterior e colocado na sua posição natural. O objectivo do Sporting era, afinal, o mesmo de sempre – aquilo a que se resume 80 por cento do critério de sucesso de uma época no Sporting: ficar à frente do Benfica. No segundo lugar que daria apuramento directo para a Champions.

Alguém tem dúvidas de que se só houvesse um clube a ser apurado para Champions no fim desta época o Sporting não teria gasto nem um terço do que gastou?

O alvo do Sporting era o Benfica.
E é por isso, novamente, que o Sporting está em crise. Se a ordem actual do campeonato fosse Porto, Braga, Sporting, Benfica, e acabasse assim, com o Sporting a ganhar a Taça, em Alvalade não haveria o sentimento de crise.
No Verão, depois da débacle na época anterior, o Benfica era a presa mais fraca, e a mais apetecível. O Benfica estava à mercê, e o Sporting fez o que tinha a fazer: avançou. Só não se esperava, como há três anos, este piparote. Esta ressurreição que é especialidade da casa.

À parte disto, o problema do terceiro lugar, para o Sporting, não é apenas ficar atrás do Benfica. É ter de começar a próxima época um mês mais cedo, o que pode ser determinante nas suas hipóteses reais de discutir o título.
O que o Benfica está a fazer esta época é verdadeiramente excepcional, por ter começado a competir muito antes dos outros – mas vamos ver se ainda não mordo a língua lá mais para a frente. Se conseguir ser campeão, e chegando pelo menos aos oitavos-de-final da Champions, depois de ter passado duas pré-eliminatórias da Champions e tendo como adversário interno um Porto vencedor de quatro competições na época anterior o feito desta equipa do Benfica será muito maior do que o de vencer o campeonato em 2009/10. É uma proeza não só a nível nacional como a nível internacional. Uma carreira longa e bem sucedida na Champions é, historicamente, incompatível com um bom campeonato, e este Benfica é (ou pode vir a ser, veremos) a excepção que confirma a regra.
Se tiver de disputar eliminatórias de acesso à Champions o Sporting vai passar pelos mesmos problemas que qualquer outra equipa passa, e comprometer seriamente as suas aspirações internas.


Finalmente, o Enzo Pérez.
Dizem que o Enzo Pérez vale 5 milhões de euros, que foi o que o Benfica pagou por ele. Pois eu, pelo que leio nos jornais de hoje, acho que o Enzo Pérez está na iminência de se tornar no jogador mais valioso da história do Benfica.

Ao dizer ao Enzo Pérez, ao empresário do Enzo Pérez, aos clones do Enzo Pérez, e aos empresários dos clones do Enzo Pérez que por aí andam que está disposto a pagar 5 milhões de euros para fazer valer um princípio, o Benfica está a valorizar o Enzo Pérez em 500 milhões de euros mesmo que ele nunca venha a ser titular do Benfica.

Se contabilizarmos os milhões que o Benfica vai poupar em jogadores que não vão aceitar vir para um clube em que se tem de ser profissional, mais os milhões que vai ganhar com os jogadores que não vão voltar a tentar este número quando não lhes fazem as vontades, mais os milhões que vai ganhar em valorização de jogadores por perceberem que estão num clube profissional, mais os milhões que vai ganhar por ser respeitado por empresários honestos e os que vai poupar por afastar os empresários desonestos, o Enzo Pérez está a revelar-se valiosíssimo.

Digo mais: a única coisa que falta ao Benfica para dar o salto qualitativo, em termos de cultura e, consequentemente, em termos de capacidade competitiva, é conseguir chegar ao plano dos princípios. Quando um líder, ou um conjunto gestor de homens, percebe que há princípios que estão – de facto, e não apenas de boca – acima do economicismo, está a dar o passo decisivo rumo à grandeza. Assim que se dá este passo, o resto vem atrás.


Talvez fosse pedir demasiado que se fizesse do Maxi Pereira um exemplo, mas o Enzo Pérez pôs-se mesmo a jeito.

É claro que se o Enzo Pérez levar a dele avante, esqueçam…

sábado, 14 de janeiro de 2012

Uma perna da Criatura chega?

Benfica (IRPR – 0.229)

Primeiro ponto: foi um dos melhores jogos de matrecos que já vi. Era só carambolas caprichosas.

Segundo ponto, outra vez para fazer chichi na sopa e pôr alguns correligionários a morder a língua para não me irem às trombas: assim que o Benfica tenta acelerar o jogo começa a falhar passes uns atrás dos outros, e quem não vê isto é porque não quer ver. Falta técnica.

No dia em que o Jesus tiver um conjunto de jogadores tecnicamente de alto nível, a jogar desta forma ofensiva, e que se conheça bem e não precise de treinar muito, arrisca-se a ganhar tudo, seja no Real Madrid seja no Benfica. Mas enquanto for com Brunos César, Emersons, Jardéis, Cardozos, Nolitos, ganha o campeonato e é se a coisa correr bem, porque se apanhar um Porto certinho ou um Sporting certinho encosta que é uma beleza. Para o Benfica a bola continua a ser demasiado barata. Entrega-a com demasiada facilidade. A nível europeu é o que se pode chamar uma equipa de trazer por casa.

Com os Setúbais a coisa resulta bem. Nos últimos quatro jogos já vai em 17-3 em golos e a tendência é para avolumar o score. Mas quando aparece uma equipa que saiba defender, que não se assuste, que trate bem da bola no ataque, jogue rápido e tenha uma pontinha de sorte o Benfica rapidamente perde a iniciativa do jogo.


Terceiro ponto: o jogo ideal para o Benfica nesta fase da época. O golo do costume sofrido logo a abrir, dando tempo para recuperar e uma boa razão para começar a correr, em vez de dar a primeira parte de avanço, como é costume; um adversário que tenta jogar, de feição técnica mas física e tacticamente de fundo da tabela; terceiro golo marcado em cima do intervalo, a dar para descansar e para fazer entrar o Gaitán e o Saviola, nas calmas, na segunda parte, em rtimo de treino activo.

Bom jogo de Witsel (mais ofensivo na primeira parte, mais cauteloso na segunda), Maxi (que está mais fresco, de corpo e de cabeça), Nolito, Cardozo, que está claramente em forma e cheio de confiança, e de Rodrigo, um atacante de corpo inteiro e a crescer, um jogador à beira da explosão que, se tudo correr bem, na próxima época será um dos quatro ou cinco melhores do campeonato.

Jogo displicente de Artur, dos dois centrais, de Matic e de Bruno César. Emerson não dá mais do que isto. Pode ser que chegue.


Duas notas:

- No plantel do Benfica só Witsel consegue fazer o que fez hoje, incluindo aquele passe de pé esquerdo para o golo de Nolito. Não sei se pode ser um Zidane, como disse o D’Onofrio, mas que daqui a dois ou três anos está a jogar num Chelsea qualquer, disso não tenho dúvidas. E não vai barato.



- Toda a diferença deste Cardozo para o Cardozo que vimos na época passada vai para dois pequenos pormenores: a não convocatória para a Copa América e a breve temporada de banco que recebeu há umas semanas, para abrir a pestana. Um Verão descansado e boa concorrência fazem milagres. O jogo de castigo vai fazer-lhe bem. Para ver se abre a outra pestana. Naquele mergulho não há nada de especial – só o défice mental do costume e a displicência própria de quem, tendo esse défice mental, se apanha a ganhar por 4-1 e não se consegue concentrar durante mais de cinco segundos de cada vez.

Não joga com o Gil Vicente? Joga o Saviola. Tal como eu disse há dois dias, esta é a altura do banco do Benfica não perder o campeonato.



Porto (IRPR – 0.205)

A diferença no IRPR jutifica-se, apenas, por o Porto não ter sofrido um golo e por não ter as mesmas baixas, inicialmente, que o Benfica, apesar da pressãoter aumentado com a saida do Hulk.

A lesão da Criatura. Vamos ver no que é que vai dar, e se o Porto se aguenta só em cima de uma perna. Já não me lembrava de ver o Hulk parar por lesão, mas parece que estava a adivinhar. Ainda há uns dias lancei essa hipótese para cima da mesa, a propósito da aleatoriedade que também vai decidir o campeão.

Por aquilo que me pareceu é coisa para durar duas semaninhas, no máximo três. Vai apanhar o Guimarães em casa, o Gil Vicente fora e uma paragem de uma semana no campeonato.

Uma das causas para a boa época do Porto no ano passado foram as lesões. Não por não existirem mas por existirem na altura e na quantidade ideal. A única lesão de um jogador fundamental na equipa foi a do Falcão, na passagem do ano, e nessa altura o Porto apanhou uma série de jogos fáceis, para o campeonato, Taça de Portugal e Taça da Liga, incluindo a pausa do Natal. Quando o Falcão voltou o prejuízo tinha sido mínimo.



Não vale a pena disfarçar: a lesão do Hulk pode ser um problema para o Porto, apesar de o mais provável ser não o vir a ser. Se fosse uma lesão para mês e meio, dois meses, seria potencialmente desastrosa para o Porto. Se for coisa curta, e nesta fase do campeonato (Guimarães, Gil, Leiria, Setúbal, já daqui a mais de um mês, e Feirense), não deve ser por aí que o Porto perde nada. Até pode ser positivo, ao dar espaço para outros jogadores se assumirem em jogos relativamente fáceis. Para já, o James mostrou que está um nível acima dos outros. Abre-se uma oportunidade para Iturbe ou Varela.

Vamos ver é se o Guimarães, que anda a ver se arranca, colabora…

O Rio Ave? Não esteve longe. Aquele goo cantado do Yazalde podia ter mudado o campeonato - como o do Beira-Mar na última jogada.

Volto a dizer que não me parece que o Porto vá ganhar os jogos todos até ao da Luz. Até agora tem conseguido passar, no campeonato, um bocado como que por entre os pingos da chuva. Esta lesão do Hulk parece que vem mesmo a calhar, não é? Atenção ao jogo do Gil, em Barcelos.

Como está fácil de ver, o Inverno já está a fazer estragos, só ainda não reflectidos a nível de resultados – mas já não deve faltar muito.

O Rolando não quis ficar atrás do Cardozo, parou de pensar e viu um vermelho no fim dos descontos. Novamente, cuidado. O Rolando é o único central titular do Porto. Os outros vão rodando ou jogando a defesa-direito. Para o Porto, jogar sem o Rolando é mais ou menos como o Benfica jogar sem o Luisão. Poder substituir até podem, mas não é a mesma coisa. Se o Vitória estiver num dia sim, pode acontecer.





P.S. - Amanhã faço um directo do Braga-Sporting, para me vingar do Sporting-Porto. E já sabemos, de certeza, que este vai ser um jogo muito mais bem jogado…

O ranking da treta do ranking

Num comentário de ontem o Luís levantou a questão da continuidade do regime portista ad eternum – ou pelo menos ad eternum durante os próximos 15 ou 20 anos. É uma questão interessantíssima, e muito actual, em que há uma série de factores influentes, um grande grau de subjectividade na análise e a necessidade de conseguir ler a longo prazo, identificando o que é conjectural e o que é estrutural. Alguns desses factores já aqui foram falados várias vezes, outros, certamente, não, mas há poucas dúvidas de que essa é, de facto, a grande questão de fundo do futebol português. Vamos ver como se começa a posicionar a nova ordem, dar-lhe uns dias, esperar por pistas – a entrevista do Domingos Soares de Oliveira ao Expresso, por exemplo – antes de mergulharmos outra vez, e com botija de oxigénio, nessa questão.



Por agora, apetece-me falar dos rankings, porque se deve bater o ferro enquanto está quente e os portistas, por exemplo, andam em brasa – já para não falar dos sportinguistas, que, não estando em brasa, estão atrás do Braga.



Não há nenhuma modalidade desportiva em que os rankings não sejam contestados. No ténis, no golfe, no futebol, no basquetebol, é indiferente. Não é difícil de perceber porquê: os rankings reduzem uma actividade iminentemente cultural, que tem um impacto mental nas pessoas, a uma dimensão quantitativa. O desporto não é uma actividade unidimensional e, como tal, todos os rankings, sem excepção, são leituras incompletas. Isto vem de encontro ao que eu escrevi há uns dias, depois do jogo com o Leiria, sobre o resultado não ser a última medida do sucesso. É uma medida importante, mas incompleta. Não há sucesso sem resultado, mas não chega resultado para haver sucesso. A quota de importância do resultado no sucesso é, afinal, proporcional à quota da importância do ranking na avaliação do sucesso – muita, mas não toda.



Dito isto, os rankings servem para enfraquecer algumas ideias feitas, e para levantar outras questões – aliás, é só mesmo para isso que servem. Vamos pegar neste ranking de 2011, como poderíamos pegar em qualquer outro.

A IFFHHFFS – não quero saber da sigla, vou fazendo copy/paste e siga a bola – diz que o campeonato português é o quarto melhor do mundo, de acordo com os resultados. Só isto dava um blog, mas nem vale a pena. Só falo disto para lembrar que nesse quarto melhor campeonato metade dos jogadores são sul-americanos, sendo que entre os cinquenta melhores estarão, eventualmente 35/40 sul americanos, entre Hulks, Luisões, Gaitáns, Rodríguez, Cardozos, etc, sendo os portugueses mais para fazer banco que outra coisa. Com que legitimidade é que podemos, então, recorrentemente, menosprezar os campeonatos sul-americanos, nomeadamente o brasileiro e o argentino, ou equipas como o Santos, o Vélez Sarsfield, o Universidad Católica e outros? Não estamos apenas a falar de resultados – estamos a falar de qualidade. Estamos a falar de países com nove campeonatos mundiais ganhos e mais uma série de finais e meias-finais disputadas, de clubes com largos milhões de adeptos, com histórias riquíssimas, com uma competitividade global que é pura e simplesmente incomparável com a maior parte dos campeonatos europeus – no Brasil, todos os anos, por exemplo, há sete ou oito candidatos reais ao titulo, com uma história e uma estrutura que suporta essa condição, enquanto em Portugal há três, em Espanha dois, em Itália três ou quatro, em Inglaterra dois ou três. Eu não sei, sinceramente, quantas das equipas portuguesas da I Liga sobreviveriam no Brasileirão ou na Argentina. Quatro em vinte? Cinco em vinte? Quando vemos jogos de clubes médios na Argentina com milhares de pessoas na bancada e um jogo do Beira-Mar com algumas dezenas devemos pôr em causa nos nossos esterótipos.



Outra questão: porque é que o oitavo lugar do Benfica soa tanto a falso (e sabe a falso, já agora?). Porque, como é evidente, em termos civilizacionais e culturais, uma vitória pode valer mais do que dez vitórias. Os portistas andam em brasa porque se sentem traídos pelo ranking. Desde há dez ou quinze anos a esta parte que os números são os seus melhores amigos, e os rankings emoldurados, todos os anos, nas páginas embevecidas do Jogo, como bulas papais, e agora, na melhor época desportiva da história do Porto – culturalmente falando, note-se – os rankings aparecem a dizer que o Benfica foi melhor.

É evidente que há aqui factores estranhos que têm de ser lidos. A dessincronização entre a época desportiva na Europa e o ano civil, por exemplo, que tem de ser feita porque nem todo o mundo tem o Verão e o Inverno da Europa Ocidental (apesar de esta parecer desconhecer essa evidência), e de ter de se encontrar um meio termo que abranja todo o mundo do futebol.

Outro desfasamento que existe, neste caso entre os países europeus de segunda linha e os cinco maiores (Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França) em termos de dimensão económica, na importância que se dá à Liga Europa, que para «nós» é a antiga Taça UEFA, a segunda competição europeia, com prestígio e grande impacto cultural, e para «eles» é a quarta ou quinta competição da UEFA, atrás da Liga dos Campeões, das meias-finais da Liga dos Campeões, dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, etc, etc…



A conjugação destes dois factores, por si só, praticamente justifica a superioridade matemática do Benfica em relação ao Porto. O Benfica teve dois momentos desportivos muito bons no ano civil de 2011: os dois primeiros meses, em que bateu um recorde histórico de vitórias consecutivas; e os quatro últimos meses, em que foi ligeiramente melhor que o Porto nas competições nacionais e claramente melhor na Liga dos Campeões, não só ganhando um grupo onde estava o Manchester United como vencendo duas eliminatórias antes de aí chegar, enquanto o Porto era eliminado pelo APOEL de Nicósia.

O Benfica supera o Porto por uma questão de calendário e pela importância da Liga dos Campeões relativamente à Liga Europa.

O Benfica ganhou mais nos meses em que se ganham jogos, o Porto ganhou mais nos meses em que se ganham competições. Isso passa a ideia que o Benfica ganhou menos e que o Porto ganhou mais. Uma ideia que é verdadeira, diga-se. De facto, qualquer benfiquista trocaria rapidamente este oitavo lugar no ranking por uma vitória no último campeonato mesmo que isso viesse com um quinquagésimo lugar no ranking.

Mas – já sem aprofundar o facto de o Benfica, nos meses em que se ganham competições, ter sido apenas ligeiramente pior que o Porto (segundo lugar no campeonato, meias-finais da Liga Europa, meias-finais, que foram uma final antecipada, da Taça de Portugal, o que se traduz numa da melhores épocas do Benfica dos últimos vinte anos) – o que este ranking faz é levar-nos à questão real: a da qualidade do resultado.



O ranking de 2011 da IFFHHFFS, vem, acima de tudo, em termos de futebol português, dar um grande contributo (mais um no annus horribilis que se augura para o lado das Antas) para desmistificar a ideia que a propaganda portista tão afanosamente vem tentando propagar (passe a redundância) numa tentativa de, perante o evidente falhanço de superar o Benfica em termos civilizacionais – não o conseguiram e agora também já não vão conseguir, porque a janela de oportunidade passou, o Benfica recuperou a dinâmica, o Porto já passou pelo seu melhor momento, e a partir de agora isto vai nivelar durante uns tempos –, passarem a ideia de que, apesar do Benfica ser maior que o Porto, o Porto já conseguiu tornar-se melhor que o Benfica.

Não é.

Porquê? Precisamente por causa da qualidade da vitória.



O rol de títulos que a propaganda portista afanosamente tem vindo a afixar em todas as portas de igreja da cristandade lusitana deve ser encarado não como uma proclamação de glória mas como uma última e desesperada tentativa de fazer História, que não vai suceder.

Com essa contabilidade de vitórias pretende-se dizer apenas isto: «Vocês podem ter mais gente, mas nós temos mais vitórias, por isso somos melhores do que vocês.»

Este discurso não vai ter sucesso, a médio prazo (a curto vai tendo, porque ainda está na moda ser pró-Porto para se parecer politicamente correcto, um bocadinho como se faz com os pobrezinhos, com os negros, com os emigrantes e com todas as minorias desfavorecidas, mesmo que, na prática, quase toda a gente se esteja cagando para isso e, no fundo, toda a gente saiba que o mundo é o que é e não o que nos dizem que deve ser), e não vai ter sucesso por uma razão simples: porque não é verdade que o Porto tenha ganho mais que o Benfica, em termos de qualidade, que é o que realmente faz a diferença.



Mesmo que se aceite que o Porto já tenha ganho mais competições que o Benfica – e nem isso é linear, pois depende do universo de competições contabilizadas – a relação de qualidade dessas vitórias é praticamente incomparável.



Colocar 10 ou 11 Supertaças ao mesmo nível, sequer, de uma Taça de Portugal, quanto mais de um campeonato nacional, é uma perfeita estupidez, e o facto de se continuar a fazer isso conscientemente não é mais que uma forma de negação continuada, que só confirma a fragilidade de um argumento. Uma Supertaça, disputada a um jogo, na pré-época, e, geralmente, até entre uma equipa grande e a revelação da época anterior, muitas vezes completamente enfraquecida durante o Verão (são tantos os casos que nem vale a pena enumerá-los), não chega a ser uma verdadeira competição, e a própria Taça da Liga é-lhe muito superior em termos competitivos – aliás, só a ausência do factor histórico (cultural, lá está), da Taça da Liga, assim como o domínio do Benfica até agora, juntando ao falhanço do Sporting na primeira edição, é que impede que a Taça da Liga seja considerada a segunda competição nacional, pois nela nem sequer praticamente intervêm os bombos da festa que há na Taça de Portugal.



Da mesma forma, é bizarro considerar a Taça Intercontinental (ou a antiga Taça Toyota, se preferirem) como uma verdadeira competição, de tal forma que a própria FIFA se sentiu na obrigação de acabar com aquela coisa e legitimar um bocadinho (não muito, diga-se…) a questão do campeão mundial, organizando uma liguilha em que, pelo menos, o campeão europeu e o campeão sul-americano possam triturar um ou dois clubes vietnamitas e árabes antes de poderem jogar a tal Taça Toyota. Sempre se justifica um bocadinho mais as despesas de representação e confétis.

Tem mais significado, inclusivamente, uma vitória na Supertaça Europeia, mesmo sendo também a um jogo, do que uma vitória na Taça Intercontinental. Para nós, europeus, conta mais ganhar ao Ajax ou ao Atlético de Madrid que ganhar ao Peñarol. Em qualquer dos casos, contudo, são vitórias bem menores que ganhar uma verdadeira competição europeia, mesmo a actual Liga Europa, que não tem nada a ver com a antiga taça UEFA. Na antiga Taça UEFA, em que só não jogavam os campeões do ano anterior e os vencedores da Taça, surgiam, muitas vezes, as melhores equipas dos seus países, nomeadamente dos cinco grandes. Real Madrid, Liverpool, Inter de Milão e muitos outros eram fregueses regulares da UEFA, ganhando-a, porque na Taça dos Campeões só havia lugar para um. Na Liga Europa, havendo muito mais jogos, praticamente não há, senão excepcionalmente, nenhuma das melhores equipas europeias, e quando há é uma ou duas, no máximo. A competição pela vitória, sendo mais longa, é mais fácil. Vale menos.

Acrescente-se que o Benfica nunca ganhou uma Supertaça Europeia, em última análise, por uma razão muito simples: porque na altura em que a devia ter disputado ainda não se disputava a Supertaça Europeia. Não sei se isto é relevante…



Finalmente, e para não ir mais longe, faz pouco sentido, na minha opinião, comparar as duas vitórias na Taça/Liga dos Campeões, do Porto, mais as duas vitórias na Liga Europa, e uma final da Taça das Taças, por parte do Porto, as duas vitórias e mais cinco finais da Taça dos Campeões pelo Benfica, mais uma final da UEFA perdida.

Já não vou à questão da dificuldade da vitória do Porto na Champions do Mourinho – penso que não seria muito justo, até pela importância relativa que essa vitória teve na altura dado o contexto do futebol português – nem vou à quantidade de meias-finais e quartos-de-final disputados por cada equipa (ressalvo apenas o facto de, para chegar aos quartos-de-final com o futuro campeão europeu, Barcelona, o Benfica de Koeman ter tido de eliminar Manchester Unted e o anterior campeão europeu Liverpool, mais do que o que o Porto fez no ano em que foi campeão europeu).

Mas vou, de certeza, à diferença que existe entre atingir sete finais da mais importante competição da UEFA, num espaço de trinta anos, ganhando duas, e atingir duas finais, mesmo ganhando duas, assim como de pretender fazer de duas vitórias na competição secundária (na altura em que foram alcançadas, mais terciária… - para chegar à final da UEFA de 82, que perdeu com um Andrerlecht campeão belga num altura em que os belgas tinham a quarta ou quinta melhor selecção da Europa, o Benfica teve de eliminar o Roma campeão italiano; para ganhar a Liga Europa ao Braga terceiro classificado do campeonato português o Porto teve de eliminar o Villarreal, terceiro ou quarto classificado do campeonato  de Espanha) o equivalente a uma final da Taça dos Campeões.

Honestamente, não faz sentido.

É a diferença que vejo entre uma grande equipa europeia, que o Porto teve esporadicamente, e um grande clube europeu, que o Benfica é. As vitórias do Porto na Taça dos Campeões marcaram uma temporada desportiva. As cinco finais europeias do Benfica nos anos 60 marcaram uma era. E quando se fala de passado e presente, de preto-e-branco e cores, é outro profundo disparate. Não há presente. O Porto do Artur Jorge só não é tão distante como o Benfica de Gutmann porque ainda não passou tempo suficiente para se misturarem no mesmo passado, mas já não falta muito. As pessoas passam e tudo passa, e o que fica, fica fechado dentro da mesma caixa sem tempo. Todas as vitórias são elas e a sua época, independentemente da época em que são alcançadas.



As histórias desportivas de Benfica e Porto não são incomparáveis, no sentido em que já se podem comparar – ao contrário, por exemplo, da história desportiva do Sporting, que realmente é muito menor que a de qualquer um dos dois – mas qualquer comparação que ponha a do Porto ao mesmo nível da do Benfica é pura ficção.



Pode-se dizer que a lista de vitórias de Porto e Benfica é tão mentirosa como o ranking de 2011. Nem numa nem noutra o vencedor quantitativo é o vencedor real, nem sequer fica perto disso. O famigerado ranking, que tem estado historicamente do lado do Porto, coloca os portistas perante uma escolha complicada: preferem a quantidade ou a qualidade?

Uma escolha onde não podem ganhar, porque, a escolherem a quantidade, teriam de admitir que nem na melhor época de que se lembram foram melhores que o Benfica.

O ranking da treta da IHFFSHSS coloca a propaganda portista diante da fragilidade do seu próprio argumento da treta, e, quanto mais não fosse senão para podermos dizer isto, o ranking da treta da IHFFSHSS torna-se útil.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Começou a montanha

Historicamente (e digo isto de forma empírica, note-se, não estive a fazer um apanhado do comportamento do Porto nas últimas décadas), os momentos de vulnerabilidade do Porto são identificáveis, e quando esses sinais de vulnerabilidade aparecem são, de uma maneira geral, materializados em maus resultados.


Nas raras ocasiões em que o Porto entra em perda de dinâmica ao longo da época, não é campeão. Julgo que isso pode ser ligado ao método de trabalho.
No Porto há uma mecânica de eficiência elevada, que permite aproveitar melhor os jogadores, e de maneira mais estável, que torna a equipa menos propensa a grandes oscilações de forma e a mantém a um nível elevado relativamente aos seus dois adversários quando começa a montanha. As equipas do Porto estão mais perto da optimização que as de Benfica e Sporting, o que lhes permite (o que lhes tem permitido) manter um ritmo competitivo mais constante, que aproveita as quebras mais acentuadas dos outros. Nessas quebras cava-se uma pequena distância, inicialmente, a pressão aumenta nuns e baixa nos outros, entra-se num ciclo vicioso e, eventualmente, num ou dois resultados em Fevereiro/Março, o Porto distancia-se a é campeão, eventualmente acabando com 10/12 pontos de vantagem que não reflectem a potência da equipa, apenas o ritmo, à maratonista.

Esta tem sido a regra, e é isto que permite ao Porto acumular campeonatos. É uma equipa mecanizada para disputar o campeonato nacional, especificamente, e em condições excepcionais para tentar uma gracinha na Europa.


Ora, o problema das rotinas é que quando alguma coisa sai da regra, normalmente, faltam as soluções. Por isso é que temos a ideia de que quando vemos alguma coisa falhar, no Porto, isso é um sintoma claro de fragilidade.

Se alguém se lembrar de ver o Porto a perder o primeiro lugar no campeonato à passagem da primeira volta que diga aqui alguma coisa. Eu não me lembro. Lembro-me do Porto a passar para a frente, muitas vezes. Não me lembro do Porto a passar para trás.

Quando o Porto está bem, faz uma época em crescendo, Quando não está tão bem, não consegue crescer com a competição.



Não acredito que o Porto faça só vitórias até ao jogo com o Benfica, daqui a sete jornadas – apesar de também não ver um jogo em que, pela lógica, se veja o Porto a perder pontos.

Mas isto da lógica é uma batata, como já aqui escrevi bastas vezes.

Estou convicto de que se o Benfica passar estes próximos seis jogos com apenas um empate – não me admiraria se em Guimarães se em Coimbra – vai receber o Porto com pelo menos dois pontos de vantagem.



Para já com o Rio Ave, atenção. Tenho para mim que a única razão para o Rio Ave não ter enganado o Benfica na Luz foi o timing dos golos, nomeadamente do seu. Se o 0-0 se tem mantido até ao intervalo, pelo menos, e o Rio Ave marcasse o seu golo na segunda parte, não sei se o Benfica ganhava aquele jogo – já sei que «se a minha avó tivesse rodinhas era um carrinho de mão», mas vocês percebem o que eu quero dizer. É uma equipa que joga futebol. Se marcar na altura certa tem capacidade para aguentar.



A não-vitória de Benfica, Porto e Sporting nunca é uma questão lógica ou racional. A diferença de dimensões não permite senão pensar em oportunidade e excepção. O que a torna literalmente imprevisível. Mas…

O Porto abalou, não tenho dúvidas, o Moutinho não joga, o Rio Ave está no seu melhor momento da época, vai haver nervos na bancada (também porque o Benfica joga antes), e se não houver um golo na primeira parte…

Eu só digo isto: atenção. Desta vez, ao contrário de outras nesta temporada em que o Porto jogou em casa a seguir a um mau resultado, acredito que pode haver surpresa.



Quanto ao Benfica, não acredito nas possibilidades do Setúbal. Vejo o Gil a apertar um bocado o Benfica na Luz (normalmente quando não se ganha a uma equipa na primeira volta na segunda também não é fácil, é porque há ali qualquer coisa que não encaixa), vejo o Feirense a marcar e a fazer sofrer, mas o Setúbal é bom freguês.



Agora, o que eu posso, mesmo, ver, é o Braga a passar à frente do Sporting este fim-de-semana. Seria uma daquelas sequências bem «à Sporting» que todos conhecemos tão bem. Não que isso já conte muito para o campeonato, mas pronto…

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O 12.º elemento

Aqui há uns anos – há uns bons anos, era o Eriksson o treinador do Benfica – o Pacheco (esse mesmo, que foi para o Sporting três épocas mais tarde, deu uma entrevista à Bola a desbroncar-se completamente. Exigia um lugar na equipa, queixava-se de que a equipa só jogava para trás e que a táctica era um quadrado, que o Benfica não jogava nada.

Foi uma bomba.

O Eriksson ouviu e calou. Antes do jogo seguinte, ou do outro a seguir, já não me lembro bem, chamou o Pacheco ao gabinete e pôs no vídeo uma cassete com os treinos do Pacheco durante essa semana. Só o Pacheco é que aparecia. Via-se o Pacheco a engonhar, a fingir que esticava, a fazer de conta que corria – em resumo, via-se a treta de profissional que o Pacheco era nos treinos. Disse-lhe qualquer coisa como isto: «Se falas mais do que os outros também tens de trabalhar mais do que os outros, e tu só trabalhas metade. Enquanto não começares a treinar não jogas.»

Ou no jogo seguinte ou no outro a seguir o Eriksson pôs o Pacheco. O homem parecia que levava fogo no cú. Parecia o Futre. Qual Futre – estava a jogar mais que o Futre. Foi de tal forma que, nessa segunda volta, o Benfica foi o Pacheco e mais dez. O Benfica foi campeão nesse ano e no ano seguinte jogou a final da Taça dos Campeões com o Milan. O Pacheco continuava a ser titular.

Nessa situação, toda a gente esteve à altura: o Eriksson, porque aceitou a vocalidade (como hoje se diz) de um jogador como um sinal de personalidade, e porque aproveitou essa personalidade em benefício da equipa; e o Pacheco, que em campo, nos jogos e nos treinos, assumiu a sua responsabilidade e, como dizem os americanos, pôs o dinheiro onde tinha a boca.



Em 2005, há quem diga que foi o campeonato do Trapattoni, há quem diga que foi o campeonato do Veiga, há quem diga que foi o campeonato do Paraty, há quem diga que foi o campeonato que o Pinto da Costa perdeu, com os quatro treinadores num ano. Em tudo isso há um fundo de verdade, mas é, basicamente, treta.

Em 2005 foi o campeonato do Mantorras, e isso é algo que eu nunca vou esquecer.

Um angolano manco, a jogar vinte minutos por jogo, do mais burro que alguma vez vi a jogar à bola, conseguiu, só à custa do coração, pôr a verdadeira mística do Benfica a jogar (aquilo de que falei há uns dias, o conseguir ser maior do que aquilo que nos é permitido) e ganhou o título, conseguindo, sozinho, seis ou sete pontos no campeonato em que o campeão ganhou com uma das pontuações mais baixas de sempre.



Estes dois exemplos parecem indicar que os campeonatos são decididos por jokers. Ou, até, que são decididos pelos bancos. Não é verdade – ou, se é, é muito raro.

Os jokers só contam em contextos muito especiais, geralmente em conjunto com outros factores, como a debilidade da concorrência, e não me parece que vá aparecer um Joker no Benfica ou no Porto a fazer a diferença. As duas equipas são muito fortes, não é fácil surgir um factor diferencial relevante.



O que ganha um campeonato também não são os 14/15 jogadores que jogam mais.

O que ganha um campeonato, no futebol, no basquetebol, no andebol, em qualquer desporto colectivo, é a equipa-base. No caso do futebol, o onze base.

Em 90 por cento dos casos, quem ganha é quem tem a melhor equipa-base. Por isso é que contratar três ou quatro suplentes para substituir um titular não eleva as possibilidades de uma equipa ter sucesso. O que melhora as possibilidades de sucesso de uma equipa é comprar um titular melhor do que o titular anterior. Nos jogos realmente decisivos é a qualidade dos onze melhores que ganha, não a qualidade dos suplentes. E quando um titular realmente importante se lesiona, por exemplo, há pouca coisa que possa salvar qualquer equipa.

Um bom onze ganha um campeonato.

Um bom banco?

Um bom banco serve para não o perder.

Este é o momento em que o Benfica se encontra.



Como já se percebeu, o físico está a dar de si. De um momento para o outro temos três titulares com problemas musculares a seguir às férias do Natal – Gaitán, Aimar e Cardozo, a que se junta uma entorse no tornozelo de Witsel, fora as pequenas mazelas de que não sabemos mas que existem de certeza. É do frio, é da competição, é da pausa, é da inevitável carga acumulada, é disso tudo que sempre houve e sempre vai haver.



Na melhor relação qualidade-posição, o onze campeão do Benfica seria este: Artur, Maxi, Luisão, Garay, Emerson, Javi Garcia, Witsel, Aimar, Saviola, Gaitán, Cardozo. Enzo Pérez, Nolito, Bruno César, Matic, fariam os 15. Rodrigo, Rúben Amorim estariam numa terceira linha. Os outros, na prática, são só para tapar buracos e para treinar.



Este é o onze que o Benfica vai ter, provavelmente, com o Vitória:

Artur, Maxi, Luisão, Garay, Emerson, Matic, Witsel, Bruno César, Saviola, Nolito e Cardozo.
Três segundas opções em onze.
 

Mas também pode ser:

Artur, Maxi, Luisão, Garay, Emerson, Matic, Bruno César, Saviola, Nolito, Rodrigo e Cardozo.

Neste último caso, o Benfica jogaria com sete titulares no onze (quer consideremos Saviola, Bruno César ou Rodrigo como o titular de facto), e com as seguintes opções de meio-campo e ataque no banco: Nélson Oliveira, Rodrigo Mora e David Simão. Juniores, basicamente.
 

O cenário é o seguinte: nas próximas 4 jornadas o Benfica tem 4 jogos que, pura e simplesmente, tem de ganhar (Setúbal e Gil Vicente em casa, Feirense fora e Nacional em casa), seguidos de dois jogos complicadíssimos, fora de casa, com Vitória de Guimarães e Académica, e do jogo com o Porto, em casa, os três metidos no meio da eliminatória com o Zenit.

O primeiro jogo com o Zenit é a 15 de Fevereiro. O de Guimarães é a 19.
 

É simples. Entre 19 de Fevereiro e 4 de Março o onze do Benfica tem de ganhar o campeonato. Antes disso, o banco tem um mês para não o perder.
 

Pode ser que os bancos ainda sirvam para alguma coisa em 2012, afinal…

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sentença

Não vale a pena esperar pelo fim do jogo. Já vi o suficiente. Até é melhor escrever já porque, no fim, se ganharmos, é fácil de colocar o resto em segundo plano.

A equipa do Benfica não tem classe.

E não tem classe porque é uma equipa à imagem do seu treinador, tão simples como isso.

Tal como o Jorge, a equipa do Benfica, que tem jogadores cheios de potencial para serem grandes jogadores, passa o tempo a olhar para o palmo que tem à frente, a reagir em vez de decidir, a contar com a sorte do jogo em vez de a determinar. Aprendeu a ganhar aos tropelões, sem plano, sem estratégia, porque se dá por satisfeito com isso.

Não sei se o Benfica vai ganhar este jogo, penso que vai ser campeão, mas isso não muda absolutamente nada. Para que este campeonato, a cair, não caia no vazio, o Benfica tem de encontrar quem permita aos potencialmente excelentes jogadores que tem crescer.


Já sei o que é que me vão dizer:

- jogámos sem os criativos;

- jogámos sem ritmo porque não jogávamos para o campeonato há muito tempo;

- és demasiado exigente;

- és demasiado crítico;

- não gostas do Jesus;

- não sabes do que estás a falar;

- não percebes nada desta merda;

- etc, etc, etc.


Eu respondo: é tudo treta. Estão a enganar-se a vocês próprios.

Ando há trinta anos a ver os benfiquistas a enganarem-se a eles próprios, e sei os resultados que isso dá. Eu já não me deixo enganar, lamento. Deixei durante muito tempo, quando era mais miúdo.

Por isso deixo-vos uma palavra, sincera, e cheia de benfiquismo (acreditem, não há aqui ninguém mais benfiquista do que eu): o que há não chega, e o que é preciso não temos. É preciso ir buscar, quer esteja dentro do clube ou fora dele.

Não é preciso revoluções – pelo contrário. Mas é preciso somar.

(escrito ao intervalo e postado no momento em que o Cardozo marca o segundo golo.)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Algures na Arábia Saudita

O que eu vou ver com atenção no Sporting-Porto:  

Sintomas da febre de Janeiro

O Porto, pelas minhas contas, tem seis jogadores com as malas à porta ansiosamente à espera de um telefonema do empresário ou de alguém da Estrutura:

- O Álvaro Pereira, que deixou de fazer barulho para ver se tem mais sorte;

- O Otamendi, que não deve perceber bem se é titular ou não;

- O Maicon, que tem de ser vendido rapidamente enquanto está valorizado (porque, com o Danilo, entre laterais-direitos  e centrais o Porto já vai em sete jogadores e o Maicon, sendo o pior dos sete, é o que joga mais a seguir ao Rolando);

- O Fernando, a quem disseram que se fosse ver o jogo para o meio dos pobrezinhos e desse muitas entrevistas a dizer que ficava até ser velhinho era a melhor maneira de ser transferido;

- O Moutinho, que anda mortinho;

- O Hulk, que, apesar de ser o único jogador no mundo que não liga ao dinheiro, segundo o Pinto da Costa, tem um ordenado de 500 mil euros por mês à espera «algures na Arábia Saudita», e um ordenado de 6 milhões de euros por ano não é um ordenado, é «uma cabeça de pescada muita grande», como dizia o Solnado e o meu vizinho de quando eu era pequenino.

E estou só a falar dos titulares. Entre os que só vão aos treinos podemos acrescentar o Guarín, o Fucile, o Sapunaru, o Souza, o Cebola, o Belluschi.

O Sporting, por seu lado, tem o Carriço e tem o João Pereira, sendo que, ao contrário do Palito, do Fernando, do Moutinho ou do Hulk, a perspectiva do Carriço e do Pereira é, como o Falcão, de passarem de cavalo para um burro com um saco de moedas na boca.


Não quero dizer com isto que os jogadores vão tirar o pé – até pode ser o contrário, sentirem que se não mostrarem agora o que valem vão ficar mais seis meses à espera.
O que eu questiono é quantos é que ainda estão cá. Estamos num confronto entre uma equipa que fechou um ciclo entre o Verão e o Natal (o Porto, ganhando tudo e entrando em ruptura) e que tenta, no meio de um turbilhão de dinheiro, manter a embalagem e demonstrar que ainda é a melhor; e uma equipa em plena ascensão, com tudo a ganhar, e no papel daqueles corredores de oitocentos metros que, à entrada da segunda volta, vão em terceiro, se sentem fresquinhos e vêm os dois da frente a curta distância.

O Porto, que ainda tem a melhor equipa portuguesa, na minha opinião, está a correr contra si próprio. O Sporting está a correr com uma presa à vista.


Os extras

Não acredito que o Domingos ponha o Izmailov ou o Jeffren de início. Acho que é mais provável que entrem o Carrillo e o Capel de início e que  os outros dois entrem ao intervalo ou na segunda parte, e que façam estragos. Devem estar os dois doidinhos. O Matias Fernandez a mesma coisa.

Não me admirava que o Sporting acabasse o jogo com uma equipa melhor do que aquela com que o vai começar.

E também me parece que o TOC (coitado do homem, é autenticamente esculhambado neste blog de segunda categoria…) vai sentir a necessidade, outra vez, de provar que é um grande treinador com uma surpresa. Assim de primeira não me espantaria por aí além que o Cebola ou o Iturbe aparecessem mais cedo do que seria de esperar. De início, não sei. Talvez o Cebola em vez do Djalma.


Os nervos

Tenho cem por cento de certeza que o Porto vai estar mais nervoso que o Sporting. Todos os jogadores em campo sabem quem é que precisa mais de ganhar no jogo de amanhã. No fim das contas, o Sporting dificilmente vai passar do terceiro lugar, o Porto pode passar para segundo no campeonato pela primeira vez em quase ano e meio, e o resto é conversa para enganar tolos.

O último jogo de verdadeira pressão que o Sporting teve neste campeonato foi com o Benfica, na Luz. Convenceu-se que não vai ser campeão (basta ler nas entrelinhas do Domingos) e sente-se optimamente assim.

Já o Porto não estava assim tão pressionado no campeonato há dois anos, desde que foi à Luz a cinco pontos de distância e a precisar de ganhar – quando ficou a oito pontos, lembra-se?

Atenção aos jogadores de pavio curto no Porto – o Hulk, por exemplo, que deve andar com a cabeça bem cheinha.
 

Dito tudo isto, o Porto continua a ter melhor equipa que o Sporting, e sabe o que fazer para ganhar em Alvalade. Só não acredito que o consiga fazer. Continuo a pensar que o Porto vai perder o primeiro e, provavelmente, o único jogo neste campeonato.

Surpreende-me, finalmente, a facilidade com que o Domingos se safou na última conferência de imprensa. Até parece que não vai jogar, pela primeira vez na sua carreira de treinador, um clássico contra o Porto, o clube que foi formado para treinar e que acabará por treinar daqui a uns anos. Mas ter boa imprensa, em Portugal, vale quase tanto como saber o que se faz.



Ainda em relação ao Paixão…

Só um atrasado mental é que pensa que o Benfica corrompe o Bruno Paixão para ganhar um jogo da Taça da Liga. É uma prova encarada como um treino; até perdendo o Benfica continuava a ter hipóteses de passar e, mesmo assim, ninguém quer saber; não houve qualquer intenção de poupar jogadores (uma vez que jogaram todos os titulares) e, logo, não fazia sentido comprar o árbitro para facilitar, ao contrário do que aconteceu com o Porto-Beira-Mar do Apito Dourado, que foi disputado quatro dias antes de um jogo decisivo da Champions e em que o Mourinho jogou com a segunda equipa.

O único serviço que o Paixão prestou foi ao Porto, por permitir que, de coisa nenhuma, se fizesse um fantasma para os portistas como o diligente Rui Moreira andarem a espantar à procura de um penaltizito que possa aparecer contra o Benfica.

Aliás, estou praticamente convicto de que o Bruno Paixão é demasiado vaidoso para ser corrompido. Do que ele gosta é de dar nas vistas, e, dada a sua fraca qualidade como árbitro, só pode continuar a dar nas vistas se os grandes clubes e quem nomeia os árbitros pensarem que ninguém o consegue comprar. Só sendo incorruptível, por mera estupidez, é que o Paixão continua a ser árbitro de futebol.