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sábado, 14 de abril de 2012

2012/13 alternativo

E se o presidente do Benfica pensasse assim:



- Jesus está esgotado. Já não vai conseguir acrescentar nada e, como tem um estilo de grande desgaste para os plantéis, o mais provável era voltar a gerir mal a equipa. Para quê, então, investir numa equipa liderada por alguém que a vai acabar por consumir, mais do que aproveitá-la, que continua a pensar que o elemento fundamental dessa equipa é ele próprio e que age de acordo com esse convencimento?

Jesus poderá ter um efeito nocivo para uma equipa potencialmente melhor, em todos os aspectos, do que a deste ano. Em vez de potenciar o rendimento dos jogadores, será um anti-corpo, pois toda a gente está em condições de evoluir menos ele – o elemento fundamental, recorde-se. Jesus pode mesmo fazer diminuir uma equipa que está numa etapa de crescimento, se não conseguir acompanhá-la – algo que, dada a sua aparente dificuldade em aprender ou em mudar de métodos, é o mais provável.

O problema do Benfica não é os jogadores, é o estilo. Com estes ou com outros jogadores, melhores, ou mesmo com estes jogadores, melhores, e outros, a equipa voltará a falhar porque o tipo de jogo (unidimensional) que o treinador criou e continua a alimentar é um tipo de jogo inapto para criar soluções, quer ofensivas quer defensivas, nos momentos das decisões. Torna-se irrelevante, neste caso, se os jogadores são melhores ou não, porque o uso que se lhes dá continuará a ser desapropriado. É como passar de uma espingarda para uma metralhadora num combate contra um tanque, quando o que é preciso é um único míssil anti-tanque – uma arma especializada, para a qual o treinador não tem maõzinhas.



- Gastar dinheiro, neste clima de desconfiança, e perante a actual conjectura, seria uma loucura. Vale mais prolongar as negociações televisivas, fazer um ano de transição económica, à espera de um mercado melhor, investir menos na equipa, guardar munições para outras batalhas, até porque é impossível que os adversários também se reforcem como gostariam, pelas mesmas razões. Se o Benfica arrisca e perde pode comprometer as suas finanças durante anos.



- O concorrente (o Porto) encontra-se numa fase de transição, de que a contratação de um novo treinador será o passo mais importante. O que faz com que esta seja a altura certa para jogar na antecipação, aproveitar a vantagem enquanto ela existe, e avançar para a contratação de um novo técnico, o melhor que esteja disponível. O mercado de treinadores com qualidade suficiente para treinar Benfica e Porto é limitado, e assegurar o melhor disponível é não só uma vantagem estratégica como um golpe nos planos do adversário. O segredo para se ser o melhor é ter os melhores, e os melhores treinadores são poucos. O Porto, neste momento, está agarrado a um pepino, mas rapidamente deixa de estar, a não ser que o benfica jogue na antecipação.



- A espinha dorsal da equipa já mostrou que chega para ficar em segundo mas não tem qualidade suficiente para ser melhor que a do Porto. Nesse caso, esta é a altura para, juntamente com a troca de treinador, deixar sair Aimar, vender Javi Garcia e Cardozo (e Gaitán, claro), manter Luisão e Maxi, remodelar o estilo de jogo – algo que não pode ser feito enquanto Aimar e Cardozo estiverem no plantel, por exemplo – e aproveitar a evolução dos outros jogadores, que terão tudo a ganhar se passarem a jogar num registo diferente, mais colectivo, mais inteligente, menos impetuoso, mais competitivo, e tentar subir de bitola, arriscando mais em vez de jogar na continuidade.
Com férias completas, com um estágio de pré-época inteiro para trabalhar, sem um inicio de época com pré-eliminatórias decisivas na Champions, que não deixam espaço para trabalhar a equipa mas quase apenas para preparar os jogos, com o adversário em reestruturação, perdendo Hulk, Álvaro Pereira, Rolando e mais que venham, esta é a altura certa para apostar na evolução, e não apenas de esperar que ela acabe por aparecer. O futebol é acção, não é expectativa, e tem de se provocar a mudança. Sem iniciativa, nada acontece.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Duas formas da banalidade

O Benfica devia ter entrado com a táctica que usa na Luz contra as equipas pequenas. O Sporting jogou como se estivesse a jogar na Luz, mas com a vantagem de estar em casa. Se o Benfica tivesse entrado a perceber que ia defrontar um autocarro teria ganho vantagem.

Já o Sporting, ganhou o jogo mas não ganhou mais nada, pelo contrário. O que o Sporting tinha a ganhar hoje não era o jogo, nem os três pontos: era o mesmo que o Benfica tem a ganhar quando joga com o Porto – uma atitude de predador. E fez exactamente o contrário. O Sporting ganha um jogo mas, não chegando ao extremo de dizer que perdeu uma equipa (porque seria um claro exagero), perdeu uma grande oportunidade de lançar a próxima época com um sentimento de superioridade sobre o Benfica. Algo que lhe vai ser muito necessário, pois o seu objectivo será, novamente, ficar à frente do Benfica.

A forma como cada jogada perfeitamente banal era aplaudida pelo banco do Sporting, como fosse o banco do Rio Ave a ganhar ao Benfica na Luz, chegou a ser constrangedora. A festa imensa no final do jogo também, sobretudo no olhar embevecido do Sá Pinto, como que a dizer: «Ganhei ao Benfica. Hoje posso dizer que cumpri o meu destino como treinador do Sporting.» Fazer de um Sporting-Benfica, no quinto lugar do campeonato, o jogo da época, é de facto revelador, e só augura novos cataclismos vermelhos no caminho do Sporting nos próximos anos. Claro que o que vão dizer na imprensa não é isto, é que este jogo foi só mais um, porque, no fundo, têm noção da mediocridade. Só não estão dispostos a prescindir dela.

Quanto à sua importância na conta corrente dos dérbis, até nem é mau que o Sporting tenha ganho. Equilibra os números para quando for preciso jogar os jogos a sério. O da primeira volta, por exemplo, foi bem mais importante do que este. O Sporting começou a morrer nesse dia. Hoje, o Benfica só acabou de morrer, a ferida já estava a sangrar há muitas semanas.


A porrada que o Javi deu no Volkswagen aos 25 minutos deveria ter sido dada aos 5. Anjinhos.



Acho que já percebi porque é que o Maxi Pereira começou a fazer aquela finta marada de metar para dentro sempre que tem a bola: esqueceu-se de como se centra. Escusava era de ter voltado a começar neste jogo.



Segundo os critérios do Soares Dias houve três penáltis na primeira parte, um deles a favor do Benfica no primeiro minuto. Em nenhum dos três o jogador caíu por causa do contacto. A razão por que marcou só um é um mistério de Fafe. Aliás, faltas iguais àquela houve dezenas durante o jogo, e ele só marcou metade. Ter calhado uma delas ser um penálti é, obviamente, pura coincidência.



Mas agora a sério…



O Benfica entrou mal preparado e completamente desconcentrado para um jogo em que teria de mostrar fibra de campeão. Não sabia como jogar, não soube executar, mostrou novamente todo o seu défice colectivo e mostrou que não tem estaleca suficiente para chegar e ganhar quando é preciso – faltou-lhe classe. Deu a ideia de ter entrado convencido de que já não havia nada a ganhar depois da vitória do Porto em Braga.

É um ponto final conclusivo que, tal como no jogo com o Porto, na Luz, pode ser encarado de duas maneiras pelos adeptos: ou fazem de conta que perderam por causa do árbitro, e voltam a perder para o ano e para outros anos a seguir; ou assumem que perderam porque não têm equipa suficiente para ganhar um campeonato de forma categórica.

Tenho a sensação de que sei o que o Jesus e o Vieira vão dizer, mas a opinião pública só pode ser manipulada se se deixar manipular.

O Benfica passou por situações muito distintas neste campeonato: sendo a equipa mais mediática (e não, atenção, a mais eficiente), fez figura de campeão durante metade da época, não por ser a melhor equipa mas porque a melhor equipa estava a perder o campeonato por si própria; quando teve oportunidade para mostrar que tinha estofo para ser campeã não a aproveitou e foi ela a perder o campeonato.



Neste momento, em que tudo vai parecer mau (porque o animal-homem é mesmo assim) convém dizer duas coisas muito breves:

- se o Benfica acabar em segundo lugar terá feito uma época acima das expectativas (realistas) iniciais, e em termos de qualidade competitiva, no cômputo geral (e na minha opinião), fez a melhor das três épocas do Jesus. Melhor que a primeira, onde só foi campeão porque a concorrência era menor, e muito melhor que a segunda;

- o que levou o Benfica a sucessivos fracassos nos últimos 30 anos não foi ter perdido campeonatos: foi, por um lado, não ter compreendido as razões das derrotas, e, por outro, não ter construído sobre elas, atirando-se a mudar o que estava mal e o que estava bem, sem método nem critério.



O ponto da situação do Benfica, não só a partir de agora mas desde a derrota em casa com o Porto, é o seguinte: se acabar o campeonato no segundo lugar está em óptima situação para começar o próximo como principal favorito (real, não teórico) à conquista do título. No fundo, o melhor que realisticamente se poderia esperar depois de uma época avassaladora por parte do Porto. Tudo depende do trabalho que se fizer no Verão – e o que o Porto possa fazer na resposta nem sequer é assim tão importante, porque a iniciativa está do lado do Benfica. Basta começar a dar ao pedal com força, acreditar e não facilitar – incluindo, obviamente, com os Soares Dias deste país.

Se ter ficado em segundo neste campeonato será, a longo prazo, melhor do que o ter ganho, veremos. É algo que só se pode dizer ao fim de muito tempo. No fim de dez anos há sempre campeonatos que se ganham e campeonatos que se perdem. O que fica, e o que faz a diferença nesse grande plano, é como eles são ganhos.

Volto a dizer o que já disse aqui várias vezes: ganhar sem o mérito suficiente é uma tentação perigosa, pela qual o Benfica pagou bastante caro ao longo dos últimos anos.



P. S. 1 – O Benfica não conseguiu fazer um único remate à baliza na sequência de um canto ou de um livre, e não chutou de longe. Como é que queriam marcar golos ao Rui Patrício?

P.S. 2 – Quando vejo o Jesus a gesticular para os jogadores, aos berros, a descobrir, naquele preciso momento do jogo, a chave para a vitória numa simples troca de posicionamento de dois jogadores ou no adiantamento dos médios em dois metros, fico sempre com uma angústia cá dentro de mim, em forma de dúvida: o que seria desta equipa do Benfica se em vez de passar a semana a treinar tácticas treinasse futebol?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Técnico Oficial de Contas

A notícia do TOC merece um comentário, porque é uma jogada estratégica notável.

Primeiro ponto: o Pinto da Costa tem toda a razão. Bom, não toda. Engana-se quando diz que a notícia é plantada para semear a desestabilização na equipa. Não é só na equipa: é no próprio clube.

É evidente que obedece a propósitos desestabilizadores, é evidente que há uma disposição, da Bola, de servir um interesse externo, e é evidente que o interesse externo que a Bola está a servir é o Benfica. Ninguém pode ter a mínima dúvida disso, e esta certeza deixa-me muitíssimo satisfeito, porque a qualidade do trabalho deveria ser altamente gratificante para qualquer benfiquista



O mais brilhante deste plano é o facto de se limitar a aproveitar a energia negativa que já existe no movimento para o virar contra o perpetrador. É uma espécie de aikido político-futebolístico.

Qual é o nervo desta notícia?

Não é o TOC.

É o erro grave de Pinto da Costa ao escolhê-lo no princípio da época.

A parte mais óbvia do plano, que ajuda ao seu brilhantismo, é, aí sim, o timing, que demonstra audácia, ambição e paciência para esperar e tomar a iniciativa certa no momento certo. Ou seja, classe.



Descontruamos.

O Pinto da Costa está agarrado ao TOC. Já toda a gente percebeu que o TOC é barrete, que conseguiu, numa época, escavacar o trabalho de dois anos e passar o Porto de um nível em que estava claramente acima do Benfica para outro em que já não se percebe bem a diferença, em campo, entre quem tem, de facto a melhor equipa. (Eu acho que o Porto continua a ter a melhor equipa, e que uma vitória no campeonato seria justa, pelo mero valor, mas já não assim tanto, e muito menos nada que se possa assemelhar com o que aconteceu no ano passado. Mas esta é outra conversa.)

O facto é que o Pinto da Costa pegou no barrete, enfiou-o e está agarrado a ele. Todos os pressupostos que a Bola apresentou para o despedimento do TOC estão correctos. É um líder débil, um técnico sofrível, uma personalidade disruptora da harmonia de um clube que prima pelos ámens ao Papa. Vítor Pereira tira mais do que o que dá ao clube, e tira-lhe, sobretudo, enquanto estiver sentado na cadeira de sonho, a possibilidade de um treinador a sério lá se sentar. O único bom acto de gestão de Pinto da Costa seria demiti-lo no dia imediatamente a seguir ao final oficial da época.

O que Pinto da Costa está (estava, antes da notícia) a tentar fazer, era o seguinte:

- manter o assunto debaixo dos lençóis, bem escondido, mantendo também a estabilidade da equipa e do clube nestas ultimas semanas de campeonato, evitando colocar sob cada jogo a pressão acrescida de, além do jogo e do campeonato em si, se estar a discutir o futuro de um homem de quem ninguém gosta no Porto;

- levar o próprio Vítor Pereira (que já sabe do seu destino, não o duvido) a renunciar ao cargo, quer ganhe quer perca o título. Se perder, será mais fácil dizer que coloca o seu lugar à disposição porque não conseguiu atingir os objectivos e não quer pesar na decisão do presidente em planificar uma nova época de sucessos. O presidente aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo. Tudo tanga, obviamente, porque a coisa está mais do que combinada. Se ganhar será mais difícil. Terá de dizer que se demite porque sente que não reúne o consenso entre os adeptos e não que ser um elemento para dividir os portistas, deixando maior margem de manobra ao presidente que aceitará a demissão no próprio dia, elogiando o grande profissionalismo e portismo do técnico e culpando os jornais pela decisão do mesmo.

Este é o plano.

Depois da publicação da notícia, o que se passa é que o ónus da decisão, que Pinto da Costa estava a tentar deixar para Vitor Pereira, passa a estar sobre as suas costas. E, se despedir Vitor Pereira, Pinto da Costa terá de fazer uma ginástica muito maior para não dar o braço a torcer e admitir que errou. Terá de ser ele a justificar porque razão não mantém o técnico para uma segunda época, como faz com todos.

Na prática, a decisão de despedir o TOC será sempre a mais correcta, mas deixa de ser à borla. Pinto da Costa vai pagar, com parte do seu prestígio, o erro que cometeu – algo que se estava a tentar evitar, porque a imagem do chefe infalível é um dos pilares do sistema de crenças portista.



Não é a conta desta desfeita que o Benfica irá ganhar este campeonato, entenda-se. Tratando-se de um bom plano, não é propriamente o Projecto Manhattan. Mas poderá ser bastante influente no próximo.

Se Pinto da Costa confirmar a notícia, com actos, no fim da época, dá parte de fraco, mesmo sendo um líder competente na decisão. Isso, e o facto de Vítor Pereira (o verdadeiro responsável pelo sucesso do ano passado, recorde-se, segundo Pinto da Costa) sair ao fim de apenas um ano, implica que o próximo técnico não estará tão seguro como é costume no Porto, nomeadamente quando chegar a altura das derrotas. Isso, por si só, criará desestabilização. Pode mesmo acontecer que a próxima escolha seja tão infeliz como foi esta, e aí sim, já sem a almofada deste ano (os excelentes resultados anteriores), com a credibilidade de Pinto da Costa afectada e com as prováveis alterações de fundo no plantel (Hulk não fica, até porque seria pior se ficasse do que se saisse), o Porto pode ter um problema grave.

Esta notícia é, assim, em potência, uma excelente semente de figueira plantada no meio do Olival.

Se Pinto da Costa optar por manter a credibilidade total, e não despedir o TOC, ninguém tem dúvidas de que o Porto que iniciará e disputará a próxima época vai ser mais fraco, em todos os aspectos, que o deste ano – e que já só ganhará o título mesmo à justa.

Ninguém, no Porto, está preparado para dar o mínimo mérito ao TOC em caso de triunfo. O que vier será artificial, plantado na opinião pública pelos paineleiros Serrões ou Aguiares, a mando do chefe, mas sem terreno para medrar. O povo portista não se deixa enganar com essas larachas. Vítor Pereira começaria o campeonato de tal forma fragilizado que um mero ciclo de maus resultados nos dois primeiros meses, como o que teve este ano, seriam praticamente definitivos para as hipóteses de sucesso da equipa no final da temporada. Alguém de bom senso sequer imagina que Vítor Pereira possa vir a ser o treinador do Porto em 2012/13? Claro que não. É o treinador mais frágil das últimas décadas, e o Benfica que vai ter pela frente será o mais forte do mesmo período. Seria a receita para o desastre escrita desde o início.

E isto leva-me a crer que a verdadeira intenção do Benfica nem sequer é usar esta fragilidade estrutural do Porto para ganhar o campeonato deste ano – isso seria só um bónus. A intenção real é tentar forçar Pinto da Costa a aguentar a mão, a aparecer nos treinos (como é da praxe quando a coisa dá raia), a bradar por «desestabilização» e malfeitorias, e a fazê-lo de tal forma convictamente que a única decisão coerente no final da época seja manter o TOC como treinador. Esse é que é o objectivo.

Não creio que vá acontecer, acho mesmo que o TOC vai demitir-se seja quais forem os resultados nos próximos cinco jogos, mas, com a notícia da Bola, deixámos de estar num cenário de vitória ou derrota para Pinto da Costa e para o Benfica. Mantendo ou despedindo o TOC, Pinto da Costa já perdeu – a questão é se vai perder mais ou perder menos (e isto devido a um erro próprio, daí o brilhantismo táctico da notícia). Pela mesma lógica, o Benfica já ganhou – pode é ganhar mais ou ganhar menos. (Alturas houve em que o Pinto da Costa fazia exactamente o mesmo ao Benfica, pondo-o a jogar contra os seus próprios erros de maneira cruel. Chama-se a isto virar o feitiço contra o feiticeiro, com toda a propriedade).

Jackpot, para o Benfica, obviamente, seria ganhar este campeonato e ver Pinto da Costa a manter o TOC, por pura teimosia. Não é impossível, mas quase.

Para limpar o rasto e não ser acusada de parcialidade – pelo menos total –, a Bola ainda se dá ao desplante de noticiar, hoje, uma não-notícia, ou seja, uma notícia que já toda a gente sabe: que o Jesus pode não ficar se não ganhar o campeonato. Que é o mesmo que não dizer nada. O típico engenho político.
O Pinto da Costa tenta levantar a lebre do Benfica estar a falar com outros treinadores, mas até aí se vê a sua posição de fraqueza: isso não choca nenhum benfiquista, porque todos os benfiquistas estão mais que preparados para que Jesus saia, quer ganhe quer não ganhe o campeonato.São três anos. Qual é o choque. O último treinador a ficar quatro anos seguidos no Benfica deve ter sido para aí o Cosme Damião... Nem os jogadores tão pouco seriam apanhados propriamente de surpresa. Para mais, tudo isto acontece numa semana em que o Benfica ganha ao Braga, joga em Londres e vai a Alvalade, o que atira para segundo plano tudo o que possa dizer respeito ao Jesus. Há demasiado futebol para se dar atenção a folclores. Algo que não acontece com o Porto, que tem uma semana inteira de páginas de jornal para encher com assuntos secundários.
Depois do jogo em Alvalade, há dois cenários possíveis para a discussão sobre o Jesus (que vai aparecer): ou o Benfica não perde o campeonato em Alvalade e fica à beira do título (o Porto vai à Madeira e recebe o Sporting) com quatro jogos relativamente fáceis para jogar; ou o Benfica perde o campeonato em Alvalade, o que praticamente sentencia o futuro de Jesus como técnico, e torna irrelevante qualquer tentativa de desestabilização, por meramente inócua.
De facto, tudo isto é simplesmente brilhante. Não se vê um ponto fraco. Eu, pelo menos, não vejo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Ética

O Veiga é um dos grandes «ses» na história do futebol português, e garanto que vai ser um tema à ribalta dentro de dois/três anos, porque tem tudo a ver com o que será o grande tema do Benfica nos próximos tempos.



O Benfica teria conseguido dar a volta por cima se o Veiga tivesse ficado como director-desportivo durante cinco anos?

O Benfica teria sobrevivido se…?

QUE Benfica teria existiria se..?



Há uma questão que é importante, e que não deve ser confundida: o facto de se declarar guerra não quer dizer que a única forma de fazer a guerra seja à bruta e sem plano, a pensar apenas no próximo jogo, ou no próximo campeonato.

Todos os países de sucesso no mundo, todas as empresas de sucesso, têm um departamento de estratégia. Ninguém vai para a caça de fisga. Ninguém vai para uma batalha sem saber o que está para lá do campo de batalha. Ninguém vai para a guerra sem pensar no dia a seguir à guerra, e no que fica depois dela. Se a tua vida depois da guerra depende da terra que tem de ser cultivada, vais envenenar a terra (que será tua) para vencer essa guerra? Qual é o propósito?

O caso do Veiga é muito complexo. Não se entende com simplismos. Foi um acto de grande atrevimento por parte do Vieira, talvez a jogada mais ousada em toda a história do futebol português (se calhar mesmo a mais desesperada). Nunca como então o futebol português esteve à beira da guerra total, e as repercussões da guerra total são sempre imprevisíveis. A guerra, dizia alguém, sabe-se sempre como começa, mas nunca se sabe como vai acabar.

Na minha opinião, o atrevimento de Vieira, enquanto atitude, foi muito positivo. Foi o verdadeiro grito de revolta do Benfica. O que faltou, em todos os momentos dessa revolta, foi pensamento a longo prazo, plano, limites de actuação, capacidade de mobilização – enfim, numa palavra, estratégia.

O que estava ali em causa era o «ganhar agora, abrir brechas na estrutura deles, e esperar que caiam». Não se pode dizer que não tenha havido resultados: o Benfica foi campeão. Mas o que é aconteceu? Dois anos depois, estava mais fraco do que antes do Veiga entrar. Porquê? Porque havia vontade, havia força, mas não havia plano.

Isso deveria servir de lição a toda a gente. O sucesso não atrai mais sucesso se as condições do sucesso forem meramente conjunturais em vez de estruturais.

O que se passa no Benfica desta época é, noutra dimensão, parecido. O Benfica pode ganhar este campeonato, mas o que o levaria a ganhar este campeonato seria estruturalmente suficiente para manter o nível competitivo nos próximos anos? Em termos meramente desportivos, assumo que não me parece, e também assumo que não gosto de ver equipas a inverterem a ordem natural do trabalho, ou seja, a esperar que a qualidade melhore o trabalho em vez de esperar que o trabalho melhore a qualidade. Esta última é, eticamente, a regra de ouro.

A grande batalha que espera o Benfica, nos próximos anos, é uma batalha ética – num sentido muito lato deste conceito.

Não é apenas ética no sentido da moral, do agir bem e pelo bem. É ética enquanto forma de vida. A ética do trabalho. Dentro de um ou dois anos, quando o Benfica tiver recuperado a estabilidade financeira e já não se encontrar motivo para o Porto continuar a ser superior, a questão vai dar aí. «Porque é que ainda não ganhamos?», perguntar-se-á. Porque eles dão mais importância ao trabalho, acabará por se concluir. É uma forma de encarar a vida. É falso que «no Porto é que se trabalha» - é uma ideia feita na primeira metade do século XIX, no auge do liberalismo portuense, amplamente desmentida posteriormente pelos factos económicos do país, apesar de se continuar a alimentar o mito. Mas é verdade – e daí o mito não morrer, por ter um fundo de verdade – que no Porto se dá mais importância ao trabalho como factor do sucesso (o que é muito diferente de se dizer que se trabalha mais). No Porto não se trabalha mais que em Lisboa, mas há uma ética em relação ao trabalho que é diferente, mais convicta. Aceita-se melhor o valor do trabalho. E isso reflecte-se no seu clube mais representativo, que tem uma grande ligação cultural à cidade.

Para conseguir traduzir a sua superioridade económica e ideológica em relação ao Porto em bons resultados desportivos, de forma continuada, o Benfica terá ainda de fazer essa revolução, que é uma revolução cultural. Não se assustem, não terá de haver uma Grande Purga, como na China de Mao, mas irá doer, sobretudo porque há, desde há cerca de 30 anos, desde a primeira eleição de João Santos, uma cultura burguesa (num sentido pejorativo) instalada no Benfica. Nessa nova cultura o valor acrescentado passou a ser comprado, e não trabalhado. Essa foi a semente do pecado no Benfica. A sua ética de trabalho foi sucessivamente sendo coberta por soluções fáceis, umas por cima das outras, erros tentando tapar outros erros, sucessivamente mais caros, e com isso essa ética operária que fez do Benfica um caso único a nível europeu ficou enterrada tão fundo que, hoje, milhões de benfiquistas passaram uma vida inteira sem a conhecer. Eu próprio, aos 38 anos, só sei que ela existiu porque tive o privilégio de ainda sentir os seus resquícios, já nos anos 80. Foi o suficiente, contudo, para perceber a diferença do que se seguiu. Mas também demorei uns bons dez anos a percebê-la. Antes disso, quis matar várias pessoas, entre Pintos e Silvanos. E ainda me ferve a barriga. (Ainda hoje, se dissesse que não desejo a morte a ninguém, estaria a mentir, mas chiiiiu...)

Porque é que eu me revolto e, ao mesmo tempo, me assusto quando vejo benfiquistas a recorrerem sucessivamente às arbitragens para apaziguar frustrações, e a contaminar os mais novos? Não é por o Benfica não ter sofrido com a total degeneração do sistema pelo Porto – porque sofreu. É, sim, porque essa explicação, mesmo explicando alguma coisa, não só não soluciona coisa nenhuma como se encontra no extremo exactamente oposto à verdadeira solução. Há duas hipóteses: ou uma pessoa se queixa, ou uma pessoa trabalha. É tão simples como isto. E é fácil reconhecer um perdedor: é o que se está a queixar. E se ainda não perdeu vai perder, mais tarde ou mais cedo. Pôr de lado a questão dos árbitros – quer chegue ao ponto de os controlar ou não – é um passo crucial (eu diria mesmo que poderia ser o próximo grande passo civilizacional no futebol português) na reafirmação do Benfica. E o clube que o conseguir vai ganhar vantagem sobre todos os outros. Benfica e Sporting têm maiores possibilidades de o conseguirem, porque o Porto está demasiado vinculado ao sistema e muito dificilmente o largará. Essa é o verdadeiro campo de luta pel liderança futura do futebol português. O primero a chegar à posição mais elevada terá vantagem.

Mas essa é uma mentalidade que não vai ser fácil erradicar. Só temo que, enquanto benfiquista, tenhamos ainda de vir a sofrer bastante até que esses chorões mais radicais percebam, finalmente, que lamúrias não pagam dívidas, por mais que doa o dói-dói.

Voltando ao ponto da estratégia, quando eu digo que devemos saber jogar com as regras que estão em campo não estou a dizer que devemos jogar sem regras. Jogar com as regras não é jogar sem noção dos limites, sem noção dos objectivos, de até onde se pode ir, do que se faz e porquê.

Ganhar controlo sobre a arbitragem? Se é isso que está em causa, se é isso que é preciso fazer, sim. Claro que sim. Mas para quê? E em que condições? Para fazer o mesmo que o Porto, usando o controlo sobre a arbitragem para destruir a concorrência em vez de salvar o futebol? Isso seria desastroso para o Benfica, porque atiraria o futebol português para a miséria, e o Benfica vive do futebol português. Mesmo na guerra, há ética. Usar tudo o que se tem para ganhar a guerra? Sim. Sem pensar no pós-guerra? Não. Benfica, Porto e Sporting são potências nucleares em Portugal. Se enveredarem na guerra total, essa guerra será exterminadora do futebol tal como o conhecemos. E o seu apodrecimento durará muitos anos, connosco a sentir o cheiro. O meu filho já gosta mais do Barcelona que do Benfica. Porque não? Faz ele muito bem. Sou eu que lhe vou dizer que tem de ser dos nossos, sabendo que os nossos vivem enterrados em merda até ao pescoço, e que ela chega de todos os lados? Meu rico filho. Espere que se dedique à escalada.

Daqui a dois ou três anos o Veiga será, finalmente, útil ao Benfica porque exemplificará a diferença entre o querer ganhar e o saber ganhar, em termos éticos. O como ganhar. Será muito útil quando os benfiquistas, tendo todas as condições reunidas para ganhar, tiverem de decidir o que querem para o seu clube.

A minha questão actual, no Benfica, é apenas esta: há plano?

Atenção: «ganhar» não é um plano. É o mesmo que dizer que o Benfica jogou bem porque marcou um golo no último minuto ou que jogou mal porque nesse remate a bola foi à barra, mesmo tendo jogado o jogo exactamente da mesma forma até ao golo. Isso não é nada. Isso são pategos a falar na net. Os pategos não fazem planos, limitam-se a cumpri-los. «A nossa estratégia passa por ganhar o jogo», dizem os grunhos da bola. É o cúmulo da grunhice. Uma estratégia é um caminho, não o destino. Não começa no fim, começa no princípio.

No Benfica, antes da acção, tem de haver estratégia. Ganhar, sim, mas isso não é estratégia, é objectivo. Estratégia é: ganhar como, até quando antes de reformular o plano, dentro que parâmetros, consumindo que recursos, defendendo que prioridades, para atingir que tipo de cenário após a vitória, procurando o quê depois de ela ser alcançada?

Se houver isso no Benfica, não há nenhum problema. Mesmo perdendo, há tino. Há bússola. Perde-se mas não se fica perdido. Winston Churchill definiu o sucesso como «a capacidade de passar de um fracasso para o fracasso seguinte sem perder o entusiasmo.»

domingo, 25 de março de 2012

«Ganhar o campeonato» ou «não perder o campeonato»?

Ora bem, como deve ter reparado foi um fim-de-semana de absentismo – ao que a frustração. Obviamente, também ajuda.

O funeral de sexta-feira pôs o pessoal aos berros, como é óbvio, e levantaram-se algumas questões pertinentes, às quais vou tentar fazer o contraditório, (de forma necessariamente sucinta, como é claro, pois cada uma, por si só, daria um longo post).



1 – A não-descida dos clubes

Antes de mais, não concordo totalmente com a leitura de que o Olhanense só tenha destruído, mas pronto, até dou de barato, porque não é assim tão relevante.

Primeiro ponto: uma equipa mais fraca, aqui, em Espanha, na Turquia, na América e no Azerbeijão, a jogar contra uma equipa em que o ordenado de um jogador do adversário chegaria para lhe pagar a temporada inteira, vai sempre tentar arranjar subterfúgios para nivelar o campo.

No desporto americano as hipóteses são menores, mas também há: há equipas que apostam na agressividade, em sistemas de jogo revolucionários, em esquemas estranhos.

No futebol, uma vez que o empate é premiado e o anti-jogo é permitido, é o anti-jogo que se pratica. Essa é uma questão mais do jogo em si que do formato de competição, e só pode ser resolvida de duas formas: ou coerciva, aplicando novas regras, ou progressiva, pela educação. Na primeira pode-se, por exemplo, implementar o tempo jogado em vez do tempo corrido, eliminar o empate, e muitos outros esquemas que o International Board (ainda) não permite. Na segunda, espera-se que as pessoas percebam que o anti-jogo lhes tira dinheiro ao fim do mês porque leva as pessoas a não irem ao futebol. Não há é muita gente que esteja disposta a perceber e a explicar isto aos jogadores e aos treinadores – aos verdadeiros profissionais do futebol.

Segundo ponto: como é que o jogo de sexta-feira justifica o sistema actual? Não percebo. Algumas questões: O Olhanense, já sem precisar dos pontos, competiu ou não competiu ferozmente? O Olhanense teria jogado de outra forma se estivesse a lutar para não descer? A propósito de quê? Então sem, sem ter nada a perder, jogou a defender, para fazer o ponto, o que é que teria feito de diferente se jogasse para o ponto precisando dele? Não teria jogado tão ou mais na retranca, considerando que, pelos vistos, é assim que o Sérgio Conceição achou que conseguiria não perder com o Benfica?

O Olhanense, provavelmente com um prémio chorudo do Porto por baixo da mesa – como o Nacional contra o Porto na semana passada, por certo… –, jogou para o empate. E então? Provavelmente continuaria a jogar para o empate se não houvesse descidas. Um campeonato fechado não acabaria com estas situações, como é evidente. Nem eu disse que acabaria. Elas são sistémicas. Mas um campeonato fechado, com o tempo, criaria um clima de jogo pela positiva, e não pela negativa, quanto mais não fosse porque, num campeonato fechado, só há uma direcção para onde olhar: para cima. Agora, os medíocres sempre existiram e sempre existirão. Simplesmente teriam menos espaço para prosperar, porque passaria a ser a ambição a dar o tom, e não o fado do desgraçadinho que ouvimos a 90 por cento dos clubes logo em Agosto. Fechar o campeonato não transformaria o futebol português num paraíso do ataque, da positividade e do fair-play, mas concerteza tiraria muita razão de existir à negatividade que se vê, sobretudo, nos jogos entre equipas equilibradas – esses sim, uma verdadeira bosta de jogo, na maior parte das vezes, porque se passa a maior parte do tempo a jogar para o pontinho. O meu argumento a favor de um campeonato fechado não está no Olhanense-Benfica, que tem sempre muitas gente a assistir – está no Olhanense – Rio Ave, que tem 500 pessoas, e todas elas aborrecidas ou que só lá vão para chamar nomes ao árbitro.



2 – A extensão dos plantéis

Uma questão interessantíssima e muito propensa aos mitos e aos chavões.

Chavão: «Temos dois jogadores para cada lugar.»

Facto: Não é verdade. Nenhuma equipa do mundo tem dois jogadores de valor igual para cada posição, e isso seria completamente estúpido, porque seria um desastre económico e desportivo. A última vez que me lembro de isso acontecer foi quando o maluco do Berlusconi tinha, no Milão do fim dos anos 90, onze jogadores para o campeonato e outros onze para a Liga, ganhando em ambos, e mesmo esse só durou dois anos.

Em todas as equipas há os bons e há os melhores, e quem joga são os melhores.

O que nos leva a segundo chavão: «Temos alternativa à altura dos titulares.»

Facto: falso, em 99 por cento dos casos. É raríssimo um suplente ser tão bom como o titular. Aliás, em muitos casos, o suplente directo, chamemos-lhe assim, nem sequer substitui o titular do seu lugar. Temos assistido a vários casos este ano, por exemplo, no Benfica e Porto em que é uma espécie de suplente de segunda linha com mais ritmo ou mais qualidade que o suplente directo do lugar, mas de terceira linha, que substitui o titular. Veja-se os casos da lateral-direita ou dos extremos  no Benfica e no Porto.

Chavão: «Temos um plantel suficientemente profundo para encarar com optimismo todas as competições.»

Facto: um plantel pode ter 17 jogadores de campo do mesmo nível médio-alto e 3 acima da média, mas se, nos jogos decisivos, um, dois ou mesmo os três jogadoresd acima da m+edia não jogarem, as suas hipóteses de sucesso são praticamente nulas, por mais jogadores médio que o treinador tenha para meter no onze. No Barcelona, toda a gente sabe jogar bem, mas se o Barcelona jogar as meias-finais da Liga dos Campeões sem o Messi, o iniesta e/ou o Xavi as suas hipóteses de ser campeão europeu desceriam de 80 por cento para 15.

Tudo isto deveria levar a uma maneira diferente de construir os plantéis, mas a verdade é que ter 20 jogadores de campo parece continuar a ser uma regra sagrada para todos os treinadores. Lá mais para o Verão, certamente, iremos falar muito disto.

Deixo só uma questão no ar: entre o que se paga de ordenado ao Capdevilla, ao Jardel e ao Miguel Vítor não se conseguiria pagar a um defesa que fosse melhor do que qualquer um dos três e que fizesse mais minutos que os três juntos, capaz de pôr o Emerson no lugar que merece – o banco? Pois…



3 - Uma «equipa-campeã»

A questão não é ganhar ou não ganhar o jogo. Arrisco mesmo a dizer que a questão não é ser campeão ou não ser campeão. Pode-se empatar um jogo como o de Olhão por duas razões: ou por se fazer as coisas bem feitas e não ter a sorte do jogo (o que pode sempre acontecer) ou por não se saber como ganhá-lo. Da mesma forma, pode-se ser campeão empatando um jogo como o de Olhão por não se saber como o ganhar – não se pode é esperar que a chuva caia sempre no nabal enquanto o sol está na eira. Acontece uma vez ou outra. Depois passa. Não me parece que comparar o Benfica ao Real Madrid seja relevante. O Real Madrid do ano passado, por exemplo, já sabia como ganhar, apenas ainda não tinha a qualidade suficiente para o conseguir. Mas já era uma equipa que, se não tivesse apanhado aquele Barça, teria sido campeã facilmente. Tinha a ciência para isso. No entanto, não o foi. Diferença este ano, nem sequer é o que o Real Madrid está a fazer, mas o que o Barcelona está a fazer. E o Real será campeão.



4 – E em relação a isto…

Agora, que o Porto acabou de empatar, convém dizer que isto não altera a minha leitura do jogo de sábado, nem em relação à capacidade da equipa do Benfica nem em relação às suas possibilidades de ser campeão (tristemente, confesso) – pelo contrário, só confirma a minha leitura de que qualquer semelhança entre este Porto, sofrendo o empate a 10 minutos de se sagrar virtualmente campeão, e o Porto-campeão dos últimos anos, é pura coincidência ao nível da corda camisola. Displicência, falta de agressividade, falta de jogo colectivo (tudo isto em termos relativos, entenda-se), uma sombra de uma equipa campeã.

Quanto ao título, não confundamos fé com racionalidade. Acreditar, nenhum benfiquista deixa de acreditar, por mais funda que a crença esteja. Mesmo se o Porto tivesse ganho continuaríamos a acreditar que o Porto podia empatar mais um jogo em casa, perder em Braga, perder com o Sporting, e por aí fora. Mas as hipóteses do Benfica, racionalmente, continuam a ser débeis. Ser campeão implica ganhar os 6 jogos que faltam. O eventual deslize que o Benfica podia cometer em Alvalade cometeu-o em Olhão. Vai ter de ir ganhar a Alvalade, ganhar ao Braga, ganhar os outros jogos todos e esperar, obrigatoriamente, que o Porto ou não ganhe em Braga ou não ganhe ao Sporting em casa.

Mas querem mesmo saber? Vou cometer um pecado. Este título, a acontecer, já perdeu muito do sabor que teria. Porque o facto do Benfica ser campeão não altera o que tenho visto a equipa fazer nestas semanas em que deveria ter mostrado o verdadeiro estofo de campeã. O que quero dizer é que não vejo mais, nesta equipa, além de alguma subida de qualidade e de experiência, do que o que já vi no primeiro ano de Jesus: um campeão ocasional.

Quase diria que o prazer que me daria ganhar este campeonato seria mais pelo que poderia significar em termos futuros, na desagregação do Porto, do que pelo campeonato em si, que é o mais renhido de que me lembro.

E eu gostava de poder escrever isto tudo ao contrário, acreditem.



5 – O verdadeiro benfiquista

Ser benfiquista não é apoiar quem lá está porque lá está. É preciso começar a enumerar algumas dezenas dos que lá estiveram, entre presidentes, treinadores e jogadores, e que não valiam a ponta de um corno? É suposto que eles ainda lá estivessem só porque lá estiveram em determinada altura?

Solidariedade não é dizer ámen. Dizer ámen contra a nossa consciência é NÃO SER benfiquista. Já disse e repito que ainda hoje lá tenho o título da Operação Coração guardado em casa, com muito orgulho.

Apoiei o Jesus quando ele manteve o Roberto até às últimas consequências. Era o que estava certo, na minha consciência.

Apoiei o Vieira quando ele manteve o Jesus a meio da temporada passada. Era o que estava certo, na minha consciência.

Provavelmente até o vou apoiar quando ele decidir manter o Jesus no final desta época, dadas as alternativas e a conjectura. Se isso estiver de acordo com a minha consicência.

O Vieira está a fazer um trabalho muito bom no Benfica. Quer conquistar-me definitivamente? Esqueça os árbitros, eleve a ética de trabalho no interior do clube, e, quando eu sentir que o Benfica fez tudo o que podia para ganhar e só não ganhou porque foi roubado, serei o primeiro a atirar um paralelepípedo à porta da FPF. Antes disso não.

O Jesus quer ganhar-me? Aprenda a ser melhor, caia em si, cresça com homem e como profissional, aprenda que o facto de ser iliterado não faz dele melhor que os outros, deixe-se de merdas, e eu vou para o Estádio da Luz pedir-lhe a chiclete. Se não o fizer, que vá corrido e o quanto antes, de preferência já hoje.

Os jogadores querem que eu os apoie incondicionalmente, mesmo irracionalmente? Dêem-me, dentro de campo, razões para pensar que não poderia desejar ser representado, como benfiquista, por outros que não eles. Joguem sem ser no limite da ambição e puta que os pariu, seja Emerson, seja Maxi, seja Luisão, seja Aimar.

Isto não faz de mim um  verdadeiro benfiquista? Pois se assim é, viva o Sporting e que se lixem os verdadeiros benfiquistas.

Se isto fosse lá pelo apoio incondicional e acrítico o Benfica era campeão da Europa todos os anos. Mas não vai.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Leões e raposas

«Só há uma coisa que vos posso prometer: sangue, suor e lágrimas»

Winston Churchill



«O que é que podemos fazer?», pergunta o Fehér29 num comentário.

Antes de mais nada, isto que estamos a fazer.

Estive o dia todo fora e, quando cheguei, fiquei radiante, confesso, com a quantidade de comentários e com a dedicação ao clube que transpira em todos eles. Podem-me dizer que não é nada de especial, mas eu acho que é. Porquê? Porque a inspiração que leva um pai de família a devotar o seu tempo ao Benfica num blogue é o mesmo que o leva a comprar títulos da Operação Coração e é o mesmo que o leva a ir ajudar a carregar tijolos para o Estádio da Luz, quando é preciso. Há quem tenha vergonha do povo benfiquista dar tanto de si, sem pensar no que os outros pensam, ao clube. Eu não tenho. Comprei um título da Operação Coração, não tenho vergonha nenhuma e compraria outra vez, se achasse que era necessário. Não ando em manifestações de rua contra os árbitros, porque acho que não faz sentido nenhum, mas jamais recriminarei quem ande. Isso é energia pura.

No Benfica há lugar para todos, até para os mais radicais, como o nosso Manuel (Manuel, cada vez gosto mais da tua convicção pretoriana. És de boa cepa. Só acho que separar o mundo entre os arianos e os outros, sem aceitar que há, de facto, todo um mundo de hipóteses pelo meio, que podem ser exploradas, não só é perigoso como é inútil. Todos os radicalismos acabam da mesma maneira. Todos. Não digo que o meio termo seja a solução, até porque não gosto do meio termo, mas também aí não há que ser radical: não ser radical não significa ficar pelo marasmo da mediania. Força, sempre. Radicalismo… só até certo ponto, antes de se tornar destrutivo).



«O que é que podemos fazer?», é a questão.

Esta é uma questão política (claro…). De poder.

No fundo, quer dizer: «O que é que eu posso fazer?»

Como eu sei que vocês gostam, vou usar alguns ensinamentos de mestres da política.

Disse Platão, na República: «A arte de fazer política é a arte de conduzir carneiros sem chifres e com duas patas.»

Disse Tomás de Aquino: «O poder do rei é dado por Deus, mas se esse poder não for usado com justiça o povo não tem apenas o direito à revolta: tem o dever de se revoltar.»

Disse Maquiavel: «Em política, há um tempo para ser leão e um tempo para ser raposa.»



Um dos grandes momentos políticos do século XX foi o das eleições inglesas imediatamente a seguir à II Guerra Mundial. Winston Churchill, do Partido Conservador, então primeiro-ministro, concorreu à reeleição. E o que aconteceu foi extraordinário. O homem que tinha levado a Inglaterra à mais importante vitória de todos os tempos, salvando o país da invasão nazi, foi derrotado nas urnas. O povo inglês, numa impressionante demonstração de autonomia e consciência política, decidiu que estava na altura de passar de uma política de leões – de força e obstinação, de sangue, suor e lágrimas – para uma política de raposas, de audácia, inteligência. O povo inglês entendeu a mudança dos tempos e a necessidade de mudar de vida e elegeu um Trabalhista para primeiro-ministro, ditando o fim da carreira política de um dos maiores estadistas da sua história, no seu momento mais glorioso.

Como é possível que isto tenha acontecido? Aconteceu, antes de mais (e sem discutir se a decisão foi a certa ou não), porque o povo inglês sempre manteve viva a sua tradição democrática, o seu juízo crítico, a sua capacidade de pensar pela própria cabeça, a sua individualidade, o seu poder de decisão.



O que é que nós podemos fazer?

Antes de mais, não sermos carneiros. Manter o espírito crítico mas, sobretudo, sermos inteligentes. Tentar separar o trigo do joio, procurar na diversidade de opiniões – que existe, demos graças por isso – o que faz mais sentido, o que é o melhor. A democracia é muito bonita, e muito útil para manter a paz, mas (e aqui vou buscar Aristóteles, outro mestre imortal) mal exercida facilmente degenera para a demagogia, que é o pior dos sistemas.

Nestas coisas nada acontece de um momento para o outro. Ninguém vai estalar os dedos, ou fazer uma invasão do Estádio da Luz, e de repente o Benfica joga mais que o Barcelona. Não é assim que as coisas se passam (felizmente, senão não tinha graça nenhuma). Mas se se mantiver a atitude certa, há momentos em que o poder gerado a partir da formação da opinião pública, passo a passo, cabeça a cabeça, chega, de facto, ao poder instituído, e o molda. No mundo real, digamos assim, as ideias demoram entre 20 a 30 anos a chegar ao poder. O ecologismo, por exemplo. Aqueles que, nos anos 60, eram estudantes universitários, nos anos 80 e 90 chegaram às instituições – ao Governo, às assembleias representativas, aos cargos públicos. O ecologismo chegou ao poder. É sempre assim. Demora tempo, mas chega-se lá. E enquanto isso há novas ideologias a formarem-se debaixo da superfície. Discutir, gerar ideias, gerar consensos, não é chover no molhado: é o processo político em acção. E, ao contrário das revoluções, a ideologia macia tem a tendência para se manter se for virtuosa, enquanto o que nasce de movimentos contra-natura tende a apodrecer prematuramente.

Quem é que nos diz que, aqui a três, quatro, cinco anos, as pessoas que hoje andam na Net a ler teorias malucas não terão a oportunidade de, lá dentro, colocar em prática uma ou outra mais exequível?

Quem sabe que oportunidades, que movimentos cívicos, que movimentos sociais espontâneos, mais ou menos bem pensados, vão aparecer, e se algum entre eles, pela sua qualidade, não terá a capacidade de se impor como gerador de poder e de intervir na tomada de decisão?

Nessa altura, se quem for chamado a intervir estiver imbuído das ideias certas, o Benfica ficará mais forte, estará mais perto do que todos desejamos.

Nada impede, aliás, que os benfiquistas se organizem para intervir. Já o fizeram muitas vezes na sua história, e foi isso que fez o Benfica ser maior que os outros.

Todos os gestos contam. Se eu tivesse dinheiro e vontade para comprar uma camisola, neste momento, comprava uma do Javi Garcia. Porquê? Porque acho que é um jogador à Benfica, pela qualidade e pelo temperamento. É só um exemplo – até porque nunca fui de comprar camisolas, nem sou de idolatrar jogadores. Ou então, pelas mesmas razões, compraria uma do Emerson.

Outra coisa que eu não faço: não vou para a Net queixar-me dos árbitros aos portistas ou aos sportinguistas. Claro que não vou. Porquê? Porque é disso que eles gostam. Por mais razões de queixa que possa haver, há uma coisa de que eu tenho a certeza: qualquer portista tem muito mais medo de um benfiquista que tenta encontrar as razões da derrota na sua equipa que nos árbitros. Se conhecerem algum portista em que confiem (isto agora soou mal…) perguntem-lhe quem é que ele mais teme: um tipo pragmático ou um calimero? É por isso que eu digo que não me importo nada de haver corrupção, desde que se saiba as regras do jogo. Só chora quem perde. Do presidente do Benfica espero apenas que seja melhor a jogar que os outros. A conversa toda que houve neste blog nos últimos dias, sobre os árbitros e os esquemas, é interessantíssima, mas quando eu disse que o Benfica devia preocupar-se em dominar o sistema antes de acabar com ele levantaram-se logo vozes a dizer que «temos de ser melhores que eles». Tudo bem, são opiniões, agora não venham é dizer-me que eu não dou a importância que devia às arbitragens, porque é difícil ser mais pragmático nisto do que eu. Os árbitros são corruptos? Perguntem o preço e comprem-nos, digo eu. Se não forem corruptos, calem-se e aguentem-se à bomboca. Agora, calimeros, comigo não dá. Não tenho feitio nem paciência para andar a choramingar pelas esquinas da Internet e a queixar-me da vida para tudo ficar na mesma. O que o Vieira veio dizer do Proença é uma paneleirice, ponto final. Mais valia estar calado. Mais valia mesmo, porque éoque não nos fortalece enfraquece-nos, e aquilo foi uma resposta fraca e pouco convicta. Para encher os ouvidos do pagode. Nem ele acreditava no que estava a dizer.



Sim, os adeptos devem questionar Jesus. Os adeptos devem questionar tudo. O que não devem é ser parvos. E, pelo que li aqui, ninguém está a ser parvo. Não é irracional nem desleal considerar que Jesus, provavelmente, já deu o que tinha a dar. Ou é suposto morrer no banco? De insubstituíveis está o cemitério cheio e até o mausoléu do Lenine já conheceu melhores dias.

Mudar por mudar? Não. Péssima ideia. Mudar para melhor? Sempre. Em qualquer situação. Seja quem for. Tem é de se ter uma convicção bem fundada de que é pelo melhor. Trocar Jesus por Domingos? Não, obrigado. Por Villas-Boas? Porque não pensar nisso, se for o melhor? (E digo já ao Manuel, antes de ele ter um congestionamento cardíaco, que pensar nisso é diferente de querer isso. Eu, por exemplo, pensei bem nisso, nas vantagens e desvantagens, e não quero. E olha que não é por falta de capacidade técnica.) Por Paulo Bento? Vai aparecer este cenário, não tenham dúvidas disso.

Vai chegar uma altura em que falaremos melhor disto, e até é possível que cheguemos à conclusão que entre deixar o Jesus acabar o contrato ou trocar de treinador seria mais favorável a primeira. Agora, fazer do Jesus um intocável, se o compararmos com outros treinadores que até estiveram menos tempo no clube do que ele, só porque é um tipo que está lá temporariamente empregado? Isso seria uma desonra dos valores benfiquistas. Se há uma coisa de que o Jesus não se pode queixar da parte da Direcção ou dos adeptos do Benfica é de deslealdade. E tenho a certeza de que, mesmo saindo no Verão, nunca o fará.



Em relação ao Vieira, o mesmo se aplica. Penso que, aqui, a questão da política dos leões e da política das raposas também se aplica. Vai caber aos adeptos do Benfica decidirem se o tempo é para leões ou para raposas, e quando é que deixa de ser de uma para ser de outra.

Penso que seria um erro o Vieira sair do Benfica já nas próximas eleições. Não me parece que o Benfica esteja, ainda, suficientemente robusto para aguentar a rotatividade democrática e, de facto, a dimensão do Benfica leva a que o clube se torne muito acessível a muita gente desaconselhável. Mas se aparecessem um ou dois candidatos bons, não-populistas, que levassem a debate ideias correctas e úteis, que despertassem o sentido crítico dos benfiquistas  sem eleitoralismos, e se com isso o Vieira viesse a ganhar com 55/60 por cento dos votos, penso que seria a melhor coisa que podia acontecer ao Benfica desde que Fernando Martins saiu da presidência. O mais importante para o Benfica, neste momento em que económica e desportivamente está a ganhar muita força, seria voltar a despertar a sua tradição democrática e dialéctica, porque essa é que é a sua força original.

Vieira ganharia um lugar (ainda mais) cimeiro na história do Benfica se, mesmo sem voltar a ganhar um campeonato nos próximos dois anos, fizesse o seguinte: acabasse de recuperar estruturalmente o clube, acolhesse duas ou três individualidades fortes e credíveis com ideias diversas em relação ao futuro do clube; apresentasse a demissão e desse espaço de decisão aos adeptos, sem o perigo de demagogias.

Se fizesse isto, Vieira, mais que um presidente, tornar-se-ia num estadista, o maior na história do clube.

Mas não esperem que isso aconteça. A primeira tendência do poder é apoderar-se do vazio e perpetuar-se. A segunda é ser deposto por um poder maior.

domingo, 4 de março de 2012

Milagre ou ciência?

Antes de (re)começar, duas notas paralelas:
- o Benfica-Porto de sexta-feira foi um dos melhores clássicos de sempre. Se houvesse mais dez ou onze jogos assim por época o campeonato português teria público suficiente, quer nos estádios quer na televisão, para salvar financeiramente todos os seus clubes;

- ao ver mais um Roma-Lazio, confirmo: considerando tudo o que o envolve e o que as duas equipas uma vez após outra nos mostram, é o melhor dérbi que se joga na Europa.


O que eu tenho, afinal, aqui escrito desde Agosto, sintetizadamente, é que, tal como em tudo o que se faz na vida, há duas maneiras de se estar no futebol: ou à espera da sorte ou a fazer por ela. Ou a acreditar em milagres ou a acreditar na ciência.

Temos a tendência para pensar que o primeiro é um disparate e que só o segundo apresenta resultados, mas não é verdade. A ciência do homem é muito limitada e, ao longo dos tempos, houve sempre momentos em que rezar deu tão bons resultados como trabalhar. A sorte é o que não compreendemos, mas a sorte acontece, e acontece todos os dias. Acontece tantas vezes que dá um trabalho incrível tê-la, e às vezes, por mais que se trabalhe, continuamos a não falar a mesma linguagem que ela. Muitas vezes, como disse alguém, é melhor ter sorte que ser bom.

A questão, mais do que de resultados, é de atitude perante a realidade.



Toda a gente gosta de receber a graça de um milagre. Uma intervenção de forças que não controlamos e não conhecemos realmente faz-nos sentir especiais, como se alguém maior que nós nos tivesse escolhido como filho pródigo.

Mas, por se sentirem especiais, graças a alguns milagres pontuais (1994, 2005, 2010…), os benfiquistas, de certa forma, criaram um hábito. Viciaram-se na predestinação.
Não é que os benfiquistas não estejam dispostos a trabalhar tanto ou mais do que os outros para triunfar. Isso é uma falácia. Simplesmente, perante uma capacidade científica superior por parte do adversário, habituaram-se a esperar que a graça divina equilibrasse as coisas.
Como consequência disso, esqueceram-se do prazer de ganhar cientificamente.

Neste ponto da sua existência, os benfiquistas não estão realmente convencidos de prescindir da possibilidade desse prazer superior que vem sob a forma do milagre pela eventualidade de um prazer inferior que vem sob forma de trabalho científico. Ganhar por milagre sabe melhor do que ganhar por ciência. Há uma transcendência que o mero trabalho árduo não pode dar. Ou, pelo menos, a parte da ciência está tão esquecida que os benfiquistas acreditam que isso é verdade.

Esta é a grande questão no Benfica. Não é falta de saber, é falta de vontade. Quando os benfiquistas se convencerem de que está na hora de prescindir da droga do milagre, serão uma força imparável em Portugal.

Nesse momento, os benfiquistas tomarão as rédeas do seu destino, e o handicap natural que ainda existe para o Porto ficará eliminado.

O Porto não espera por milagres – trabalha para eles. De vez em quando, eles acontecem de forma artificial, e recompensam. O ano passado, por exemplo, foi um ano miraculoso. Mas um milagre baseado na ciência, não na sorte. Não sabe tão bem, é verdade. É um milagre inferior. Mas sabe muito bem. Suficientemente bem para fazer sentido.

O sucesso científico é muito menos glamoroso do que o que vem por milagre. Não há segredos. É um processo tão industrial como qualquer outro. É copiar 95 por cento do que é feito nas outras empresas de sucesso e tentar criar 5 por cento únicos e especiais, que façam uma diferença. Para ganhar, cientificamente, o Benfica tem de aprender e fazer o mesmo que  fazem o Porto, o Schalke 04, o Hapoel, o Lyon, o Valencia e qualquer outro clube que não seja particularmente tocado pela divindade. Para estar no jogo do sucesso científico, o Benfica tem, antes, de admitir ser igual aos outros, e entrar numa unidade de produção em série em que só o talento  a capacidade de trabalho diferenciam os clubes uns dos outros. Prescindir do romantismo. É difícil, para os benfiquistas, aceitar isso, porque o Benfica é uma ligação ao divino, um caso de fé.

Só depois de ser igual aos outros é que o Benfica poderá tentar ser melhor que os outros. Aí, nesse ponto, já será algo muito diferente da profissão de fé que, actualmente, entendemos por Benfica. Será uma coisa mais racional, mais ética, mais terrena. Será o que era antes de ter ascendido à transcendência dos anos 60 – antes de Eusébio, o messias. (Esquecem-se, muitas vezes, os benfiquistas, que Eusébio não teve nada a ver com a primeira Taça do Campeões e pouco a ver com a segunda, pois só tinha feito ainda uma época na Luz, tendo muito mais a ver com as três derrotas que se seguiram...)

Eu, por mim, confesso: adorei os milagres. Sobretudo o de 1994 e o de 2010. O 6-3 em Alavalade acontece uma vez em cem anos. Mas prescindo deles. Quero saber como se ganha, e ganhar com saber, não esperando apenas pela sorte ou pelo árbitro.

Neste sentido, há que dizer o seguinte: o Benfica não é a melhor equipa do campeonato, e, portanto, é melhor que não o ganhe, porque, como se viu por outros exemplos, ganhar sem ser o melhor não só não resulta em mais sucesso como o vem a impedir, porque impede a correcção de processos errados. É, portanto, melhor para um Benfica a sério que não ganhe enquanto não for o melhor. Enquanto não souber o suficiente. Quando o Benfica ganhar por ser o melhor continuará a ganhar.

É bom para o Benfica que o Porto seja campeão, desde que isso não signifique passar a trabalhar mal só por desespero de causa. O Benfica está a trabalhar bem – o que é sempre o mais difícil, começar – só tem que aprender a trabalhar melhor.

A derrota no campeonato deste ano será normal, dada a diferença no volume de trabalho acumulado pelas equipas ao longo dos anos. Pode ser benéfica. Desde que se melhore, em vez de se afundar por causa dela.



Falo, acima de tudo, em «benfiquistas». Porquê? Porque a estrutura-Benfica, as pessoas que lá estão dentro já enveredaram pelo caminho da ciência há uns anos, e estão aos poucos a desistir da fé em Deus. Ainda acreditam demasiado na sorte, ainda não trabalham muito bem, mas já decidiram que o método a seguir é o da ciência e não o da fé. Por que é que, neste momento, os «benfiquistas» contam mais que o «Benfica»? Porque o que falta ao Benfica, neste momento, só os benfiquistas é que lhe podem dar.

Há um desfasamento entre os corpos executivos do Benfica e a sua massa adepta, que continua, ainda, demasiado imbuída da fé em Deus e da irracionalidade. Foram demasiados anos, nas últimas duas décadas, a serem educados na irresponsabilidade, na leviandade, na impulsividade, para passarem rapidamente a acreditar que o sucesso tem que dar mais trabalho do que o que dá aos outros – porque isto é uma competição, não é auto-recreação. As elites internas do Benfica já o perceberam relativamente bem; o proletariado, ainda não. Por isso é que o discurso para os adeptos é diferente das acções práticas que, depois, são concretizadas. Não é para enganar ninguém – é porque o presidente sabe que se falar a verdade aos adeptos eles não estão dispostos a percebê-lo e podem fragilizar a posição dele, que não pode ficar fragilizada, sob pena do clube voltar a cair na anarqua.
E, como o proletariado ainda não percebeu isto, não consegue, ainda, cumprir a sua parte do acordo e moldar as elites – ou seja, exigir às elites que o representam (Direcção, treinadores, jogadores) que trabalhem melhor, que sejam mais científicas e confiem menos na sorte.

Em resumo, o Benfica está no caminho certo, mas falta-lhe, neste momento, a força dos adeptos, o impulso anímico, para avançar mais depressa e com mais força, porque os adeptos ainda não estão convencidos quer da necessidade de trabalhar melhor e acreditar menos quer do seu próprio papel neste processo.

Isto não é diferente do que se passava há dez anos. Já no tempo de Damásio ou Vale e Azevedo, por exemplo, a questão era cultural. Já nessa altura os adeptos, desorientados pela incapacidade das suas elites em definirem um rumo, entregavam-se a Deus e esperavam por um milagre. Já nessas alturas o Benfica, como clube, dependia dos seus adeptos. A diferença, agora, são duas diferenças, na verdade:

- por um lado, as elites do Benfica já não são fracas, e estão dispostas a seguir o caminho da competência e da ciência, e não do puro experimentalismo;

- por outro, passaram dez anos, tempo suficiente para se aprender, pela mera repetição de fracassos (muitos) e de sucessos (alguns), assim como pela observação do que os outros fazem, o que é preciso para se ganhar.

Ou seja, se há dez anos os adeptos do Benfica podiam, com justiça, sentir-se enganados e até abandonados pelas suas elites, hoje isso não se justifica. Hoje, os adeptos têm muito mais responsabilidade no futuro do Benfica. Não podem sacudir a água do capote, entregar o poder nas mãos de meia-dúzia, ver as coisas de forma primária e esperar que, por milagre, algo aconteça. Porque, aí, a culpa, mais do que nunca (literalmente), é deles.

Exemplos?

O Benfica continuará a gastar milhões e milhões de euros em lixo no Verão enquanto os adeptos não disserem que não estão dispostos a isso e que é preciso, mesmo ser mais competente a escolher.

O presidente do Benfica continuará a esconder-se atrás dos árbitros enquanto os adeptos do Benfica não o fizerem compreender que não estão mais dispostos a fazer o papel de Calimero.

O treinador do Benfica continuará a ser sobranceiro, irrealista e incompetente enquanto os adeptos não lhe demonstrarem que um treinador do Benfica tem de ser melhor que isso.

Os jogadores do Benfica continuarão a arrastar-se em campo ou a não dar 100 por cento, continuarão a seguir pelo caminho mais fácil, continuarão a menosprezar a importância de jogar com aquela camisola, enquanto os adeptos não lhes explicarem que não o podem fazer.

Isto não significa mudar de pessoas. Significa mudar de vida, e só depois, se for necessário, mudar de pessoas.

Mas significa, sempre, antes de mais nada, que os adeptos do Benfica tomem o destino do clube nas suas mãos. E que, ao mesmo tempo, percebam que se forem irresponsáveis, imaturos, irrealistas, pouco exigentes, crédulos, patetas, calões, assim será também o seu clube. E que será só por culpa deles. Como sempre foi. Para o bom e para o mau.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A lição fundamental

Não quero saber do fora-de-jogo. Não quero mesmo. Mesmo.

Vou ser mais claro: metam o fora-de-jogo no cu. Mas mesmo todos. Quem acha que o Benfica perdeu por causa do fora-de-jogo que meta a opinião no cu. Podem meter o vosso comentário aqui em baixo, é serventia da casa, mas não se esqueçam de a meter, juntamente com o fora-de-jogo, no cu. Não se sintam insultados os que já falaram do fora-de-jogo, porque ainda não li comentários nenhuns ao jogo, e vocês sabem que não digo por mal. Mas metam mesmo o fora-de-jogo no cu.



Do que eu quero saber é disto: fundamentos.



FUNDAMENTOS.



Por exemplo?

Por exemplo a jogada em que o Gaitán tenta virar-se para a baliza, perde a bola, sem cobertura, o James arranca e o Porto corre 70 metros sem oposição para marcar o golo. O Gaitán pode ter três pés, mas sem alguém que lhe ensine o que NÃO SE PODE FAZER num jogo de futebol, será sempre um jogador de segunda.



Com 2-1 o Benfica tem o jogo ganho. É o Benfica que o perde. Porquê? Porque, numa situação em que tem o campeonato no bolso, a jogar em casa, contra uma equipa ajoelhada, não tem a capacidade, simples, de fazer o mais essencial do futebol de qualquer equipa grande, que é segurar a vantagem com bola num jogo equilibrado, com ritmo e jogando pelo seguro. Não a tem. Ao fim de dois anos e meio com Jesus, não a tem. E não a terá.

Como acontece quase sempre, num jogo concentram-se os problemas acumulados. Em qualquer actividade, a pressão detecta todas as fragilidades do material. Pequenas rupturas rasgam completamente e tornam-se grandes falhas, pelas quais uma estrutura acaba por ruir, e quanto maior a estrutura mais facilmente cai. E quais são essas pequenas frechas? A falta de fundamentos sólidos.

Hoje ficaram à vista as fragilidades de Jesus, que levou um banho táctico e só não perdeu o jogo antes do intervalo porque o Porto é uma equipa a jogar a 70 por cento do seu potencial e não soube acabar o serviço depois do 1-0. Bastou ao Porto fazer o que outras equipas já fizeram e meter uma linha de três jogadores subida a meio-campo para aniquilar o jogo do Benfica, que nunca teve meio-campo.

Soluções? Poucas, e más. Pontapé para a frente e fé no ressalto. Só a relativa mediocridade da equipa do Porto, repito, a impediu de acabar com o jogo na primeira parte.

E já não falo, sequer, do inacreditável bloqueio após a expulsão. Com Matic no banco põe Gaitán a defesa-esquerdo. Gaitán?! O jogador com menos instinto defensivo da equipa? O jogador mais irresponsável, que perde outra bola, perfeitamente controlada, que dá o livre do golo, quando não havia outra forma de pensar senão em guardá-la para, pelo menos, não perder o campeonato naqueles 5 minutos? A que propósito? Por ser canhoto?!!! Matic no meio-campo. Javi a central. Miguel Vitor a defesa-esquerdo. Quem é que não vê isto? Quem? Jesus.

Também já não vou à escolha da equipa. Não tenho conhecimentos tácticos para tanto. Mas que se lixe, vou mesmo: o Benfica começa a perder o meio-campo, e o jogo, na escolha do 11. Só isso.

Viu-se a fragilidade de Emerson. Meu Deus, e que fragilidade. Vejam-no, por exemplo, a defender no segundo golo do Porto.

Viu-se a inexistência de verdadeiras opções no meio-campo.

Viu-se a ausência de extremos reais e de uma corrente de jogo capaz de os municiarem solução de vantagem.



Mas viu-se, sobretudo, e repito, a falta de capacidade colectiva de compreender o jogo, de aplicar o que o jogo precisava a cada altura. Viu-se, resumidamente, sabem o quê? Falta de classe.

Classe.

A capacidade de fazer o que é preciso, quando é preciso. Ou pelo menos de o tentar.

É que nem sequer se viu um indício de que os jogadores, em campo, tivessem a consciência do que precisavam de fazer, quanto menos tentarem-no. Fizeram o jogo ao deus-dará, como fazem sempre, porque nunca houve, nestes dois anos e meio, para já não ir mais longe, um treinador que percebesse que, no meio do que é preciso fazer para se ir ganhando jogo a jogo, é preciso educar uma equipa para melhorar nos fundamentos.

Educar, aqui, é a palavra-chave. Não é martelar, é educar. Construir. Edificar. E para isso é preciso olhar pelo menos cinco centímetros à frente da semana que vem.



O Benfica não pode despedir Jorge Jesus. Não deve fazê-lo. Nem agora nem no fim da época. Mas deve arranjar maneira de uma equipa qualquer do estrangeiro lhe fazer uma proposta que ele não possa recusar, e tem de ter, senão já pelo menos nos próximos três meses, alguém potencialmente melhor do que ele para meter à frente da equipa.

Entre tudo o que é preciso fazer para recuperar os fundamentos do jogo – desde os critérios prioritários nas contratações à metodologia de preparação – a questão da equipa técnica não é a menos relevante. O Benfica tem de encontrar um treinador que consiga fazer a equipa evoluir. Tão simples como isto. Porque Jesus atingiu o seu limite de conhecimentos, e a equipa que ele montou não dá mais do que isto.

Quem aqui vem, sabe que não estou a ser um abutre. Façam-me essa justiça, se fizerem favor. Eu não sou dos que quer correr com o treinador ao primeiro fracasso. Mas neste caso não é um castigo a ninguém. É, apenas, um acto de gestão inevitável, e necessário, para a evolução da equipa. Não se pode fazer um clube refém de um homem que atingiu o seu limite técnico. Vocês sabem que eu dizia isto quando o Benfica estava à frente, quando andava toda a gente embriagada. Eu, embriagado andei, é a natureza do benfiquista, mas mesmo embriagado explanei, não uma, mas várias vezes, o que pensava em relação a Jesus.

Hoje, sinto-me autorizado a dizer que tinha razão. Que tenho razão. E convém recordar o que me dá razão antes que uma vitória frente ao Zenit apague a memória desta noite. Vão reler os textos que têm o link, e dar-me-ão razão. Está lá tudo.

É pegar nas coisas boas que o Jesus trouxe, arranjar maneira de as preservar no interior da estrutura quando ele sair, e procurar alguém que traga mais valor. Tão simples e tão pouco dramático como isto.



Mantenho o que disse: o Porto, ganhando quatro pontos na Luz, deu a volta ao campeonato, e tem 90 por cento de hipóteses reais de o ganhar. Ou seja, é quase impossível não o ganhar. Estranhamente, apesar de tudo, não consigo deixar de pensar que os 10 por cento do Benfica podem valer 100, mas admito que, neste momento, seja já mais uma profissão de fé que propriamente uma crença. No fundo o que eu quero dizer é que continuo a acreditar, mas por nenhuma razão racional, apenas porque acredito.

Sem dramas. Há uma época para acabar e o baile continua.

Agora, para quem não tiver decidido exorcizar-me, fica um aviso: aqui na Religião Nacional, hoje, dia 2 de Março de 2012, começa a época de 2012/13.

O Jesus, o Orelhas, esse pessoal todo, incluindo vocês, pode continuar na frequência 2011/12. Eu, que mando aqui, acabei de entrar na frequência 2012/13.

Fugir para a frente? Fugir à realidade?

Talvez sim.

Eu prefiro chamar-lhe espírito construtivo.

É nas derrotas que se revela a nossa capacidade de vir a vencer. Acredito nisso com todas as moléculas do meu corpo. É quando perco que mais vontade tenho de ganhar, e que maior motivação tenho para encontrar outras formas de ganhar. Não conheço a derrota. Sei que ela existe, já a senti a passar por mim, mas nunca a vi.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O factor imprevisível

Por mais ou menos nervoso miudinho, por mais ou menos voltas que se queira dar, não há volta nenhuma: na minha opinião (a de hoje como a de Dezembro), quem chegar à frente ao fim do ciclo que acaba com o Benfica-Porto tem 90 por cento do campeonato ganho. Considerando que nestes dois meses as equipas deram, como diria um concorrente de um concurso televisivo, uma volta de 360 graus, e que se encontram exactamente no mesmo ponto em que se encontravam nessa altura, o jogo desta sexta-feira vale 90 por cento do título. Quem sair dele à frente será o campeão (com 90 por cento de certeza…). E, para que fique igualmente claro, um 1-1 dá vantagem ao Benfica (uma vantagem de um ponto), o 2-2 dá vantagem ao Porto (uma vantagem de alguns golos), o 3-3 dá uma vantagem de um ponto ao Porto.

Portanto, são 90 minutos para decidir um campeonato. Cá estaremos no fim para falar.



Falo em Dezembro porque, no dia 19 desse mês, apontei três factores mais importantes que o plantel para a decisão do campeonato: Máquina, Momento e Aleatoriedade.

Antes de amanhã, deixar aqui a minha antevisão do jogo propriamente dito, achei curioso recuperar estes três factores.



A Máquina



Há dois dados insofismáveis nestes dois meses:

1 - Nunca a máquina de propaganda do Porto esteve tão calada, mesmo depois do fim-de-semana horribilis (Feirense-Benfica e Gil-Porto);

2 – O Benfica continua sem assinar o contrato com a Olivedesportos.

No primeiro caso, tenho a sensação de que assim continuará até haver a certeza de que o campeonato está realmente em jogo, e que provavelmente só gastarão as balas a partir da semana que antecede o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

No segundo caso tenho a sensação que a decisão «no próximo mês» que o Vieira anda a prometer há seis meses só vai aparecer… a partir da jornada que tem o Sporting-Benfica e o Braga-Porto.

Ao nível do mercado e da gestão do plantel, o Porto (no curto prazo, em termos meramente desportivos, e sem ir ao plano económico, entenda-se) goleou. Contratou dois titulares – três, se se contabilizar Danilo – despachou vários suplentes (suplentes na cabeça de Vítor Pereira, entenda-se também, mas ainda assim suplentes), e os titulares que comprou elevaram claramente o nível da equipa, Lucho pela qualidade pura e o Manko pela utilidade específica.

O Benfica? Bom, vejamos:

- perdeu o seu potencial melhor extremo-direito (Enzo Pérez);

- perdeu Rúben Amorim, polivalente de grande utilidade, sobretudo nesta altura do campeonato, como se viu em Guimarães;

- contratou um suplente sem ritmo de jogo e com escassas hipóteses de ser um reforço útil esta época (Djaló) e um não-suplente (André Almeida) pelo que se depreende da utilização de Witsel a defesa-direito (o mesmo Witsel que, em Guimarães, só jogou meia-hora por apresentar sinais de cansaço)

- não conseguiu encontrar uma alternativa ao evidente ponto-fraco da sua defesa, o lateral-esquerdo, que é pura e simplesmente sofrível, por mais boa vontade e «e pluribus unum » que se tenha;

- tão importante como tudo isto, não conseguiu recuperar Saviola. Aliás, a não-utilização de Saviola em Coimbra corresponde, definitivamente, à sua certidão de óbito como jogador do Benfica.

O plantel do Benfica perdeu, claramente, valor, não compensado pela subida de outros jogadores. Nélson Oliveira só por muito boa vontade pode ser contabilizado como factor numa corrida pelo título.

A crise apanhou, claramente, o Benfica na pior altura – e ainda não apanhou o Porto porque a única alternativa do Porto era fazer o que fez: fugir para a frente. Veremos, quando se chegar lá à frente, quanto é que vai custar.



O Momento



Tal como eu tinha dito em Dezembro, para o Benfica, Janeiro foi a continuação de uma época já longa, e para o Porto o recomeço de uma época dentro da época.

E se é verdade que o momento curto é de quebra do Benfica, com uma derrota e um empate, não nos dizemos iludir pelas aparências o momento menos curto do Porto está muito longe de ser melhor. O renascimento portista, a nova época depois de quatro meses de experiências, testes e rotatividades, resultou em cinco pontos perdidos e uma eliminatória da Liga Europa concluída com uma goleada em Inglaterra.

O Benfica parece estar a descer e o Porto a subir, mas basta uma vitória do Benfica no jogo de amanhã para que imediatamente a análise do curto prazo passar para uma análise do menos curto prazo.

Para já mantenho o que escrevi há alguns dias: mesmo com dois maus resultados seguidos, o caminho do Benfica mantém uma normalidade para campeão que o do Porto não tem, e que só uma vitória do Porto na Luz aniquilaria. Perder em Barcelos não é o mesmo que perder em Guimarães ou empatar em Coimbra. Ainda não me dei ao trabalho de ver quantas vezes, nos últimos 20 anos, é que um campeão o foi mesmo perdendo e empatando com as duas equipas que subiram de divisão na época anterior, mas seria um exercício interessante (para quem tivesse tempo), porque no final de cada campeonato há um padrão de normalidade que, penso, se mantém historicamente.

E, neste ponto, tenho de fazer uma correcção ao que escrevi há uns dias, quando disse que o Porto, ao contrário do Benfica após o jogo com a Académica, ainda não tinha feito dois maus resultados consecutivos no campeonato. Não é verdade. Na 4. e 5.ª jornada o Porto empatou, sucessivamente, com Feirense e Benfica.

 
A Aleatoriedade



O Guimarães-Benfica é um caso clássico de conjugação de factores negativos sobre uma equipa: a eliminatória europeia, o campo, a forma do adversário, as lesões, a marcha do marcador, tudo apontava para um descalabro do Benfica.

Da mesma forma, em Barcelos, a ausência de Hulk e Fernando, a envolvente histórica do jogo (o Porto à beira de um recorde), a arbitragem, no mínimo, destemida, um adversário igualmente na melhor forma da época, conjugaram-se para a primeira derrota do Porto no campeonato em dois anos.

Se alguma coisa boa estes dois maus resultados trouxeram para o Benfica foi que, de certeza absoluta, ninguém sequer se lembra que na terça-feira há um jogo decisivo para a Liga dos Campeões, na Luz, com o Zenit. O estado de espírito com que o Benfica entra para este jogo com o Porto é de alerta máximo, o que poderia não ser o caso se chegasse com três ou quatro pontos de avanço. A ideia de uma almofada para usar antes de se jogar com o Zenit seria perigosamente aliciante para os jogadores do Benfica, e potencialmente mortífero, pois, em caso de derrota, deixaria o Porto a apenas um mau resultado de distância. Pelo contrário, se o Benfica ganhar ao Porto, o Porto passa a precisar que o Benfica faça dois maus resultados para lhe passar à frente.

O Benfica tem o privilégio de sentir que o jogo para a Liga dos Campeões é totalmente irrelevante. Se passar essa eliminatória, é duvidoso que possa voltar a ter esse privilégio, porque não passa a estar demasiado em jogo como não há outro jogo no campeonato tão transcendente como este, que se sobreponha a um apuramento para as meias-finais da Ligados Campeões.

Por outro lado, o Porto vai ter a vantagem de não haver mais desconcentrações europeias até ao final da época. Mas lá mais para a frente, não agora. E agora é que a porca torce o rabo. Dentro desta perspectiva de «aqui e agora», não deve ser menosprezado, no contexto da aleatoriedade que marca todas estas coisas, o facto de o Porto, potencialmente ter de jogar sem o seu melhor jogador neste momento, James Rodríguez – ou, pelo menos, de jogar cerca de 60 minutos sem ele. Os outros casos, pela proximidade, não parecem tão sérios – com as eventuais excepções de Moutinho, com uma viagem chata e 45 minutos nas pernas, e Maxi Pereira. Mas Maxi é um jogador a diesel, até vinha a correr do Uruguai se fosse preciso, sempre à mesma velocidade. Só quando parar é que é um problema. Até lá, continua a correr.

Noutro plano, é igualmente interessante conjugar o seguinte:

- o Benfica recupera, de uma semana para a outra, o seu jogador-chave (Javi García, pelo que fica evidente nos resultados alcançados quando eles não jogou), o líder da sua defesa (Luisão) e o seu atacante em melhor forma (Rodrigo), além de não perder o seu ponta-de-lança titular (Cardozo,e aqui  máquina funcionou muito bem, tal como no caso de Rodrigo).

- o Porto, além de perder o seu jogador em melhor forma, perde também o seu outro desequilibrador actual (Varela) e joga sem Danilo, com quem, claramente, contava para agora.

Neste aspecto, o tal momento a muito curto prazo parece pender para o lado do Benfica.

Seja para que lado for, parece-me que esta particularidade (os jogos da selecção dois dias antes do clássico) é uma daquelas que, daqui a alguns anos, ainda será falada como tendo sido um factor determinante no desfecho do clássico e do próprio campeonato, pela sua peculiaridade e imprevisibilidade. Numa corrida tão equilibrada, pode estar, realmente, apenas aqui a chave.